Presidente da Petrobras causa revolta após chamar filmes premiados de “mais que sofríveis”
Pegou mal, muito mal a declaração do presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, numa palestra virtual para o grupo Personalidades em Foco, realizada na noite de quinta (17/9). Desdenhando da parceria histórica entre a estatal e o cinema, que foi encerrada por Bolsonaro, ele disse que a Petrobras não ia mais patrocinar “artistas ricos” nem “filmes de qualidade mais do que sofrível”. Endividada devido à corrupção descoberta pela Operação Lava Jato, a empresa está cortando custos, mas Castello Branco aproveitou para politizar a economia com ataques gratuitos ao Cinema nacional. “Além da busca contínua por redução de custos, resolvemos mudar a composição de nossos patrocínios. A Petrobras patrocinava artistas ricos e filmes de qualidade mais do que sofrível, como ‘Bixa Travesty’, ‘Lasanha Assassina’ e outras coisas mais”, afirmou o presidente da estatal, citando dois filmes premiados. O primeiro título mencionado pelo presidente da Petrobras é um documentário sobre transexuais, que tem como protagonista a cantora Linn da Quebrada, e foi premiado nos festivais de Berlim (Prêmio Teddy), Brasília (júri popular) e no Mix Brasil. O segundo é um curta animado de 2002 que tem o lendário José Mojica Marins, o Zé do Caixão, como dublador. Este filme foi premiado no Festival de Recife, na Mostra de Tiradentes e no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, promovido pela Academia Brasileira de Cinema, responsável por selecionar o representante nacional no Oscar. Não só isso. “Bixa Travesty” não foi patrocinado pela Petrobras. Pior ainda, levou calote da Petrobras, ao vencer um prêmio no Festival de Brasília, este sim patrocinado pela estatal. Segundo os diretores Kiko Goifman e Claudia Priscilla, “Bixa Travesty” recebeu verbas do Fundo Setorial do Audiovisual, da Agência Nacional de Cinema (Ancine) e do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo-Sul. Mas, ao ser premiado no Festival de Brasília, deveria receber, de acordo com o regulamento do evento, R$ 200 mil da Petrobras, que seriam usados para sua distribuição nos cinemas. Entretanto, após Bolsonaro assumir a presidência, a estatal comunicou que não iria pagar. Claudia Priscilla contou para o jornal O Globo que as equipes contempladas pela premiação entraram com uma ação judicial coletiva contra a estatal, mas a Petrobras só pagou metade do valor previamente acordado com o Festival. “Não cabe ao presidente da Petrobras citar o filme nessa situação. ‘Bixa Travesty’ não foi produzido com recursos da Petrobras. Além de um insulto, é uma apropriação indevida. Quando a gente ganhou o prêmio popular de Brasília, o filme obviamente já estava pronto”, criticou a cineasta. Seu parceiro na direção do longa foi além, avisando que iria processar Castello Branco. “Estou me sentindo perseguido. Com certeza absoluta, o senhor Castello Branco não viu o filme. Ele pegou pelo título, ‘Bixa Travesty’, para insultar o nosso filme, que mostra a história de uma pessoa que sofreu a vida toda e que tem uma força imensa. Vamos entrar na Justiça”, afirmou Kiko Goifman. “Esses caras não podem achar que podem pegar a metralhadora do ódio deles e apontar para todo lado. Agora faremos questão de levar o filme para o maior número de pessoas possível. Não vamos ficar calados”. Além dos diretores de “Bixa Travesty”, a cantora Linn da Quebrada, que estrela o documentário, os cineastas Cacá Diegues e Fernando Meirelles, a produtora Mariza Leão e o presidente da Academia Brasileira de Cinema também repudiaram a frase do burocrata, em depoimentos a O Globo. “Uma fala como essa não só reflete, mas também constrói os nossos tempos”, disse Linn da Quebrada. “Sobreviver a um país que nos quer mortas diariamente é uma obra de arte. É isso que estamos expondo com essa produção, e por isso ela se torna tão perigosa. Quando ele tira o nosso filme de um campo de possibilidade, parece dizer que vidas como a minha não importam a ponto de serem vistas”, acrescentou. O veterano Cacá Diegues, autor do clássico “Bye Bye Brasil”, que parece título para as realizações do atual desgoverno, avaliou que a declaração faz parte da guerra contra a cultura levada adiante por Bolsonaro. “É impressionante a simples má vontade ou o grave juízo desqualificado de membros desse governo em relação à Cultura e particularmente ao cinema brasileiro. Não estamos lidando com um governo que não se importa com a cultura, mas com um governo que é contra ela. Eles não se importam com o mal que fazem ao Brasil”, criticou. Jorge Peregrino, presidente da Academia Brasileira de Cinema, que premiou o atacado “Lasanha Assassina”, apontou a falta de qualificação do burocrata como crítico de cinema. “Mesmo que ele tenha visto o filme, ele não tinha o direito de falar isso. É a mesma coisa que eu criticar a extração de petróleo dele, sem entender do assunto. Cada macaco no seu galho”. Ou como diz Mariza Leão, direto ao ponto: “O reconhecimento do cinema brasileiro mundo afora, através de festivais renomados e também do público, fala mais alto do que as declarações de alguém que não tem nenhuma capacitação intelectual para afirmar o contrário. Viva o cinema brasileiro e sua pluralidade!” Diante da repercussão, a Petrobras emitiu um comunicado, afirmando que seu presidente “respeita todas as formas de expressão”, mas que, “como defensor da liberdade de escolha, se reserva o direto de ter suas próprias preferências artísticas”. Através da assessoria da estatal, Roberto Castello Branco ainda disse que “não teve a intenção de ofender qualquer obra ou grupo” e que “se desculpa por algum mal-entendido”. Só que tudo foi bem entendido, inclusive a defesa da Petrobras, em comunicado, do direito ao preconceito.
