Vídeo de bastidores de The Americans apresenta os rumos do final da série
O canal pago americano FX divulgou um vídeo de bastidores da 6ª e última temporada de “The Americans”. A prévia traz o criador Joseph Weisberg (roteirista da série “Falling Skies”) e o produtor Joel Fields (“Rizzoli & Isles”) comentando os temas e os rumos do final da série, em particular como o desmantelamento da União Soviética afeta o casal de espiões vivido por Keri Russell e Matthew Rhys. Enquanto ele resolve se afastar do trabalho de espionagem, ela passa a contar com apoio da filha mais velha (Holly Taylor). Elogiadíssima pela crítica, a série já rendeu dois Emmys de Melhor Atriz Convidada para Margo Martindale (série “Justified”), pelo papel da encarregada de transmitir as missões para os espiões. A 6ª temporada estreia em 28 de março nos Estados Unidos.
Novo trailer de The 100 mostra luta pela sobrevivência na Terra
A rede CW divulgou mais um trailer da 5ª temporada de “The 100”. O vídeo mostra novos conflitos e a luta pela sobrevivência após o segundo apocalipse na Terra. A série vai retornar após o salto temporal de seis anos do final da 4ª temporada, que mostrou Clarke (Eliza Taylor) e uma menina (Lola Flanery) como os últimos habitantes da superfície da Terra, após Praimfaya, o fogo radioativo apocalíptico que destruiu o planeta pela segunda vez. Anos se passaram sem ela saber se o grupo de Bellamy (Bob Morley) e Raven (Lindsey Morgan) sobreviveu em sua viagem suicida para o espaço ou se o grupo de Octavia (Marie Avgeropoulos) e sua mãe (Paige Turco) conseguiu se salvar no abrigo subterrâneo, cuja entrada foi soterrada por escombros. Mas sua solidão é bruscamente interrompida pela chegada de uma nave ameaçadora, que ela nunca tinha visto. A 5ª temporada de “The 100” estreia em 24 de abril nos Estados Unidos.
Trailer da 3ª temporada de Colony revela guerra entre alienígenas
O canal pago americano USA divulgou o primeiro trailer da 3ª temporada da série sci-fi “Colony”, estrelada por Josh Holloway (série “Lost”) e Sarah Wayne Callies (série “The Walking Dead”). A prévia mostra que a família do casal conseguiu escapar da destruição de Los Angeles, apenas para se deparar com o que parece ser uma guerra entre os próprios alienígenas invasores. Criada por Carlton Cuse (produtor das séries “Lost” e “Bates Motel”) e Ryan Condal (roteirista de “Hércules”), “Colony” apresenta uma nova ordem mundial, após a Terra ser invadida por uma raça alienígena. A série tem diversos episódios dirigidos pelo cineasta argentino Juan José Campanella, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “O Segredo de Seus Olhos” (2009), e mantém uma audiência fiel em torno de 800 mil telespectadores semanais. A nova temporada tem estreia marcada para 2 de maio nos Estados Unidos e será exibida no Brasil pelo canal pago TNT Series.
2ª temporada de Legion ganha novo teaser surreal
O canal pago FX divulgou novo teaser da 2ª temporada de “Legion”, que segue o clima surreal da divulgação da série – desta vez, com referências às ilusões de ótica de Cornelius Escher. A nova temporada vai destacar o “verdadeiro vilão” da série: o Rei das Sombras (vivido a partir dos novos episódios por Navid Negahban, o Abu Nazir da série “Homeland”). O parasita mental que queria enlouquecer o protagonista David Haller (Dan Stevens) se tornou mais poderoso e estaria incapacitando vários mutantes. Criada por Noah Hawley (criador também de “Fargo”), “Legion” é inspirada pelos universo dos quadrinhos dos “X-Men”. Nas publicações da Marvel, David Haller é filho do Professor Xavier. Com dez novos episódios, a 2ª temporada estreia em 3 de abril nos Estados Unidos. A data da exibição nacional ainda não foi anunciada, mas a 1ª temporada teve lançamento simultâneo no Brasil pelo canal pago Fox.
