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Filme|24 de março de 2018

Por Trás dos Seus Olhos enfatiza aspecto visual para disfarçar que não há o que ver

No filme “Por Trás dos Seus Olhos”, o diretor Marc Foster aproveita a trama sobre uma mulher que ficou cega num acidente de infância, mas pode voltar a enxergar com as novas possibilidades da medicina atual, para realizar uma experimentação visual bem interessante. Mais do que a história, as imagens é que fazem a força do filme. Em excesso, até.

A câmera de Foster leva o público a enxergar embaçado, perder o foco, nublar, sofrer variações e desequilíbrios, que tentam mimetizar a experiência da cegueira, com sua vulnerabilidade, inseguranças e medos. A percepção das luzes, da água, do vento, do movimento e dos ambientes traz grandes sensações e induz à imaginação. Retomar a visão ou parte dela, recuperando a magia das cores e o colorido da vida, produz um efeito deslumbrante. Para isso, é especialmente favorável a locação vibrante de Bangkok, na Tailândia, onde o personagem James (Jason Clarke), marido de Gina (Blake Lively), a portadora da deficiência visual, trabalha no ramo de seguros. A variedade de flores por lá é uma festa!

O casal formado por James e Gina, vivendo num país estrangeiro, parece caminhar muito bem, já que a dependência afetiva que ela tem dele é bem resolvida e acolhida por ambos. Só estariam faltando filhos. Mas, com o retorno à visão, aquilo que estava na mente, na imaginação dela, nem sempre se apresenta do modo esperado e nem de forma a ser bem recebido. O conflito, então, tende a se estabelecer, exigindo novos comportamentos e soluções. Um novo relacionamento tem de ser construído. Assim como novas relações vão se estabelecer.

A atriz Blake Lively tem um desafio e tanto, no papel da mulher que, de cega, passa progressivamente a ver, e que pode ter recaídas. A câmera se esbalda ao explorar esse universo visual inconstante. Há um tanto de maneirismo nessa exploração visual, ela acaba se colocando à frente dos personagens e da trama. Ou seja, a técnica se torna visível demais.

As imagens são bonitas, sedutoras. O ambiente psicológico que se transforma com a visão também prende a atenção do espectador. Enfim, tudo muda. Para chegar a quê? Uma trama previsível de suspense doméstico.

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Antonio Carlos Egypto

Antonio Carlos Egypto é psicólogo educacional e clínico, sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS - Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de "Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar","No Meu Corpo Mando Eu","Sexo, Prazeres e Riscos", "Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão" e "Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante", entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Participa da Confraria Lumière, é associado da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e edita o blog Cinema com Recheio

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