Estreias Online: O Diabo de Cada Dia e mais uma dúzia de filmes para ver no fim de semana
O principal destaque da semana é o lançamento da Netflix “O Diabo de Cada Dia”, suspense extremamente sombrio, que chama atenção pelo elenco grandioso. Além de Tom Holland (“Homem-Aranha: Longe de Casa”) e Robert Pattinson (o vindouro “Batman”) em papéis de destaque, a produção reúne Sebastian Stan (“Vingadores: Ultimato”), Mia Wasikowska (“Alice no País das Maravilhas”), Bill Skarsgard (“It: A Coisa”), Jason Clarke (“Exterminador do Futuro: Gênesis”), Eliza Scanlen (“Objetos Cortantes”) e Riley Keough (“Mad Max: Estrada da Fúria”). E para completar o time de astros, o produtor é Jake Gyllenhaal (também de “Homem-Aranha: Longe de Casa”). O diretor é um capítulo a parte. Nascido e criado em Nova York, Antonio Campos nunca viveu no Brasil, mas o nome denuncia sua origem. Ele é filho do jornalista Lucas Mendes (do programa “Manhattan Connection”) e da produtora indie americana Rose Ganguzza (“Margin Call”, “Versos de um Crime”), e vem se destacando com filmes bem avaliados no circuito de festivais desde sua estreia, “Buy It Now” (2005), premiada no Festival de Cannes. Ele também dirigiu “Depois da Escola” (2008), “Simon Assassino” (2012) e “Christine” (2016), sempre gerando comentários positivos, além de ter assinado episódios da série “The Sinner”. A lista de estreias digitais ainda contempla “Três Verões”, de Sandra Kogut (“Campo Grande”), que reflete o Brasil da Lava Jato e voltou a consagrar a atriz Regina Casé em premiações nacionais e internacionais. Confira abaixo mais detalhes destes e de outros lançamentos digitais, lembrando que a curadoria não inclui títulos clássicos (se quiser uma opção, há o festival de Krzysztof Kieslowski) nem produções trash, que em outros tempos sairiam diretamente em DVD – como “Jogo Assassino”, pior filme da carreira de Henry Cavill (o Superman) e maior equívoco a ser evitado nas locações online do fim de semana. O Diabo de Cada Dia | EUA | 2020 Adaptação do livro de Donald Ray Pollock (lançado no Brasil com o título “O Mal Nosso de Cada Dia”), o suspense da Netflix materializa uma trama sombria, repleta de pecado, mortes, vingança e um elenco matador. Tom Holland (o Homem-Aranha) vive o personagem central, Arvin Russell, um garoto problemático que percebe que precisa lidar com as pessoas sinistras de sua cidadezinha para tentar salvar quem mais ama. Em sua missão, ele entra em rota de colisão com vários moradores locais, entre eles um pastor com crise de fé, vivido por Robert Pattinson (o Batman). Com 65% no Rotten Tomatoes, o filme foi considerado pesado demais por alguns críticos, mas difícil de ignorar. Disponível na Netflix Três Verões | Brasil | 2019 O filme de Sandra Kogut (“Campo Grande”) retrata o Brasil contemporâneo por meio do olhar de Madá (Regina Casé), caseira de um condomínio de luxo à beira-mar. Sob seu ponto de vista, a trama mostra o desmantelamento de uma família em função dos dramas políticos recentes que abalaram o país, passando-se ao longo de três verões consecutivos (2015, 2016 e 2017) na luxuosa casa de veraneio comprada com dinheiro ilícito. O filme pergunta o que acontece com aqueles que gravitam em torno dos ricos e poderosos quando a vida destes desmorona, ao mesmo tempo em que registra as mudanças dos últimos anos no Brasil, ilustrada por meio da prisão do patrão (Otávio Müller, de “Segunda Chamada”) por corrupção. Consagrado no exterior, o longa fez sua estreia mundial no Festival de Toronto, no Canadá, foi premiado no Festival de Havana, em Cuba, e rendeu troféus de Melhor Atriz para Regina Casé nos festivais do Rio e de Antalya, na Turquia. Disponível na Google Play, Looke, Now, Vivo Play e YouTube Filmes Volume Morto | Brasil | 2020 Escrito e dirigido por Kauê Telloli (diretor de “Eu Nunca”, mas mais conhecido como ator de “O Negócio”), “Volume Morto” é um suspense de encenação teatral que acabou rendendo polêmica no último Festival de Brasília. A trama se passa numa escola e aborda a história de um menino que não fala nas aulas e, por isso, é apelidado de Volume Morto. Quando seus pais são convocados a conversar com a professora da criança, algumas histórias vêm à tona. A pouca variedade de ambientes e a ausência do personagem central (o menino) contribuem para o tom teatral, que também reflete a falta de recursos – o longa foi rodado em apenas 9 dias – , mas o resultado é bastante profissional. Sua polêmica se deve a um suposto menosprezo do abuso infantil e da violência contra mulheres insinuado em sua trama. O destaque fica por conta do elenco, com Fernanda Vasconcellos (“3%”), Júlia Rabello (“Ninguém Tá Olhando”) e Daniel Infantini (“Toda Forma de Amor”). Disponível na Apple TV/iTunes, Looke e Vivo Play Beleza Eterna | Reino Unido | 2020 Escrita e dirigida pelo ator galês Craig Roberts (“Red Oaks”), a comédia britânica conta, com humor negro, uma história de amor incomum entre uma mulher esquizofrênica (interpretada por Sally Hawkins, indicada ao Oscar por “A Forma da Água”) e um músico fracassado (David Thewlis, de “Mulher-Maravilha”). A estreia nacional acontece duas semanas antes do lançamento nos EUA e no Reino Unido. Disponível na Apple TV/iTunes, Looke, Now e YouTube Filmes A Espiã | Noruega | 2019 Ingrid Bolsø Berdal (de “Westworld”) vive Sonja Wigert, uma diva e estrela do cinema sueco que, durante a 2ª Guerra Mundial, vira agente dupla, espionando tanto para os suecos quanto para os nazistas. A história é real e suas muitas reviravoltas são filmadas com apuro fotográfico, figurino requintado e recriação de época impecável pelo diretor Jens Jonsson (da série “O Jovem Wallander”). Disponível na Apple TV/iTunes, Looke, NOW e Vivo Play Get Duked! | Reino Unido | 2019 A estreia do diretor de clipes Ninian Doff é uma comédia de humor negro em que quatro adolescentes ineptos são perseguidos por psicopatas armados e mascarados nas Highlands escocesas. Com uma trilha repleta de hip-hop, o filme foi premiado pelo público no Festival SXSW do ano passado e tem 86% de aprovação no Rotten Tomatoes. Disponível na Amazon Prime Video Filhos da Tempestade | África do Sul | 2019 Filme mais premiado da África do Sul no ano passado, acompanha dois pequenos órfãos que se veem sozinhos a caminho dos campos de ouro virgem no século 19, durante uma tempestade brutal. Apesar de estrelado por um casal de crianças, não se trata de um filme infantil e leve, mas uma jornada de sobrevivência e de sacrifício, especialmente da menina mais velha, que pode causar aflições. A trama é baseada no best-seller “The Story of Racheltjie De Beer”, de Brett Michael Innes, que co-escreveu a adaptação com o diretor Matthys Boshoff. Disponível na Apple TV/iTunes e Cinema Virtual Vidas Duplas | França | 2018 A comédia de Olivier Assayas (premiado em Cannes por “Personal Shopper”) reúne um grande elenco, encabeçado por Guillaume Canet (“Rock’n Roll: Por Trás da Fama”) e Juliette Binoche (“Acima das Nuvens”), em debates acalorados sobre vários temas, mas principalmente