Filme brasileiro Gabriel e a Montanha é selecionado para o Festival de Cannes
Após “Aquarius” no ano passado, o Festival de Cannes 2017 voltará a contar com um representante brasileiro, embora desta vez fora da competição principal. O filme “Gabriel e a Montanha”, de Fellipe Gamarano Barbosa, foi selecionado para integrar a mostra Semana da Crítica do festival, que terá ao todo 11 longas e 13 curtas-metragens. “Gabriel e a Montanha” é o segundo longa de Barbosa, que estreou com o excelente “Casa Grande” (2014), premiado no Festival do Rio. A obra dramatiza os últimos dias de Gabriel Buchmann, economista brasileiro que morreu em 2009, aos 28 anos, durante uma escalada no Malawi. Buchmann, que era amigo de infância do diretor, estava viajando pelo mundo antes de iniciar um programa de doutorado sobre desenvolvimento social. Ao subir o Monte Mulanje, no Malawi, Gabriel se perdeu e acabou morrendo de hipotermia. “O significado de uma viagem só pode ser definido após o retorno. Gabriel não teve a oportunidade de retornar. Minha motivação para fazer esse filme foi descobrir o significado da viagem que ficou perdido e compartilhá-lo, que é exatamente o que o Gabriel teria feito”, explicou Fellipe Barbosa, em comunicado. “O filme também é resultado da minha relação com a África. Em novembro de 2011 eu fui para Uganda pela segunda vez como mentor do Maisha Film Lab, criado por Mira Nair (diretora de ‘Rainha de Katwe’). Depois do workshop, eu peguei a estrada e passei por parte do trajeto realizado pelo Gabriel Buchmann. Em dois meses cruzei Ruanda, Burundi, Tanzânia e Malawi, onde subi o Monte Mulanje e caminhei até o local onde o corpo de Gabriel foi encontrado”, completou o diretor Barbosa retornou à África em 2015, quando localizou todas as pessoas que estavam nas anotações de Gabriel e as entrevistou para aprimorar o roteiro.
Joaquim é retrato sujo e realista do mártir que virou alegoria nacional
O cinema de Marcelo Gomes é um cinema de generosidade. Dos seus cinco longas-metragens, dois deles foram feitos em parceria com outros cineastas: “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (2009), com Karim Aïnouz, e “O Homem das Multidões” (2013), com Cao Guimarães. Sua assinatura como autor acaba se tornando um pouco apagada, levando em consideração que os referidos trabalhos apresentavam algo muito em comum com a filmografia de seus colegas realizadores. Ele não havia dirigido sozinho um filme melhor do que sua brilhante estreia, “Cinemas, Aspirinas e Urubus” (2005) até agora, com “Joaquim”. Apesar de se passar no período colonial, o filme diz muito sobre o Brasil atual, seja na forma como mostra os índios como mendigos, os negros como um exemplo de alegria de espírito (que cena linda, a do escravo cantando com o índio à beira do rio), mas que devem se manter em posição subalterna, e os pobres explorados por interesse dos ricos. Sem importar quão raro tinha se tornado o ouro nas Minas Gerais, o reino europeu continuava cobrando pesados impostos. O quanto as coisas mudaram nos dias de hoje? No filme, Joaquim José da Silva Xavier lê os textos da independência das 13 colônias americanas e acredita que o Brasil também pode se livrar do fardo de Portugal. A trama se passa antes dos eventos mais famosos de sua vida, narrados em “Os Inconfidentes”, de Joaquim Pedro de Andrade, deixando claro que se trata de outra proposta, outro olhar cinematográfico, com um prólogo que parece didático na apresentação do personagem, mas cujo registro vai se provar o contrário já a partir da primeira cena com os personagens dialogando e agindo de maneira inquieta. O diálogo é ágil e natural, bem diferente do que se costuma ver em produções que retratam essa época, que em geral possuem uma linguagem mais empostada, o que acaba por distanciar o espectador. Aqui, até a câmera na mão nos aproxima de tudo. “Joaquim” quase nos faz sentir o cheiro daquele ambiente, em especial em uma das primeiras cenas: quando Preta (a atriz portuguesa Isabel Zuaa) leva comida para Joaquim (Júlio Machado) e Januário (Rômulo Braga). A câmera na mão segue inicialmente a escrava, para depois nos mostrar o relacionamento de proximidade entre aqueles personagens: Preta tirando piolho de Joaquim enquanto ele almoça. Esse aspecto mais sujo no retrato dos personagens e do ambiente também se distancia do que geralmente se vê em produções dessa época, mesmo as que trazem personagens pobres. Nessa mesma cena aparece