3ª temporada de The Expanse ganha novos vídeos com bastidores, perfis de personagens e trailer
O SyFy divulgou novos vídeos da 3ª temporada de “The Expanse”, com trailer, bastidores e perfis de personagens da atração, que é mais cara do canal pago americano. “The Expanse” é baseada na franquia de livros “Leviathan Wakes”, escrita por James S.A. Corey, e se passa 200 anos no futuro, quando a Terra vive uma crise política com suas colônias em Marte e no cinturão de asteroides. A situação é agravada pelo ataque a uma nave espacial terrestre, falsamente creditado à Marte, e por um teste com arma biológica num asteroide habitado, ecoando uma conspiração interplanetária que ameaça conduzir a uma guerra entre mundos. Desenvolvida pela dupla Mark Fergus e Hawk Ostby (roteiristas de “Homem de Ferro”), a série é estrelada por Steven Strait (série “Magic City”), Shohreh Aghdashloo (“Star Trek: Sem Fronteiras”), Wes Chatham (“Jogos Vorazes – A Esperança – Parte 1”), Cas Anvar (série “Olympus”), Dominique Tipper (“Academia de Vampiros: O Beijo das Sombras”), Jared Harris (série “Mad Men”), Frankie Adams (do vindouro “Máquinas Mortais”) e Chad Coleman (série “The Walking Dead”). Além deles, a 3ª temporada contará ainda com participação recorrente da atriz Elizabeth Mitchell (das séries “Lost” e “Revolution”) num papel descrito, por enquanto, apenas como alguém “que traz uma nova perspectiva espiritual para a série”. Pelos custos elevados, “The Expanse” foi concebida como uma série limitada de 10 episódios. Mas o sucesso obtido, especialmente entre a crítica, animou o Syfy a investir na sua continuação.
Homem-Aranha vira Vingador em novos comerciais de Guerra Infinita
A Marvel divulgou dois novos comerciais de “Vingadores: Guerra Infinita”. Um deles mostra o Visão (Paul Bettany) ferido, enquanto outro revela o Homem-Aranha (Tom Holland) sendo promovido a Vingador pelo Homem de Ferro (Robert Downey Jr.). O filme vai reunir todos os heróis que apareceram nos longas anteriores da Marvel para enfrentar Thanos (Josh Brolin), um titã louco e poderoso, que ameaça destruir o universo. Com direção dos irmãos Russo (“Capitão América: Guerra Civil”), a estreia está marcada para 26 de abril no Brasil.
Site denunciado na Lava-Jato ataca O Mecanismo e ensina “como protestar junto à Netflix”
As fronteiras entre realidade e ficção ruíram neste fim de semana com a estreia da série “O Mecanismo” na Netflix. A série que se inspirou na Operação Lava-Jato para denunciar o maior esquema de corrupção política do Brasil foi atacada neste sábado (24/3) por um site denunciado justamente por receber dinheiro de propina dos indiciados na investigação da Polícia Federal. O site Brasil 247 definiu a série como “criminosa” e está em campanha contra José Padilha, exigindo um pedido de desculpas da Netflix pela produção. “É criminosa a série ‘O Mecanismo’, lançada pela Netflix na antevéspera do que seria a prisão do ex-presidente Lula”, diz um dos muitos textos não assinados publicados pelo site nas últimas horas. “Embora diga ser baseada em fatos reais, a série é uma coleção de preconceitos e ‘fake news’. Entre as cenas mais grotescas, dirigidas pelo brasileiro José Padilha, o doleiro Alberto Youssef frequenta o comitê da campanha do PT, a presidente Dilma Rousseff grava um pronunciamento eleitoral sobre como ‘estocar vento’ e o ex-presidente Lula diz a Michel Temer para não se preocupar com os ‘açougueiros’ da JBS”. Entretanto, ao contrário do filme “Polícia Federal: A Lei É para Todos”, a série não identifica nenhuma pessoa real com os nomes citados nessa reclamação. O texto ainda diz que vai ensinar “como protestar junto à Netflix” e em seguida publica o telefone do serviço de atendimento aos clientes da plataforma. Apesar de não ser assinado, o texto abre aspas para dar voz – e identidade – a um suposto leitor indignado, Alexandre Mendes Santos, que define a série como “lamentável”, especialmente por dizer que “o maior problema do Brasil é a ‘corrupção'”. Ao final, ele conclama “os companheiros” a exigir “da diretoria da empresa um pedido de desculpas à imensa maioria dos brasileiros e brasileiras que foram ultrajados na pela (sic) série de Padilha”. Outros textos similares foram publicados, dando vozes a internautas indignados, que dizem que Padilha é “pior que coxinha” e a série é “fake news”. “Fake news”, por sinal, é usado como slogan vazio, repetido várias vezes na cobertura do site, embora a série, obviamente, seja… uma série. Para ser mais didático: série não produz fake news porque não é noticiário. Já site… Segundo o delator da Operação Lava Jato, Milton Pascowitch, o site da Editora 247, representada pelo jornalista Leonardo Attuch, que foi alvo de condução coercitiva da PF, recebeu dinheiro do esquema de corrupção da Petrobras. Em despacho, o juiz Sérgio Moro identificou que o apoio do site Brasil 247 teria sido comprado pelo ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, João Vaccari Neto. Às vésperas do impeachment, Dilma Rousseff ainda firmou um contrato de RS$ 2,1 milhões com o site. Antes de fundar o Brasil 247, Attuch foi alvo de investigação da Operação Satiagraha, acusado pelo jornalista Mino Pedrosa de usar seu cargo e função na revista IstoÉ Dinheiro para defender o banqueiro Daniel Dantas e o investidor Naji Nahas, também denunciados por corrupção, por meio de… “fake news” – a expressão é usada aqui de forma anacrônica, já que só virou slogan após ser popularizada por Donald Trump no ano passado.