o mercado editorial, em que trabalham os personagens. Após questionar a comercialização do cinema no premiado “Acima das Nuvens”, o diretor se debruça sobre o futuro dos livros na era da internet. E neste debate, há espaço tanto para Adorno quanto para Taylor Swift, além de muito sexo – todos os personagens têm amantes. Disponível na Apple TV/iTunes, Looke, Now e YouTube Filmes A Livraria | Espanha, Reino Unido | 2017 Apesar de dirigido pela cineasta catalã Isabel Coixet (“A Vida Secreta das Palavras”) e premiado com o Goya (o Oscar espanhol) de Melhor Filme, Direção e Roteiro de 2017, este drama não poderia ser mais inglês. Adaptação do romance de Penelope Fitzgerald, a trama se passa numa pequena cidade litorânea inglesa em 1959, onde vigoram a ignorância, a inveja e a falsa moral. Que é o que a personagem Florence Green (Emily Mortimer) vai sentir na pele, quando resolve encarar o seu grande sonho de montar uma livraria numa casa muito antiga da família, que lhe restou como herança. Com espírito empreendedor, misturado a uma tenacidade e a uma alma sonhadora, ela tem sucesso contra tudo e todas as previsões, o que atrai hostilidade e a sordidez dos que se dizem pessoas de bem. Por sorte, ela também encontra amantes da boa literatura, para quem vira uma espécie de fada madrinha. O tom de fábula é reforçado por sua luta contra a bruxa local: a sra. Gamart (Patricia Clarkson), que personifica a mediocridade da visão de mundo conservadora. Disponível na Apple TV/iTunes, Now, Vivo Play e YouTube Filmes Amuleto | Reino Unido | 2020 Um ex-soldado sem-teto é hospedado por uma freira em uma casa decadente, habitada por uma jovem e sua mãe moribunda. Enquanto se envolve com a jovem, ele não pode ignorar sua suspeita de que algo de estranho ronda a casa. E que a mãe trancada no quarto é mais perigosa do que lhe contaram. O terror britânico marca a estreia da atriz Romola Garai (“Desejo e Reparação”) na direção e traz em seu elenco a veterana Imelda Staunton (“Harry Potter e a Ordem da Fênix”) e a jovem alemã Carla Juri (“Blade Runner 2049”). Disponível na Apple TV/iTunes, Looke e Google Play Céu em Chamas | China | 2020 Filme de catástrofe chinês dirigido pelo inglês Simon West (“Os Mercenários 2”), “Céu em Chamas” acompanha a erupção de um vulcão numa ilha paradisíaca repleta de turistas. O elenco reúne Jason Isaacs (“Star Trek: Discovery”) e um elenco chinês encabeçado por Wang Xueqi (“Homem de Ferro 3”) e Hannah Quinlivan (“Arranha-Céu: Coragem Sem Limite”). Disponível na Apple TV/iTunes, Looke e Vivo Play Blitz | Brasil | 2020 A violência policial é retratada de forma artística – isto é, com abstrações, muita conversa e closes na natureza – no primeiro longa dirigido pelo curtametragista e sonoplasta Rene Brasil. Na trama, um PM é acusado de ter matado um menino durante uma ação policial. Disponível na Looke e Vivo Play O Fio da Meada | Brasil | 2020 O documentário do premiado cineasta Silvio Tendler (“Jango”, “Os Anos JK”) discute as conexões entre a crise ecológica contemporânea, o modelo econômico, as desigualdades sociais e as diversas formas de injustiça ambiental geradas pela exploração das pessoas e do meio ambiente. Disponível na Looke e Vivo Play
Estreias online: A polêmica de Lindinhas, o doc de Caetano e mais 10 lançamentos
A programação de estreias digitais do fim de semana está mergulhada em polêmica, graças a “Lindinhas” (Cuties). O filme não virou assunto porque a cineasta Maïmouna Doucouré foi uma das primeiras mulheres negras a vencer o prêmio de Melhor Direção no Festival de Sundance ou pelos elogios rasgados da crítica internacional – 88% de aprovação no Rotten Tomatoes – , mas por um equívoco calamitoso do marketing da Netflix. Um cartaz da plataforma sensualizou as personagens pré-adolescentes da produção e transformou a obra em vítima da guerra cultural. A Netflix assumiu o erro e pediu desculpas. Mas na guerra dos cruzados digitais, que não poupa nem “Frozen”, o filme virou apologista de pedofilia. Há campanhas ativas contra a produção na internet, que incentivam quem não o viu a dar “dislikes” e notas baixas em sites como o RT, IMDb e Metacritic, além de hashtags pedindo boicotes. A diretora contou que tem recebido até ameaças de morte. Tudo muito veloz e furioso. Só que, dependendo do ponto de vista, “Lindinhas” pode ser encarado como o posto do que o acusam, um drama que questiona a sexualização precoce das crianças, baseada na infância da própria diretora, além de refletir sobre a influência das mídias sociais na formação dos mais jovens. Se isso parece polêmico, lembrem-se das criancinhas que dançavam na boquinha da garrafa, imitando as tardes do “Domingo Legal”, de Gugu Liberato. Por curiosidade, o filme acabou sendo lançado no Brasil com o título original, “Mignonnes” em francês, após toda a confusão. Mas durante a divulgação inicial, ele ficou conhecido como “Lindinhas” no país. Mudar o título não muda o filme, só mostra que o marketing da Netflix não funciona mesmo como deveria. O outro destaque da semana também pode parecer polêmico para alguns. “Narciso em Férias” contesta negacionistas que dizem que no Brasil não houve ditadura e defendem a volta do AI-5 como panaceia para resolver todos os problemas do país. O AI-5 foi o instrumento de exceção utilizado pela ditadura para prender e esconder a prisão de Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1968. O documentário, que teve première no Festival de Veneza, traz Caetano relembrando detalhes dos eventos traumáticos da época, quando os jornais foram proibidos de noticiar a sua detenção, motivada, como revela o filme, por fake news e pela violência arbitrária do regime. Confira abaixo mais detalhes destes e de outros lançamentos digitais, lembrando que a curadoria não inclui títulos clássicos (são muitos) e produções trash, que em outros tempos sairiam diretamente em DVD – como “Rogue”, pior filme da carreira de Megan Fox. Mignonnes | França | 2020 O filme é premiado, as críticas são positivas e até o governo da França incentiva as pessoas a vê-lo, mas quem não viu acredita que ele é horroroso, porque supostamente promove pedofilia. A obra acompanha o esforço de uma pré-adolescente para se integrar com a turma de garotas legais da sua escola. Tudo gira em torno da disputa de um concurso de dança. O problema é que a protagonista é uma menina negra muçulmana de 11 anos, criada numa família de imigrantes senegaleses no bairro mais pobre de Paris. O grupo de meninas a que ela se junta contrasta fortemente com os valores tradicionais de sua mãe e ela logo se influencia, agindo contra o que aprendeu. Ao retratar a dança das crianças, o filme também aborda a hiper sexualização das meninas nos dias de hoje. Infelizmente, o marketing da Netflix chutou o balde e enfatizou justamente o que a obra critica, sensualizando as protagonistas em seu cartaz. Isto disparou campanhas de ódio. Inspirado na infância da diretora Maïmouna Doucouré, o filme merece ser bastante comentado, mas é bom vê-lo também. Disponível