
YouTube/Cineclube Brasil
Morre Solano Ribeiro, criador dos festivais de MPB na TV, aos 87 anos
Produtor comandou festivais históricos dos anos 1960 que consagraram Elis Regina, Chico Buarque, Geraldo Vandré e o tropicalismo
Morte após tratamento contra câncer
O produtor musical Solano Ribeiro de Faria morreu na madrugada deste sábado (31/10), aos 87 anos, em São Paulo. Responsável pela criação dos festivais de Música Popular Brasileira na televisão, que transformaram a carreira de artistas como Elis Regina, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Gilberto Gil e Caetano Veloso, ele estava internado numa clínica e recebia cuidados paliativos após enfrentar o câncer pela terceira vez. A morte foi confirmada pela família e pela Rádio Cultura Brasil, onde apresentava um programa semanal dedicado à música brasileira.
Do teatro à criação dos festivais
Nascido em São Paulo, Solano começou a carreira artística no final dos anos 1950, quando ingressou na Escola de Arte Dramática e se tornou vocalista da banda de rock The Avallons. Filho da poeta Idelma Ribeiro de Faria, também trabalhou como ator na companhia de Cacilda Becker e participou da montagem de “Morte e Vida Severina”. Sua entrada na televisão aconteceu a convite de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que o levou para a TV Excelsior. Em 1963, passou a coordenar a programação da emissora, onde desenvolveu especiais musicais.
Em 1965, idealizou e dirigiu o 1º Festival Nacional da Música Popular Brasileira, que projetou Elis Regina nacionalmente com a interpretação de “Arrastão”, composição de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. A apresentação se tornou um marco da televisão brasileira e ajudou a consolidar a expressão MPB como identificação de uma nova geração de compositores e intérpretes. O formato transformou canções inéditas em acontecimentos televisivos, com disputas acompanhadas pelo público e resultados que impulsionavam imediatamente as vendas de discos.
As finais que paravam o país
Solano deixou a Excelsior e levou o formato para a TV Record, que realizou em 1966 uma das competições mais lembradas da história da música brasileira. O festival terminou com um empate entre “A Banda”, de Chico Buarque, apresentada pelo compositor com Nara Leão, e “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, defendida por Jair Rodrigues. As duas canções mobilizaram torcidas e representavam diferentes tendências da música nacional, da delicadeza narrativa de Chico ao discurso social de Vandré.
A edição seguinte, em 1967, tornou-se ainda mais importante para a transformação da MPB. O festival consagrou “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinan, interpretada pelo compositor com Marília Medalha e o Quarteto Novo. Em 2º lugar ficou “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil com Os Mutantes, seguida de “Roda Viva”, de Chico Buarque com o MPB4, e “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso com os Beat Boys, em 4º. As apresentações de Gil e Caetano incorporaram guitarras elétricas, instrumentos associados à Jovem Guarda e ao rock internacional, num momento de resistência de setores da MPB a essa influência. Solano incentivou a abertura do festival às novas sonoridades, ajudando a preparar o terreno para o Tropicalismo.
O evento também ficou marcado pelas vaias do público, pela intensidade das disputas e pelo episódio em que Sérgio Ricardo quebrou o violão durante a apresentação de “Beto Bom de Bola”. Esses acontecimentos foram recuperados no documentário “Uma Noite em 67” (2010), de Renato Terra e Ricardo Calil, que reuniu imagens de arquivo e depoimentos dos protagonistas. Solano relacionava a força dos festivais à situação política do país durante a ditadura militar. “As músicas com uma mensagem política tinham uma receptividade muito grande”, afirmou em entrevista à TV Brasil em 2016, ao explicar como a produção musical se transformou numa forma de expressão diante da repressão.
Ditadura, exílio e novos festivais
A trajetória do produtor também foi afetada pelo regime militar. Em 1969, deixou o Brasil e passou uma temporada na Alemanha, onde trabalhou para a emissora Südwestfunk. No exterior, dirigiu documentários culturais sobre nomes como Gilberto Gil e a produtora teatral Ruth Escobar. Retornou em 1972, novamente a convite de Boni, para organizar a 7ª e última edição do Festival Internacional da Canção da TV Globo, que abriu espaço para artistas como Maria Alcina, Raul Seixas, Fagner, Belchior e Ednardo.
Em 1976, já na TV Tupi, realizou outro festival, vencido por Fagner com “Quem Me Levará Sou Eu”, de Dominguinhos. Também produziu a 1ª Bienal do Samba da Record, que consagrou “Lapinha”, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, na voz de Elis Regina. Fora da televisão, trabalhou com produção fonográfica e participou da fundação da Rádio Antena 1, em São Paulo.
A busca por novos talentos
Solano continuou a promover a música brasileira nas décadas seguintes. Em 2000, participou da realização do “Festival da Música Brasileira”, exibido pela Globo, e cinco anos depois dirigiu o “Festival Cultura — A Nova Música do Brasil”, na TV Cultura. Em 2003, publicou “Prepare Seu Coração: A História dos Grandes Festivais”, livro de memórias sobre os bastidores das competições, posteriormente ampliado e relançado em 2018 como “Prepare o Seu Coração — Histórias da MPB”.
Desde 2006, apresentava o programa semanal “Solano Ribeiro e a Nova Música do Brasil”, na Rádio Cultura Brasil, voltado à divulgação de compositores e intérpretes de diferentes regiões e estilos. A atração recebeu dois prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), em 2006 e 2012. Ao anunciar sua morte, a emissora lamentou: “O Brasil perde hoje um dos nomes mais importantes da história da MPB”.
Em uma de suas últimas entrevistas, concedida a Carlos Bozzo Junior, da Folha de S.Paulo, em julho de 2025, Solano demonstrou preocupação com a perda de espaço da música brasileira nos meios de comunicação. “A MPB está morrendo”, afirmou. Embora reconhecesse a qualidade de artistas contemporâneos como Tulipa Ruiz, Céu, Tiê, BaianaSystem e Lenine, criticava a falta de oportunidades para novos talentos alcançarem o grande público. Aos 86 anos, ainda buscava patrocínio para o Projeto 60, iniciativa destinada a recuperar a história dos festivais e criar espaços de apresentação para uma nova geração de músicos brasileiros.