
Instagram/Jorge & Mateus
Prefeitura de SP gastou R$ 3,2 milhões em show privado de Jorge & Mateus
Despesa não apareceu no Diário Oficial e só foi descoberta em documentos da SPTuris
Prefeitura bancou estrutura de show privado
A Prefeitura de São Paulo gastou R$ 3,2 milhões com a estrutura de um show privado da dupla Jorge & Mateus, realizado no estádio do Pacaembu em dezembro de 2025, sem publicar a despesa no Diário Oficial do município. A revelação foi feita pelo jornalista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, no sábado (7/11), e levou o prefeito Ricardo Nunes (MDB) a determinar uma investigação sobre os pagamentos. O evento tinha ingressos vendidos por até R$ 1,1 mil.
Como o dinheiro público foi utilizado?
O show aconteceu em 13 de dezembro de 2025, durante a turnê comemorativa dos 20 anos de carreira da dupla sertaneja. Diferentemente das apresentações gratuitas contratadas por prefeituras, o evento era organizado pela iniciativa privada, com cobrança de ingressos. O município não pagou o cachê de Jorge & Mateus, mas assumiu despesas que normalmente fazem parte dos custos de produção de um espetáculo.
Segundo os documentos obtidos por Vecchioli, apenas o palco custou R$ 967 mil aos cofres públicos, enquanto os painéis de LED consumiram outros R$ 750 mil. A prefeitura também bancou serviços de segurança privada, bombeiros civis, ambulâncias, atendimento médico, gradis, tendas e produção executiva. O relatório fotográfico usado para comprovar a execução dos serviços inclui estruturas dos bares que comercializavam bebidas alcoólicas durante o evento.
Despesas ficaram fora do Diário Oficial
O jornalista descobriu os pagamentos durante uma análise de milhares de ordens de serviço da São Paulo Turismo (SPTuris), empresa municipal responsável pela contratação de serviços para eventos. Na documentação, o show aparece identificado como “J E M 20 anos”, sem mencionar nominalmente a dupla. A apresentação foi reconhecida pelas fotografias anexadas à ordem de serviço nº 10.170.
A investigação também revelou que os documentos disponíveis ao público não identificam quem solicitou o apoio financeiro, quem autorizou os gastos ou quais critérios levaram a Secretaria Municipal de Turismo a beneficiar aquela apresentação. A reportagem não encontrou registros específicos sobre eventuais contrapartidas exigidas dos organizadores.
O mecanismo utilizado permite que secretarias municipais contratem a SPTuris para oferecer infraestrutura a festas comunitárias, eventos beneficentes e atrações consideradas estratégicas para o turismo. A empresa pública, por sua vez, contrata fornecedores para executar os serviços.
A modalidade passou a beneficiar grandes espetáculos particulares em São Paulo. O levantamento de Vecchioli identificou outros dois shows privados que receberam apoio milionário da prefeitura em 2025: apresentações da turnê “Tardezinha”, de Thiaguinho. Nos registros municipais, os eventos aparecem apenas com a abreviação “TDZ”, e sua identificação também dependeu das fotografias anexadas.
Prefeitura mudou de posição após denúncia
Antes da publicação da reportagem, a Secretaria Municipal de Turismo defendeu a legalidade do financiamento. A pasta afirmou que o apoio a eventos capazes de atrair visitantes, movimentar a economia e gerar receitas para o município faz parte de suas atribuições, previstas no Decreto Municipal 61.244/2022 e no Plano de Turismo Municipal 2024–2029. Também sustentou que os procedimentos legais haviam sido cumpridos.
A posição mudou após a revelação dos gastos. Na manhã de sábado, Ricardo Nunes determinou a abertura de uma sindicância na Controladoria Geral do Município para investigar os valores desembolsados.
“O prefeito Ricardo Nunes determinou a abertura de sindicância na Controladoria Geral do Município (CGM) para apurar os valores e disse que, ao fim da investigação, a Prefeitura de São Paulo entrará com uma ação de regresso para que os culpados sejam responsabilizados e devolvam recursos usados indevidamente”, diz comunicado, que representa uma mudança de postura da administração municipal.
O que dizem Jorge & Mateus?
A dupla informou, por meio de nota, que o apoio municipal havia sido formalizado de acordo com as diretrizes da política de turismo da capital. Os representantes dos artistas ressaltaram que os valores divulgados correspondiam à contratação de serviços e não ao pagamento de cachê aos cantores ou à produção do evento.
Segundo a manifestação, a apresentação reuniu aproximadamente 25 mil pessoas e gerou cerca de 5 mil postos de trabalho temporários. Os organizadores também informaram que 6.752 ingressos solidários foram destinados ao público e que a iniciativa arrecadou quase sete toneladas de alimentos, posteriormente doados à Central Única das Favelas (CUFA).
A nota citou eventos como o Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1, o Lollapalooza e o The Town como exemplos de iniciativas que recebem diferentes modalidades de apoio público. A dupla, porém, não esclareceu quem solicitou o custeio da estrutura à prefeitura.
Gasto supera cachê de apresentações públicas
Os R$ 3,2 milhões desembolsados pela Prefeitura de São Paulo representam mais que o triplo do cachê pago aos sertanejos por uma apresentação gratuita de Réveillon em Salvador, realizada poucos dias depois. A comparação evidencia a diferença entre contratar os artistas para um evento aberto à população e custear a infraestrutura de um espetáculo cuja exploração comercial permaneceu com a iniciativa privada, que cobrou ingressos.
Segundo o levantamento do Metrópoles, o maior cachê público recente de Jorge & Mateus foi de R$ 1,5 milhão, pago pela Prefeitura de São Luís, no Maranhão, por uma apresentação no Carnaval. O valor habitual das contratações da dupla gira em torno de R$ 800 mil, com variações em datas de grande procura.
No Pacaembu, o gasto público não financiou diretamente os artistas, mas bancou os custos operacionais de um show comercial. Esse benefício econômico, a ausência de publicidade específica e a falta de identificação dos responsáveis pela autorização dos pagamentos estão entre as questões levantadas pela reportagem que motivou a sindicância municipal.
Aberto para posicionamentos
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.