Era uma Vez… em Hollywood é a principal estreia de cinema da semana
Principal lançamento desta quinta-feira (15/8), “Era uma Vez… em Hollywood” finalmente chega ao Brasil, quase um mês após sua consagração nos Estados Unidos. Um dos maiores sucessos comerciais da carreira de Quentin Tarantino reúne, pela primeira vez no mesmo filme, os astros Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, que já tinham trabalhado com o diretor em “Django Livre” e “Bastardos Inglórios”, respectivamente. Eles vivem um ator em decadência e seu dublê de longa data, que veem Hollywood e o mundo mudar de forma radical em 1969, enquanto Sharon Tate, casada com o cineasta Roman Polanski – e vivida por Margot Robbie – passa a representar uma nova geração nos cinemas. Mas a felicidade dela não vai durar muito, pois o psicopata Charles Manson logo começa a aparecer em sua vizinhança. Tem muito mais gente famosa no elenco e referenciada no filme, que dividiu opiniões, mas agradou em cheio aos fãs do diretor, acostumados a seu estilo subversivo de cinema. Obrigatório para cinéfilos e também para quem busca apenas uma boa diversão. O detalhe é que, apesar da expectativa, “Era uma Vez… em Hollywood” vai ter lançamento mediano, em cerca de 300 salas – 10% do circuito. Isto acontece porque “Nada a Perder 2” vai ocupar o dobro de telas. Obrigatório (literalmente) para fiéis da Igreja Universal, a segunda parte da cinebiografia do bispo Edir Macedo já tem sessões esgotadas. Mas não deve repetir o fenômeno do primeiro longa, a maior bilheteria nacional de todos os tempos. A diferença começa pelo lançamento muito menor: em 600 salas, enquanto a primeira parte foi distribuída em 1,1 mil. Além disso, o site Ingresso.com revelou que a pré-venda, iniciada em 15 de de junho, é 4,5 vezes menor do que o montante do filme anterior. O site não divulga números exatos. Com isso, o circuito limitado recebe apenas três filmes nesta semana. O melhor é a comédia “Noite Mágica”, de Paolo Virzi (“A Primeira Coisa Bela”), que presta homenagem à era de ouro do cinema italiano e tem 100% de aprovação no Rotten Tomatoes. Mas vale registrar que o documentário brasileiro “Espero Tua (Re)Volta”, de Eliza Capai, foi um dos vencedores das premiações paralelas do Festival de Berlim 2019. Exibido na mostra Generation, dedicada a filmes sobre a juventude, o longa venceu o prêmio da organização Anistia Internacional e o Prêmio da Paz, que é dado pela Fundação Heinrich Böll, como expoente do “cinema comprometido com a coragem cívica”. O filme aborda as ocupações de escolas de 2015 pelo movimento estudantil, tema que já foi superado pelas novas manifestações de estudantes contra a política educacional do governo Bolsonaro. Confira abaixo a lista completa das estreias da semana com suas sinopses e trailers. Era uma Vez… em Hollywood | EUA | Drama Noite Mágica | Itália | Comédia Certo dia, um dos maiores produtores de cinema na Itália é encontrado morto dentro de um rio. Os principais suspeitos são três jovens roteiristas que tiveram contato com ele recentemente. Durante uma noite, os três são levados à delegacia para serem interrogados. Esta será a oportunidade de relembrarem seus percursos, que coincidem com o declínio da Era de Ouro das produções italianas. Nada a Perder 2 | Brasil | Drama Após deixar a prisão, em 1992, Edir Macedo (Petrônio Gontijo) lidera a Igreja Universal do Reino de Deus em busca de seu maior sonho: a construção do Templo de Salomão, réplica do local homônimo citado na Bíblia, localizado em São Paulo. Eu Sou Brasileiro | Brasil | Drama Léo (Daniel Rocha) passou a sua vida inteira tentando se tornar um jogador de futebol famoso e bem sucedido, mas a rotina suburbana nunca aliviou o seu lado. No entanto, mesmo com todos os problemas, ele faz o mesmo que todo bom brasileiro: não desiste e continua tentando. Na intenção de dar a volta por cima, Léo vai para o tudo ou nada e arrisca uma última grande chance. Espero tua (Re)volta | Brasil | Documentário Um retrato do movimento estudantil que ganhou força a partir do ano de 2015 ocupando escolas estaduais por todo Brasil. Acompanhando três jovens do movimento e com imagens de arquivo de manifestações desde 2013, o documentário tenta compreender as ocupações e as suas principais pautas a partir do ponto de vista dos estudantes envolvidos.
Show orquestral do Metallica, em comemoração aos 20 anos do disco S&M, será exibido nos cinemas
A rede de cinemas UCI vai exibir no Brasil o show “Metallica & San Francisco Symphony Orchestra: S&M 2”, apresentação exclusiva da banda Metallica com acompanhamento orquestral. O show faz parte da comemoração dos 20 anos do disco sinfônico da banda, “S&M”, em setembro. Para marcar a data, a banda vai se apresentar novamente com a Orquestra Sinfônica de São Francisco, comandada pelo maestro Michael Tilson Thomas, nos Estados Unidos. A apresentação, que acontece no dia 6 de setembro, será registrada para a exibição nos cinemas. E já tem trailer. Veja abaixo. No Brasil, o documentário musical será exibido entre os dias 9 e 11 de outubro. Os ingressos já estão à venda no site da UCI e em salas de todo o país.
Estreias: Simonal e circuito limitado salvam a semana de horrores americanos
A programação de cinema desta quinta (8/8) traz nada menos que 15 estreias, e três delas são simultâneas com os Estados Unidos. A mais ampla é um filme de cachorro, que simbolicamente se tornou o primeiro título da Fox distribuído pela Disney no Brasil. “Meu Amigo Enzo” segue uma fórmula sentimental manipuladora capaz de deixar “Marley e Eu” parecendo uma comédia, embora o cachorro tenha a voz de Kevin Costner e ensine lições de vida. Críticos fãs de cachorros deram 55% de aprovação no Rotten Tomatoes. Os outros dois títulos americanos tiveram maior exposição de marketing, mas pouco tempo de repercussão crítica. O embargo às resenhas do terror “Histórias Assustadoras para Contar no Escuro” durou até esta quinta. Isso geralmente acontece quando o estúdio acha o filme assustador. De ruim. Mas não é o caso, já que abriu com 90% de aprovação, antes de descer para 81%. Apesar de todos os clichês, ainda é uma produção de Guilllermo Del Toro (“A Forma da Água”). O cineasta vencedor do Oscar também assina a história, mas a direção é do norueguês André Øvredal, e essa divisão de tarefas afetou um pouco a identidade da obra, que resultou mais genérica que o esperado. Já o embargo de “Rainhas do Crime” acabou na quarta, e isso deu tempo suficiente para a constatação do desastre: 18% de aprovação. É a pior nota já recebida por um filme (de cinema) estrelado pela atriz Melissa McCarthy. Ambos foram comparados a versões de sucessos recentes, respectivamente “It – A Coisa” e “As Viúvas”. Assim, o brasileiro “Simonal”, cinebiografia do cantor Wilson Simonal, acaba sendo uma opção razoável entre os lançamentos do circuito (relativamente) amplo. Mesmo com simplicidade narrativa, venceu três prêmios no Festival de Gramado do ano passado e descreve muito bem a ambiguidade política brasileira, ao lembrar como a esquerda perseguiu o artista negro mais bem-sucedido do país. As opções são melhores no circuito limitado, em que se destaca o suspense argentino “Vermelho Sol”. Passado nos anos 1970, a trama noir acompanha um advogado respeitado de cidade pequena, que é insultado e perseguido por um estranho, recém-chegado com desejo de vingança. O confronto leva a uma fatalidade, mas melhor que a investigação que se segue é a crítica ao espírito humano diante da corrupção. A imprensa americana considerou o longa, uma coprodução brasileira dirigida por Benjamín Naishtat (“Bem Perto de Buenos Aires”), nada menos que uma obra-prima com 100% de aprovação no Rotten Tomatoes. Igualmente incensado, o drama israelense “Não Mexa com Ela” atingiu 97% com uma trama sob medida para os tempos de empoderamento feminino e movimento #MeToo, ao seguir uma funcionária em ascensão numa grande empresa que, enquanto busca equilibrar o trabalho intenso com as tarefas de mãe de família, sofre assédio do patrão. A autenticidade com que o drama se desenrola é uma verdadeira História Assustadora para Contar no Escuro do cinema. A seção de temas polêmicos também inclui “Rafiki”, primeiro filme de temática LGBTQIA+ realizado no Quênia, sobre duas garotas impedidas de assumir sua paixão por sua comunidade que não aceita a homossexualidade. Tem 94% no Rotten Tomatoes, mas a verdade é que a boa vontade em relação ao tema pesa muito nesta nota positiva. Quem preferir uma opção mais singela, a dica é o indiano “Retrato do Amor”, que conta uma história típica de comédias românticas, em que desconhecidos fingem namoro para agradar parente doente e acabam se apaixonando. O curioso é que, mesmo com essa história de Sessão da Tarde, o diretor Ritesh Batra evita todos os clichês hollywoodianos. Ele já tinha se mostrado mestre no gênero com o premiado “Lunchbox” (2013) e este é mais um acerto. 