na Netflix Narciso em Férias | Brasil | 2020 Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil (“Uma Noite em 67”), o documentário traz Caetano Veloso compartilhando suas memórias do cárcere e as canções que marcaram o período, quando foi preso com seu amigo Gilberto Gil em 1968 e posteriormente exilado do Brasil. Caetano relembra o período de arbitrariedade, refletindo a descoberta recente de documentos que mostram que sua prisão foi motivada por fake news. Paralelamente, ele toca as músicas que criou e que o ajudaram a superar o trauma de se ver preso sem saber porquê e sem direitos. Disponível na Globoplay Alice Júnior | Brasil | 2019 Premiado nos festivais do Rio, Brasília, Mix Brasil e exibido em Berlim, o filme de Gil Baroni (“O Amor de Catarina”) acompanha uma adolescente transexual que se muda com a família de Recife para o interior do país. Na nova cidade, mais conservadora, ela sofre preconceito dos colegas de escola e tem dificuldades para expressar a própria identidade de maneira livre. Mas logo vai se soltando e conquistando seu espaço, ajudando também o filme a se assumir mais comédia teen que melodrama de novela. A produção adota uma estética atual, ao apresentar a protagonista como YouTuber, e utiliza linguagem dessa mídia para dar à trama o tom alegre de um fábula moderna. Revelação do longa, Anne Celestino levou o prêmio de Melhor Atriz em Brasília por sua Alice. Disponível na Google Play, iTunes, Looke, Now, Oi Play, Vivo Play e YouTube Filmes #Alive | Coreia do Sul | 2020 Depois do blockbuster “Invasão Zumbi” e da impressionante série “Kingdom”, “#Alive” (#Saraitda) voltou a demonstrar o apelo do tema dos zumbis na Coreia do Sul. Primeiro filme a atrair 1 milhão de espectadores em sua estreia durante a pandemia de coronavírus – ainda em junho! – , a produção contou a seu favor com dois jovens astros muito populares no país, Yoo Ah-In (o protagonista de “Em Chamas”) e Park Shin-Hye (da série “Memórias de Alhambra”). Eles vivem sobreviventes ilhados em seus apartamentos quando zumbis tomam conta das ruas da cidade. Na trama com ecos da pandemia real, até descobrir Park Shin-Hye num prédio vizinho, o personagem de Yoo Ah-In credita estar sozinho em meio à horda de mortos-vivos. A descoberta faz os dois abandonarem suas quarentenas para tentarem um encontro arriscado num mundo tomado pelo contágio zumbi. Disponível na Netflix A Babá: Rainha da Morte | EUA | 2020 A sequência de “A Babá” traz de volta o elenco do divertido terrir de 2017 para assombrar novamente Cole (Judah Lewis), o sobrevivente do massacre original. Ele é convencido a deixar o estresse para trás e aproveitar um fim de semana distante de tudo. Só que os serial killers mortos no primeiro filme têm outros planos e retornam do além para outra tentativa de assassinar o adolescente. Novamente dirigido por McG, a continuação também traz de volta Robbie Amell, Bella Thorne, Emily Alyn Lind, Andrew Bachelor, Ken Marino, Hana Mae Lee, Leslie Bibb, Carl McDowell, Chris Wylde e, claro, Samara Weaving, que virou estrela após interpretar a Babá original. Desde então, ela fez “Casamento Sangrento” (Ready or Not) e “Bill & Ted: Encare a Música”. Na verdade, ficou tão famosa que, agora, retorna só numa pequena participação especial. Disponível na Netflix Vem com o Papai | EUA | 2019 Elijah Wood (“O Senhor dos Anéis”) revolve atender ao pedido do pai que mal conhece para visitá-lo em sua cabana distante, apenas para perceber que se meteu numa roubada. A comédia de terror é o primeiro filme dirigido pelo roteirista Ant Timpson, criador da franquia de horror “ABC da Morte”, e explora o clima sinistro com bastante humor negro. 87% de aprovação no Rotten Tomatoes. Disponível em iTunes, Looke, Google Play e Vivo Play Alerta Lobo | França | 2019 Thriller de ação militar que caiu nas graças da crítica, com 92% de aprovação no Rotten Tomatoes, o primeiro filme dirigido pelo quadrinista Antonin Baudry (“O Palácio Francês”) se passa num submarino durante os momentos tensos que aproximam a França de uma guerra nuclear. Melhor Som no prêmio César (o Oscar francês), a produção tem um impacto sonoro impressionante. Não por acaso, a narrativa destaca um especialista em acústica, que precisa interpretar os sinais de radar que podem representar a diferença entre a vida e o apocalipse no fundo do mar. Disponível em iTunes e YouTube Filmes A Violinista | Finlândia | 2018 Um acidente interrompe a carreira de uma violinista virtuosa. Conformada em dar aulas para jovens, ela se encanta ao encontrar um aluno prodígio, até que a paixão compartilhada pela música transforma o relacionamento numa atração intensa. Primeiro longa dirigido pelo ator Paavo Westerberg (que nos anos 1980 foi o Príncipe de “A Rainha da Neve”), foi selecionado para festivais e agradou a crítica internacional. Disponível em iTunes, Looke e Now Um Bilhete Para Longe Daqui | Reino Unido | 2017 Dona de casa e mãe de família em depressão profunda se vê sufocada em meio às tarefas domésticas diante do marido alheio, até largar tudo num impulso e embarcar num trem para Paris. A performance superlativa de Gemma Arterton, indicada ao BIFA (premiação indie do cinema britânico), é o grande destaque desse drama triste e doloroso. Disponível em iTunes, Looke, Google Play e Vivo Play Sangue de Pelicano | Alemanha | 2019 A premiada atriz alemã Nina Hoss vive uma treinadora de cavalos policiais que decide adotar uma menina de 5 anos muito traumatizada. Quando a menina mostra seu comportamento violento e antissocial, ela fica determinada a ajudá-la. A direção é de Katrin Gebbe (“Nada de Mau Pode Acontecer”). Disponível em iTunes, Google Play, Now, Vivo Play e YouTube Filmes O Segredo: Ouse Sonhar | EUA | 2020 Baseado no best-seller de Rhonda Byrne, um dos maiores fenômenos editorais da auto-ajuda, o filme traz Katie Holmes (“Brahms: Boneco do Mal II”) e Josh Lucas (“Ford vs Ferrari”) como protagonistas, ilustrando como a lei da atração e a força dos pensamentos podem influenciar os rumos de uma vida. Na trama, Katie Holmes é uma mãe viúva que tem uma nova chance de recomeçar ao ser pedida em casamento pelo personagem de Jerry O’Connell (“Carter”), mas o destino coloca em seu caminho um homem misterioso (Lucas), que a ensina a desejar mais. O filme é dirigido por Andy Tennant (“Caçador de Recompensas”), que também ajudou a roteirizar a adaptação, transformando a lição quase religiosa (porque baseada em fé) de “O Segredo” em drama romântico. Ou, segundo a crítica, numa grande perda de tempo – só 28% de aprovação no Rotten Tomatoes. Disponível em iTunes, Google Play, Looke, Now, Oi Play, Sky Play, Vivo Play e YouTube Filmes O Dilema das Redes | EUA | 2020 O novo documentário premiado de Jeff Orlowski (“Em Busca dos Corais”) reúne especialistas em tecnologia e profissionais da área para fazer um alerta: as redes sociais estão tendo um impacto devastador sobre a democracia e a humanidade. O filme chama atenção para questões importante da atualidade, como controle de informações, disseminação de fake news e manipulação cibernética, que faz com que brigar por mentiras seja mais importante que prestar atenção em problemas reais, além de fomentar cisões e isolamento cada vez maior entre as pessoas. Disponível na Netflix