um indiozinho pedindo comida. Januário diz para não dar, pra não acostumar. Joaquim é um pouco mais generoso. É um filme que faz questão de adotar um caminho contrário ou esperado o tempo todo. Em vez de vermos um herói, temos em Joaquim a figura de um perdedor. Marcelo Gomes o despe totalmente de sua glória, mesmo quando o reveste de uma obsessão pelo ouro para poder ficar rico e ter sua desejada mulher, que ainda por cima é uma escrava cujo corpo pertence a outro negro. O fato de Joaquim ter se tornado um mártir, e isso só é mostrado no prólogo, com uma apresentação dotada de ironia machadiana, é quase um acidente, fruto de sua revolta contra aquilo que ele acredita estar errado no Brasil colônia. No fim das contas, alguém precisou (precisou?) morrer por nossa causa e daí vem a imagem de Tiradentes até hoje parecida com a de um Jesus brasileiro, alguém que morreu por nós e que ganhou um feriado em 21 de abril que mais parece católico do que patriótico. No momento político opressivo e desesperançado em que vivemos, é natural que o público brasileiro se identifique não só com esse personagem, mas com todas as circunstâncias que o rodeiam, com figuras e eventos que podem muito bem ser vistos como alegorias do presente.
Estreias: Nem feriado de Tiradentes faz Joaquim ter o lançamento que merece
Os cinemas demonstram pouco sinal de “Vida” neste feriadão. Com “Velozes e Furiosos 8” ocupando boa parte das telas do país, o maior lançamento desta quinta (20/4), a sci-fi “Vida”, tem que se contentar com 220 salas. Jake Gyllenhaal (“Animais Noturnos”) e Ryan Reynolds (“Deadpool”) são astronautas presos numa trama influenciada por “Alien” (1979), que até agradou a crítica americana (68% de aprovação), mas deu grande prejuízo (custou US$ 58 milhões e só fez US$ 28 milhões nos EUA). Segundo maior lançamento, o suspense “Paixão Obsessiva” leva a 130 salas um trash com cara de telenovela, que foi escondido da imprensa. O filme também estreia nesta semana nos EUA, com Katherine Heigl (série “State of Affairs”) determinada a tornar um inferno a vida de Rosario Dawson (série “Punho de Ferro”), nova mulher de seu ex-marido. Quase com o mesmo circuito, o besteirol nacional “Gostosas, Lindas e Sexies” deve gerar discussões… sobre gramática. A comédia gira em torno das aventuras de quatro gordinhas – Carolinie Figueiredo (novela “Malhação”), Cacau Protasio (“Vai que Cola”), Mariana Xavier (“Minha Mãe é uma Peça 2: O Filme”) e Lyv Ziese (novela “Boogie Oogie”). Enquanto isso, “Joaquim”, drama sobre Tiradentes, lançado no feriado de Tiradentes, fica restrito a 33 salas. Dirigido por Marcelo Gomes (“Cinema, Aspirinas e Urubus”), o filme apresenta um olhar bastante diferenciado sobre o personagem histórico brasileiro e foi selecionado para a mostra competitiva do Festival de Berlim, onde conseguiu repercussão internacional com críticas bastante positivas. O que aparentemente não faz a menor diferença para os exibidores de cinema no Brasil. Outros títulos excelentes também chegam no circuito limitado, após se destacaram em festivais europeus. O americano “Paterson”, de Jim Jarmusch (“Amantes Eternos”), foi um dos dramas mais elogiados de Cannes no ano passado e chegou a figurar em diversas listas de melhores de 2016 nos EUA. Muitos consideram que Adam Driver, no papel do motorista de ônibus que escreve poemas nas horas vagas, deveria ter sido indicado ao Oscar. Chega em 28 salas espraiadas por 13 cidades. Exibido no Festival de Berlim de 2016, o australiano “O Sonho de Greta” é uma comédia juvenil sensível, que mostra o delírio de uma garota no dia de seu aniversário de 15 anos. A projeção chama atenção para o formato inusitado em que foi filmado – numa proporção de imagem de 4:3. Venceu vários prêmios na Austrália. Também voltado ao público jovem, o francês “O Novato” conquistou troféus em festivais menores, como o IndieLisboa e o My French Film Festival. A produção gira em torno do mais novo e menos popular aluno da escola, que resolve dar uma festa para conquistar os colegas. Estreia em seis salas. A programação se encerra com o menor lançamento da semana: o documentário brasileiro “O Profeta das Águas”, sobre Aparecido Galdino Jacintho, mentor de um grupo religioso de camponeses que foi preso como subversivo nos anos 1970. O filme será exibido em apenas uma sala do Cine Araújo Campo Limpo, em São Paulo. Clique nos títulos de cada filme para assistir a todos os trailers das estreias.
