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Filme|30 de julho de 2019

Democracia em Vertigem manipulou foto histórica para esconder armas de militantes mortos pela ditadura

A revista Piauí alertou para a manipulação de uma imagem no documentário “Democracia em Vertigem”. Duas armas foram retirados de uma fotografia histórica, que aparece aos seis minutos no documentário dirigido e narrado por Petra Costa. É uma fotografia em preto e branco onde há dois homens mortos, um deles identificado pela cineasta como “o mentor dos meus pais: Pedro Pomar”. Petra explica então que seu nome é uma homenagem feita por seus pais a Pedro.

No retrato, o jornalista Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar e Ângelo Arroyo, dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), aparecem mortos e ensanguentados, após serem executados na manhã do dia 16 de dezembro de 1976 pelas forças sob o comando do Segundo Exército, numa casa térrea na rua Pio XI, em São Paulo. O episódio ficou conhecido como a Chacina da Lapa.

No documentário, os corpos aparecem desarmados. Entretanto, a mesma fotografia, anexada a um dos laudos da morte de Pedro Pomar, datado de 27 de dezembro de 1976 e arquivado no Instituto de Criminalística de São Paulo, traz um revólver do lado direito do corpo de Pomar e uma carabina embaixo da mão direita de Arroyo.

Procurada pela Piauí, Petra Costa disse que estava esperando alguém reparar para tocar no assunto.

Por e-mail, a documentarista confirmou que a foto é a mesma e as armas foram digitalmente retiradas da fotografia usada no filme. “Há uma razão para isso, e eu estava esperando que alguém do público notasse. Como afirmei no documentário, Pedro era o mentor político da minha mãe, e foi amplamente reconhecido que a polícia plantou armas ao redor dos corpos dos ativistas assassinados, como uma desculpa para seus assassinatos brutais”, escreveu Petra.

A diretora continuou: “Há um debate significativo sobre a veracidade das armas nesta cena, com muitos comentários. E até a própria Comissão da Verdade trouxe evidências para as alegações de que a polícia plantou as armas após a morte de Pedro, e por isso optei por remover esse elemento e homenagear a Pedro com uma imagem mais próxima à provável ‘verdade’.”

De fato, existem documentos públicos, livros e artigos que apontam uma manipulação da cena daquele crime pelas forças militares. Um deles é o relatório da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, criada no governo Fernando Henrique Cardoso para reconhecer mortes e desaparecimentos, e indenizar familiares de vítimas da ditadura militar. Nele, há o relato de Maria Trindade, ocupante da casa na Lapa e única sobrevivente do massacre. Ela afirmou que Pomar não havia caído na posição em que se encontra na fotografia, tampouco estava de óculos no momento em que fora alvejado. O repórter Nelson Veiga, da TV Bandeirantes, que foi o primeiro jornalista a chegar à cena do crime, disse à Folha de S.Paulo, dez anos depois do massacre, que, quando entrou na residência, não havia armas perto dos corpos de Pomar e Arroyo. “Pela disparidade de forças, aconteceu ali uma matança”, disse o repórter.

Um laudo independente, do médico Antenor Chicarino, constatou que “diversas lesões existentes na vítima foram omitidas no laudo. Dentre outras, foi omitida a menção a lesões típicas compatíveis com ‘zona de tatuagem’ – lesões que indicam proximidade do disparo – assim como ferimento perfuro contuso em região temporal anterior, possivelmente correspondente a tiro de execução”, diz texto de denúncia do MPF de São Paulo.

Segundo testemunhas, foram cerca de vinte minutos de tiros e pânico na vizinhança da Lapa durante a operação. E depois o corpo de Pomar foi enterrado com um nome falso no cemitério de Perus. “Com o intuito de dificultar sua exumação e, assim, a apuração da fraude”, diz a denúncia do MPF. Em 1980, a família de Pomar descobriu o paradeiro dos restos mortais e fez o translado para o Pará, terra natal do jornalista.

Assim, há indícios evidentes de que a cena do crime foi forjada pelos militares, colocando as armas perto dos militantes mortos para justificar a execução. E Petra Costa justifica essa manipulação para fazer a sua manipulação em seu filme. “Afirmo que a imagem da morte de Pedro foi marcada por essas armas colocadas ao redor do seu corpo após sua morte. E senti uma oportunidade para corrigir um erro percebido por muitos”, declarou.

A revista, então, foi ouvir a opinião de outras pessoas envolvidas na história, para saber o que acharam da falsificação da imagem.

O jornalista Pedro Estevam da Rocha Pomar, neto do dirigente comunista e autor de uma coleção de livros chamados “Massacre na Lapa”, sobre o ataque em 1976, disse que não concorda com a retirada. “Tenho certeza de que ela fez isso com as melhores intenções, de boa-fé. Ainda assim, acho um erro. Não há porquê. Devia ter mantido a foto como ela é. A própria foto original já tinha uma adulteração da cena do crime… Era melhor ter mostrado a foto e contado o seu contexto.”

Eduardo Escorel, montador de documentários premiados como “Cabra Marcado para Morrer” e “Santiago”, de Eduardo Coutinho, e diretor de “Imagens do Estado Novo – 1937-45”, trabalhou por quatro meses como consultor de montagem de “Democracia em Vertigem” em 2017, e disse que não soube da alteração da imagem até a estreia do longa. A alteração da fotografia também não é mencionada no filme, que está em cartaz no catálogo da Netflix em 150 países.

“Há documentaristas que encenam, inventam, fazem referências inexistentes, ou atribuem aos personagens coisas que eles nunca fizeram. Existe uma tendência do cinema de desenvolver uma área comum entre a ficção e o documentário. Isso não quer dizer que não persista uma diferença. Mesmo quando o documentário trabalha com elementos ficcionais, de recriações, e mesmo neste caso, o espectador precisa estar advertido sobre o que está vendo. Adulterar uma imagem qualquer e fazer essa imagem passar por algo que ela não é, acho um procedimento equivocado”, diz Escorel.

Na opinião dele, um procedimento possível seria dedicar mais tempo a essa foto e relatar sua história. Outro seria colocar uma nota ou uma legenda no fim do filme, dizer que a foto foi alterada e por qual motivo. “O compromisso ético do documentarista é com o espectador. E iludir o espectador, ao meu ver, não é próprio do documentário”, afirma Escorel.

Claro que essa visão de que documentarista tem compromisso ético é tão idealizada quanto a lenda de que jornalista é isento. Na verdade, filmes baseados em imagens reais e depoimentos nada mais são que trabalho de edição para criar uma narrativa. No caso, o filme de Petra Costa se insere na “narrativa do golpe”, como outras produções feitas por cineastas militantes em torno do Impeachment da presidente Dilma Rousseff. Manipular imagem real faz parte da construção dessa narrativa. O que contraria a tese é descartado. Entretanto, o produto manipulado é apresentado como “factual”.

Não é um fenômeno exclusivo de documentários da “esquerda”. Vem aí, a seguir, o “filme do mito”, “Nem Tudo se Desfaz”, de Josias Teófilo, que vai abordar o mesmo período de “Democracia em Vertigem” e contar história radicalmente oposta, com conclusão conflitante. Trata-se de uma guerra cultural de retóricas, onde o que menos importa é a “verdade”. Ou melhor, cada lado tem a sua “verdade”, e ela permite maquiar fotos sem aviso para os espectadores. Porque até a manipulação é justificada com o nome dela, da “verdade”.

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Marcel Plasse

Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna.

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