Falta Guillermo Del Toro na continuação genérica de Círculo de Fogo
Alguns filmes não nasceram para gerar franquia. Guillermo del Toro destilou todo seu amor por monstros japoneses (os kaijus) e caprichou mais que deveria no divertidíssimo “Círculo de Fogo”, de 2013, que passa longe de ser apenas um festival de lutas épicas entre criatura colossais e robôs gigantescos. Mas a brincadeira deveria ter parado quando as luzes do cinema acenderam, afinal o diretor não deixou um final aberto e se preocupou em concluir sua história. Embora sempre tenha dito que gostaria de ver mais filmes sobre sua criação, del Toro preferiu fazer “A Forma da Água”, que não rendeu quatro Oscars à toa, incluindo os de Melhor Filme e Direção, a se repetir numa continuação. Pois não deu outra: “Círculo de Fogo: A Revolta” é uma bomba de proporções monstruosas. Os roteiristas Emily Carmichael, Kira Snyder, T.S. Nowlin e o próprio diretor Steven S. DeKnight não sabem o que fazer com a história e demoram mais de uma hora para arrumar uma desculpa tão esfarrapada quanto insólita (no pior sentido da palavra) para trazer os kaijus de volta. E quando eles aparecem, o filme já está acabando e com a plateia morrendo de tédio. Quem paga para ver um “Círculo de Fogo” não espera ver um filme dominada por diálogos clichês, disputas de egos inflados e personagens desinteressantes. Mas é o que a continuação entrega. Ao longo da projeção não há a menor evolução no arco do novo protagonista da franquia, Jake (John Boyega), que não é qualquer personagem, mas o filho – que ninguém sabia que existia – de um dos heróis do original, Stacker Pentecost (o cancelador de apocalipses Idris Elba). Boyega tem carisma e é conhecido do grande público como o Finn de “Star Wars”, mas aqui fica deslocado pelo esforço de demonstrar marra, especialmente quando fica nítido que a personagem mais bacana, e que merecia um tratamento mais caprichado do roteiro, é a menina Amara Namani (a cantora Cailee Spaeny), que rouba todas as cenas e é a melhor coisa do filme. “Círculo de Fogo: A Revolta” também sofre cada vez que Scott Eastwood, o filho do mito, entra em cena com toda sua canastrice. Pior que ele é o modo como Steven S. DeKnight e os outros roteiristas tratam os personagens do filme anterior. Charlie Hunnam, que foi somente o cara principal de “Círculo de Fogo”, não é sequer mencionado; Rinko Kikuchi tem participação especial (de ruim) e sai de repente de cena da forma mais burra (helicóptero deve pousar no meio de uma briga entre dois jaegers?); e Charlie Day deixa de ser um cientista excêntrico para assumir um novo papel, que fica no meio do caminho entre o engraçadinho e o grotesco, algo digno de “Power Rangers”. Até os efeitos especiais de “Círculo de Fogo” não impressionam mais. E têm o agravante de serem apresentados à luz do dia, que tornam perceptíveis qualquer borrão ou falha, quando Guillermo del Toro, de forma mais inteligente, criou um espetáculo visual ao explorar o contraste do excesso de cores com a escuridão da noite. “Círculo de Fogo: A Revolta” é um caso exemplar de como o diretor faz toda a diferença no resultado final de uma obra. Guillermo del Toro deixara claro seus sentimentos pelo material ao transformar um filme de monstros e robôs gigantes em algo que entendemos como cinema de verdade. Já a sequência foi feita no piloto automático. Ao retirar o coração que animava os robôs gigantes, o filme se torna sem emoção, genérico e pequeno como uma produção de streaming para se ver no celular.
