Candidato brasileiro ao Oscar, Pequeno Segredo é melodrama convencional
Membro da família de velejadores Schurmann, David Schurmann já havia se prontificado a levar para os cinemas detalhes de suas expedições com o documentário “O Mundo em Duas Voltas” (2007). Em “Pequeno Segredo”, escolhido para representar o Brasil na busca por uma indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, o diretor volta a resgatar as memórias de sua família, especialmente de sua irmã adotiva, desta vez como ficção. Mas em vez de suas aventuras marítimas pelo mundo, foca um drama particular narrado por sua mãe Heloisa no livro “Pequeno Segredo – As Lições de Kat para Família Schurmann”. Mesmo o mais desinformado dos espectadores sabe que o centro da trama é a enfermidade carregada por Kat (Mariana Goulart), pré-adolescente que acredita ingerir vitaminas para controlar uma hepatite. Adotada por Heloisa (Julia Lemmertz) e Vilfredo (Marcello Antony), Kat tem os detalhes de sua concepção recriados aos poucos em “Pequeno Segredo”. Graduado em cinema e televisão na Nova Zelândia, David Schurmann sugere ter grande afeto por filmes corais, aqueles em que alguns personagens desconhecidos entre si se conectam em uma narrativa não linear. É um desafio gerenciar indivíduos de personalidades distintas em linhas temporais diversas e, mesmo que Schurmann tenha a facilidade de lidar com apenas dois núcleos familiares, há uma regra sagrada não respeitada em “Pequeno Segredo”: o fator surpresa. Fracassando ao pretender que o “pequeno segredo” nos seja revelado na mesma altura em que Kat descobre o que condenará a sua existência (uma pista jogada no primeiro ato trata de destruir qualquer apreensão que esse mistério provocaria), a condução de Schurmann se sabota na tentativa de respeitar as regras mais básicas da cartilha do melodrama. É um filme que não tem vergonha de admitir que foi feito para emocionar, mas que não sabe até onde apelar para fazê-lo. Além da estrutura, dessas que ainda lidam com dados do passado já descortinados pelo presente, outro problema no filme vem a ser a construção de personagens. O senso de desprendimento dos Schurmann foi substituído por um novo estilo de vida em que Kat é uma prioridade 24 horas por dia. Já os pais biológicos da garota (interpretados por Maria Flor e Erroll Shand) contam com preocupações como o bem-estar próprio e alheio, assim como os dilemas de abandonar ou se manter em seus locais de origem. Mas são logo descartados quando os Schurmann assumem um protagonismo mais evidente. Lamentavelmente, o trabalho mais ingrato recai justamente nos ombros da irlandesa Fionnula Flanagan, excelente veterana, mais conhecida por filmes como “Mães em Luta” e “Os Outros”, bem como por sua participação especial no seriado “Lost”. No papel da avó biológica de Kat, a atriz precisa se virar com falas desprezíveis e ainda é submetida a uma redenção a partir de um monólogo sobre o que é amar, que jamais compramos. É preciso coragem para tornar pública uma história dolorosa e privada e David Schurmann busca compartilhar a de sua irmã com carinho e ênfase em valores, que deseja que o público carregue consigo após a sessão. No entanto, também é preciso um amadurecimento profissional que nenhuma credencial para tentar uma vaga no Oscar é capaz de substituir. Talvez fosse melhor ter repassado a história de Kat para outro diretor que não se preocupasse tanto em higienizar a tela e enfeitá-la com borboletas.