Neuza Amaral (1930 – 2017)
Morreu a atriz Neuza Amaral, com mais de 60 anos de carreira em novelas, séries, filmes e peças de teatro. Segundo parentes, a atriz sofreu uma embolia pulmonar e faleceu nesta quarta (19/4) no Hospital São Vicente de Paula, no Rio, aos 86 anos. Neuza nasceu no interior de São Paulo e começou a atuar na década de 1950, trabalhando na recém-inaugurada TV Tupi e na Excelsior, onde participou da telenovela diária da televisão, “2-5499 Ocupado”, em 1963 (ao lado de Tarcísio Meira, Glória Menezes e Lolita Rodrigues). Mas foi na Globo, no Rio de Janeiro, que construiu sua trajetória de sucesso. Seu primeiro papel na emissora carioca foi na novela “A Sombra de Rebecca” (1967), na qual interpretou o papel-título. Mas acabou chamando mais atenção na novela seguinte como principal antagonista da mocinha (Myriam Pérsia), vivendo a primeira grande vilã da TV brasileira, Veridiana Albuquerque Medeiros, em “A Grande Mentira” (1968). Ela esteve em algumas das principais novelas das décadas de 1970 e 1980, como “Selva de Pedra” (1972), “Os Ossos do Barão” (1973), “Fogo Sobre Terra” (1974), “O Casarão” (1976), “Estúpido Cupido” (1976), “O Pulo do Gato” (1978), “Pecado Rasgado” (1978), “Cabocla” (1979), “Plumas e Paetês” (1980), “Ciranda de Pedra” (1981), “Paraíso” (1982), “Elas por Elas” (1983), “Sinhá Moça” (1986) e “Brega & Chique” (1987). Ficou tão famosa que até participou como ela mesmo de alguns capítulos de “A Gata Comeu” (1985). Mas a partir de “A Rainha da Sucata” (1990), fez apenas pequenas participações, tendo apenas mais um papel fixo em “Pé na Jaca” (2007). O afastamento das novelas coincidiu com sua entrada na política. Neuza Amaral chegou a ser vereadora do Rio de Janeiro na década de 1990, o que acabou afastando-a dos trabalhos na TV. Ela também trabalhou para a prefeitura da cidade Araruama, na Região dos Lagos, onde morou. A atriz também teve uma filmografia expressiva, com mais de 20 filmes, desde a estreia em “A Lei do Cão” (1967), de Jesse Valadão, até “O que É Isso, Companheiro?” (1997), de Bruno Barreto.
Anitta quer estrelar filmes
A cantora Anitta pretende se aventurar no cinema. Ela já vai aparecer em “Meus 15 Anos”, que estreia em junho, e segundo o colunista Flávio Ricco do UOL quer protagonizar um filme, de preferência como par romântico de Cauã Reymond – lógico. Uma das ideia da cantora seria fazer uma versão brasileira de “O Guarda-Costas”, estrelado por Kevin Costner e Whitney Houston. Anitta ficaria com o papel da cantora pop, que passaria a ser uma cantora de funk, e Cauã seria o guarda-costas. A fantasia chega ao ponto de listar a produtora LC Barreto à frente do filme. Mas ao ser contactada pelo colunista, a empresa disse desconhecer o projeto. A prioridade de Anitta, entretanto, é a nova temporada do programa “Música Boa”, do canal pago “Multishow”, e tentar lançar sua carreira internacional. Por isso, ela esteve recentemente fazendo contatos em Los Angeles, onde chegou a ser confundida com Jennifer Lopez.
