
Divulgação/Netflix
Dom de Iludir lembra golpe real de R$ 725 milhões contra colecionadora de arte
Série da Netflix tem semelhanças com crime arquitetado contra viúva de marchand no Rio, mas diretor não confirma que caso inspirou a produção
Ficção lembra crime milionário
A série brasileira “Dom de Iludir”, que estreou na Netflix na quarta-feira (28/10), chamou atenção pelas semelhanças de sua história com um golpe real de R$ 725 milhões aplicado contra a colecionadora de arte Geneviève Boghici, viúva do marchand Jean Boghici. Assim como na trama estrelada por Marieta Severo, Alice Wegmann e Nanda Costta, o caso real envolveu uma mãe milionária, sua filha, falsas promessas espirituais e um acervo de quadros valiosos.
O que diz o diretor?
Em entrevista à jornalista Letícia Perdigão, do Metrópoles, durante a première da série no Rio de Janeiro, Mauro Mendonça Filho reconheceu que histórias ficcionais podem incorporar referências da realidade, mas evitou estabelecer uma ligação direta com o caso da família Boghici. “Todas as histórias, de alguma forma, têm uma inspiração, seja direta ou indireta”, afirmou.
Mauro explicou que recebeu o roteiro já desenvolvido e orientou a equipe a tratar a narrativa como uma obra independente de acontecimentos reais. Segundo ele, a recomendação aos profissionais envolvidos era esquecer qualquer possível relação com a realidade. A Netflix também não apresenta “Dom de Iludir” como uma adaptação de fatos reais. A produção é uma criação original de Diane Maia (“O Meu Sangue Ferve por Você”) e Mirna Nogueira (“Meu Nome É Gal”).
O golpe contra a família Boghici
O caso que deu origem às comparações começou em 2020 e foi revelado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro em agosto de 2022, durante a Operação Sol Poente. Geneviève Boghici, então com 82 anos, foi abordada por mulheres que se apresentavam como videntes e afirmavam que sua filha, Sabine Coll Boghici, corria perigo de morte. A idosa foi convencida de que precisava pagar por trabalhos espirituais para impedir uma tragédia. Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, a própria filha havia elaborado o esquema com a ajuda de Rosa Stanesco Nicolau, conhecida como Mãe Valéria de Oxóssi, e integrantes da família da companheira.
A investigação revelou que Sabine fornecia informações pessoais sobre seus familiares às falsas videntes para tornar as previsões mais convincentes. Geneviève realizou oito transferências bancárias para pagar pelos supostos serviços espirituais. O golpe avançou para a retirada de joias e obras de arte herdadas de Jean Boghici, morto em 2015. Entre os quadros subtraídos estavam trabalhos de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Rubens Gerchman e Cícero Dias. Uma das peças recuperadas pela polícia foi “Sol Poente” (1929), de Tarsila, avaliada em aproximadamente R$ 250 milhões. O Ministério Público também denunciou que a idosa foi mantida em cárcere privado no próprio apartamento, em Copacabana, onde sofreu ameaças, agressões e privação de alimentos.
Sabine e outros cinco envolvidos foram denunciados em setembro de 2022 por crimes como estelionato, extorsão, roubo, associação criminosa e cárcere privado. A filha da colecionadora morreu em setembro de 2023, aos 49 anos, após cair de um prédio no Leblon, quando respondia ao processo em liberdade. A morte foi inicialmente registrada como suicídio, mas a investigação foi reaberta após questionamentos de sua mãe. Em maio de 2024, cinco integrantes do grupo foram condenados em primeira instância. Rosa Stanesco recebeu a maior pena, de 45 anos e nove meses de prisão, numa sentença passível de recurso.
Quais são as semelhanças com a série?
Em “Dom de Iludir”, Marieta Severo interpreta Lúcia Rossetti, uma colecionadora de arte da elite carioca que mantém uma relação de controle sobre a filha Maíra (Alice Wegmann). A jovem sofre de uma doença misteriosa, e a mãe procura alternativas para curá-la. É nesse contexto que surge Irina Petrov (Nanda Costta), uma terapeuta espiritual que oferece tratamentos energéticos e acaba envolvida num golpe contra a família.
A aproximação com o caso Boghici vai além das obras de arte e das promessas espirituais. Tanto a personagem Maíra quanto Sabine mantêm coleções de bonecas, uma particularidade que chamou atenção nas comparações. A própria estrutura familiar apresenta paralelos: Lúcia remete à viúva Geneviève, Maíra ocupa o lugar da filha superprotegida e Irina desempenha um papel semelhante ao da falsa vidente Rosa Stanesco.
A principal diferença está no desenvolvimento da narrativa. No caso real, a investigação apontou Sabine como uma das responsáveis pela fraude contra a própria mãe. Na ficção, os conflitos entre os Rossetti e os Petrov envolvem segredos familiares, disputas por herança e interesses que ultrapassam o golpe espiritual. As correspondências entre os personagens foram levantadas inicialmente pelo jornalista João Arruda, do portal Tempo Real RJ, em reportagem publicada em setembro, antes da estreia da produção.
Melodrama de dez episódios
A Netflix apresenta “Dom de Iludir” como um melodrama familiar com elementos de suspense. Mirna Nogueira também assina como roteirista-chefe, enquanto Mauro Mendonça Filho, responsável por “Verdades Secretas”, comanda a direção geral. Os episódios também têm direção de Gabriela Amaral Almeida, cineasta de “O Animal Cordial” e “A Sombra do Pai”, e Daniela Carvalho, de “Sintonia”.
O elenco inclui José de Abreu como Bóris Petrov, pai de Irina, além de Felipe Camargo, Luciana Paes, Laila Garin, Heloisa Jorge e Allan Souza Lima. A produção da Conspiração também recupera a canção “Dom de Iludir”, composta por Caetano Veloso e lançada em 1977, numa nova gravação de Liniker feita especialmente para a série.