O Nascimento de Uma Nação é obra impactante de um diretor mergulhado em polêmica
Quando se discute os primeiros avanços da linguagem cinematográfica, é inevitável citar “Um Nascimento de Uma Nação”. No entanto, por trás daquela produção de 1915, em que D.W. Griffith promoveu evoluções narrativas e técnicas, há um discurso racista repulsivo, que ainda gera controvérsias cem anos depois. Nem mesmo “Intolerância”, lançado no ano seguinte como uma “compensação”, removeu o estigma de Griffith de cineasta maldito, ainda que genial. Protagonista em “Nos Bastidores da Fama”, o ator Nate Parker debuta como diretor fazendo uma provocação ao legado deixado pela obra de Griffith, apropriando-se do mesmo título para contar a história de Nat Turner, líder de uma histórica rebelião de escravos na Virgínia de 1831. A ironia é que Parker acabou carregando também uma polêmica consigo, esta de cunho pessoal: no mesmo instante em que se discutia as possibilidades de seu filme se destacar no Oscar 2017, veio a público uma acusação de suposto estupro que ele teria cometido quando ainda era universitário e que teria levado a vítima a cometer suicídio Apesar de ter vencido o Festival de Sundance no começo do ano, “O Nascimento de Uma Nação” agora vê as suas chances de novas premiações reduzidas a zero, além de amargar um fracasso comercial que certamente acionou o alarme da Fox Searchlight, que obteve os direitos de distribuição do longa pelo valor recorde de US$ 17,5 milhões, o dobro do orçamento da produção, após sua repercussão inicial. Mais uma vez vem a indagação para problematizar a experiência cinematográfica: é possível separar a obra artística de seu autor? Atendo-se somente ao filme, é indiscutível o seu impacto e relevância, ao tratar um tópico sombrio da história da humanidade, que deve ser sempre lembrado, especialmente quando ainda se nutre preconceito por etnias específicas. Trata-se também de uma abordagem diferente dos filmes de escravidão, que não se contenta com a denúncia, ao mostrar a reação de negros contra os abusos de seus “donos”. Nat Turner, vivido pelo próprio Nate Parker, era um escravo visto com certo fascínio por seus próprios contemporâneos, não somente por ter recorrido a subterfúgios para se alfabetizar, mas pela influência natural que exercia como pregador, proporcionando para si e para os outros algum alento com a sua crença no divino. Foi também quem promoveu uma rebelião histórica, quando a situação atingiu um limite em que nada mais poderia ser feito a não ser se rebelar. Ainda que Parker, como diretor, não consiga resistir a tentação de conferir um tom poético às suas imagens, como no enforcamento que se apresenta a partir de um plano fechado em uma borboleta, ou nas duas ou três visões de um anjo, o seu registro é muito mais contundente que o celebrado “12 Anos de Escravidão” (2013), impondo a crueza que se espera de uma história capaz de ressoar no presente, onde a intolerância permanece enraizada.
Candidato brasileiro ao Oscar, Pequeno Segredo é a principal estreia da semana
Há uma diferença entre a estreia principal e a mais ampla nesta semana. Mas ela se resume a 34 salas. “Horizonte Profundo – Desastre no Golfo” exibe em 270 telas o segundo filme de uma “trilogia” de parcerias consecutivas entre o ator Mark Wahlberg e o diretor Peter Berg, que antes fizeram “O Grande Herói” e logo voltarão aos cinemas com “Dia do Atentado”. Os títulos deixam claro o tema das produções, todas baseadas em histórias reais. A atual gira em torno do heroísmo de trabalhadores de uma plataforma de petróleo durante um terrível acidente em alto mar. No fundo, é cinema de catástrofe ao estilo dos anos 1970, com os efeitos dos dias de hoje. O segundo lançamento mais amplo é o melodrama “Pequeno Segredo”, o candidato do Brasil a uma vaga no Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira. O filme de David Schürmann leva a 236 salas outra história real, vivida por sua própria família, que adotou uma menina soropositiva durante suas viagens de barco ao redor do mundo. Tem bela fotografia – do peruano Inti Briones, que já foi premiado no Festival de Veneza – e uma mensagem positiva, mas a expectativa de um “filme de Oscar” é sempre por mais conteúdo. A programação lista mais um filme brasileiro. “Através da Sombra” também tem produção caprichada, como se espera do veterano cineasta Walter Lima Jr., que ao longo da carreira se aventurou com coragem pelo cinema fantástico, por meio de filmes como “Ele, o Boto” (1987), “O Monge e a Filha do Carrasco” (1996) e “A Ostra e o Vento” (1997). Seu novo trabalho se passa numa mansão mal-assombrada, com direito a fantasmas e crianças sinistras. Adaptação de “A Volta do Parafuso”, clássico fantástico de Henry James, já filmado várias vezes, o longa também registra um dos últimos papéis da carreira de Domingos Montagner, falecido em setembro. O circuito dos shoppings ainda exibe mais dois filmes americanos. “Invasão de Privacidade” revisita em 167 salas o tipo de suspense de inimigo íntimo que se esgotou nos anos 1990. Na trama, Pierce Brosnan vive um milionário