Novo trailer de Bingo: O Rei das Manhãs é divertido, perturbador e ousado
Esqueça Pennywise, o palhaço do terror “It – A Coisa”. O filme de palhaço assustador mais promissor do ano acaba de ganhar um novo trailer. Se a primeira prévia superava expectativas, a segunda deixa claro que “Bingo: O Rei das Manhãs” está além do que o cinema nacional tem apresentado, tanto em suas comédias quanto em suas cinebiografias. E o filme é uma combinação de ambas: parte comédia e parte cinebiografia, com uma execução tão perturbadora que merece atenção. Durante a pré-produção, o projeto era conhecido como o filme do palhaço Bozo. Mas a mudança do nome do protagonista não é para ser lamentada. Pela prévia, fica claro que o filme não faz concessões, o que é facilitado pela licença criativa, permitida pelo uso de nomes fictícios, embora Gretchen tenha permanecido Gretchen. Com cenografia e figurino que reconstituem fielmente a época, o longa ensaia um mix escandaloso de sexo, drogas e programa infantil. “Bingo: O Rei das Manhãs” marca a estreia na direção de Daniel Rezende, o premiado montador indicado ao Oscar por “Cidade de Deus” (2002), e traz Vladimir Britcha (“Muitos Homens num Só”) impressionante no papel de Augusto, personagem inspirado na vida de Arlindo Barreto, o Bozo. Na trama, Augusto é um artista que sonha com seu lugar sob os holofotes. A grande chance surge ao se tornar “Bingo”, um palhaço apresentador de programa infantil na televisão, que é sucesso absoluto. Porém, uma cláusula no contrato não permite revelar quem é o homem por trás da máscara, o que faz de Augusto, o “Rei das Manhãs”, o anônimo mais famoso do Brasil. Com muita ironia e humor ácido, ambientado numa roupagem pop e exagerada dos bastidores da televisão nos anos 1980, o filme conta essa incrível e surreal trajetória de um homem em busca do reconhecimento da sua arte. O roteiro é de Luiz Bolognesi (“Bicho de Sete Cabeças” e “Uma História de Amor e Fúria”), a fotografia de Lula Carvalho (“As Tartarugas Ninja”, “Robocop”) e o elenco ainda inclui Leandra Leal (“O Lobo Atrás da Porta”), Emanuelle Araújo (novela “Gabriela”), Tainá Müller (“O Duelo”), Augusto Madeira (“O Escaravelho do Diabo”), o dinamarquês Soren Hellerup (“Meu Amigo Hindu”) e até o apresentador do “Big Brother Brasil” Pedro Bial. “Bingo – O Rei das Manhãs” tem estreia prevista para 24 de agosto.
Vida do médium Divaldo Franco vai virar filme
A vida do médium Divaldo Franco está virando filme. Conhecido como o maior médium espírita brasileiro vivo, sua trajetória já começou a ser filmada na semana passada, numa coprodução da Fox Filmes do Brasil, que realizou o filme espírita mais caro do país, “Nosso Lar” (2010). Segundo o colunista Ricardo Feltrin, do UOL, a trama é uma adaptação do livro “Divaldo Franco: A Trajetória de um dos Maiores Médiuns de Todos os Tempos”, escrito por Ana Landi, que será consultora da obra cinematográfica. Com direção de Clóvis Mello, as primeiras filmagens do longa-metragem — sem título divulgado — foram feitas no Teatro Municipal do Rio, durante palestra que lotou os 2,1 mil lugares da casa de espetáculo, e também irão registrar as comemorações do aniversário de 90 anos de Divaldo Franco, que acontece no próximo dia 5. Não está claro, portanto, se a produção é uma obra com atores ou um documentário. Clóvis Mello tem uma carreira premiada em publicidade e já produziu os documentários “Coração Vagabundo” (premiado nos festivais de Roma e Barcelona), e “jair 30”, em parceria com a gravadora Som Livre (Grupo Globo). Ele também dirigiu a comédia “Ninguém Ama Ninguém por Mais de Dois Anos”. A expectativa é de um lançamento ainda para o segundo semestre desse ano, com um diferencial: 15% de sua arrecadação será destinada à Mansão do Caminho, projeto social do médium em Salvador.
