
Divulgação/Go Up Entertainment
Dark Horse pode ficar fora dos cinemas após derrota de Flávio Bolsonaro
Cinebiografia de Jair Bolsonaro pode ser lançada diretamente no streaming diante de investigação sobre financiamento e risco de bloqueio das receitas
Estreia nos cinemas ameaçada
O filme de maior orçamento do cinema brasileiro pode ficar sem exibição nos cinemas brasileiros. “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro estrelada por Jim Caviezel (“A Paixão de Cristo”), tendo a ser descartado ou ir para o streaming após a derrota de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na eleição presidencial. A distribuidora Europa Filmes já considera as possibilidades diante do avanço das investigações sobre seu financiamento pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Segundo a coluna de Malu Gaspar, publicada neste sábado (31/10) no jornal O Globo, a previsão de estreia no 1º semestre de 2027 não está garantida.
Streaming vira alternativa
O longa já havia sido adiado para 2027 devido às pendências regulatórias e ao receio de judicialização durante a campanha eleitoral. A Europa Filmes pretendia preparar um lançamento amplo, com centenas de salas e cópias dubladas para o público brasileiro. O plano, entretanto, tornou-se incerto com o resultado das urnas e a continuidade das investigações sobre seu financiamento. A própria distribuidora já enfrentava resistência de grandes redes de cinema, preocupadas com a viabilidade comercial do projeto e com possíveis confrontos políticos nas salas de exibição.
A produção já obteve o Registro de Obra Estrangeira, mas ainda precisa cumprir outras etapas para chegar às salas brasileiras, já que foi filmado sem respeitar os procedimentos obrigatórios. Uma das saídas em discussão é negociar a distribuição com um serviço de streaming, que não depende dos mesmos documentos exigidos pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). Um integrante do governo Lula ouvido por Malu Gaspar confirmou que a ausência de regulamentação específica das plataformas permitiria a distribuição digital, sem os mesmos registros necessários para a exibição cinematográfica.
Risco de bloqueio das receitas
A maior preocupação da Europa Filmes, entretanto, é financeira. Segundo a coluna, a distribuidora teme que a Justiça determine o bloqueio de eventuais receitas de “Dark Horse” como parte das investigações sobre o Banco Master. Uma medida desse tipo poderia comprometer o investimento necessário para a campanha publicitária e a distribuição do filme.
A hipótese também é considerada por investigadores que acompanham o caso. “Se houvesse lucro com o filme, ele pode ser bloqueado até o levantamento da liquidação do Master”, afirmou uma fonte ligada à apuração. Ainda não existe uma decisão judicial determinando a retenção dos rendimentos da obra, mas a investigação sobre o caminho do dinheiro já confirmou o uso do esquema financeiro de Daniel Vorcaro para realizar depósitos no fundo supostamente usado para financiar o filme.
O problema representa uma mudança nas perspectivas comerciais do longa. Antes das investigações, a Europa Filmes trabalhava com a possibilidade de lançá-lo em pelo menos 650 salas brasileiras, numa operação de distribuição de grande porte. A incerteza sobre o destino das receitas torna esse investimento arriscado.
Financiamento sob investigação
O filme se transformou num dos principais problemas da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro após o site Intercept Brasil divulgar, em maio, áudios em que o senador cobrava pagamentos de Daniel Vorcaro para financiar a produção. A revelação levou à abertura de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) para investigar suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Flávio e seu irmão Eduardo Bolsonaro estão entre os investigados.
Uma das principais linhas de apuração envolve US$ 12,3 milhões enviados por determinação de Vorcaro ao fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos e administrado por uma estrutura ligada ao advogado Paulo Calixto, representante de Eduardo Bolsonaro. Os pagamentos foram realizados em sete remessas pela Entre Investimentos, por intermédio do operador financeiro Antônio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, a pedido de Vorcaro. Mineiro fechou acordo de colaboração premiada homologado em setembro pelo ministro André Mendonça.