Por Trás dos Seus Olhos enfatiza aspecto visual para disfarçar que não há o que ver
No filme “Por Trás dos Seus Olhos”, o diretor Marc Foster aproveita a trama sobre uma mulher que ficou cega num acidente de infância, mas pode voltar a enxergar com as novas possibilidades da medicina atual, para realizar uma experimentação visual bem interessante. Mais do que a história, as imagens é que fazem a força do filme. Em excesso, até. A câmera de Foster leva o público a enxergar embaçado, perder o foco, nublar, sofrer variações e desequilíbrios, que tentam mimetizar a experiência da cegueira, com sua vulnerabilidade, inseguranças e medos. A percepção das luzes, da água, do vento, do movimento e dos ambientes traz grandes sensações e induz à imaginação. Retomar a visão ou parte dela, recuperando a magia das cores e o colorido da vida, produz um efeito deslumbrante. Para isso, é especialmente favorável a locação vibrante de Bangkok, na Tailândia, onde o personagem James (Jason Clarke), marido de Gina (Blake Lively), a portadora da deficiência visual, trabalha no ramo de seguros. A variedade de flores por lá é uma festa! O casal formado por James e Gina, vivendo num país estrangeiro, parece caminhar muito bem, já que a dependência afetiva que ela tem dele é bem resolvida e acolhida por ambos. Só estariam faltando filhos. Mas, com o retorno à visão, aquilo que estava na mente, na imaginação dela, nem sempre se apresenta do modo esperado e nem de forma a ser bem recebido. O conflito, então, tende a se estabelecer, exigindo novos comportamentos e soluções. Um novo relacionamento tem de ser construído. Assim como novas relações vão se estabelecer. A atriz Blake Lively tem um desafio e tanto, no papel da mulher que, de cega, passa progressivamente a ver, e que pode ter recaídas. A câmera se esbalda ao explorar esse universo visual inconstante. Há um tanto de maneirismo nessa exploração visual, ela acaba se colocando à frente dos personagens e da trama. Ou seja, a técnica se torna visível demais. As imagens são bonitas, sedutoras. O ambiente psicológico que se transforma com a visão também prende a atenção do espectador. Enfim, tudo muda. Para chegar a quê? Uma trama previsível de suspense doméstico.
A Livraria oferece uma fábula para amantes de cultura
“A Livraria” é um filme espanhol, dirigido pela cineasta catalã Isabel Coixet (“A Vida Secreta das Palavras”). Mas a verdade é que não poderia ser mais inglês. A trama é uma adaptação do romance homônimo, de Penelope Fitzgerald, e se passa na pequena cidade litorânea inglesa de Hardborough, em 1959. O filme nos transporta ao pequeno mundo daquela localidade, com seus hábitos, costumes, valores provincianos, vestimentas e modo de falar e se comportar com precisão, direção de arte impecável, ótima reconstituição de época. É um charme só. Pelo menos, na aparência. Na realidade, a tal localidade é marcada por um conformismo, uma acomodação e um conservadorismo nada charmosos. Vigoram por lá a ignorância, a inveja e a falsa moral. Que é o que a personagem Florence Green (Emily Mortimer) vai sentir na pele, quando resolve encarar o seu grande sonho de montar uma livraria numa casa muito antiga da família, que lhe restou como herança. Com espírito empreendedor, misturado a uma tenacidade e a uma alma sonhadora, Florence, contra tudo e contra todas as previsões, terá sucesso nessa empreitada maluca. Aí terá de lidar com a hostilidade da mediocridade, a inveja dos acomodados e a sordidez humana que se escondem debaixo das aparências charmosas. Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento, já diz o ditado. O pior é que tudo se dá com base em argumentos ridículos e mesquinhos, mas em defesa da arte. E das verdades inventadas pela fofoca e pela maldade que ela distila. A diretora Isabel Coixet conta que se identificou muito com a personagem Florence do romance, com seu espírito livre, capaz de transformações. De fato, ela levanta a poeira daquela comunidade sonolenta, que se transfigura em hostilidade. Mas também encontra quem já amava a boa literatura, escondido no seu canto, o sr. Brundisk (Bill Nighy), a menina que a ajudará com dedicação e os que descobrem a maravilha da leitura, com trabalhos provocantes, como o de Vladimir Nabokov, em “Lolita”, ou Ray Bradbury, em “Fahrenheit 451”. E ela segue em frente, seguirá sempre, em busca de seus sonhos, suas utopias, que podem se resumir a ideias ingênuas e bem intencionadas. Mas que incomodam da mesma maneira os de alma pequena, onde nada vale a pena, invertendo Fernando Pessoa. A narrativa de “A Livraria” não resiste ao realismo, é fabular. Florence é uma espécie de fada que encontra sua alma gêmea e combate a bruxa: a sra. Gamart (Patricia Clarkson), que personifica a mediocridade maldosa da comunidade. O bem pode estar nos livros e o mal, na inveja e na burocracia, por exemplo. É um bom modo de apontar para a hipocrisia do mundo. Potencializada pelos pequenos e encantadores povoados ingleses, que se materializam no trabalho cinematográfico de uma cineasta talentosa de Barcelona, que venceu o prêmio Goya de Melhor Filme (o Oscar espanhol) com “A Livraria”.