Alexandre Nero viverá Nelson Rodrigues no cinema
Alexandre Nero vai interpretar o dramaturgo, escritor e jornalista Nelson Rodrigues (1912-1980) em uma cinebiografia, intitulada “Anjo Pornográfico”. A notícia veio à tona em meio a uma lista de produções da Media Bridge, citada pelo site Filme B. Segundo a matéria, o filme será baseado no elogiado livro homônimo de Ruy Castro e a direção estará a cargo de Mauro Mendonça. Nelson Rodrigues ficou famoso por abordar temas controversos que marcaram o teatro brasileiro. Ele já teve diversas de suas obras adaptadas para os cinemas, incluindo “Bonitinha, Mas Ordinária” (1963), “A Falecida” (1965), “A Dama do Lotação” e “Os Sete Gatinhos”. Atualmente, o ator Murilo Benício (“O Homem do Ano”) dá os toques finais numa adaptação do autor, “O Beijo no Asfalto”, que marcará sua estreia na direção.
Fundador do festival É Tudo Verdade vai voltar a dirigir um filme
Amir Labaki, fundador do festival É Tudo Verdade, vai voltar a dirigir um filme. Ele prepara “1961”, documentário sobre o tema de seu primeiro livro, escrito 30 anos: “1961 — A Crise da Renúncia e a Solução Parlamentarista”. O foco é a renúncia de Jânio Quadros, a crise política que se seguiu, a campanha da legalidade no Rio Grande do Sul, em favor da posse do vice-presidente João Goulart, e a tentativa de golpe militar, então derrotado. “Parto da minha pesquisa original, então pioneira. Mas importantes materiais audiovisuais afloraram nestas três décadas”, disse Labaki, ao jornal O Globo. Labaki, que é originalmente jornalista, dirigiu apenas um filme em sua carreira: “27 Scenes About Jorgen Leth” (2008), sobre o documentarista dinamarquês Jorgen Leth.
Galeria F documenta época trágica, quando presos políticos eram condenados à morte no Brasil
Num tempo em que a insanidade e a ignorância de alguns pretende trazer de volta os militares ao poder, é muito importante não esquecer o que foi o período de trevas da ditadura militar brasileira (1964-1985). Muitas histórias já foram contadas pelo caminho documental, outras foram recriadas pela via da ficção, mas ainda há muito a desvendar. E a memória precisa ser estimulada, refrescada, para que não nos esqueçamos do que vivemos e não venhamos a cometer os mesmos erros. Os mais jovens precisam se informar sobre o que aconteceu naquele período, para poderem avaliar o que se passa hoje e para se posicionarem com clareza, já que há muita confusão e desinformação no ar. O documentário “Galeria F”, de Emília Silveira, reconstrói uma história muito relevante do período: a do preso político baiano Theodomiro Romero dos Santos, que desde os 14 anos de idade lutou combatendo a ditadura. Entrou para a luta armada atuando junto ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. Aos 18 anos, foi capturado junto com outros companheiros e reagiu à prisão, matando um militar que tentava alvejar um dos militantes detidos na rua. Foi preso, sobreviveu às bárbaras torturas que sofreu ao longo de 9 anos de prisão, até que veio a anistia, que não foi ampla, geral e irrestrita, como se pretendia. Classificado como terrorista, ficou de fora da anistia, foi mantido preso, enquanto poucos permaneciam encarcerados, e foi ameaçado de morte. Mais do que isso, estava de fato condenado à morte, o primeiro da história republicana. A única alternativa seria fugir da prisão, o que, surpreendentemente, aconteceu em 1979, deixando a todos perplexos. Incluído aí o governador Antônio Carlos Magalhães, que se refere na TV a essa fuga e à busca que se empreendeu a partir de então. O filme de Emília Silveira, ela também uma ex-prisioneira política, refaz com o próprio Theodomiro, seu filho Guga e outros participantes daquele período, a incrível fuga, os lugares por onde ele passou, os refúgios, e como foi possível ludibriar desde os carcereiros da prisão a toda a estrutura policial militar do cerco à sua recaptura. É um belo trabalho documental, cheio de humanidade, que não se alimenta de ódio nem de vingança, mas da retomada de um período histórico brasileiro que não pode ser esquecido, com os elementos emocionais que estão envolvidos na vida das pessoas. Por exemplo, o filho Guga, com o documentário, pôde finalmente conhecer a verdadeira história do pai. E a galeria F, onde fica a cela que abrigou o prisioneiro político por muitos anos, acaba sendo a testemunha de uma época trágica, que ainda estamos buscando superar definitivamente. Será possível?