79% no Rotten Tomatoes Há outras opções fora dessa curadoria. Confira abaixo a lista completa das estreias da semana com suas sinopses e trailers. Simonal | Brasil | Biografia Musical Dono de voz marcante, carisma encantador e charme irresistível, Wilson Simonal (Fabrício Boliveira) nasceu para ser uma das maiores vozes de todos os tempos da música brasileira. No entanto, após anos de sucesso conquistado com muito trabalho, suas finanças descontroladas o levam a, num rompante de ignorância, tomar decisões que marcarão para sempre sua carreira. Histórias Assustadoras para Contar no Escuro | EUA | Terror A cidade de Mill Valley é assombrada há décadas pelos mistérios envolvendo o casarão da família Bellows. Em 1968, a jovem Sarah (Kathleen Pollard), uma garota problemática que mantinha um relacionamento ruim com os pais, foi ao porão para escrever um livro repleto de histórias macabras. Décadas mais tarde, um grupo de adolescentes descobre o livro e passa a investigar o passado de Sarah. No entanto, as histórias do livro começam a se tornar reais. Rainhas do Crime | EUA | Drama Criminal Nova York, janeiro de 1978. Kathy (Melissa McCarthy), Ruby (Tiffany Haddish) e Claire (Elisabeth Moss) são casadas com mafiosos irlandeses, que comandam os negócios em Hell’s Kitchen. Quando eles são presos pela polícia, o trio fica a mercê de Little Jackie, novo chefão local, que se recusa a lhes dar o dinheiro necessário para seu sustento. Com isso, Kathy, Ruby e Claire decidem unir forças para criar sua própria “família”, oferecendo apoio e proteção a pequenos comerciantes locais. Com o tempo, o poder das mulheres cresce ao ponto não só de incomodar Little Jackie, mas também chamar a atenção da máfia italiana. Meu Amigo Enzo | EUA | Drama Denny Swift (Milo Ventimiglia) é um piloto de corridas arrojado com um talento especial para dirigir sob chuva. Um dia, ao ir para o trabalho, encontra um filhote de cachorro que decide adotar. Ele ganha o nome de Enzo, em homenagem ao criador da Ferrari, e passa a acompanhá-lo em todos os lugares, ganhando um apreço especial pela adrenalina das corridas, seja ao assisti-las ao vivo ou pela televisão. Com o passar dos anos, a amizade entre Denny e Enzo sofre profundas mudanças quando o piloto conhece, e se apaixona, por Eve (Amanda Seyfried). Vermelho Sol | Argentina, Brasil, França | Suspense Claudio é um advogado de meia idade que vive uma vida calma e confortável com sua esposa em uma pequena cidade da Argentina da década de 1970. Quando um detetive particular aparece na sua cidade determinado em localizar um estranho com quem ele brigou meses atrás em um restaurante, seu mundo é virado de cabeça para baixo. Não Mexa com Ela | Israel | Drama Orna (Liron Ben Shlush) é mãe de três filhos pequenos e está passando por dificuldades financeiras, com o restaurante do seu marido quase sem dar lucro. Quando ela consegue um emprego de assistente em uma luxuosa imobiliária, parece que sua sorte vai mudar, mas conforme cresce dentro da empresa ela se torna alvo de assédio de seu chefe, Benny (Menashe Noy), que efetua desde comentários sobre sua roupa e cabelo até agressivas sugestões. Retrato do Amor | Índia | Drama Pressionado por sua família a se casar o mais rápido possível, um fotógrafo de Mumbai convence uma tímida estranha a fingir ser a sua noiva durante a visita da avó. Apesar da relutância, ela aceita a proposta e os dois desenvolvem um laço totalmente inesperado. Rafiki | Quênia, França | Drama Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva) são grandes amigas e, embora suas famílias sejam rivais políticas, as duas continuaram juntas ao longo dos anos, apoiando uma a outra na batalha pela conquistas de seus sonhos. A relação de amizade transforma-se em um romance que passa a afetar a rotina da comunidade conservadora em que vivem. As jovens terão que escolher entre experienciar o amor que partilham ou se distanciar em função de uma vida segura. Mulheres Armadas, Homens na Lata | França | Comédia Sem trabalho ou diploma, Sandra, ex-Miss Pas-de-Calais, volta a morar com a mãe no sul da França, depois de 15 anos na Côte d’Azur. Contratada na fábrica de conservas local, ela rejeita constantemente o assédio sexual de seu chefe e acaba matando-o acidentalmente quando tenta se defender. A primeira reação de Sandra e suas amigas da empresa, que presenciam o crime, é chamar socorro. Quando elas descobrem uma mala cheia de dinheiro no armário do homem morto, o jogo muda e elas decidem ficar com a fortuna a qualquer preço. Fourteen | EUA | Drama Ao longo de uma década, uma jovem torna-se cada vez mais debilitada e disfuncional devido a uma doença mental impossível de ser diagnosticada com clareza. Enquanto as pessoas mais distantes desconfiam que o problema tenha outras raízes, seus amigos mais próximos e familiares procuram as melhores formas para ajudá-la sem danificar seu cotidiano. Leste Oeste | Brasil | Drama Ezequiel (Felipe Kannenberg) é um ex-piloto que vive há 15 anos longe de sua cidade natal. Depois de todo esse tempo, ele decide voltar para disputar sua última corrida. Lá, ele vai ter que enfrentar alguns personagens de seu passado, como seu antigo affair, Stela (Simone Iliescu), e também Ângelo (José Maschio), o patriarca da família. Ele também vai cruzar com Pedro (Bruno Silva), um jovem de 16 anos que sonha em pilotar. Voando Alto | Alemanha | Animação O pequeno Manou passou sua vida inteira acreditando que era uma gaivota, quando na realidade ele é filho de um casal de andorinhas. Enquanto tenta aprender a voar, ele percebe que nunca será capaz de alçar grandes voos e foge de casa. Mas quando os animais correm perigo de vida devido a uma nova ameaça, só ele será capaz de salvar o dia. My Hero Academia – Dois Heróis | Japão | Animação Deku e All Might são convidados para a principal exposição mundial de habilidades de Quirk e inovações tecnológicas de heróis: a I-Expo. Lá, Deku conhece Melissa, uma garota que é Quirkless assim como ele já foi. Tudo ia bem, quando o sistema de segurança do evento é hackeado por vilões e a sociedade ameaçada. O Amigo do Rei | Brasil | Documentário Misturando-se entre o documental e o ficcional, o maior crime ambiental da história do Brasil é explorado através de suas mais variadas perspectivas. Tratando do rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, Minas Gerais, o deputado federal Rey Naldo (Luciano Chirolli) mostra ao Congresso Nacional como a política e a mineração se relacionam de maneira íntima. Alma Imoral | Brasil | Documentário O documentário trata sobre transgressão, buscando entender o anseio do ser-humano em viver novos relacionamentos e se tornar outras pessoas a partir do próprio conceito de evolução, deixando de se apoiar apenas em contextos bíblicos e obrigações morais.