ameaçado por um estagiário de T.I. da sua empresa. “Snowden – Herói ou Traidor” também tem doses de suspense e informática, mas parte de uma história real. Exibido em 83 telas, o filme de Oliver Stone é uma cinebiografia do analista de sistemas Edward Snowden, que virou o homem mais procurado dos EUA depois de denunciar o esquema de espionagem global do governo americano. “Snowden” chegou a ser considerado “filme de Oscar”, mas a estreia acabou com essa ilusão. O mesmo pode ser dito de “O Nascimento de uma Nação”. Estrelado, dirigido, escrito e produzido por Nate Parker, o filme sobre uma rebelião de escravos no período anterior à Guerra Civil americana foi o grande vencedor do Festival de Sundance e colecionou elogios rasgados em sua première. Mas o clima de “já ganhou o Oscar” trouxe à tona um antigo escândalo sexual do cineasta, que jogou água no champanhe. Tanto que a Fox faz um lançamento discreto, em apenas 12 salas. Outra produção indie, “O Plano de Maggie” junta três queridinhos da crítica, Greta Gerwig, Ethan Hawke e Julianne Moore, numa comédia anti-romântica com reviravoltas subversivas. Menos ambicioso de todos os lançamentos americanos da semana, o longa escrito e dirigido por Rebecca Miller (“A Vida Íntima de Pippa Lee”) é justamente o mais divertido, ainda que totalmente descartável. Em 18 salas. Três lançamentos europeus completam a lista, com exibição em menos de cinco salas. Mais fraco da leva, “O Ignorante” é o indefectível filme francês da semana, em que um diretor e um elenco que já fizeram clássicos revelam-se velhinhos tediosos – quem tiver paciência pode comparar com “Once More” (1988), do mesmo Paul Vecchiali. Por outro lado, o franco-marroquino “Much Loved” mostra a consistência da diretora Nabil Ayouch (“As Ruas de Casablanca”), que há mais de 20 anos traz à tona as margens da sociedade marroquina. Seu olhar sem retoques sobre a vida de prostitutas do norte da África venceu o troféu Lumiere de Melhor Filme Estrangeiro Falado em Francês de 2016. Para finalizar, o drama dinamarquês “Quando o Dia Chegar”, de Jesper W. Nielsen (“Okay”), é a maior porrada desta página. Vencedor do prêmio do público do Festival de Hamburgo e recém-exibido na Mostra de São Paulo, passa-se num orfanato, durante os anos 1960, e mostra crianças submetidas a diversos abusos para ganharem disciplina, até se rebelarem. A trama remete diretamente ao clássico “Os Incompreendidos” (1959), mas é, como boa parte das estreias, baseada numa história real. Clique nos títulos dos lançamentos para assistir aos trailers de cada um.
EUA negam visto a ator mirim do filme Lion, forte candidato ao Oscar 2017
Os Estados Unidos negaram visto de entrada ao ator mirim indiano Sunny Pawar. Segundo o site da revista Variety, menino de 8 anos iria ao país para promover o filme “Lion”, forte candidato ao Oscar, em que ele contracena com Nicole Kidman, Rooney Mara e Dev Patel. Pawar voaria nesta semana para Los Angeles acompanhado de seu pai para participar de exibições promocionais do filme, seguindo depois para um evento em Nova York. Mas a alfândega americana proibiu sua entrada no país. Uma das produções mais elogiadas do ano, vencedor do Festival de Chicago e 2º lugar no Festival de Toronto, “Lion” conta a história de um menino perdido nas ruas de Calcutá, que acaba adotado por um casal de australianos. Anos depois, ele volta para a Índia para encontrar seus pais biológicos. Sunny Pawar interpreta o personagem central do filme, durante as cenas de sua infância. O consulado americano em Mumbai, na Índia, não revelou porque negou o visto de entrada ao menino. O estúdio responsável pelo filme, The Weinstein Company, tenta resolver a situação, já que pretendia promover o menino como candidato a concorrer ao Oscar na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. “‘Lion’ é uma história de amor, inclusão e benevolência independente de raça, religião ou etnia. O governando barrando a entrada de um garoto de 8 anos, que é a estrela do filme, no nosso país só mostra o quanto nós precisamos ser lembrados sobre os valores da nossa nação”, declarou um representante do estúdio em nota. Em sua campanha, o presidente eleito dos EUA Donald Trump prometeu que fecharia as fronteiras americanas para imigrantes, especialmente muçulmanos. “Donald Trump pede a suspensão total e completa da entrada de muçulmanos nos Estados Unidos até que os legisladores do nosso país compreendam o que está ocorrendo”, escreveu a equipe de campanha do candidato em um comunicado intitulado “Comunicado de Donald Trump para impedir a imigração muçulmana”. “Até que sejamos capazes de determinar e entender esse problema e o perigo que ele representa, nosso país não pode ser vítima desses ataques horrendos de pessoas que acreditam apenas na jihad, e que não tem nenhum senso de razão ou respeito pela vida humana”, diz o comunicado. O coordenador da campanha de Trump, Corey Lewandowski, afirmou que a proposta se aplicaria a “todo mundo”, considerando tanto muçulmanos que requisitam vistos de imigrantes quanto os que buscam entrar no país como turistas.