Vera Fischer interpretará delegada em filme sobre o caso Bodega
Afastada do cinema há 15 anos, a atriz Vera Fischer vai voltar a estrelar uma produção nacional, vivendo uma delegada num filme sobre uma chacina que teve grande repercussão nos anos 1990. A produção vai reencenar o crime da madrugada de 10 de agosto de 1996, quando homens armados assaltaram e mataram frequentadores da choperia Bodega em Moema, zona zul de São Paulo. Pressionada por uma forte reação da sociedade, que protestou contra a falta de segurança e criou um movimento chamado “Reage São Paulo”, a polícia civil respondeu rapidamente com a prisão de negros e pobres da periferia, anunciando-os como autores dos crimes. A Justiça decretou a prisão preventiva desses jovens, com ampla divulgação da mídia. Todos eles teriam sofrido tortura para confessar. E todos eles eram inocentes. Com o título provisório de “Bodega”, o filme está em fase de captação de recursos. Além de Vera Fischer, que não filmava desde “Xuxa e os Duendes 2: No Caminho das Fadas” (2002), o elenco inclui Milhem Cortaz (“O Lobo Atrás da Porta”), André Ramiro (“Tropa de Elite”) e Paulo Miklos (“Carrossel – O Filme”). A direção é de Tristan Aronovich (“Alguém Qualquer”) e José Paulo Lanyi (produtor do vindouro “Real – O Plano por Trás da História”), que também assina o roteiro. “Há muitas razões para fazer esse filme”, diz o diretor Aronovich, em comunicado. “A luta contra a hipocrisia de que não existe preconceito, intolerância e discriminação racial no Brasil; o lado violento e corrompido da polícia; a ode a heróis invisíveis, como o promotor do caso real, Eduardo Araújo da Silva; o gênero thriller policial, investigativo, que é pouco explorado no Brasil; e o roteiro sólido, tão bem escrito. O que está no papel já é um filmaço”, explica. Para Lanyi, o longa trará de volta um debate esquecido sobre as injustiças cometidas naquela época. “Infelizmente, o que aconteceu com aquelas pessoas ainda está presente no dia a dia de tantas outras. Não vamos deixar essa sujeira ficar esquecida debaixo do tapete da história. E será uma abordagem que ajudará a lançar um olhar mais profundo sobre as misérias atuais”.
Malasartes e o Duelo com a Morte será o filme com mais efeitos visuais do Brasil
“Malasartes e o Duelo com a Morte” será o filme com a maior quantidade de efeitos visuais já feito no Brasil. Em entrevista ao jornal O Globo, o diretor Paulo Morelli (“Cidade dos Homens”) afirma que cerca de 40% da aventura protagonizada pelo personagem dos folclores português e brasileiro utiliza computação gráfica. É justamente por isso que o filme, rodado há dois anos, ainda está em pós-produção, finalizando os efeitos na sede da produtora O2 Filmes. Orçado em R$ 9,5 milhões, “Malasartes e o Duelo com a Morte” investiu cerca de R$ 2 milhões desse total em efeitos especiais. E vídeos da O2, que podem ser vistos abaixo, revelam os bastidores deste trabalho. A trama gira em torno do matuto caipira Pedro Malasartes, que enfrenta ao mesmo tempo o irmão de sua namorada, a Morte e a Parca Cortadeira. Jesuita Barbosa (“Praia do Futuro” e minissérie “Nada Será Como Antes”) vive o herói do título, Milhem Cortaz (“O Lobo Atrás da Porta”) é Próspero, o irmão de Áurea, por sua vez vivida por Isis Valverde (“Faroeste Caboclo” e novela “A Força do Querer”). A Morte é encarnada por Júlio Andrade (“Redemoinho” e minissérie “Justiça”) e a Parca Cortadeira encarnada por Vera Holtz (“TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva” e novela “A Lei do Amor”). O elenco ainda inclui Leandro Hassum (“Até que a Sorte nos Separe”), Augusto Madeira (“Uma Loucura de Mulher”), Luciana Paes (série “3%”) e Julia Ianina (série “1 Contra Todos”). Além da versão para o cinema, o filme também renderá uma minissérie com três capítulos, com exibição prevista para dezembro na Globo. A diferença ficará por conta de 15 minutos de cenas exclusivas, que foram cortadas do filme para evitar que ficasse longo demais. A projeção de cinema terá 98 minutos, com estreia prevista para 10 de agosto.