Festival online: Cinefantasy apresenta 26 longas de terror e fantasia
A 10ª edição do Cinefantasy, Festival Internacional de Cinema Fantástico, também precisou se reinventar em tempos de pandemia e programou sua mostra na plataforma Belas Artes à La Carte. A seleção reúne 26 longas e mais de uma centena de curtas. Além disso, ao chegar ao formato digital, o festival também passou a incluir opções para menores. Uma das novidades é a seção Pequenos Fantásticos, com curtas de fantasia para crianças a partir de três anos. Outra, a FantasTeen, traz filmes dedicados aos adolescentes. O cinema brasileiro está representado com três longas – “Terminal Praia Grande”, de Mavi Simão, “Seu Amor de Volta (Mesmo Que Ele não Queira)”, de Bertrand Lira, e a versão longa do curta “Cabrito”, de Luciano Azevedo – e 32 curtas na seção competitiva, que inclui obras de 30 países. Na verdade, não há nada realmente imperdível entre os longas internacionais do festival, que engloba filmes medianos de terror, fantasia e ficção científica, mas talvez dê para arriscar destacar o grego “Exílio”, de Vassilis Mazomenos, o alemão “Jim Botão e Lucas, o Maquinista”, de Dennis Gansel (diretor do famoso “A Onda”) e a biografia do astro de spaghetti westerns “George Hilton – O Mundo é dos Audazes”, assinada pelo brasileiro Daniel Camargo, radicado na Itália. O melhor da programação é uma retrospectiva dos filmes de Rodrigo Aragão (foto acima), com a exibição de seus “clássicos” – “Mangue Negro” (2008), “A Noite do Chupacabras” (2011), “Mar Negro” (2013), “As Fábulas Negras” (2015) e o recente “A Mata Negra” (2018) – , além de uma homenagem à atriz Gilda Nomacce, que tem mais de 100 filmes na carreira. A programação completa pode ser conferida no endereço https://cinefantasy.com.br/, enquanto a exibição (rotativa) acontece até 20 de setembro em https://www.belasartesalacarte.com.br/.
Leandra Leal prepara documentário sobre hospital de campanha do Rio
A atriz Leandra Leal prepara novo documentário como diretora. Ela registrou as três últimas semanas de funcionamento do hospital de campanha da Lagoa, montado para atender as vítimas da pandemia de coronavírus no Rio de Janeiro. Intitulado “Por Trás da Máscara”, o filme vai retratar médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e fisioterapeutas que trabalharam na unidade até ela ser desmontada. O documentário acompanhou intimamente a rotina desses profissionais, mostrando a humanidade e a relação deles com a vida. Segundo o jornal O Globo, o projeto já entrou em fase de montagem. A previsão é que esteja pronto até o início de 2021 para ser inscrito em festivais. O primeiro documentário de Leandra Leal, “Divinas Divas” (2016), venceu o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em sua categoria, além de prêmios do público do Festival do Rio e do Festival SXSW nos EUA.
Filme da prisão de Caetano Veloso é “advertência” sobre futuro brasileiro
Único filme brasileiro selecionado para o Festival de Veneza, o documentário “Narciso em Férias” foi exibido nesta segunda-feira (7/9) em sessão de gala, fora de competição no evento italiano. Ausentes devido à pandemia de coronavírus, os responsáveis pelo longa participaram da première de forma remota, via videoconferência. Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil (“Uma Noite em 67”), o filme traz Caetano compartilhando suas memórias do cárcere e as canções que marcaram o período, quando foi preso com seu amigo Gilberto Gil em 1968 e posteriormente exilado do Brasil. Durante a entrevista coletiva, disponibilizada por streaming, os realizadores destacaram que o filme faz mais que relembrar fatos do passado, que muitos brasileiros não conhecem ou fingem não ter existido. Ele serve também como uma “advertência” para o futuro, diante de rumos dos tempos atuais, “para que não se repitam os erros que culminaram na atrocidade e na imbecilidade que foi a ditadura militar no Brasil”, nas palavras de Renato Terra. O diretor fez uma comparação entre o passado da ditadura e o governo brasileiro atual. “Em 1968, no Brasil, houve o AI-5, o Congresso Brasileiro foi fechado, havia censura na imprensa, pessoas eram sequestradas, tiradas de casa e torturadas, foi um período horrível da História brasileira. Hoje, a gente vive aqui numa democracia, é diferente, mas o caminho que a gente percorreu para chegar até 68 guarda algumas semelhanças com o que a gente tá vivendo nesse momento no Brasil”, apontou. Ele lembrou que a volta da ditadura é bandeira de alguns políticos nacionais. “O AI-5, por exemplo, que foi a causa direta da prisão do Caetano e do Gil… Algumas pessoas no Brasil – poucas, mas barulhentas – pedem a volta do AI-5 ou defendem a ditadura militar. E tem um absurdo muito grande nisso, uma coisa que é muito descolada da realidade”. Ricardo Calil, por sua vez, considerou que “os artistas estavam entre os primeiros alvos da ditadura militar” e, do mesmo modo, também são foco de ataques prioritários do governo atual, mas de forma distinta. “Não há mais a censura, mas há um esforço do governo em desmontar muitas áreas da Cultura, incluindo o cinema, incluindo a Cinemateca Brasileira, que é a instituição que guarda nossa memória cinematográfica, e também as instituições que patrocinam e financiam o cinema e garantem o futuro do cinema nacional” Paula Lavigne, mulher de Caetano e produtora do documentário, acrescentou que “Narciso em Férias” tem a função de relembrar como foi a ditadura, já que “muita gente não sabe que eles [Caetano e Gil] foram presos”, especialmente os mais novos, por causa da proibição de se noticiar a prisão na época e pela disseminação do negacionismo da extrema direita brasileira. Além disso, ela aponta que o verdadeiro motivo da prisão foi “uma fake news”, um boato, “e isso fica claro nos documentos: não existia uma acusação objetiva”. Essa arbitrariedade, que veio à tona em documentos recém-revelados sobre a prisão, transformam o encarceramento de Caetano e Gil “num teatro do absurdo, num pesadelo kafkiano”, na definição de Kalil. Por isso, o filme também serviria para desnudar o despreparo e o caos que caracterizou o regime militar brasileiro. “Uma das táticas da direita é o negacionismo”, ponderou Lavigne, lembrando que há pessoas de direita “dizendo até que não houve ditadura militar”. “Mas muitos artistas foram presos, alguns sofreram até mais que Caetano e Gil, foram torturados, outras pessoas mortas. Então, eu acho que o momento é muito adequado” para se falar disso. A entrevista foi disponibilizada na íntegra no canal do Festival de Veneza no YouTube. Veja abaixo, a partir de 1h13 minutos do vídeo, que reúne outras coletivas desta segunda no festival. Já “Narciso em Férias” pode ser visto, também desde esta segunda-feira, com exclusividade na plataforma Globoplay.