Em Pedaços transforma o ressurgimento da ameaça nazista em thriller
Um thriller assustador, provocador, que faz pensar… e muito. “Em Pedaços”, trabalho do cineasta alemão de ascendência turca Fatih Akin, mexe fundo na ferida do preconceito, no papel da justiça, na violência que gera mais violência, no dilema moral que se apresenta em situações desesperadoras. Muito bem realizado, com um diretor que não só sabe filmar bem, mas sabe o que quer e que debates impulsionar. Foi reconhecido pelo Globo de Ouro e pelo Critics’ Choice Awards como o Melhor Filme Estrangeiro do ano e Diane Kruger foi premiada como Melhor Atriz em Cannes. Foi, ainda, o indicado pela Alemanha para entrar na corrida do Oscar, mas ficou de fora da lista final. A personagem Katja, em brilhante desempenho de Diane Kruger, vê o mundo desabar aos seus olhos quando concretiza que perdeu tudo o que dava sentido à sua existência. Alemã, casada com um turco e com um filho de 7 anos que adorava, vê a vida deles ceifada por uma bomba, colocada no escritório do marido num dia em que o menino estava lá com o pai. Ela descobrirá que a morte brutal não foi atentado de nenhum muçulmano radical, como se pretendia, não tinha a ver com imigrantes ou com bandidos vindos de fora. Foi um produto genuinamente alemão, tão loiro quanto ela: um grupo de neonazistas. Envolvia até uma bela jovem alemã, que ela havia visto estacionar sua bicicleta no local do escritório. Como Katja lidará com essa situação demolidora é o que o filme desenvolverá, numa narrativa pra lá de envolvente e que mantém o suspense até o final. Provoca reações na plateia, que convidam a uma conversa daquelas de pensar na vida, nas sociedades do mundo atual, nos rumos da própria humanidade, nas nossas escolhas e nos nossos destinos. Nas contingências da existência, enfim. O fato de abordar crimes praticados por neonazistas é muito oportuno, num momento em que o mundo parece fazer uma inflexão pela extrema direita e as diversas expressões do fascismo têm sobressaído de onde menos se espera.