Editorial: Bolsonaro volta a ameaçar Ancine sem checar informações
O presidente Jair Bolsonaro (PSL) mostrou novamente seu despreparo para discutir a questão do cinema brasileiro durante entrevista simpática da jornalista Leda Nagle, disponibilizada nesta segunda (5/8) em seu canal no YouTube. A conversa durou cerca de 1h30 e foi marcada pela postura autoritária e desinformada que faz parte do “mito” político, construído em cima do lema “não conheço, não gosto e vou acabar com isso”. Na pauta, claro, entrou a extinção da Ancine (Agência Nacional de Cinema). Sem ter refletido nenhum segundo desde que iniciou a polêmica em torno do tema, Bolsonaro voltou a dizer as mesmas coisas, repetindo até seu ataque ao filme “Bruna Surfistinha”. “Mudou o governo, chama-se Jair Bolsonaro. De direita, família, respeito às religiões. E quando você fala em Ancine, de uma forma ou de outra, tem dinheiro público lá. E aí você vai fazer um filme da ‘Bruna Surfistinha’? Eu não estou censurando. Mas esse tipo de filme eu não quero. Quer insistir? A gente extingue a Ancine. A primeira medida, tem o decreto, vem para Brasília a Ancine. Tirar do Rio? Qual o problema? Vai ficar na nossa asa aqui”, disse o presidente. “A Ancine foi criada por medida provisória. Se não quiser entender que mudou o presidente, e o presidente tem autoridade e respeita a família, eu mando uma medida provisória para o Congresso. Se eles vão aprovar a MP, eu não sei. Mas vou fazer a minha parte. Nada contra a cultura, mas mudou”, ameaçou. Durante a conversa, Bolsonaro também lembrou do filme “Lula, o Filho do Brasil” e do documentário que está sendo desenvolvido sobre sua eleição presidencial, misturando as duas coisas. “Não quero filme nem de Bolsonaro, nem ‘Bruna Surfistinha’. Se quiser fazer do Bolsonaro…Até estão estudando. Mostra a verdade, mas não com dinheiro público, como foi o vexame do ‘Lula, O Filho do Brasil’. Pelo amor de Deus! Eu não sei quantos milhões custou aquele filme, mas dinheiro para contar uma mentira sobre quem foi o Lula”. Como o presidente é muito desinformado e desinteressado em se informar, vale a pena expor os fatos para os leitores não seguirem o mau exemplo e “mitar” – sinônimo de mentir ou demonstrar ignorância nas redes sociais. Para começar, a Ancine não é uma produtora estatal de cinema e sim uma agência reguladora com atribuições que incluem o investimento direto e indireto em produções. Ao contrário do que Bolsonaro diz, o fundo da Ancine não é composto por “verba pública”, ou não em sua maioria, que vem do Condecine, uma contribuição exigida das empresas de telecomunicações. É uma taxa cobrada apenas do setor audiovisual – porcentagens de ingressos de salas de exibição, das publicidades audiovisuais, das emissoras de televisão e, maior volume, das operadoras de telefonia – e reaplicada de volta no mesmo setor, a indústria de TV e cinema. Esta verba não faz parte do orçamento da União e tem função de regulação do mercado. É a chamada Lei do Audiovisual, por sua vez, que permite abatimentos no imposto para empresas que investirem na produção de filmes – o famoso incentivo cultural. Mas é limitado a 4% do IR devido para pessoas jurídicas. Ou seja, montantes geralmente inferiores à locação de um avião da FAB para transporte de parentes para casamentos da família. Por fim, “Lula, o Filho do Brasil” não recebeu nenhum dinheiro público. Ao menos, às claras. Foi totalmente bancado pelas empreiteiras comprometidas com o esquema de corrupção denunciado pela operação Lava Jato, que dispensaram incentivos e fomentos para realizar o agrado ao presidente – o mesmo que se encontra condenado, justamente, por receber agrados dessas empreiteiras. Para deixar claro o que Bolsonaro turva: “Lula, o Filho do Brasil” não foi feito com apoio da Ancine. O dinheiro da Ancine não é “verba pública”. A Ancine não é uma “produtora estatal”. O que a Ancine faz, além de “bancar” “Bruna Surfistinha”, é regular o mercado – “cota de tela” (quantidade de produções brasileiras reservadas para exibição na TV e no cinema), controle de distribuição de filmes (por exemplo, impedir que cinco salas de um mesmo cinema de shopping passem o mesmo filme), apoiar participação de filmes em festivais internacionais, além, claro, de incentivar o aumento da produção de cinema e séries nacionais. Quando o presidente anterior de direita, família e religião, Fernando Collor de Mello, teve a mesma ideia de Bolsonaro, extinguindo a Embrafilme, apenas três longas brasileiros foram lançados no ano seguinte, 1992, e o Brasil amargou uma das suas piores recessões econômicas, alimentada também pela falência do setor audiovisual. Em 2018, o número de filmes nacionais em cartaz somou 171 títulos. Nunca é demais lembrar que, se a Ancine não usa “verba pública” para produzir filmes, o presidente faz, sim, uso do dinheiro do imposto de pessoas físicas para bancar viagens de familiares e salários de parentes que nomeia para cargos públicos. E justifica dizendo que é isso mesmo, “e daí?”.
Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw é a maior estreia de cinema da semana
“Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw” é o maior lançamento de cinema desta quinta (1/8). Com distribuição em mais de 1,5 mil salas, tem alcance exagerado como sua premissa. Mistura de 007, “Missão Impossível”, “48 Horas” e super-heróis, o primeiro derivado da franquia “Velozes e Furiosos” tem tom mais absurdo que a saga central, em que motoristas de rachas viram agentes secretos para salvar o mundo. A troca infinita de farpas entre Dwayne Johnson (Hobbs) e Jason Statham (Shaw), enquanto enfrentam um supervilão e sua organização maligna, diverte mais que a sucessão de cenas de ação sem limites, e justificam os 69% de aprovação no Rotten Tomatoes. As demais estreias da semana ocupam o circuito limitado, dividindo-se entre três títulos brasileiros e três franceses. O destaque é “A Última Loucura de Claire Darling”, em que a lenda viva Catherine Deneuve contracena com sua filha real, Chiara Mastroianni, numa história de mãe e filha distantes que se reconectam quando a matriarca resolve vender tudo o que tem, anunciando que é seu último dia de vida. Tem 100% de aprovação no Rotten Tomatoes. Confira abaixo a lista completa das estreias da semana com suas sinopses e trailers. Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw | EUA | Ação Desde que se conheceram, em “Velozes e Furiosos 7”, Luke Hobbs (Dwayne Johnson) e Deckard Shaw (Jason Statham) constantemente bateram de frente, não só por inicialmente estarem em lados opostos mas, especialmente, pela personalidade de cada um. Agora, a dupla precisa unir forças para enfrentar Brixton (Idris Elba), um anarquista alterado geneticamente que se tornou uma ameaça biológica global. Para tanto, eles contam com a ajuda de Hattie (Vanessa Kirby), irmã de Shaw, que é também agente do MI6, o serviço secreto britânico. A Última Loucura de Claire Darling | França | Comédia É o primeiro dia de verão e o último de Claire Darling (Catherine Deneuve), ou é isso que ela pensa. Claire espalha todos os seus pertences no gramado, desde o pêndulo remanescente da história da França até a infinidade de lâmpadas Tiffany. Enquanto uma horda de curiosos e vizinhos retira essas antiguidades por alguns centavos, cada objeto ecoa a vida trágica e extravagante de Claire Darling. Meu Bebê | França | Comédia Quando Jade (Thaïs Alessandrin), a filha mais nova de Héloïse (Sandrine Kiberlain), está prestes a completar 18 anos e anuncia que vai para o Canadá completar seus estudos, a decisão causa um inesperado impacto na mãe. A relação entra em um clima de saudosismo antecipado, e as duas passam a refletir sobre o passado e o futuro. Os Dois Filhos de Joseph | França | Comédia Para Ivan (Mathieu Capella), um menino de 13 anos, seu pai Joseph (Benoît Poelvoorde) e seu irmão mais velho Joachim (Vincent Lacoste) são o principal modelo de vida. Porém, em determinado momento os dois falham e o jovem percebe como pode ser ruim conhecê-los, afinal, eles são tigres. No Coração do Mundo | Brasil | Drama Contagem, Minas Gerais. Dentro da comunidade local, Marcos (Leo Pyrata) se vira diariamente com os pequenos crimes que comete. Quando reencontra Selma (Grace Passô), uma antiga amiga, ele se convence da possibilidade de executar um assalto bem-sucedido. Mas o plano só pode ser colocado em prática com a ajuda de uma terceira pessoa, e Ana (Kelly Crifer), namorada de Marcos, hesita em participar. Abaixo a Gravidade | Brasil | Drama Ao descobrir que sofre de uma grave doença, Bené (Everaldo Pontes) entra num sério dilema, pensando se deve se tratar ou espera o desenvolvimento natural da patologia. Sua amizade com a jovem e descolada Letícia leva o homem, que vive há anos isolado em uma comunidade rural no interior da Bahia, de volta para a cidade grande e todo o seu caos. Bloqueio | Brasil | Documentário Brasil, maio de 2018. As eleições presidenciais se aproximam enquanto a crise econômica e política se intensifica. Em meio ao caos, a classe dos caminhoneiros, responsável pelo abastecimento das grandes cidades, inicia um bloqueio nas estradas, agravando as tensões. No entanto, em meio às reivindicações por melhores condições de trabalho, surge também um discurso pró intervenção militar que destoa.