Documentário sobre prisão de Caetano Veloso ganha trailer e música exclusiva
A Uns Produções e Filmes divulgou o primeiro trailer de “Narciso em Férias”, documentário em que Caetano Veloso aborda seus dias de prisão durante a ditadura militar. Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil (“Uma Noite em 67”), o filme traz Caetano compartilhando suas memórias do cárcere e as canções que marcaram o período, quando foi preso com seu amigo Gilberto Gil em 1968 e posteriormente exilado do Brasil. A prévia traz relatos do cantor sobre o dia em que ele foi preso e também de seu cotidiano atrás das grades, culminando na inspiração para compor a música “Terra”, que ele interpreta ao violão para o documentário. “Terra” não é a única música que integra o filme. Caetano chegou a gravar uma versão de “Hey Jude”, dos Beatles, ao violão especialmente para a produção. Ele conta que a música que Paul McCartney fez para o filho de John Lennon o ajudou a superar os momentos mais difíceis daquela situação. Ouça abaixo. O documentário terá première mundial na segunda-feira (7/9) no Festival de Veneza, mesmo dia em que será lançado na Globoplay.
Estreias online: 10 filmes para assistir em casa no fim de semana
O destaque da seleção digital da semana é um filme que tende a virar objeto de culto ou então despertar intensa irritação. Esquisito, mas poético, encantador, mas frustrante, profundo, mas impenetrável, assim é “Estou Pensando em Acabar com Tudo”, que, apesar desse título, pode parecer não acabar nunca. Basta dizer que se trata de uma obra de Charlie Kaufman, o roteirista malucão de “Quero Ser John Malkovich”, “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” e “Adaptação”, que virou diretor de cinema após vencer o Oscar e sempre dá o que falar com seus filmes. Bem ou mal, “Estou Pensando em Acabar com Tudo” encaixa-se perfeitamente na lista das obras estranhas do cineasta. Mas vale a pena? As críticas mais positivas que negativas indicam que sim, se você for um cinéfilo fã de surrealismo, considerando os 86% de aprovação no Rotten Tomatoes. A Netflix também oferece o oposto disso, uma comédia romântica extremamente convencional em “Amor Garantido” (50% no RT), mostrando que há opções para todos os gostos. Confira abaixo os trailers e mais detalhes dos lançamentos online, lembrando que a curadoria não inclui títulos clássicos (são muitos) e produções trash, que em outros tempos sairiam diretamente em DVD – só nesta semana foram disponibilizados mais dois lixões estrelados por Nicolas Cage, um deles com míseros 3% de aprovação no Rotten Tomatoes! Estou Pensando em Acabar com Tudo | EUA | 2020 O novo filme de Charlie Kaufman (vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original por “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”) lembra as situações surreais das obras do cineasta, mas desta vez é baseada num romance, escrito por Iain Reid – disponível no Brasil. A trama explora a fragilidade da mente e os limites da solidão ao contar a história da namorada de Jake, que o acompanha em uma viagem para o interior para conhecer seus pais. Durante o trajeto, ela pensa em terminar a relação, mas ao chegar em seu destino começa a achar tudo muito estranho e a perceber que talvez seja tarde demais. O elenco destaca Jessie Buckley (“Judy: Muito Além do Arco-Íris”) como a namorada, que não tem nome na história, Jesse Plemons (“O Irlandês”) como Jake, e David Thewlis (“Mulher-Maravilha”) e Toni Collette (“Hereditário”) como os pais bizarros. Disponível na Netflix. Amor Garantido | EUA | 2020 A sumida Rachael Leigh Cook (“Ela É Demais”) retorna às comédias românticas como uma advogada que ajuda um cliente bonitão a processar um site de namoro por propaganda enganosa. O cliente é vivido por Damon Wayans Jr. (“Happy Endings”) e, quem diria, o diretor Mark Steven Johnson já foi conhecido por filmar heróis da Marvel – “Demolidor, o Homem Sem Medo” (2003) e “O Motoqueiro Fantasma” (2003). Disponível na Netflix. The Day Shall Come | EUA | 2020 O diretor Christopher Morris volta ao terreno do premiadíssimo “Quatro Leões” (2010) em sua nova sátira social, desta vez apontando suas câmeras para outro tipo de terrorismo, aquele criado por fantasias do FBI. A trama acompanha um pregador pobre de Miami que recebe uma oferta em dinheiro para evitar o despejo de sua família. Ele não faz ideia de que seu financiador trabalha para o FBI, e que pretende transformá-lo em um terrorista ao alimentar seus tresloucados sonhos revolucionários. A moral da história é que é mais fácil fabricar um falso terrorista que prender um verdadeiro. Mas nem tudo sai de acordo com os planos, nas reviravoltas de humor negro dessa história maluca, estrelada pelo estreante Marchánt Davis, Anna Kendrick (“A Escolha Perfeita”) e Denis O’Hare (“American Horror Story”). Disponível no iTunes. Breve Miragem de Sol | Brasil | 2019 Fabrício Boliveira venceu o prêmio de Melhor Ator no Festival do Rio pelo papel de Paulo, recém-divorciado que começa a trabalhar como taxista na noite do Rio de Janeiro. Similar a “Transeunte” (2010), do mesmo diretor, Eryck Rocha, o filme usa a premissa para observar pessoas aleatórias. A coleção de vinhetas resultante da troca de passageiros também remete a “Uma Noite Sobre a Terra” (1991), de Jim Jarmusch, mas a experiência documental de Rocha faz grande diferença na captação das imagens. Disponível na Globoplay. A Cidade dos Piratas | Brasil | 2019 A nova animação de Otto Guerra, diretor de “Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll” (2006) e “Até que a Sbórnia nos Separe” (2013), adapta a obra de Laerte Coutinho, mas, apesar do título, não se trata de uma produção sobre a tirinha “Piratas do Tietê”, criada pelo cartunista, mas sim inspirada pela vida e pela arte do artista. Isto fica claro logo na abertura, que se foca na transição de gênero de Laerte, e segue na temática da história, ao apresentar a reação conservadora contra uma suposta “ditadura gay” atual. Há também um