Autor de The Walking Dead vai produzir remake de Um Lobisomem Americano em Londres
O cultuado filme de terrir “Um Lobisomem Americano Em Londres” (1981) vai mesmo ganhar um remake. Segundo o site Deadline, a produtora Skybound Entertainment vai produzir a nova versão para a Universal. E um dos produtores responsáveis pela adaptação será ninguém menos que Robert Kirkman, o autor dos quadrinhos que originaram a série “The Walking Dead”. O roteiro, por sua vez, ficará a cargo de Max Landis (“Victor Frankenstein”), que é justamente filho de John Landis, o diretor do filme original. Landis, o filho, também deve estrear na direção com este projeto. Para quem não lembra, o filme de 1981 marcou época por trazer a transformação mais explícita e convincente de lobisomem que tinha sido mostrada até então no cinema – o que rendeu um Oscar ao maquiador Rick Baker. O sucesso foi tanto que Michael Jackson convocou Landis, o pai, para dirigir um de seus clipes. Um tal de “Thriller”. Em que o cantor vira lobisomem. Na trama do clássico, dois jovens americanos, de férias no Reino Unido, chegam à uma vila estranha e são atacados por um lobisomem. Enquanto um deles morre, o outro começa sua estranha transformação. Ainda não existe previsão de estreia para o remake.
Filmes do Festival de Cannes dominam lista dos indicados ao “Oscar do cinema europeu”
A Academia Europeia de Cinema divulgou os candidatos da sua premiação, os European Film Awards. Considerado o Oscar do cinema europeu, a lista privilegia a programação do Festival de Cannes, destacando o vencedor da Palma de Ouro “I, Daniel Blake”, de Ken Loach, e alguns dos filmes mais comentados do evento, como “Elle”, de Paul Verhoeven, “Julieta”, de Pedro Almodóvar, “Graduation”, de Cristian Mungiu, e “Toni Erdmann”, de Maren Ade. O britânico “O Quarto de Jack”, de Lenny Abrahamson, premiado no Oscar 2016, também está na lista. O alemão “Toni Erdmann” lidera em indicações, disputando cinco categorias: Melhor Filme, Direção, Ator, Atriz e Roteiro. Entre os atores, o favoritismo sempre é de Isabelle Huppert, desta vez pelo desempenho em “Elle”, e há a presença de um astro popular, Hugh Grant, por “Florence – Quem é Essa Mulher?”. A cerimônia de premiação do European Film Awards será realizada este ano em 10 de dezembro, na cidade de Wroclaw, na Polônia. Indicados ao European Film Awards 2016 MELHOR FILME “Elle” (França) “I, Daniel Blake” (Inglaterra) “Julieta” (Espanha) “O Quarto de Jack” (Reino Unido) “Toni Erdmann” (Alemanha) MELHOR DIREÇÃO Paul Verhoeven, por “Elle” Cristian Mungiu, por “Graduation” Ken Loach, por “I, Daniel Blake” Pedro Almodóvar, por “Julieta” Maren Ade, por “Toni Erdmann” MELHOR ATOR Rolf Lassgård, por “A Man Called Ove” Hugh Grant, por “Florence – Quem é Essa Mulher?” Dave Johns, por “I, Daniel Blake” Burghart Klaußner, por “The People vs. Fritz Bauer” Peter Simonischek, por “Toni Erdmann” Javier Cámara, por “Truman” MELHOR ATRIZ Isabelle Huppert, por “Elle” Emma Suárez e Adriana Ugarte, por “Julieta” Valeria Bruni Tedeschi, por “Like Crazy” Trine Dyrholm, por “A Comunidade” Sandra Hüller, por “Toni Erdmann” MELHOR ROTEIRO Cristian Mungiu, por “Graduation” Paul Laverty, por “I, Daniel Blake” Emma Donoghue, por “O Quarto de Jack” Maren Ade, por “Toni Erdmann” Tomasz Wasilewski, por “United States of Love” MELHOR DOCUMENTÁRIO “The Land Of The Enlightened” (Holanda) “21 X New