Democracia em Vertigem manipulou foto histórica para esconder armas de militantes mortos pela ditadura
A revista Piauí alertou para a manipulação de uma imagem no documentário “Democracia em Vertigem”. Duas armas foram retirados de uma fotografia histórica, que aparece aos seis minutos no documentário dirigido e narrado por Petra Costa. É uma fotografia em preto e branco onde há dois homens mortos, um deles identificado pela cineasta como “o mentor dos meus pais: Pedro Pomar”. Petra explica então que seu nome é uma homenagem feita por seus pais a Pedro. No retrato, o jornalista Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar e Ângelo Arroyo, dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), aparecem mortos e ensanguentados, após serem executados na manhã do dia 16 de dezembro de 1976 pelas forças sob o comando do Segundo Exército, numa casa térrea na rua Pio XI, em São Paulo. O episódio ficou conhecido como a Chacina da Lapa. No documentário, os corpos aparecem desarmados. Entretanto, a mesma fotografia, anexada a um dos laudos da morte de Pedro Pomar, datado de 27 de dezembro de 1976 e arquivado no Instituto de Criminalística de São Paulo, traz um revólver do lado direito do corpo de Pomar e uma carabina embaixo da mão direita de Arroyo. Procurada pela Piauí, Petra Costa disse que estava esperando alguém reparar para tocar no assunto. Por e-mail, a documentarista confirmou que a foto é a mesma e as armas foram digitalmente retiradas da fotografia usada no filme. “Há uma razão para isso, e eu estava esperando que alguém do público notasse. Como afirmei no documentário, Pedro era o mentor político da minha mãe, e foi amplamente reconhecido que a polícia plantou armas ao redor dos corpos dos ativistas assassinados, como uma desculpa para seus assassinatos brutais”, escreveu Petra. A diretora continuou: “Há um debate significativo sobre a veracidade das armas nesta cena, com muitos comentários. E até a própria Comissão da Verdade trouxe evidências para as alegações de que a polícia plantou as armas após a morte de Pedro, e por isso optei por remover esse elemento e homenagear a Pedro com uma imagem mais próxima à provável ‘verdade’.” De fato, existem documentos públicos, livros e artigos que apontam uma manipulação da cena daquele crime pelas forças militares. Um deles é o relatório da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, criada no governo Fernando Henrique Cardoso para reconhecer mortes e desaparecimentos, e indenizar familiares de vítimas da ditadura militar. Nele, há o relato de Maria Trindade, ocupante da casa na Lapa e única sobrevivente do massacre. Ela afirmou que Pomar não havia caído na posição em que se encontra na fotografia, tampouco estava de óculos no momento em que fora alvejado. O repórter Nelson Veiga, da TV Bandeirantes, que foi o primeiro jornalista a chegar à cena do crime, disse à Folha de S.Paulo, dez anos depois do massacre, que, quando entrou na residência, não havia armas perto dos corpos de Pomar e Arroyo. “Pela disparidade de forças, aconteceu ali uma matança”, disse o repórter. Um laudo independente, do médico Antenor Chicarino, constatou que “diversas lesões existentes na vítima foram omitidas no laudo. Dentre outras, foi omitida a menção a lesões típicas compatíveis com ‘zona de tatuagem’ – lesões que indicam proximidade do disparo – assim como ferimento perfuro contuso em região temporal anterior, possivelmente correspondente a tiro de execução”, diz texto de denúncia do MPF de São Paulo. Segundo testemunhas, foram cerca de vinte minutos de tiros e pânico na vizinhança da Lapa durante a operação. E depois o corpo de Pomar foi enterrado com um nome falso no cemitério de Perus. “Com o intuito de dificultar sua exumação e, assim, a apuração da fraude”, diz a denúncia do MPF. Em 1980, a família de Pomar descobriu o paradeiro dos restos mortais e fez o translado para o Pará, terra natal do jornalista. Assim, há indícios evidentes de que a cena do crime foi forjada pelos militares, colocando as armas perto dos militantes mortos para justificar a execução. E Petra Costa justifica essa manipulação para fazer a sua manipulação em seu filme. “Afirmo que a imagem da morte de Pedro foi marcada por essas armas colocadas ao redor do seu corpo após sua morte. E senti uma oportunidade para corrigir um erro percebido por muitos”, declarou. A revista, então, foi ouvir a opinião de outras pessoas envolvidas na história, para saber o que acharam da falsificação da imagem. O jornalista Pedro Estevam da Rocha Pomar, neto do dirigente comunista e autor de uma coleção de livros chamados “Massacre na Lapa”, sobre o ataque em 1976, disse que não concorda com a retirada. “Tenho certeza de que ela fez isso com as melhores intenções, de boa-fé. Ainda assim, acho um erro. Não há porquê. Devia ter mantido a foto como ela é. A própria foto original já tinha uma adulteração da cena do crime… Era melhor ter mostrado a foto e contado o seu contexto.” Eduardo Escorel, montador de documentários premiados como “Cabra Marcado para Morrer” e “Santiago”, de Eduardo Coutinho, e diretor de “Imagens do Estado Novo – 1937-45”, trabalhou por quatro meses como consultor de montagem de “Democracia em Vertigem” em 2017, e disse que não soube da alteração da imagem até a estreia do longa. A alteração da fotografia também não é mencionada no filme, que está em cartaz no catálogo da Netflix em 150 países. “Há documentaristas que encenam, inventam, fazem referências inexistentes, ou atribuem aos personagens coisas que eles nunca fizeram. Existe uma tendência do cinema de desenvolver uma área comum entre a ficção e o documentário. Isso não quer dizer que não persista uma diferença. Mesmo quando o documentário trabalha com elementos ficcionais, de recriações, e mesmo neste caso, o espectador precisa estar advertido sobre o que está vendo. Adulterar uma imagem qualquer e fazer essa imagem passar por algo que ela não é, acho um procedimento equivocado”, diz Escorel. Na opinião dele, um procedimento possível seria dedicar mais tempo a essa foto e relatar sua história. Outro seria colocar uma nota ou uma legenda no fim do filme, dizer que a foto foi alterada e por qual motivo. “O compromisso ético do documentarista é com o espectador. E iludir o espectador, ao meu ver, não é próprio do documentário”, afirma Escorel. Claro que essa visão de que documentarista tem compromisso ético é tão idealizada quanto a lenda de que jornalista é isento. Na verdade, filmes baseados em imagens reais e depoimentos nada mais são que trabalho de edição para criar uma narrativa. No caso, o filme de Petra Costa se insere na “narrativa do golpe”, como outras produções feitas por cineastas militantes em torno do Impeachment da presidente Dilma Rousseff. Manipular imagem real faz parte da construção dessa narrativa. O que contraria a tese é descartado. Entretanto, o produto manipulado é apresentado como “factual”. Não é um fenômeno exclusivo de documentários da “esquerda”. Vem aí, a seguir, o “filme do mito”, “Nem Tudo se Desfaz”, de Josias Teófilo, que vai abordar o mesmo período de “Democracia em Vertigem” e contar história radicalmente oposta, com conclusão conflitante. Trata-se de uma guerra cultural de retóricas, onde o que menos importa é a “verdade”. Ou melhor, cada lado tem a sua “verdade”, e ela permite maquiar fotos sem aviso para os espectadores. Porque até a manipulação é justificada com o nome dela, da “verdade”.