discussão metalinguística sobre os bastidores da produção, com o próprio diretor transformado em desenho. O elenco de dubladores inclui Matheus Nachtergaele (“Trinta”) e Marco Ricca (“Chatô, o Rei do Brasil”) Disponível no iTunes, Google Play, Now, Vivo Play e YouTube Filmes. Os Espetaculares | Brasil | 2020 Comédia brasileira passada no universo dos stand ups. Paulo Mathias Jr. (“Doidas e Santas”) vive um humorista azarado que precisa entrar numa competição de grupos de humor para conseguir dinheiro e evitar a prisão. Ele acaba se juntando a Rafael Portugal (do “Porta dos Fundos”) e Luísa Périssé (do “Zorra”). A direção é de André Pellenz, de “Minha Mãe é uma Peça: O Filme” (2013) e “Detetives do Prédio Azul: O Filme” (2017). Disponível no iTunes, Google Play, Now, Sky Play, Vivo Play e YouTube Filmes. Fourteen | EUA | 2019 O drama indie escrito e dirigido por Dan Sallitt é uma lição sobre a amizade, e como a passagem do tempo pode mudar os laços e a visão que temos de velhos amigos. A trama acompanha duas grandes amigas de infância, que tem reações diferentes à vida adulta. Enquanto a mais genial e expansiva tem dificuldades de manter emprego, a mais tímida e focada segue firme em seu projeto de vida. Mas logo fica claro que o problema da primeira, cada vez mais disfuncional, pode ter raízes mais profundas que a imaturidade. Mesmo diante dos desafios, a outra resolve não abandoná-la. Disponível na Looke. Greed: A Indústria da Moda | Reino Unido | 2019 Comédia sobre o universo de opulência, mau gosto, falto de tato e exploração descarada dos podres de ricos, que teria sofrido censura do próprio estúdio. O filme traz Steve Coogan (“Philomena”) como um multimilionário inspirado pelo presidente do Arcadia Group, Sir Philip Green, e teria sofrido uma série de cortes para proteger as “relações corporativas” da Sony, devido a seu tema polêmico. A denúncia foi feita pelo diretor Michael Winterbottom (“O Assassino em Mim”) em entrevista publicada no jornal inglês The Guardian. A trama se passa durante uma festa grandiosa de seu protagonista, enquanto um jornalista investiga as condições de semi-escravidão dos funcionários das fábricas asiáticas responsáveis por tamanha riqueza. Disponível no iTunes, Google Play, Now e YouTube Filmes. Exterminador: Cavaleiros e Dragões | EUA | 2020 O supervilão “Exterminador” ganha sua primeira animação. Com muitas cenas de ação e violência inadequada para crianças, a adaptação da DC Comics compensa com sangue os diálogos típicos de história em quadrinhos. Disponível no iTunes. Showbiz Kids | EUA | 2020 Documentário sem firulas sobre o negócio de ser um ator mirim na indústria do entretenimento. O filme traz depoimentos de ex-estrelas infantis famosas, como Henry Thomas (“E.T.”), Milla Jovovich (“De Volta à Lagoa Azul”) e até o recém-falecido Cameron Boyce (“Descendentes”), para retratar os altos e baixos da profissão. Disponível na HBO Go.
Circuito drive-in exibe três filmes brasileiros premiados e inéditos nos cinemas
As salas de cinema começam a abrir em várias cidades do Brasil, mas os cines drive-in seguem prestigiados. Sinal disso é que a programação deste fim de semana nos cinemas ao ar livre conta com a exibição de três filmes nacionais premiados e inéditos no circuito cinematográfico tradicional: “Três Verões”, “Alice Júnior” e “Pacarrete”. Por coincidência, os três filmes abordam mulheres. Elas são completamente diferentes entre si, mas apresentam a mesma disposição de resistência, compondo um bom panorama. Todas estão em cartaz em São Paulo, mas também podem ser vistas em outras localidades. Confira mais detalhes abaixo. Três Verões | Brasil | 2019 Originalmente previsto para março passado, o filme de Sandra Kogut (“Campo Grande”) retrata o Brasil contemporâneo por meio do olhar de Madá (Regina Casé), caseira de um condomínio de luxo à beira-mar. A trama mostra, sob seu ponto de vista, o desmantelamento de uma família em função dos dramas políticos recentes que abalaram o país, passando-se ao longo de três verões consecutivos (2015, 2016 e 2017), na luxuosa casa de veraneio da família. O filme pergunta o que acontece com aqueles que gravitam em torno dos ricos e poderosos quando a vida destes desmorona, ao mesmo tempo em que registra as mudanças sociais e políticas dos últimos anos no Brasil, ilustrada por meio da prisão do patrão (Otávio Müller, de “Segunda Chamada”) por corrupção. Consagrado no exterior, o longa fez sua estreia mundial no Festival de Toronto, no Canadá, foi premiado no Festival de Havana, em Cuba, e rendeu troféus de Melhor Atriz para Regina Casé nos festivais do Rio e de Antalya, na Turquia. Alice Júnior | Brasil | 2019 Premiado nos festivais do Rio, Brasília, Mix Brasil e exibido em Berlim, o filme de Gil Baroni (“O Amor de Catarina”) acompanha uma adolescente transexual que se muda com a família de Recife para o interior do país. Na nova cidade, mais conservadora, ela sofre preconceito dos colegas de escola e tem dificuldades para expressar a própria identidade de maneira livre. Mas logo vai se soltando e conquistando seu espaço, ajudando também o filme a se assumir mais comédia teen que melodrama de novela. A produção adota uma estética atual, ao apresentar a protagonista como YouTuber, e utiliza linguagem dessa mídia para dar à trama o tom alegre de um fábula moderna. No centro de tudo, Anne Celestino levou o prêmio de Melhor Atriz em Brasília por sua Alice. Pacarrete | Brasil | 2019 Vencedor de oito troféus no último Festival de Gramado, incluindo Melhor Filme nas votações do júri e do público, além de prêmios para a atriz Marcélia Cartaxo e o diretor-roteirista Allan Deberton, o drama conta a história real de uma mulher de Russas, no interior do Ceará. Bailarina e ex-professora, a mulher do título sonha em dançar balé na festa da cidade. Com voz estridente, grita frases desconexas pelas ruas — e é simplesmente tachada de louca pelos moradores – , mas nunca se dá por vencida, defendendo sua arte em protesto e resistência.