PT traça estratégia jurídica para usar filme sobre Operação Lava-Jato contra a Operação Lava-Jato
O PT pretende aproveitar a produção do filme sobre a Operação Lava-Jato, intitulado “Polícia Federal – A Justiça É para Todos”, para tentar prejudicar a própria Operação Lava-Jato, que investiga a corrupção federal realizada pelo partido político e seus aliados. Para este fim, já traçou uma estratégica jurídica. Na quarta-feira (5/4), três deputados federais do partido anunciaram que entrarão com representações contra agentes da Polícia Federal e contra o juiz federal Sergio Moro, responsável pelos processos da Operação Lava-Jato, devido ao filme. Os parlamentares disseram ter coletado indícios de irregularidades na ligação deles com a produção do longa-metragem, após o produtor Tomislav Blazic e atores relatarem à imprensa visitas à carceragem da PF e acesso ao material da investigação. Orçado em R$ 15 milhões, a produção também teve armas, uniformes, carros, helicóptero e avião cedidos pela Polícia Federal. De acordo com os deputados Paulo Pimenta (PT-RS), Wadih Damous (PT-RJ) e Paulo Teixeira (PT-SP), a representação pleiteando a “responsabilização criminal” dos agentes será protocolada na Procuradoria de Combate à Corrupção, em Brasília, na tarde desta quinta (6/4). Os parlamentares acusam os policiais de praticarem crimes de improbidade administrativa, peculato, abuso de autoridade e prevaricação por conta da ligação com o filme. “No direito público, aquilo que não é permitido, é proibido. Não há base legal para que a PF patrocine um filme que relate uma operação que ainda está em curso”, declarou Damous à imprensa. O deputado informou que o produtor do filme e os atores do elenco da produção serão listadas como testemunhas, “para confirmar ou desmentir as denúncias”. Contra Moro, os deputados pretendem acionar o CNJ (Conselho Nacional de Justiça). O juiz, que havia determinado que não houvesse filmagem da condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em março do ano passado, teria permitido que as imagens fossem cedidas à equipe do filme. Os deputados citaram uma entrevista do ator Ary Fontoura, que interpreta Lula no filme, na qual ele diz que teve acesso ao vídeo produzido pela PF. Acionado pela defesa de Lula no dia 23 do mês passado, Moro determinou que fosse apurada a responsabilidade criminal dos agentes policiais, e escreveu em despacho que “não cabe a este Juízo impor censura a veículos de comunicação ou mesmo à produção de algum filme”. “Ninguém pediu que ele funcionasse como censor. Pede-se que ele funcione como juiz, e que fizesse obedecer e respeitar as suas próprias determinações judiciais. Ele está incorrendo, no mínimo, em falta disciplinar, o que será apreciado pelo CNJ”, disse o deputado Wadih Damous. Os parlamentares também anunciaram que solicitaram a convocação do ministro da Justiça, Osmar Serraglio (PMDB-PR), na Comissão de Direitos Humanos da Câmara. “Houve violação do direito à privacidade”, explicou Damous. Os petistas apresentaram ainda requerimentos de pedidos de informação sobre o caso direcionados a Serraglio e ao diretor-geral da PF, Leandro Daiello Coimbra, protocolados na Câmara entre os dias 17 e 22 de fevereiro, que até o momento não foram respondidos. No fim do mês passado, o deputado Paulo Pimenta apresentou reclamação ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e ao ministro da Justiça, por conta do descumprimento da Lei de Acesso à Informação por conta da PF. Com direção de Marcelo Antunez — de blockbusters como “Qualquer Gato Vira-Lata 2” e “Até que a Sorte nos Separe 3″, entre outros besteiróis – , o filme tem estreia marcada para 31 de agosto.