Diretor de filme sobre Bolsonaro diz que presidente pode “acabar com o cinema brasileiro”
O cineasta pernambucano Josias Teófilo, que prepara um documentário sobre o Brasil que elegeu Jair Bolsonaro, disse que o presidente está “muito mal assessorado” em sua briga contra o cinema brasileiro. O diretor, que é bolsonarista e aluno do guru de Bolsonaro, Olavo de Carvalho, sobre quem já fez um documentário (“O Jardim das Aflições”), se viu no meio de uma polêmica após o presidente “sugerir” que a Ancine suspendesse a autorização para seu novo filme, “Nem Tudo se Desfaz”, captar R$ 530 mil por meio da Lei do Audiovisual. Bolsonaro argumentou nas redes sociais que não queria que fizessem um filme sobre ele “com dinheiro público”. “Não tem filme nem com a Bruna Surfistinha nem com Jair Bolsonaro”, afirmou, acrescentando que este seria mais um motivo para extinguir a Ancine. “Se Bolsonaro acabar com a Ancine, será o dilúvio”, reagiu Teófilo em entrevista ao jornal O Globo nesta sexta (26/7). “Vai acabar com o cinema brasileiro, inclusive com os filmes evangélicos de que ele tanto gosta. Não vai poder ter filme nenhum.” Teófilo defendeu o uso de “dinheiro público” para a Cultura. “Se você perguntar na rua o que as pessoas acham sobre isso, vão dizer que são contra. Só que o orçamento da cultura é tão baixo que o governo nem mexe muito na área quando anuncia cortes”, explica. “As pessoas não entendem como as coisas funcionam, é muita desinformação. Isso é péssimo. Aí vejo um sujeito de direita falando que recursos públicos têm que ir apenas para coisas consagradas, como orquestras, óperas, poesias”, enumera. “E se não tivessem dado dinheiro para Glauber Rocha, como ele viraria quem é hoje?” O diretor lamenta a falta de visão cultural do presidente. “Ele agora ataca um filme de 2011 (‘Bruna Surfistinha’)? Pra quê? O filme já foi feito e visto por 2 milhões de pessoas. Infelizmente o presidente está muito mal assessorado, tanto em relação ao meu filme quanto aos dos outros”. Ele ainda explica que o documentário “Nem Tudo se Desfaz” não é sobre Bolsonaro, mas sobre “as manifestações de 2013”, que “levaram às delações premiadas, que levaram à Lava Jato, que levou à prisão de Lula e ao impeachment de Dilma, o que levou a uma alternativa política para além do PT. Meu filme é sobre isso. Onde que é sobre Bolsonaro? Como ele fala uma coisa dessas?” “O filme não é sobre ele, nem nunca será. Oxente, só porque sou aluno de Olavo não significa que vou fazer um filme pró-Bolsonaro”, acrescentou. O pôster de divulgação de “Nem Tudo se Desfaz”, apresentado por Teófilo no Twitter, é uma foto gigante de Bolsonaro em pose de estadista. Veja abaixo. “O presidente lançou uma incerteza sobre meu filme. Se patrocinadores pularem fora, eu pego um avião e saio do país. A Lei do Audiovisual passou por Temer, Dilma, Lula e FHC. A Lei Rouanet é anterior a todos eles. Nenhum deles conseguiu controle sobre a Lei do Audiovisual. Alguns até tentaram, mas não conseguiram. Por que vai ser agora? Bolsonaro não pode fazer isso”, concluiu. Meu novo filme, @nemtudosedesfaz, a ser lançado em breve nos cinemas. NEM TUDO SE DESFAZ é um documentário ensaístico sobre os desdobramentos culturais e políticos das Jornadas de Junho de 2013. pic.twitter.com/2GJF0ByUnL — Josias Teófilo (@josiasteofilo) July 11, 2019
Bolsonaro volta a manifestar vontade de acabar com a Ancine
O presidente Jair Bolsonaro voltou a dizer que vai extinguir a Ancine (Agência Nacional de Cinema). Desde a semana passada, ele vem fazendo críticas e afirmando que planeja acabar com o órgão se não pudesse impor um “filtro” na aprovação de projetos de cinema e TV. Depois de atacar reiteradamente “Bruna Surfistinha”, que assumiu não ter visto, Bolsonaro encontrou nesta quinta (25/7) novo motivo para criticar a agência: a aprovação de verbas para um documentário sobre sua eleição. “Recentemente tomei conhecimento sobre a liberação para captação de R$ 530 mil via Ancine para produção de um filme sobre minha campanha nas eleições. Por coerência sugeri que voltassem atrás nessa questão. Não concordamos com o uso de dinheiro público também para estes fins”, ele escreveu no Twitter. E em seguida acrescentou: “Outrossim, estamos trabalhando para viabilizar uma reformulação ou extinção da Ancine”. Bolsonaro reforçou a crítica em outra rede social, durante uma transmissão ao vivo no Facebook. “Depois desse anúncio de fazer um filme sobre a minha pessoa, a Ancine ganhou mais um FO positivo, Fato Observado positivo. Vamos buscar a extinção da Ancine. Não tem nada que o poder público tenha que se meter em fazer filme. Que tenha uma empresa privada, sem problema nenhum. Mas o Estado vai deixar de patrocinar isso daí”, disse. Ele também repetiu um comentário pejorativo sobre a produção cinematográfica nacional, dizendo que não iria “citar nomes de filmes produzidos pela Ancine”, porque havia crianças assistindo sua live pelo Facebook. Criancinhas podem ler os títulos aqui. Os filmes brasileiros lançados desde que Bolsonaro virou presidente são, descontando documentários: “Temporada”, “Boi de Lágrimas”, “Eu Sou Mais Eu”, “O Galã”, “Tito e os Pássaros”, “A Pedra da Serpente”, “Minha Fama de Mau”, “Homem Livre”, “Sai de Baixo – O Filme”, “Cinderela Pop”, “Tá Rindo de Quê?”, “Diários de Classe”, “O Último Trago”, “Albatroz”, “Mal Nosso”, “Sobre Rodas”, “Alaska”, “Chorar de Rir”, “Cine Holliúdy 2 – A Chibata Sideral”, “Jorginho Guinle – $ó se Vive uma Vez”, “Bio – Construindo uma Vida”, “De Pernas pro Ar 3”, “Horácio”, “Organismo”, “Borrasca”, “A Sombra do Pai”, “B.O.”, “Mormaço”, “A Quarta Parede”, “45 Dias sem Você”, “Kardec”, “Inferninho”, “Histórias Estranhas”, “Dias Vazios”, “Beatriz”, “Deslembro”, “Blitz”, “Divino Amor”, “O Olho e a Faca”, “Turma da Mônica – Laços” e, nesta semana, “A Serpente”. O filme sobre a eleição do presidente, por sua vez, chama-se “Nem Tudo se Desfaz” e seria realizado por José Teófilo, diretor de “O Jardim das Aflições”, sobre o guru de Bolsonaro, Olavo de Carvalho. A produção teve autorização da agência para captar R$ 530 mil, conforme publicação no Diário Oficial da União, em 31 de maio. “Não queremos filmes de políticos com dinheiro público. O poder público não deve se meter a fazer filme. O Estado vai deixar de patrocinar”, disse Bolsonaro. Aproveitando o assunto, ele voltou a criticar a liberação de recursos federais para a elaboração do filme “Bruna Surfistinha” e disse que buscará a “extinção da Ancine”. “Não tem filme nem com a Bruna Surfistinha nem com Jair Bolsonaro”, afirmou. Atualmente, a principal fonte do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), sob controle da Ancine, é a arrecadação do Condecine e da Fistel, taxas pagas pelas próprias empresas que atuam no segmento. Ou seja, não se trata de recursos oriundos de orçamento federal. Esse dinheiro não é do governo, ele é arrecadado junto ao setor privado com uma destinação específica para o audiovisual. O governo não pode realocá-lo em outro lugar. É preciso explicar didaticamente, porque o presidente e seus seguidores nas redes sociais demonstram não entender como o financiamento funciona. De todo modo, a ameaça de extinção da Ancine