
Divulgação/34 Filmes
“Retorno a Buenos Aires” leva Brasil à disputa do Leão de Ouro
Coprodução de Marco Bechis foi filmada em Porto Alegre e concorre com novos trabalhos de Danny Boyle, Werner Herzog e Hirokazu Kore-eda
Brasil em Veneza
“Retorno a Buenos Aires”, coprodução entre Brasil e Itália dirigida por Marco Bechis, foi anunciado nesta quinta-feira (23/7) entre os 20 filmes que disputarão o Leão de Ouro na 83ª edição do Festival de Veneza.
Produtora celebrou seleção
Uma das produtoras do filme, Cibele Amaral comemorou a presença na competição principal de Veneza. “Este festival é um dos grandes festivais que lança os filmes que depois vão pro Oscar. Por exemplo, o nosso querido ‘Ainda Estou Aqui’ estreou em Veneza. Filmes como ‘La La Land’, ‘Nomadland’, ‘Coringa’, ‘Pobres Criaturas’… Então, realmente é uma conquista pro nosso cinema e também uma conquista muito especial para nós”, ela vibrou no Instagram.
Rodado majoritariamente em Porto Alegre, o longa representa as produtoras brasilienses 34 Filmes e Neo Cortex na principal competição do evento, realizado entre 2 e 12 de setembro.
Qual é a história do filme?
O ator Adriano Giannini (“Bang Bang Baby”) interpreta Mariano Guerra, um médico italiano que retorna à Argentina depois de mais de três décadas para testemunhar contra os antigos militares responsáveis por seu sequestro e tortura durante a ditadura que comandou o país entre 1976 e 1983.
A viagem, porém, não conduz um herói movido apenas pelo desejo de justiça. Enquanto espera sua vez de depor e reencontra outros sobreviventes do centro clandestino onde esteve preso, Mariano precisa enfrentar a culpa por ter cedido sob tortura e denunciado antigos companheiros.
A trama se desenvolve em 2008, quando julgamentos contra agentes da repressão voltavam a mobilizar a sociedade argentina, e relaciona a memória pessoal do protagonista a um país que ainda tenta compreender os crimes cometidos durante o regime militar.
A brasileira Paula Cohen (“Elas por Elas”) vive a juíza Desideria Losada, responsável por conduzir o processo, e o estreante Eduardo Hoy interpreta Mariano na juventude.
Diretor revive uma ferida pessoal
A história dialoga diretamente com a trajetória de Marco Bechis, cineasta chileno-italiano que cresceu entre São Paulo e Buenos Aires. Em 19 de abril de 1977, quando tinha 20 anos, ele foi detido e levado ao Club Atlético, um dos centros clandestinos utilizados pela ditadura argentina.
Expulso do país por motivos políticos, Bechis refez a vida em Milão e transformou a experiência em parte central de sua obra. A repressão já havia aparecido em “Garage Olimpo” (1999), enquanto sua relação com o Brasil orientou “Terra Vermelha” (2008), drama sobre a luta de indígenas Guarani-Kaiowá pela terra.
“Volto à Argentina 50 anos depois, com uma história que não é a minha, mas que nasce de uma ferida que conheço. Eu também fui sequestrado durante a ditadura argentina, mas Mariano não sou eu. Por meio dele, procurei contar esse momento em que o passado volta a ocupar o presente”, afirmou o diretor.
Bechis evitou transformar o novo protagonista numa reprodução direta de si mesmo. “Escolhi a ficção porque, às vezes, ela é a única forma de se aproximar de uma verdade que a memória, sozinha, não consegue contar. Busquei uma direção essencial, sem explicar nem julgar. Interessavam-me os silêncios, os rostos, o tempo da espera, os lugares que conservam as marcas do que aconteceu. No fundo, este filme fala de uma única coisa: da culpa do sobrevivente, que persiste”, explicou.
Porto Alegre virou Buenos Aires
Aproximadamente 70% das filmagens ocorreram em Porto Alegre, que serviu como dublê da capital argentina, enquanto o restante foi registrado em Turim. A produção terminou em março, quando o golpe militar de 1976 completou 50 anos.