Ancine completa um ano sem presidente sob Bolsonaro
A Ancine (Agência Nacional de Cinema) completou um ano sem presidente no domingo passado (30/9). A entidade ficou sem presidente após Jair Bolsonaro afastar Christian de Castro no final de agosto de 2019, atendendo a uma decisão judicial. O MPF (Ministério Público Federal) acusou Castro de ter prestado declaração falsa a respeito de vínculos societários à Ancine e à Comissão de Ética Pública da Presidência da República. Ele e um sócio são acusados de terem atuado em favor de empresas nas quais tinham participação. A Justiça Federal no Rio de Janeiro aceitou a denúncia e o tornou réu. Desde então, a agência é presidia de forma interina por Alex Braga. No entanto, passado este tempo, o desgoverno não cogitou efetivar Braga no cargo nem indicar outro nome. Esta não é a única posição vaga na Ancine ou nas várias entidades e comissões da área da Cultura. Desde que Bolsonaro assumiu a presidência, o setor vive paralisação e desmonte, inclusive com alta rotatividade no cargo de titular da Secretaria Especial de Cultura. Vale lembrar que, por conta dessa prática, a Ancine ainda não liberou o FSA (Fundo Setorial do Audiovisual) de 2019, resultado de impostos cobrados em 2018, nem sequer mencionou os valores disponíveis para 2020 – antigamente definidos no começo de cada ano. Produtores que tiveram projetos aprovados antes de 2019 estão processando a entidade para ter acesso à verbas definidas em editais. E um dos relatórios mais recentes da instituição sugere que os mais de R$ 700 milhões do FSA contabilizados e não utilizados no ano passado simplesmente “sumiram”…
Festival de Sitges vai homenagear José Mojica Marins
O Festival de Sitges, um dos eventos mais tradicionais dedicados ao cinema de terror e fantasia, que acontece anualmente desde 1968 na Espanha, vai prestar uma homenagem à carreira do cineasta José Mojica Marins, criador do personagem Zé do Caixão. Em sua edição de 2020, marcada para acontecer entre 8 a 18 de outubro, o festival projetará o primeiro longa de Zé do Caixão, “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”, lançado em 1964, além de exibir o documentário “Maldito – O Estranho Mundo de José Mojica Marins”, de André Barcinski e Ivan Finotti, e o curta “O Universo de Mojica Marins”, de Ivan Cardoso. Ator, diretor, roteirista e personagem de si mesmo, José Mojica Marins já foi premiado no festival espanhol. Ele venceu a competição de Stiges com “Encarnação do Demônio”, filme que encerrou a trilogia central do personagem Zé do Caixão. Marins morreu no dia 19 de fevereiro passado, aos 83 anos, devido a uma broncopneumonia.
Pietro Mário Bogianchini (1939 – 2020)
O ator e dublador Pietro Mário Bogianchini, que foi o primeiro apresentador de programa infantil da TV Globo, morreu na manhã de segunda (31/8), aos 81 anos, no Rio de Janeiro. Pietro estava internado desde maio, após sofrer sucessivos acidentes vasculares cerebrais, e tinha passado por uma breve melhora antes de sofrer uma parada cardíaca. O artista também pegou covid-19, mas teria se curado – embora a doença afete o coração. Italiano naturalizado brasileiro, Bogianchini ficou famoso ao interpretar o Capitão Furacão, protagonista de um programa infantil de sucesso apresentado pela TV Globo entre os anos de 1965 e 1970. O programa do “Capitão Furacão” estreou junto com a Globo, no dia 26 de abril de 1965. Na atração, o ator vivia cercado de crianças e, enquanto girava o leme de seu navio, lia as cartas enviadas pelos telespectadores, promovia gincanas, contava histórias do mar, dava conselhos aos marinheiros iniciantes e apresentava desenhos animados. Após o fim do programa, continuou trabalhando no universo infantil como dublador, tendo feito a voz do Capitão Caverna, na série da Hanna-Barbera, além de vários personagens emblemáticos da Disney, como Rafiki, de “O Rei Leão”, o Governador, em “Pocahontas”, Maurice em “A Bela e a Fera”, o Coruja em “Bambi” e o Sultão de “Aladdin”. Bogianchini também atuou em filmes clássicos, como “Os Machões” (1972), “A Noite do Meu Bem” (1968) e “Engraçadinha Depois dos Trinta” (1966), e em várias novelas da Globo, desde “O Espigão” em 1974. Entre as mais recentes estão “Novo Mundo” (2017), “Pega Pega” (2017) e “Deus Salve o Rei” (2018), na qual interpretou Patriarca da Fé. Nos últimos anos, tinha sido redescoberto pelo cinema brasileiro, aparecendo em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (2001), “Copacabana” (2001), “Meteoro” (2006), “Chico Xavier” (2010), “O Duelo” (2015) e “M8: Quando a Morte Socorre a Vida” (2019), ainda inédito em circuito comercial. Além disso, fez papel importante na série “O Mecanismo”, da Netflix, como o Dr. Mário Garcez Britto, personagem inspirado no ex-Ministro da Justiça Marcio Thomaz Bastos.
Filha de Grazi Massafera e Cauã Reymond vai estrear como atriz aos 8 anos
A filha de Grazi Massafera e Cauã Reymond vai estrear como atriz no próximo filme da diretora Laís Bodansky (“Como Nossos Pais”). A pequena Sofia Marques, de oito anos, foi escalada no filme “Pedro”, que será protagonizado por seu pai. Em entrevista para a colunista Patrícia Kogut, do jornal O Globo, Grazi disse que a decisão de deixá-la participar do filme foi muito tranquila. “Sofia é uma menina, ela atua brincando. Eu a estimulo a ser criança, brincando o tempo todo, criando histórias e personagens”. O Pedro do título da produção é Dom Pedro I. Atualmente em fase de pós-produção, o filme é centrado na volta do ex-imperador do Brasil a Portugal, após ser destronado por um golpe parlamentar. Durante a travessia, ele reflete sobre sua vida no Brasil desde a infância, quando chegou com seus pais de Portugal, em 1808, até sua saída na calada da noite, fugindo para não ser apedrejado pela população, em 1831. Orçado em R$ 11 milhões, o longa, que também será transformado em uma minissérie de quatro capítulos, tem 40% das cenas rodadas em Portugal e na Ilha dos Açores. A realização é uma coprodução de produtoras brasileiras com a portuguesa O Som e a Fúria. O roteiro é assinado por Bodanzky, seu marido e parceiro profissional Luiz Bolognesi e Chico Matoso.