integra um projeto anti-cultural bem articulado, que começou com a extinção do Ministério da Cultura e seguiu com a proibição de patrocínio de estatais a eventos culturais, imposição de limites mais restritos aos tetos de projetos que podem ser aprovados via Lei de Incentivo à Cultura (antiga Lei Rouanet), a exclusão de representantes do mercado e da sociedade civil do CSN (Conselho Superior de Cinema), a mudança do CSC para a pasta da Casa Civil, o fim de apoio da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) para o programa Cinema do Brasil, voltado à exportação de filmes brasileiros, e outras iniciativas similares. Bolsonaro também não assinou o decreto da Cota de Tela, que estipula um determinado número de dias obrigatórios para que os cinemas exibam filmes brasileiros, que deveria ter sido publicado em janeiro, não escolheu os nomes do Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que decide como alocar os recursos arrecadados pelas taxas do mercado, e não nomeou um dos nomes que preencheria uma vaga aberta na diretoria da Ancine desde a renúncia de Mariana Ribas no começo do ano.
Estreias: Circuito limitado é salvação de semana repleta de filmes ruins
Os filmes que chegam aos cinemas de shopping centers nesta quinta (25/7) são muito ruins. O pior, “As Trapaceiras”, teve só 14% de aprovação no Rotten Tomatoes e é o filme com maior distribuição na semana. Trata-se de um remake de sexo trocado de “Os Picaretas” (1999), com Anne Hathaway (“Colossal”) e Rebel Wilson (“A Escolha Perfeita”) nos papéis anteriormente desempenhados por Steve Martin e Eddie Murphy. A outra comédia, “As Rainhas da Torcida”, traz Diane Keaton (“Do Jeito que Elas Querem”) como cheerleader da Terceira Idade e obteve 35% de aprovação. Menos mau, o drama “Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal”, com Zac Effron (“Baywatch”) em papel de serial killer galã, ficou com 56% – e foi lançado direto pela Netflix nos EUA. Em contraste, no circuito limitado, os lançamentos são ótimos. A salvação dos cinéfilos estão nos cinemas pequenos das grandes cidades. Com 100% no Rotten Tomatoes, o drama francês “O Professor Substituto” não é o que o título nacional sugere – isto é, a velha história do professor que inspira um grupo de jovens excluídos – , mas um retrato da juventude niilista atual. Pessimista ao extremo, a obra adaptada e dirigida por Sébastien Marnier (“Irrepreensível”) passa longe de ser edificante e explora sua tensão com a trilha da dupla eletrônica Zombie Zombie. Quem prefere comédia também não precisa se contentar com as tristezas americanas em cartaz. “O Mistério de Henri Pick” tem 83% no RT e gira em torno de um crítico literário mau-humorado (Fabrice Luchini, de “Dentro de Casa”), que vê a vida virar do avesso ao questionar a autoria do livro-sensação do momento na França, supostamente escrito por um pizzaiolo falecido. Insultado nas ruas e abandonado pela própria esposa, ele não dá o braço a torcer e decide tirar a limpo a história da obra, encontrada numa loja de manuscritos inéditos e sofisticada demais para sua origem humilde ser verídica. A direção e o roteiro cheio de reviravoltas são de Rémi Bezançon (da premiada animação “Zarafa”). Com 90%, “O Mistério do Gato Chinês” é uma fantasia de Chen Kaige, diretor dos premiados “Adeus Minha Concubina” (1993) e “O Imperador e o Assassino” (1998). Trata-se de um blockbuster asiático repleto de efeitos visuais sobre um gatuno literal, um gato criminoso que reflete uma superstição chinesa do século 18. Mistério e comédia se juntam de forma surreal. A lista ainda tem o brasileiro “A Serpente”, peça de Nelson Rodrigues filmada em preto e branco, que traz Lucélia Santos (“Casa Grande”) em papel duplo, como irmãs gêmeas, além de Matheus Nachtergaele (“Trinta”) e trilha de Fábio Trummer (da banda Eddie) e Pupillo (Nação Zumbi). Exibido no Festival do Rio de 2016, esperou três anos por vagas nos cinemas. A distribuição corajosa é da Cavideo, do cineasta Cavi Borges (“Salto no Vazio”). Confira abaixo a lista completa das estreias da semana com suas sinopses e trailers. O Professor Substituto | França | Drama Um professor comete suicídio se jogando pela janela da sala de aula, em frente aos alunos adolescentes. Em seu lugar é contratado Pierre Hoffman (Laurent Lafitte) como professor substituto, que logo percebe que um grupo de seis dos seus novos alunos parece indiferente ao que acontece à sua volta. Aos poucos, Hoffman nota que este pequeno grupo exerce uma estranha influência sobre o resto da escola, inclusive na direção. Cada vez mais obcecado por eles, o professor passa a segui-los até descobrir quais são seus planos. O Mistério de Henri Pick | França | Comédia Daphné Despero (Alice Isaaz) é uma ambiciosa editora em busca de novos romances para publicar. Um dia, enquanto visita seu pai, ela conhece uma livraria de manuscritos rejeitados. Lá, ela se encanta com uma história nunca antes publicada, escrita por um pizzaiolo bretão chamado Henri Pick. Admirada com o talento encontrado, ela começa a pesquisar sobre o autor e acaba descobrindo que ele faleceu há dois anos. Com o apoio da família de Pick, o manuscrito é publicado e imediatamente vira uma febre em toda a França, entrando para a lista de mais vendidos e gerando fascínio sobre a história do autor. Como parte da turnê de divulgação do livro, Daphné e a família de Pick são convidadas para ir ao programa de Jean-Michel Rouche (Fabrice Luchini), um crítico literário pedante e desagradável, que não hesita em questionar todos os pontos da história de Henri Pick. Convencido de que se trata de uma farsa, Jean-Michel inicia uma trajetória em busca da verdade sobre o mais novo best-seller francês. O Mistério do Gato Chinês | China, Japão | Fantasia Durante a dinastia Tang, na China, um gato misterioso começa a atacar altos membros da Corte Imperial, deixando uma série de mortos. Dois homens muito diferentes, o poeta chinês Bai Letian (Huang Xuan) e o monge japonês Kûkai (Shôta Sometani) decidem unir forças para descobrir o que existe por trás do animal místico. Aos poucos, eles descobrem segredos na história da nobreza, envolvendo uma bela concubina amada pelo Imperador, mas atacada pelo povo. O gato constituiria, na verdade, o acerto de contas por um crime jamais solucionado. A Serpente | Brasil | Drama Lígia e Guida (ambas interpretadas por Lucélia Santos) são duas irmãs que vivem na mesma casa. Quando a doce Lígia enfim se casa com Décio (Sílvio Restiffe), ela espera ser deflorada na noite de núpcias, mas o homem é impotente. Mais tarde, ele a troca por uma lavadeira. Sentindo-se rejeitada, a recém-casada tenta o suicídio, mas é resgatada no último momento por Guida. A partir deste momento, a irmã virgem cede aos flertes do cunhado Paulo (Matheus Nachtergaele) e faz sexo com ele. Quando Guida descobre a traição em sua própria cama, a família entra em crise. Uma cova é cavada do lado de fora da casa, e fica claro que alguém precisa morrer. Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal | EUA | Drama Cinebiografia de Ted Bundy (Zac Efron), serial killer que matou, pelo menos, 30 mulheres em sete estados norte-americanos durante a década de 1970. Bundy se tornou famoso em todo o país, em parte por causa da fama de sedutor, que levou a conquistar várias fãs, e em parte por ter efetuado sua própria defesa nos tribunais. A trajetória do psicopata é contada pelo ponto das mulheres que amou: Liz Kendall (Lily Collins), com quem se casou, e Carole Ann Boone (Kaya Scodelario), amante que o apoiou durante o longo julgamento nos tribunais. As Rainhas da Torcida | EUA | Comédia Diagnosticada com câncer terminal, a solitária Martha (Diane Keaton) decide se livrar de todos os seus pertences pessoais e se mudar para uma comunidade de idosos com o intuito de esperar a morte chegar. Em seus últimos meses, ela quer uma vida tranquila, lendo livros e interagindo com poucas pessoas, mas ao conhecer sua nova vizinha, Sheryl (Jacki Weaver), uma mulher ativa e barulhenta, Martha vê seus planos indo por água abaixo, já que a nova companhia faz questão de se manter constantemente presente. A medida que a relação das duas se desenvolve, uma forte amizade surge e Sheryl incentiva Martha a treinar os passos de líder de torcida novamente, como fazia na época da escola. Resistente, a protagonista topa a ideia e juntas elas montam um clube para empoderar diversas mulheres acima dos 60 anos. Para fazer isso, elas precisam enfrentar o preconceito de todos e treinar para uma importante competição. As Trapaceiras | EUA | Comédia Beaumont-sur-mer, Riviera Francesa. Josephine (Anne Hathaway) e Penny (Rebel Wilson) são duas manipuladoras, conhecidas pela arte de extorquir milionários. No entanto, enquanto a primeira é sofisticada, a segunda tem métodos muito menos elegantes. De início Josephine aceita Penny como sua pupila, mas logo se percebe que na verdade a intenção era usá-la para um golpe específico e, logo em seguida, descartá-la. Surge então uma disputa entre elas, sobre quem conseguirá antes a quantia de US$ 500 mil de Thomas Westerburg (Alex Sharp), um prodígio da tecnologia, que está hospedado na cidade.
Diretor de O Jardim das Aflições prepara documentário sobre Bolsonaro
O cineasta Josias Teófilo, diretor de “O Jardim das Aflições”, sobre o guru da direita brasileira Olavo de Carvalho, prepara um novo documentário, desta vez sobre o discípulo mais bem-sucedido do Homem de Virgínia. Intitulado “Nem Tudo se Desfaz”, o filme é descrito como um “documentário ensaístico sobre os desdobramentos políticos das Jornadas de Junho de 2013 que culminaram na eleição de Jair Bolsonaro”. A produção foi autorizada a captar R$ 530 mil para sua produção, pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), via Lei do Audiovisual (Fomento Indireto). Josias Teófilo deu mais detalhes sobre o projeto nas redes sociais. “O meu filme, ‘Nem Tudo se Desfaz’, não é sobre Bolsonaro, mas sobre as causas da eleição de Bolsonaro, que, na narrativa do filme, remontam a 2013. E nunca ouvi falar que a Lei do Audiovisual seja exclusiva para esquerdistas”, escreveu. “Observe que para fazer um filme sobre a eleição de Bolsonaro, como eu estou fazendo, não é preciso fazer nenhum julgamento de valor sobre o próprio Bolsonaro. Só que a esquerda não vai aceitar jamais que se mostre no cinema o movimento popular que levou à queda de Dilma, por exemplo”, complementou. O comentário reflete ao fato de que políticos ligados ao PT e ao PSOL já se manifestaram em protestos. Na verdade, “Nem Tudo se Desfaz” oferece, no mínimo, o outro lado da moeda, na contínua guerra cultural de narrativas, que virou a produção de documentários no Brasil. Após os “filmes do golpe”, chega a vez do “filme do mito”.
O Rei Leão é a principal estreia de cinema da semana
Mais um lançamento da Disney domina a programação de cinema desta semana. Acompanhado por grande campanha publicitária, discos, brinquedos e McLanches felizes, “O Rei Leão” é um remake do desenho clássico de 1994 com efeitos visuais de última geração. O realismo é tanto que por vezes parece mais um documentário da National Geographic. Até que os bichos começam a falar. E cantar. O diretor é o mesmo de “Mogli, o Menino-Lobo”, Jon Favreau. Mas o resultado, apesar de visualmente arrojado, não encantou tanto. Culpa, justamente, do excesso de realismo, que comprometeu a fantasia da trama. Mesmo em 2D “antiquado”, o original dos anos 1990 mantém ampla vantagem na comparação. Na avaliação do Rotten Tomatoes, a diferença é brutal: 93% para o original e 56% para a cópia moderna. E para baixar ainda mais a expectativa do público brasileiro, as versões dubladas em português, disponibilizadas na maioria dos cinemas nacionais, não tem Beyoncé. Sem empolgar, a programação desta quinta (18/7) traz apenas mais quatro títulos e dois deles são documentários – inclusive um comercial de cerveja enrustido. Apesar do nome do diretor Fatih Akim (“Em Pedaços”) em “O Bar Luva Dourada” ser uma isca para cinéfilos, nenhuma das ficções compensa sair de casa durante o inverno, quando há coisas muito melhores para se assistir em streaming. De todo modo, o grotesco filme alemão é o mais diferente da lista e o exato oposto da beleza plástica de “O Rei Leão”. Confira abaixo a relação completa das estreias da semana com suas sinopses e trailers. O Rei Leão | EUA | Animação Simba (Donald Glover) é um jovem leão cujo destino é se tornar o rei da selva. Entretanto, uma armadilha elaborada por seu tio Scar (Chiwetel Ejiofor) faz com que Mufasa (James Earl Jones), o atual rei, morra ao tentar salvar o filhote. Consumido pela culpa, Simba deixa o reino rumo a um local distante, onde encontra amigos que o ensinam a mais uma vez ter prazer pela vida. O Bar Luva Dourada | Alemanha | Suspense Na década de 1970, os habitantes da cidade de Hamburgo sofrem quando os jornais começam a noticiar o desaparecimento sucessivo de vários cidadãos seguindo um padrão específico. Começa então uma das mais complexas investigações de assassinatos em série que o local já havia presenciado até o momento. Jornada da Vida | França | Drama Um ator francês (Omar Sy) de descendência senegalesa faz uma viagem à África para promover o seu livro. No local, descobre que um de seus maiores fãs é Yao, um garotinho que efetuou uma longa viagem sozinho para vê-lo. Comovido com a história do menino, decide acompanhá-lo de volta à sua casa e, no percurso, confronta-se com suas próprias raízes. Palace II – Três Quartos com Vista para o Mar | Brasil | Documentário No dia 22 de fevereiro de 1998, o conhecido prédio Palace II sofreu um desabamento inesperado, deixando 8 mortos e quase 200 famílias desabrigadas. Considerado um dos maiores desastres na história da engenharia civil brasileira, até hoje alguns dos culpados não foram punidos pelo descaso, e as pessoas envolvidas no acidente lembram-se muito bem dos momentos cruciais, antes, durante e depois da queda. Em Busca da Cerveja Perfeita | Brasil | Documentário Durante uma viagem de mais de 10.000 km, o diretor Heitor Dhalia explora o universo cervejeiro com o objetivo de responder a pergunta “Existe uma cerveja perfeita?”. Para tentar descobrir, ele conversa com mais de 20 especialistas no assunto e traça um panorama completo da bebida, que é uma das mais amadas do mundo. Feito com patrocínio da fábrica de cervejas Ambev.