A coprodução reúne a 34 Filmes, representada por Patrick de Jongh, Cibele Amaral e André Ristum, e as empresas italianas Fandango, 39Films e Karta Film, com participação da Rai Cinema.
A equipe brasileira inclui ainda Eduardo Antunes na direção de arte, Coca Serpa nos figurinos, Beto Rodrigues na direção de produção e Betânia Furtado na assistência de direção.
Que filmes disputam o Leão de Ouro?
“Retorno a Buenos Aires” enfrentará novos trabalhos de alguns dos cineastas mais reconhecidos do cinema internacional. A abertura ficará a cargo de “Ink”, de Danny Boyle, que terá sua première mundial na noite de 2 de setembro.
Estrelado por Guy Pearce, Jack O’Connell e Claire Foy, o drama aborda a transformação do jornal britânico “The Sun” após sua aquisição por Rupert Murdoch, dono da rede Fox, e marca o retorno do diretor de “Trainspotting” e “Quem Quer Ser um Milionário?” à principal competição veneziana.
O irlandês Martin McDonagh concorre com “Cavalo Selvagem Nove”, que acompanha agentes da CIA enviados à Ilha de Páscoa pouco antes do golpe militar chileno de 1973. John Malkovich e Sam Rockwell lideram um elenco que também inclui Steve Buscemi, Tom Waits e Parker Posey.
Werner Herzog apresenta “Vale Imaginário”, estrelado pelas irmãs Rooney Mara e Kate Mara como duas mulheres que falam em uníssono, compartilham sonhos e se apaixonam pelo mesmo homem. Orlando Bloom e Domhnall Gleeson também participam da produção.
A seleção ainda reúne “Company”, terceiro longa dirigido pelo ator Casey Affleck com Nick Nolte, Ben Mendelsohn e Scoot McNairy; “Primetime”, de Lance Oppenheim, no qual Robert Pattinson interpreta um jornalista envolvido no submundo do crime; e “Bunker”, novo trabalho do francês Florian Zeller estrelado por Penélope Cruz, Javier Bardem, Paul Dano e Stephen Graham.
Além dos filmes estrelados por astros de Hollywood, o celebrado cineasta japonês Hirokazu Kore-eda disputa o prêmio com “Look Back”, o sul-coreano Lee Chang-dong apresenta “Possible Love”, e o italiano Nanni Moretti retorna à competição com “Succederà Questa Notte”, estrelado por Louis Garrel e Jasmine Trinca.
Documentários levam música e bilionários ao festival
Fora da competição, os roqueiros Liam e Noel Gallagher acompanharão o lançamento de “Oasis: Don’t Look Back in Anger”, documentário sobre a turnê que os reuniu novamente no palco.
Russell Crowe também dirige um documentário musical, “What Love Builds”, produção de 99 minutos sobre sua própria banda, Indoor Garden Party. Já o premiado documentarista político Alex Gibney apresenta “Musk”, retrato de 3 horas e 52 minutos sobre Elon Musk e a expansão de sua influência empresarial e política.
A programação paralela também inclui novos trabalhos de Wim Wenders, Paul Schrader, Amos Gitai, Sergei Loznitsa, Laura Poitras, Tsai Ming-liang e Takashi Miike.
Quem comanda o júri?
A atriz e diretora Maggie Gyllenhaal, premiada no Festival de Veneza de 2021 por seu roteiro de “A Filha Perdida”, presidirá o júri responsável pela escolha do Leão de Ouro. O grupo também será formado pela cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, pelo compositor britânico Daniel Blumberg, pelo professor italiano Francesco Casetti, pelo diretor francês Xavier Giannoli, pela realizadora afegã Shahrbanoo Sadat e pelo venerado cineasta dos filmes de ação de Hong Kong Johnnie To.
Gyllenhaal ainda exibirá fora da competição o curta “Flesh Impact”, estrelado por Ellen Burstyn, Dakota Johnson, Peter Sarsgaard e Sepideh Moafi. A trama acompanha uma mulher misteriosa que participa de uma audição teatral e começa a revelar segredos sobre sua identidade.
Burstyn será homenageada com um Leão de Ouro pelo conjunto de sua carreira. O festival também concederá o mesmo prêmio honorário a George Clooney, reconhecendo sua trajetória como ator, diretor e produtor.