York” (Polônia) “Mr. Gaga,” ( Israel, Suécia, Alemanha, Holanda) “S is for Stanley – 30 Years At The Wheel For Stanley Kubrick,” (Itália) “A Family Affair,” (Bélgica) “Fogo no Mar,” (Itália, França) MELHOR ANIMAÇÃO “My Life as a Zucchini” (França, Suíça) “Psiconautas, the forgotten children” (Espanha) “The Red Turtle” (França, Bélgica) “A Man Called Ove” (Suécia, Noruega) “Look Who’s Back” (Alemanha) “La Vache” (França) MELHOR REVELAÇÃO “Dogs”, de Bogdan Mirica (França, Romênia, Bulgária, Catar) “Liebmann”, de Jules Herrmann (Alemanha) “Sand Storm”, de Elite Zexer (Israel) “The Happiest Day in the Life of Olli Mäki”, de Juho Kuosmanen (Finlândia, Suécia, Alemanha) “Thirst”, deSvetla Tsotsorkova (Bulgária) MELHOR COMÉDIA “A Man Called Ove” (Suécia, Noruega) “Look Who’s Back” (Alemanha) “One Man and His Cow” (França) MELHOR CURTA “The Wall” “Edmond” “The Goodbye” “90 Degrees North” “We All Love The Sea Shore” “In The Distance” “A Man Returned” “Small Talk” “I’m Not From Here” “Home” “The Fullness Of Time (Romance)” “Limbo” “Amalimbo” “9 Days – From My Window In Aleppo”
Produtores de Cinquenta Tons de Cinza e Jason Bourne farão a cerimônia do Oscar 2017
Os produtores Michael De Luca (“Cinquenta Tons de Cinza”) e Jennifer Todd (“Jason Bourne”) assinaram contrato para comandar a 89ª edição do Oscar. A escolha da dupla, que normalmente não trabalha junta, se deve à sua experiência com premiações. Atualmente, os dois atuam como copresidentes do PGA Awards, a premiação do Sindicato dos Produtores de Hollywood. Em entrevista ao site The Wrap, De Luca afirmou que pretende empregar um tom bem-humorado na cerimônia: “Nós gostamos do Oscar conduzido com alegria e humor, especialmente depois dos últimos dois anos que tivemos neste país e pelo modo como nossa consciência coletiva foi atingida”, disse ele. No entanto, o produtor deixa claro que a intenção não é transformar o Oscar 2017 num show stand-up de piadas. “Não queremos que seja um roast [show com piadas cruéis contra determinadas pessoas]. Mesmo se a cerimônia for engraçada, o objetivo ainda é honrar as incríveis contribuições dos indicados para o cinema”, finalizou. Vale destacar que De Luca raramente produz comédias. As duas últimas que produziu estão entre as piores já feitas neste século, “O Babá(ca)” (2011) e “O Guru do Amor” (2008). A cerimônia do Oscar 2017 será realizada no dia 26 de fevereiro, em Los Angeles, com transmissão no Brasil pelos canais Globo e TNT.
Mel Gibson revela ter versão de Coração Valente com 1 hora de cenas inéditas
Vencedor do Oscar de Melhor Filme de 1996, “Coração Valente” chegou aos cinemas bem diferente da versão originalmente concebida por seu diretor, Mel Gibson. Em entrevista ao site Collider, o cineasta revelou que possui a versão original, que tem uma hora de cenas inéditas, nunca vistas pelo público. Segundo Gibson, a primeira versão do filme tinha 3h45, o que assustou aos executivos da 20th Century Fox. Atendendo aos produtores, o astro e o montador Steven Rosenblum reduziram a duração para 3h15. Nova conversa acabou conduzindo à versão final, com 2h45, que venceu cinco categorias do Oscar, inclusive o troféu de Melhor Direção. Questionado sobre a possibilidade de lançar a versão original, o diretor se mostrou animado. “As pessoas já mencionaram. É um grande negócio. Se algum estúdio, como a Fox ou Paramount, quiser financiar isso, vá em frente. […] Eu tenho a fita com essa versão em algum lugar”, afirmou.