Dificilmente haverá sci-fi melhor que Aniquilação em 2018
Nada como um segundo filme para comprovar se um diretor, que acertou de primeira, é mesmo um gênio, ou apenas mais um entre os meros humanos com sorte de principiante. Alex Garland, roteirista que também virou diretor com o ótimo “Ex Machina”, brilhou em sua estreia atrás das câmeras com uma ficção científica cerebral, dramática, existencial, filosófica e feminista. E com a cerebral, dramática, existencial, filosófica e feminista “Aniquilação”, comprova que “Ex Machina” não foi uma jogada de sorte. De fato, seu novo trabalho mostra que a ficção científica moderna precisa de suas ideias e histórias para se renovar como um gênero relevante e inspirador para os fãs e o próprio cinema. Os melhores exemplares do gênero não são as viagens alucinantes da imaginação humana através do tempo e o espaço sem o mínimo compromisso com a realidade. São aqueles que colocam os dois pés no chão, sem que isso esteja evidente e debaixo dos narizes dos espectadores. São filmes que se agarram aos momentos mais discutidos e importantes de suas épocas ou costumes, dores, incertezas e preconceitos que a sociedade e, principalmente, as minorias enfrentam. São aqueles em que vemos nas telas as representações físicas de questões que se passam dentro de nós mesmos. Então é melhor você se desapegar do materialismo e da inquietante busca por respostas, porque “Aniquilação” é, sobretudo, sobre as falhas que tornam as pessoas humanas. Na verdade, sobre nossa capacidade, mesmo que inconsciente, porém inerente, de fazer merda. A autodestruição. E é só quando a alcançamos que resolvemos partir rumo à criação – um ciclo doentio, mas que justifica a existência. Baseado no primeiro livro de uma trilogia de Jeff VanderMeer, “Aniquilação” traz Natalie Portman como Lena, bióloga e veterana do exército que ainda sofre com a provável morte do marido, o militar Kane (Oscar Isaac), desaparecido há um ano após embarcar numa missão secreta. Mas o filme começa mesmo quando ele misteriosamente retorna do nada e entra em coma. Lena descobre que Kane foi o único de diversas expedições a conseguir sair vivo de uma área conhecida como “The Shimmer”, uma muralha ou uma bolha cuja estrutura visual lembra uma mistura entre a aurora boreal e a gosma de “Os Caça-Fantasmas 2”. Mas o que seria aquilo? A origem é extraterrestre? Seria um recado de Deus? Ou a resposta estaria ligada à ciência? Ou ao resultado da ação do Homem contra a natureza? Eis a questão. O importante neste momento é estudar o fenômeno e tentar impedir seu crescimento, afinal pode engolir o mundo todo em pouco tempo. Se isso é bom ou ruim, Lena entrará lá para descobrir ao lado de mais quatro mulheres, entre cientistas, geólogas e militares (Jennifer Jason Leigh, Tessa Thompson, Gina Rodriguez e Tuva Novotny). Você não precisa saber mais nada, se não quiser correr o risco de estragar a experiência de assistir a um filme que vai virar sua cabeça do avesso e te deixar pensando por um bom tempo no que acabou de ver. Ainda aqui? Ok. Daqui pra frente, encare “Aniquilação” como uma espécie de pesadelo em forma de ficção científica. Não tem sustos, mas sobra medo. À primeira vista, a razão passa longe das tentativas de compreender a trama e as sensações provocadas pelo filme começam a se tornar mais importantes que qualquer coisa que você vê na tela. Vale muito mais saber que Lena parte numa jornada rumo a uma nova vida após os erros que cometeu no passado. Não é o que está dentro do Shimmer que importa, mas o que se passa no interior de cada personagem e os segredos que elas mantêm umas das outras – características que geralmente acontecem em épicos, onde o que acontece na mente dos personagens tem uma escala maior que a imensidão de imagens que vemos na tela. “Aniquilação” não é um épico clássico como “Ben-Hur” ou “O Senhor dos Anéis”, mas são épicas as suas motivações e ambições, ao mesmo tempo intelectuais e viscerais. Por outro lado, algumas sequências são momentos de puro horror, que poucos filmes de terror conseguiram atingir. Alex Garland provoca da primeira à última cena e isso representa o talento de um diretor/roteirista com total respeito pela inteligência de seu espectador. Tanto nas discussões em torno da interpretação da história quanto nas referências que deixa durante o filme, nunca de maneira gratuita e óbvia, o cineasta traz à tona influências de “Alien: O Oitavo Passageiro”, de Ridley Scott, “Sob a Pele”, de Jonathan Glazer, “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick, “A Fonte da Vida” e “mãe!”, ambos de Darren Aronofsky, “O Predador”, de John McTiernan, “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, “O Enigma de Outro Mundo”, de John Carpenter, “A Chegada”, de Denis Villeneuve, e “A.I.: Inteligência Artificial”, de Steven Spielberg. E seu ato final rende o clímax mais esquisito do ano. É verdade que os efeitos visuais nessa parte do filme poderiam ser melhores ou apresentar um acabamento mais refinado, mas Alex Garland quer mostrar coisas estranhas e inéditas aos nossos olhos. Na verdade, ao final, ninguém vai questionar se o final tem bons efeitos ou não, ou se foi lento até ali ou não, porque a imersão é tão profunda que aceitamos como real qualquer projeção imaginada pelo cineasta – resultado que não seria possível sem a presença impactante de Natalie Portman, que é uma força da natureza, a fotografia alucinógena de Rob Hardy, e a trilha horripilante de Geoff Barrow e Ben Salisbury. O tempo dirá se “Aniquilação” é melhor que aparenta e merece figurar entre os grandes filmes do século. Ou se será engolido e considerado subproduto das referências de todos os exemplares citados neste texto. Mas é difícil ignorar que o cinema precisa de mais diretores corajosos como Alex Garland, que não deixam o estúdio mexer em seus filmes e propõem desafios às plateias acostumadas a blockbusters geralmente vazios. Ele pagou seu preço, que foi o presidente do estúdio vender a obra para a Netflix, com um lançamento em streaming no Brasil, em vez da merecida tela grande em que atordoaria ainda mais. Isto não muda um fato inescapável: dificilmente haverá sci-fi melhor em 2018.