Estou Me Guardando para quando o Carnaval Chegar tem dimensão reflexiva surpreendente
“Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005), primeiro longa-metragem do diretor pernambucano Marcelo Gomes, está entre as melhores produções brasileiras do século 21. “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (2009), dirigido por Gomes e Karim Ainouz, é um filme experimental brilhante e um dos produtos mais criativos da nossa filmografia recente. O que recomenda vivamente o trabalho do cineasta. Marcelo Gomes fez ainda “Era uma Vez Eu, Verônica” (2012) e “Joaquim” (2017), e codirigiu com Cao Guimarães “O Homem das Multidões” (2013). Uma trajetória bastante sólida e consistente. Seu novo trabalho, “Estou Me Guardando para quando o Carnaval Chegar” tem título quilométrico, que remete a uma música de Chico Buarque. No entanto, é um documentário com uma abordagem simples, clara e direta, que dá conta de uma realidade bem mais complexa do que a sua aparência faria supor e alcança uma dimensão reflexiva surpreendente. Como um filme que se constrói ao caminhar sobre o tema e ao encontrar elementos novos a cada passo, a narrativa se estabelece à medida em que é capaz de ouvir o outro com atenção e, de algum modo, interagir, participar e intervir no seu objeto de estudo. O personagem do documentário é a cidade de Toritama, no Agreste de Pernambuco, que era uma localidade pacata, que Marcelo Gomes conheceu quando criança, acompanhando seu pai em visitas de trabalho. Era, não é mais. Foram justamente a agitação e as mudanças em Toritama, visíveis ao passar pelas estradas locais, que chamaram a atenção dele. Agora Toritama se define como a capital do jeans. 20% de toda a produção de jeans do Brasil vem de lá, cerca de 20 milhões de peças por ano produzidas em fábricas de fundo de quintal, que são chamadas de facções. É surpreendente que uma cidade com 40 mil habitantes tenha uma produção assim tão grande para ostentar. E por que isso acontece? Em síntese, porque tudo que se faz lá, o tempo inteiro, é trabalhar. Cada casa ou conjunto delas vira uma oficina de costura individual ou coletiva. Quase todos parecem preferir trabalhar por sua conta e risco, como e quando quiser, sem carteira assinada na fábrica. Com a certeza de que o que produzirem vai ser comprado. Ou porque já foi combinado ou porque vai ser vendido nas grandes feiras que atraem público de todos os cantos. Como mais peças ou partes de peças costuradas resultam em pequenas quantidades de dinheiro, quanto mais se faz mais se ganha. Conclusão, a maioria dos moradores/produtores da cidade trabalha continuamente desde cedo até tarde da noite. Em casa mesmo, sem horário. Ou melhor, sem horário para viver, só para trabalhar, comer e dormir, com direito a uma hora de TV, provavelmente para ver a novela. Uma espécie de escravidão não só consentida, mas buscada pela população. Que dela não se queixa, com poucas exceções. Acha que está muito bom assim, sente-se livre e dona do seu nariz. Ou melhor, do seu negócio. Muito curioso esse microcosmo do capitalismo que toma de assalto e transforma radicalmente uma pequena localidade, que já não tem espaço nem para criar galinhas ou fazer caminhar os bodes que restaram pela cidade, cruzando a rodovia. Se isso parece estranho e surpreendente, o que dizer da obsessão absoluta de toda a população em, obrigatoriamente, passar o Carnaval na praia? Custe o que custar, ninguém fica, todos saem para tomar banhos de mar, beber, fazer alguma fantasia, batucar e dançar no Carnaval. Se não tiver dinheiro, vende o que tem – fogão, geladeira – ou toma emprestado, para depois pagar ou recomprar o que vendeu. O que não pode é perder o Carnaval. Marcelo Gomes filmou a cidade nos dias de Carnaval e só então reencontrou o silêncio e as ruas vazias do seu tempo de criança. O mundo do trabalho e o do lazer (ou férias) se colocam em oposição. Oposição não é bem a palavra. Talvez espaço e tempo estanques, separados. Trabalho todo o tempo. Parada no Carnaval, fora da cidade, como obrigação incontornável. Trabalho parece ser só dinheiro e o dinheiro vira uma dependência, é só ele que importa. Prazer no período mágico do Carnaval, tratado como obrigação tanto quanto a atividade produtiva. Mas há também prazer no trabalho e nos resultados obtidos. Por que não é possível integrá-los, mesclá-los, equilibrar algumas coisas, diante da obsessão em fabricar cada vez mais e mais e obter o dinheiro desejado? Fico pensando nos mecanismos da Internet – e-mails, WhatsApp, outras redes sociais – nos tomando um tempo absurdo de trabalho não remunerado, quando a tecnologia teria de ter vindo para nos poupar tempo e permitir o ócio criativo. Parece que também nos deixamos escravizar com gosto, ou simplesmente o esquema nos engole. Isso também tem a ver com abdicar da liberdade para seguir um salvador da pátria, um mito qualquer? O ótimo documentário de Marcelo Gomes nos faz pensar em muitas coisas como essas, que não estão no filme, mas na minha cabeça, nesse momento. A música do Chico Buarque, que está no filme, e tem como estribilho “Estou Me Guardando para quando o Carnaval Chegar” fazia alusão á liberdade que o sujeito viveria com o fim da ditadura militar opressora, restritiva de todas as liberdades e que tinha como oposição o Carnaval libertador. Não é o sentido, aqui, o Carnaval, no caso, é uma liberação momentânea de um trabalho que, no fim das contas, embora não pareça, é também opressivo, mas que dura pouco e nada muda. O filme ganhou o prêmio do Júri e da Abraccine (Associação Brasileira dos Críticos de Cinema) no festival É Tudo Verdade 2019. E está sendo exibido na sessão Vitrine, com preço reduzido, em grande número de cidades brasileiras.
Privacidade Hackeada: Documentário sobre roubo de dados de aplicativos ganha trailer legendado
A Netflix divulgou o pôster americano e o trailer legendado de “Privacidade Hackeada” (The Great Hack), documentário sobre a invasão de privacidade e roubo de dados promovidos pelos aplicativos de redes sociais. O filme centra-se no escândalo da Cambridge Analytica, empresa que usou o Facebook para coletar dados de milhões de pessoas visando influenciar as últimas eleições dos Estados Unidos e o resultado da votação do Brexit, que tirou o Reino Unido da União Europeia. “Entenda como a empresa de análise de dados Cambridge Analytica se tornou o símbolo do lado sombrio das redes sociais após a eleição presidencial de 2016 nos EUA”, diz a sinopse oficial. Mas as consequências do “hackeamento” da privacidade vão muito além de um caso específico e ainda não produziram reflexão suficiente no Brasil, onde o uso escandaloso de mensagens privadas do Telegram de integrantes da Operação Lava Jato, obtidas não se sabe como, não é devidamente tratado sob o prisma do crime cibernético e da manipulação política, temas do documentário em questão – muito antes pelo contrário. “Privacidade Hackeada” tem direção de Karim Amer e Jehane Noujaim, produtores de “The Square”, documentário indicado ao Oscar sobre a Primavera Árabe, e será exibido em 24 de julho em streaming.