Menino 23 vai disputar uma vaga na categoria de Melhor Documentário do Oscar 2017
O Brasil vai tentar uma vaga na disputa de Melhor Documentário do Oscar 2017 com “Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil”, dirigido por Belisário Franca. O filme entrou na lista de inscritos para o prêmio. “Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil” acompanha as investigações sobre tijolos marcados com suásticas nazistas, encontrados no interior do Brasil, e revela a história de meninos órfãos e negros, vítimas de um projeto criminoso de eugenia. Ele concorrerá com outros 144 títulos para as cinco vagas da categoria, que, ao contrário de outros prêmios, não distingue produções de língua inglesa de outras de “língua estrangeira”. A primeira peneira da categoria selecionará 15 documentários finalistas em dezembro, dos quais sairão os cinco indicados da categoria, que serão anunciados no dia 24 de janeiro. No ano passado, a estatueta ficou com “Amy”, documentário sobre a vida da cantora britânica Amy Winehouse, dirigido por Asif Kapadia, mesmo cineasta que retratou a vida de Ayrton Senna em 2010. Neste ano, há candidatos fortes como “A 13ª Emenda”, filme da diretora Ava DuVernay sobre o sistema carcerário dos Estados Unidos, e “A Voyage of Time: Life’s Journey”, de Terrence Malick, que já concorreu ao Oscar com os longas “A Árvore da Vida” (2011) e “Além da Linha Vermelha” (1998). Outros fortes concorrentes são “Weiner”, que levou o prêmio do júri no Festival de Sundance, “I Am Not Your Negro”, estrelado por Samuel L. Jackson e premiado pelo público do Festival de Toronto, além do francês “Bright Lights: Starring Carrie Fisher and Debbie Reynolds”, sobre a relação da intérprete da Princesa Leia e sua mãe famosa, que estrelou “Cantando na Chuva” (1952).
Silêncio: Novo filme de Martin Scorsese ganha fotos oficiais
“Silêncio”, o novo filme de Martin Scorsese, ganhou sete fotos oficiais, que destacam o elenco e o período da trama, além de registrar uma imagem do próprio diretor. Adaptação do romance homônimo de Shusaku Endo, o filme acompanha padres jesuítas portugueses, que viajam ao Japão feudal para localizar seu mentor e espalhar o evangelho do cristianismo no século 17. Estrelado por Liam Neeson (“Busca Implacável”), Andrew Garfield (“O Espetacular Homem-Aranha”) e Adam Driver (“Star Wars: O Despertar da Força”), o longa chegará aos cinemas americanos em 23 de dezembro, em distribuição limitada, visando atender as regras do Oscar. O lançamento mais amplo acontece em janeiro. A produção vem sendo desenvolvida por Scorsese dá décadas e a perspectiva de lançamento ou não neste ano era uma das grandes dúvidas em relação à disputa do Oscar 2017. Os dois últimos filmes do cineasta, “O Lobo de Wall Street” e “Hugo”, receberam um total de 16 indicações ao Oscar.
Oscar 2017: Conheça os 85 filmes na disputa por indicações a Melhor Filme de Língua Estrangeira
A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pela organização do Oscar, anunciou nesta terça-feira a lista dos filmes inscritos na categoria de Melhor Filme de Língua Estrangeiro, que tentarão as cinco indicações para a premiação em 2017. Além do brasileiro “Pequeno segredo”, de David Schurmann, entre os 85 candidatos estão “Elle”, de Paul Verhoeven, “The Salesman”, do iraniano Asghar Farhadi, e “Afterimage”, último filme do polonês Andrzej Wajda, morto no domingo. Os 85 concorrentes de todo o mundo ainda serão reduzidos a uma lista de cerca de uma dezena de semifinalistas antes da divulgação dos cinco indicados, que serão conhecidos no dia 24 de janeiro. Confira abaixo a lista completa dos filmes inscritos. África do Sul: “Call me thief”, de Daryne Joshua Albânia: “Chromium”, de Bujar Alimani Alemanha: “Toni Erdmann”, de Maren Ade Arábia Saudita: “Barakah meets Barakah”, de Mahmoud Sabbagh Argélia: “The well”, de