A Polícia Federal procura estabelecer o destino do dinheiro e verificar se parte dos recursos pode ter financiado a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Um relatório divulgado em outubro identificou uma enorme divergência contábil entre os US$ 12,33 milhões enviados ao fundo americano e os US$ 2,81 milhões que tiveram entrada no Brasil comprovada para a produção, via contratos de câmbio apresentados pela produtora Go Up Entertainment. A diferença, de aproximadamente US$ 9,5 milhões, ainda precisa ser esclarecida. A análise deve considerar também os pagamentos que a empresa afirma ter realizado diretamente no exterior.
Gastos de R$ 75 milhões levantam suspeitas
Flávio Bolsonaro nega irregularidades e sustenta que o financiamento foi uma operação privada. A Go Up afirma que todos os recursos recebidos foram utilizados na produção e que a prestação de contas apresentada à Justiça documenta os investimentos.
Não houve prestação de contas, apenas a entrega de uma perícia particular, que estimou o custo total de “Dark Horse” em US$ 13,39 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 75 milhões na cotação utilizada no levantamento. O documento, porém, não encerrou as dúvidas sobre os gastos. Segundo a coluna de Malu Gaspar, 72% das despesas declaradas ocorreram nos Estados Unidos, embora a maior parte das filmagens tenha sido realizada no Brasil.
Um dos pontos questionados é a destinação de US$ 2,68 milhões à chamada “soft production”, etapa inicial de desenvolvimento conceitual do projeto. O valor representa 20% de todo o orçamento apresentado. Cinco produtores consultados anteriormente pela jornalista consideraram o montante muito superior ao padrão do mercado, em que essa fase costuma consumir de 3% a 5% dos recursos. Os gastos combinados com desenvolvimento e pré-produção nos Estados Unidos também superaram o custo das filmagens realizadas no Brasil.
A Polícia Federal pretende confrontar essas despesas com os contratos, comprovantes bancários e registros de remessas internacionais. A Go Up entregou mais de 20 mil páginas de documentos, incluindo contratos de câmbio, notas fiscais e recibos de despesas operacionais. O material ainda não foi integralmente analisado.
Bilheteria projetada chegava a US$ 100 milhões
Outro aspecto que despertou a atenção dos investigadores foi o plano de negócios apresentado pelo publicitário Thiago Miranda, responsável por articular parte do financiamento. O documento previa três cenários de bilheteria para “Dark Horse”: US$ 45 milhões no pessimista, US$ 70 milhões no conservador e US$ 100 milhões no otimista.
As cifras ultrapassavam largamente os resultados dos maiores sucessos brasileiros de cinema e, no cenário mais otimista, colocariam a cinebiografia no patamar de grandes lançamentos de Hollywood. O relatório da PF comparou as projeções à arrecadação de “Minha Mãe é uma Peça 3” (2019), maior bilheteria da história do Brasil, e apontou uma distância significativa em relação aos parâmetros históricos do mercado nacional.
Para os investigadores, a discrepância entre o desempenho esperado e os resultados efetivos do mercado reforça a necessidade de examinar a viabilidade econômica e a finalidade do financiamento.
Perícia deve rastrear os pagamentos
Nas próximas semanas, a PF pretende aprofundar o exame contábil dos documentos apresentados pela Go Up e das transferências internacionais. O objetivo é determinar se existe correspondência financeira direta entre as sete remessas de US$ 12,3 milhões ao Havengate e os pagamentos posteriormente realizados para a produção do longa.
A investigação também procura esclarecer a compatibilidade dos gastos declarados com os serviços efetivamente contratados. A análise poderá indicar se o orçamento corresponde às atividades cinematográficas realizadas ou se parte dos recursos teve destinação diferente da informada pelos responsáveis.
Dirigido pelo americano Cyrus Nowrasteh, “Dark Horse” foca a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência em 2018 e o atentado a faca sofrido pelo então candidato em Juiz de Fora. A produção da Go Up Entertainment, com roteiro do deputado Mario Frias (PL-SP), foi registrada na Ancine com o título brasileiro “O Azarão”. Antes desta obra, a empresa nunca tinha realizado longas-metragens.