Diversidade e politização empolgam mais que os filmes no Oscar 2018



A premiação do Oscar 2018 será o evento mais diversificado já apresentado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos. E esta conquista é resultado direto da política implementada em 2016, como reação à campanha-denúncia #OscarSoWhite, após dois consecutivos sem indicações de atores negros.

Para sacudir o status quo, a Academia aposentou vários eleitores veteranos e trouxe mais mulheres e pessoas de diferentes etnias para seu clubinho. Segundo dados da própria Academia, o número de negros convidados a votar no prêmio subiu 331% de 2015 a 2017. No mesmo período, a quantidade de mulheres aumentou 369%. Para se ter ideia, só neste ano, dez novos brasileiros ganharam direito a voto – entre eles, o ator Rodrigo Santoro (“Ben-Hur”) e os diretores Kleber Mendonça Filho (“Aquarius”), Cacá Diegues (“O Maior Amor do Mundo”), Nelson Pereira dos Santos (“A Música Segundo Tom Jobim”) e Walter Carvalho (“Brincante”).

Isto abriu o horizonte do Oscar, com recorde de indicações femininas, entre elas a da primeira mulher a disputar a categoria de Melhor Direção de Fotografia (Rachel Morrison, de “Mudbound”) e primeira pessoa negra – além de segunda mulher da história – a concorrer por Melhor Roteiro Adaptado (Dees Rees, também de “Mudbound”). Também houve maior tolerância sexual, com indicação ao primeiro diretor transexual (Yance Ford, do documentário “Strong Island”) e o convite à primeira atriz trans a apresentar um prêmio no evento (a chilena Daniela Vega, de “Uma Mulher Fantástica”).

Ao mesmo tempo, essas mudanças não segregaram os brancos idosos. Ao contrário, há três artistas nascidos em 1928 que disputam neste domingo (4/3) a oportunidade de se tornar a pessoa mais velha já premiada pela Academia – a diretora belga Agnes Varda (do documentário “Visages Villages”), o roteirista James Ivory (“Me Chame pelo seu Nome”) e o ator Christopher Plummer (“Todo o Dinheiro do Mundo”). O que também significa um avanço contra o preconceito de idade.

Por outro lado, apesar de Guillermo Del Toro ser favorito na categoria de Melhor Direção, integrantes de organizações latinas resolveram marcar protestos por maior inclusão na indústria cinematográfica. Como demonstrou a campanha #OscarSoWhite, está claro que pressão funciona. E grupos variados tendem agora a aumentar o lobby por maior representatividade.



A campanha deste Oscar, porém, é a #MeToo. São esperados muitos discursos sobre empoderamento feminino e críticas ao assédio sexual.

Na verdade, não faltarão motivos para politizar o evento, incluindo em categorias como Melhor Documentário e Filme Estrangeiro, a depender do resultado.

Só vão faltar mesmo os bons filmes. Em alguns casos, a exclusão foi proposital. A Academia tratou de deixar de fora o melhor documentário, “Jane”, de Brett Morgen, sobre o trabalho da cientista especializada em primatas Jane Goodall, que venceu inúmeros prêmios. Ele foi propositalmente barrado para que filmes de temática politizada entrassem no páreo. Assim como impediu “120 Batimentos por Minuto”, que venceu o César – o Oscar francês – , para permitir a participação do primeiro – e mediano – filme do Líbano (“O Insulto”).

Na maioria dos casos, porém, há de se lamentar simplesmente a safra cinematográfica. A ponto de reparar que os melhores filmes americanos de 2017 foram blockbusters e não dramas profundos do cinema indie – que praticamente inexistiram. De “Três Anúncios de um Crime” a “Lady Bird”, sem esquecer “Me Chame pelo seu Nome”, os indicados ao Oscar 2018 dificilmente conseguiriam indicação em outros – e melhores – anos.



Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna



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