Maria Madalena traz um olhar feminino para a vida de Jesus
Há tantos filmes sobre Jesus que os realizadores ainda interessados no tema buscam mudar um pouco o foco, o ponto de partida, o recorte ou mesmo o ponto de vista. Temos o caso recente de “Últimos Dias no Deserto”, de Rodrigo García, que fazia um recorte do período de sete dias em que Cristo jejuou e combateu tentações. “Maria Madalena”, de Garth Davis, é um pouco mais ousado em sua proposta: quer contar a história pelo ponto de vista de Madalena. É interessante como, até os dias de hoje, a imagem de Maria Madalena ainda é associada a uma prostituta. Ou, no mínimo, a uma mulher com uma sexualidade muito forte. O próprio filme de Martin Scorsese, “A Última Tentação de Cristo”, em sua adaptação do romance homônimo de Nikos Kazantzákis, misturava a personagem de Madalena com a prostituta que seria apedrejada e é salva pelo nazareno. Por isso, pode causar estranheza ver uma Madalena mais dedicada ao mestre do que os apóstolos Pedro (Chiwetel Ejiofor) e Judas (Tahar Rahim), para citar os que mais aparecem na narrativa. Rooney Mara está ótima como uma Madalena que acredita ser possuída por demônios – seus familiares acham que são os demônios que a impedem de querer se casar com um forte pretendente. Como ela não nutre amor pelo homem, quer mesmo é seguir aquele estranho e intrigante profeta que tem arrebanhado cada vez mais pessoas por onde passa. Mas demora um pouco para aceitarmos Joaquin Phoenix como Jesus, embora, aos poucos, sua abordagem desperte maior envolvimento. Inclusive nas escolhas do filme em mostrá-lo sorrindo, junto com Madalena, em cenas que compartilham juntos. Passa uma leveza que normalmente não se vê em obras que tratam da vida de Jesus. Até as cenas da crucificação são rápidas, o que não quer dizer que não sejam dolorosas. O que também parece novidade é o diferencial no que se refere à ressurreição de Jesus, trazendo dúvidas sobre seu ressurgimento real e material do sepulcro. Afinal, ele aparece apenas para Madalena e é ela a portadora da boa nova, de que Jesus vive – ao contrário dos evangelhos canônicos, onde ela é apenas a primeira a ver Jesus ressuscitado. Algo que fica no ar é um certo clima de amor romântico não consumado que parece haver entre Madalena e Jesus. Porém, este tipo de impressão pode dizer mais do espectador do que filme em si, já que não é de maneira nenhuma explicitado. Talvez a impressão seja consequência da beleza esplendorosa de Rooney Mara, de seu olhar e de seu sorriso, ao olhar para o mestre. Longe de sugerir volúpia, mas sim uma figura cheia de energia e amor, o que pode confundir. De todo modo, esse tipo de confusão está de acordo com certo diálogo entre Pedro e outro apóstolo: os dois acreditam que a entrada de Madalena no corpo de apóstolos não seria bom para o grupo. Quanto à narrativa, é bom termos um filme narrado sem pressa, sem um particular interesse em conquistar um grande público. É um trabalho quase sensorial, no modo como brinca com a luz e com os olhares e os diálogos lentos dos personagens. “Maria Madalena” pode até não ser um grande filme, mas certamente está bem longe de ser uma obra ordinária ou esquecível, e ainda tem como vantagem o fato de dialogar com o atual momento de empoderamento feminino.












