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Música,  TV|31 de outubro de 2026

Morre Solano Ribeiro, criador dos festivais de MPB na TV, aos 87 anos

Produtor comandou festivais históricos dos anos 1960 que consagraram Elis Regina, Chico Buarque, Geraldo Vandré e o tropicalismo

Pipoque pelo Texto ocultar
1 Morte após tratamento contra câncer
2 Do teatro à criação dos festivais
3 As finais que paravam o país
4 Ditadura, exílio e novos festivais
5 A busca por novos talentos
6 Mais Pipoca

Morte após tratamento contra câncer

O produtor musical Solano Ribeiro de Faria morreu na madrugada deste sábado (31/10), aos 87 anos, em São Paulo. Responsável pela criação dos festivais de Música Popular Brasileira na televisão, que transformaram a carreira de artistas como Elis Regina, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Gilberto Gil e Caetano Veloso, ele estava internado numa clínica e recebia cuidados paliativos após enfrentar o câncer pela terceira vez. A morte foi confirmada pela família e pela Rádio Cultura Brasil, onde apresentava um programa semanal dedicado à música brasileira.

Do teatro à criação dos festivais

Nascido em São Paulo, Solano começou a carreira artística no final dos anos 1950, quando ingressou na Escola de Arte Dramática e se tornou vocalista da banda de rock The Avallons. Filho da poeta Idelma Ribeiro de Faria, também trabalhou como ator na companhia de Cacilda Becker e participou da montagem de “Morte e Vida Severina”. Sua entrada na televisão aconteceu a convite de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que o levou para a TV Excelsior. Em 1963, passou a coordenar a programação da emissora, onde desenvolveu especiais musicais.

Em 1965, idealizou e dirigiu o 1º Festival Nacional da Música Popular Brasileira, que projetou Elis Regina nacionalmente com a interpretação de “Arrastão”, composição de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. A apresentação se tornou um marco da televisão brasileira e ajudou a consolidar a expressão MPB como identificação de uma nova geração de compositores e intérpretes. O formato transformou canções inéditas em acontecimentos televisivos, com disputas acompanhadas pelo público e resultados que impulsionavam imediatamente as vendas de discos.

As finais que paravam o país

Solano deixou a Excelsior e levou o formato para a TV Record, que realizou em 1966 uma das competições mais lembradas da história da música brasileira. O festival terminou com um empate entre “A Banda”, de Chico Buarque, apresentada pelo compositor com Nara Leão, e “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, defendida por Jair Rodrigues. As duas canções mobilizaram torcidas e representavam diferentes tendências da música nacional, da delicadeza narrativa de Chico ao discurso social de Vandré.

A edição seguinte, em 1967, tornou-se ainda mais importante para a transformação da MPB. O festival consagrou “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinan, interpretada pelo compositor com Marília Medalha e o Quarteto Novo. Em 2º lugar ficou “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil com Os Mutantes, seguida de “Roda Viva”, de Chico Buarque com o MPB4, e “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso com os Beat Boys, em 4º. As apresentações de Gil e Caetano incorporaram guitarras elétricas, instrumentos associados à Jovem Guarda e ao rock internacional, num momento de resistência de setores da MPB a essa influência. Solano incentivou a abertura do festival às novas sonoridades, ajudando a preparar o terreno para o Tropicalismo.

O evento também ficou marcado pelas vaias do público, pela intensidade das disputas e pelo episódio em que Sérgio Ricardo quebrou o violão durante a apresentação de “Beto Bom de Bola”. Esses acontecimentos foram recuperados no documentário “Uma Noite em 67” (2010), de Renato Terra e Ricardo Calil, que reuniu imagens de arquivo e depoimentos dos protagonistas. Solano relacionava a força dos festivais à situação política do país durante a ditadura militar. “As músicas com uma mensagem política tinham uma receptividade muito grande”, afirmou em entrevista à TV Brasil em 2016, ao explicar como a produção musical se transformou numa forma de expressão diante da repressão.

Ditadura, exílio e novos festivais

A trajetória do produtor também foi afetada pelo regime militar. Em 1969, deixou o Brasil e passou uma temporada na Alemanha, onde trabalhou para a emissora Südwestfunk. No exterior, dirigiu documentários culturais sobre nomes como Gilberto Gil e a produtora teatral Ruth Escobar. Retornou em 1972, novamente a convite de Boni, para organizar a 7ª e última edição do Festival Internacional da Canção da TV Globo, que abriu espaço para artistas como Maria Alcina, Raul Seixas, Fagner, Belchior e Ednardo.

Em 1976, já na TV Tupi, realizou outro festival, vencido por Fagner com “Quem Me Levará Sou Eu”, de Dominguinhos. Também produziu a 1ª Bienal do Samba da Record, que consagrou “Lapinha”, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, na voz de Elis Regina. Fora da televisão, trabalhou com produção fonográfica e participou da fundação da Rádio Antena 1, em São Paulo.

A busca por novos talentos

Solano continuou a promover a música brasileira nas décadas seguintes. Em 2000, participou da realização do “Festival da Música Brasileira”, exibido pela Globo, e cinco anos depois dirigiu o “Festival Cultura — A Nova Música do Brasil”, na TV Cultura. Em 2003, publicou “Prepare Seu Coração: A História dos Grandes Festivais”, livro de memórias sobre os bastidores das competições, posteriormente ampliado e relançado em 2018 como “Prepare o Seu Coração — Histórias da MPB”.

Desde 2006, apresentava o programa semanal “Solano Ribeiro e a Nova Música do Brasil”, na Rádio Cultura Brasil, voltado à divulgação de compositores e intérpretes de diferentes regiões e estilos. A atração recebeu dois prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), em 2006 e 2012. Ao anunciar sua morte, a emissora lamentou: “O Brasil perde hoje um dos nomes mais importantes da história da MPB”.

Em uma de suas últimas entrevistas, concedida a Carlos Bozzo Junior, da Folha de S.Paulo, em julho de 2025, Solano demonstrou preocupação com a perda de espaço da música brasileira nos meios de comunicação. “A MPB está morrendo”, afirmou. Embora reconhecesse a qualidade de artistas contemporâneos como Tulipa Ruiz, Céu, Tiê, BaianaSystem e Lenine, criticava a falta de oportunidades para novos talentos alcançarem o grande público. Aos 86 anos, ainda buscava patrocínio para o Projeto 60, iniciativa destinada a recuperar a história dos festivais e criar espaços de apresentação para uma nova geração de músicos brasileiros.

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