Lotfi Bouchouchi Argentina: “El Ciudadano Ilustre” de Mariano Cohn e Gastón Duprat Austrália: “Tanna”, de Bentley Dean e Martin Butler Áustria: “Stefan Zweig: Farewell to Europe”, de Maria Schrader Bangladesh: “The Unnamed”, de Tauquir Ahmed Bélgica: “The Ardennes”, de Robin Pront Bolívia: “Sealed cargo”, de Julia Vargas Weise Bósnia e Herzegovina: “Death in Sarajevo”, de Danis Tanovic Brasil: “Pequeno segredo”, de David Schurmann Bulgária: “Losers”, de Ivaylo Hristov Camboja: “Before the Fall:” de Ian White Canadá: “It’s Only the End of the World”, de Xavier Dolan Cazaquistão: “Amanat”, de Satybaldy Narymbetov Chile: “Neruda”, de Pablo Larraín China: “Xuan Zang”, de Huo Jianqi Colômbia: “Alias María”, de José Luis Rugeles Coreia do Sul: “The Age of Shadows”, de Kim Jee-woon Costa Rica: “Entonces Nosotros”, de Hernán Jiménez Croácia: “On the Other Side” de Zrinko Ogresta Cuba: “El Acompañante”, de Pavel Giroud Dinamarca: “Terra de Minas”, de Martin Zandvliet Equador: “Sin Muertos no Hay Carnaval”, de Sebastián Cordero Egito: “Clash”, de Mohamed Diab Eslováquia: “Eva Nová”, de Marko Skop Eslovênia: “Houston: We Have a Problem!”, de Žiga Virc Espanha: “Julieta”, de Pedro Almodóvar Estônia: “Mother”, de Kadri Kõusaar Filipinas: “Ma’ Rosa”, de Brillante Mendoza Finlândia: “The happiest day in the life of Olli Mäki”, de Juho Kuosmanen França: “Elle”, de Paul Verhoeven Geórgia: “House of Others”, de Rusudan Glurjidze Grécia: “Chevalier”, de Athina Rachel Tsangari Holanda: “Tonio”, de Paula van der Oest Hong Kong: “Port of Call”, de Philip Yung Hungria: “Kills on Wheels”, de Attila Till Iêmen: “I Am Nojoom, Age 10 and Divorced”, de Khadija Al-Salami Islândia: “Sparrows”, de Rúnar Rúnarsson Índia: “Interrogation”, de Vetri Maaran Indonésia: “Letters from Prague”, de Angga Dwimas Sasongko Irã: “The Salesman”, de Asghar Farhadi Iraque: “El Clásico”, de Halkawt Mustafa Israel: “Sand Storm”, de Elite Zexer Itália: “Fogo no Mar”, de Gianfranco Rosi Japão: “Nagasaki: Memories of My Son”, de Yoji Yamada Jordânia: “3000 Nights”, de Mai Masri Kosovo: “Home Sweet Home”, de Faton Bajraktari Letônia: “Dawn”, de Laila Pakalnina Líbano: “Very Big Shot”, de Mir-Jean Bou Chaaya Lituânia: “Seneca’s Day”, de Kristijonas Vildziunas Luxemburgo: “Voices from Chernobyl”, de Pol Cruchten Macedônia: “The Liberation of Skopje”, de Rade Šerbedžija e Danilo Šerbedžija Malásia: “Beautiful Pain”, de Tunku Mona Riza México: “Desierto”, de Jonás Cuarón Montenegro: “The Black Pin”, de Ivan Marinović Marrocos: “A Mile in My Shoes”, de Said Khallaf Nepal: “The Black Hen”, de Min Bahadur Bham Nova Zelândia: “A Flickering Truth”, de Pietra Brettkelly Noruega: “The King’s Choice”, de Erik Poppe Paquistão: “Mah-e-Mir”, de Anjum Shahzad Palestina: “The Idol”, de Hany Abu-Assad Panamá: “Salsipuedes”, de Ricardo Aguilar Navarro e Manolito Rodríguez Peru: “Videophilia (and Other Viral Syndromes)”, de Juan Daniel F. Molero Polônia: “Afterimage”, de Andrzej Wajda Portugal: “Cartas da Guerra”, de Ivo M. Ferreira Quirguistão: “A Father’s Will”, de Bakyt Mukul e Dastan Zhapar Uulu Reino Unido: “Under the Shadow”, de Babak Anvari República Dominicana: “Sugar Fields”, de Fernando Báez República Tcheca: “Lost in Munich”, de Petr Zelenka Romênia: “Sieranevada”, de Cristi Puiu Rússia: “Paradise”, de Andrei Konchalovsky Sérvia: “Train Driver’s Diary”, de Milos Radovic Singapura: “Apprentice”, de Boo Junfeng Suécia: “A Man Called Ove”, de Hannes Holm Suíça: “My life as a zucchini”, de Claude Barras Taiwan: “Hang in There, Kids!”, de Laha Mebow Tailândia: “Karma”, de Kanittha Kwunyoo Turquia: “Cold of Kalandar”, de Mustafa Kara Ucrânia: “Ukrainian Sheriffs”, de Roman Bondarchuk Uruguai: “Migas de Pan”, de Manane Rodríguez Venezuela: “De Longe te Observo”, de Lorenzo Vigas Vietnã: “Yellow flowers on the Green grass”, de Victor Vu.
