Natalie Portman responde ataque de Rose McGwan



A atriz Natalie Portman respondeu o ataque de Rose McGowan, que a chamou de “fraude” por desfilar no tapete vermelho do Oscar com uma capa da Dior, onde era possível ver os nomes das diretoras que fizeram trabalhos de destaque neste ano, mas não foram lembradas na categoria de Melhor Direção nos prêmios da Academia. Apenas homens receberam indicações ao prêmio, vencido pelo sul-coreano Bong Joon Ho.

McGowan foi ao Facebook reclamar da aparição da atriz, dizendo que o protesto era, em sua opinião, “profundamente ofensivo”. Ela escreveu: “[É] O tipo de protesto que recebe elogios da grande mídia por sua bravura. Corajoso? Não, nem de longe. Mais como uma atriz representando o papel de alguém que se importa, como muitas fazem”.

Ela ainda sugeriu que a vencedora do Oscar por “Cisne Negro” “pendure seu casaco de ativista”, apontando que Portman trabalhou com poucas mulheres cineastas na carreira, além de ter uma produtora que já realizou seis filmes, dos quais apenas um foi dirigido por mulher – por sinal, a própria Portman. “O que há com atrizes do seu tipo? Vocês do primeiro escalão podem mudar o mundo caso se posicionem, em vez de ser o problema”, escreveu McGowan. “Sim, você, Natalie. Você é o problema. O apoio falso a outras mulheres é o problema.”.

Na noite de quarta (12/1), Portman respondeu à provocação num comunicado. “Eu concordo com McGowan que é impreciso me chamar de ‘corajosa’ por usar uma roupa com nomes femininos. Bravo é um termo que eu associo mais fortemente a ações como as das mulheres que testemunharam contra Harvey Weinstein nas últimas semanas, sob incrível pressão”.

A citação a Weinsten não é casual, porque apesar de se apresentar como líder do movimento #MeToo, McGowan não foi testemunha da acusação contra Weinstein no atual julgamento do ex-produtor por abuso sexual em Nova York. Na verdade, ela nem quis ser entrevistada na reportagem pioneira do New York Times que precipitou o #MeToo e derrubou o poderoso magnata de Hollywood, embora tivesse sido citada e procurada pelas repórteres. Isto porque teria recebido dinheiro para ficar quieta. Já Ashley Judd foi corajosa e deu voz à denúncia, dando início a um movimento. Depois que várias outras atrizes acusaram Weinstein, McGowan trocou a fuga do assunto pelo tom de ativista nas redes sociais, faturando com o lançamento um livro sobre sua suposta coragem.

Portman ainda acrescentou: “Nos últimos anos, surgiram oportunidades na direção (de filmes) para as mulheres, devido aos esforços coletivos de muitas pessoas que estão desafiando o sistema. O presente tem sido esses filmes incríveis. Espero que o que foi concebido como um simples aceno para elas não desvie suas grandes realizações”, disse.

“É verdade que só fiz alguns filmes com mulheres. Em minha longa carreira, só tive a chance de trabalhar com diretoras algumas vezes – fiz curtas, comerciais, videoclipes e longas-metragens com Marya Cohen, Mira Nair, Rebecca Zlotowski, Anna Rose Holmer, Sofia Coppola, Shirin Neshat e eu mesma. Infelizmente, os filmes não feitos que tentei fazer são como uma história de fantasmas”.


Natalie Portman realmente teve vários projetos com direção feminina abortados. Entre eles, um “Thor” dirigido por Patty Jenkins. A atriz jogou sua influência na contratação da futura cineasta de “Mulher-Maravilha”, mas conflitos artísticos no começo da produção de “Thor: O Mundo Sombrio” (2013) fizeram a cineasta ser substituída por Alan Taylor. Portman chegou a ameaçar se demitir, mas precisou cumprir o contrato que assinou quando Jenkins entrou no filme.

Outro projeto que deu errado foi o western feminista “Em Busca da Justiça” (2015), que seria originalmente dirigido por Lynne Ramsay. Logo na primeira semana de filmagem, a cineasta inglesa surtou e foi demitida, interrompendo a produção até que um substituto fosse contratado – Gavin O’Connor realizou o filme em situação de emergência – , dando grande prejuízo para a própria Portman, que empenhou seu dinheiro como produtora.

Sem contar a história dos fantasmas que assombraram sua carreira, Portman continuou: “Como Stacy Smith da USC bem documentou, os filmes femininos têm sido incrivelmente difíceis de serem feitos nos estúdios ou de serem financiados de forma independente. Se esses filmes são feitos, as mulheres enfrentam enormes desafios durante a realização deles. Eu tive a experiência algumas vezes de ajudar as mulheres a serem contratadas em projetos dos quais elas foram forçadas a sair por causa das condições que enfrentavam no trabalho”, relembrou.

“Depois de feitos, os filmes dirigidos por mulheres enfrentam dificuldades para entrar em festivais, obter distribuição e receber elogios por causa de obstáculos de todos os níveis. Então, eu quero dizer, eu tentei e continuarei tentando. Embora eu ainda não tenha tido sucesso, espero que estejamos entrando em um novo dia”, finalizou.

A polêmica com Portman é apenas a última de uma série de ataques de McGowan contra colegas da indústria cinematográfica. Em 2018, ela também atacou a iniciativa Time’s Up, criada por um grupo de personalidades femininas para apoiar vítimas de abuso e lutar por maiores oportunidades e igualdade salarial para as mulheres. O motivo, aparentemente, foi o fato de não ter sido convidada a fazer parte de sua liderança.

A atriz reclamou especificamente de não ter chamada para os “almoços e eventos” do grupo. “Honestamente, eu nem quero ir. É tudo a m**** de uma mentira. É uma mentira que faz com que elas se sintam melhor”, disse, em entrevista à revista dominical do jornal britânico The Times. “Elas não são campeãs, são perdedoras. Eu não gosto delas. Como você explica o fato de que ganhei um prêmio de ‘homem do ano’ da GQ, mas nenhum grupo de mulheres ou revista de mulheres me apoiou?”.

Ela também caluniou e levou Asia Argento a ser demitida de um programa da TV italiana, posteriormente retratando-se com um pedido de desculpas por espalhar “um número de fatos incorretos”, e é acusado pela família de sua ex-empresária, Jill Missick, de tê-la levado ao suicídio. Missick admitiu, em email usado pela defesa de Weinstein, que McGowan teria lhe dito que seu relacionamento com o produtor tinha sido “consensual”. McGowan reagiu como costuma reagir e sua ex-empresária, que sofria de depressão, matou-se em fevereiro de 2018.



Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna



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