Guy Ritchie negocia dirigir versão com atores de Aladdin para a Disney
O cineasta britânico Guy Ritchie (“O Agente da UNCLE”) abriu negociações com a Disney para dirigir a versão com atores reais de “Aladdin”. Segundo o site The Hollywood Reporter, o estúdio pretende transformar a história por completo, realizando uma versão “ambiciosa e nada convencional”. Se isso acontecer, será uma novidade, já que a Disney tem feito o possível para recriar seus desenhos clássicos de forma mais fiel possível, ainda que inclua efeitos visuais de última geração, como aconteceu em “Mogli, o Menino-Lobo”. O roteirista John August, parceiro do diretor Tim Burton em cinco filmes, de “Peixe Grande” (2003) a “Frankenweenie” (2012), assina a adaptação, que deverá manter o aspecto musical da animação. Não há informações sobre como o Gênio entrará na trama, já que a performance do falecido Robin Williams foi determinante para o sucesso do personagem – e do filme. Lançada em 1992, a animação da Disney foi líder de bilheteria naquele ano e levou dois Oscar por sua trilha sonora. A versão com atores reais de “Aladdin” ainda não tem data para ser lançada e nem elenco definido.
Andrzej Wajda (1926 – 2016)
Morreu Andrzej Wajda, um dos maiores cineastas da Polônia, vencedor da Palma de Ouro de Cannes e de um Oscar honorário pela carreira de fôlego, repleta de clássicos humanistas. Ele faleceu no domingo (9/10), aos 90 anos, em Varsóvia, após uma vida dedicada ao cinema, em que influenciou não apenas a arte, mas a própria História, ao ajudar a derrubar a cortina de ferro com filmes que desafiaram a censura e a repressão do regime comunista. Nascido em 6 de março de 1926 em Suwalki, no nordeste polonês, Wajda começou a estudar cinema após a 2ª Guerra Mundial, ingressando na recém-aberta escola de cinema de Lodz, onde também estudaram os diretores Roman Polanski e Krzysztof Kieslowski, e já chamou atenção em seu primeiro longa-metragem, “Geração” (1955), ao falar de amor e repressão na Polônia sob o regime nazista. Seu segundo longa, “Kanal” (1957), também usou a luta contra o nazismo como símbolo da defesa da liberdade, e abriu o caminho para sua consagração internacional, conquistando o prêmio do juri no Festival de Cannes. Com “Cinzas e Diamantes” (1958), que venceu o prêmio da crítica no Festival de Veneza, ponderou como pessoas de diferentes classes sociais e inclinações políticas tinham se aliado contra o nazismo, mas tornaram-se inimigas após o fim da guerra. Os três primeiros filmes eram praticamente uma trilogia temática, refletindo as ansiedades de sua geração, que tinha sobrevivido aos nazistas apenas para sofrerem com os soviéticos. Ele também filmou várias vezes o Holocausto, do ponto de vista da Polônia. Seu primeiro longa sobre o tema foi também o mais macabro, contando a história de um coveiro judeu empregado pelos nazistas para enterrar as vítimas do gueto de Varsóvia, em “Samson, a Força Contra o Ódio” (1961). Aos poucos, suas críticas foram deixando de ser veladas. Num novo filme batizado no Brasil com o mesmo título de seu terceiro longa, “Cinzas e Diamantes” (1965), lembrou como os poloneses se aliaram a Napoleão para enfrentar o império russo e recuperar sua soberania. A constância temática o colocou no radar do governo soviético. Mesmo com fundo histórico conhecido, “Cinzas e Diamantes” disparou alarmes. Aproveitando uma tragédia com um ator local famoso, Wajda lidou com a perigosa atenção de forma metalinguista em “Tudo à Venda” (1969), sobre um diretor chamado Andrzej, que tem uma filmagem interrompida pelo súbito desaparecimento de seu ator principal. Considerado muito intelectual e intrincado, o filme afastou o temor de que o realizador estivesse tentando passar mensagens para a população. Mas ele estava. Em “Paisagem Após a Batalha” (1970), o diretor voltou suas câmeras contra o regime, ao registrar o sentimento de júbilo dos judeus ao serem libertados dos campos de concentração no fim da guerra, apenas para sepultar suas esperanças ao conduzi-los a outros campos cercados por soldados diferentes – russos – , inspirando a revolta de um poeta que busca a verdadeira liberdade longe disso. Seus três longas seguintes evitaram maiores controvérsias, concentrando-se em dramas de família e romances de outras épocas, até que “Terra Prometida” (1975) rendeu efeito oposto, celebrado pelo regime a ponto de ser escolhido para representar o país no Oscar. E conquistou a indicação. Ironicamente, a obra que o tornou conhecido nos EUA foi a mais comunista de sua carreira. Apesar de sua obsessão temática pela liberdade, “Terra Prometida” deixava claro que Wajda não era defensor do capitalismo. O longa era uma denúncia visceral de como a revolução industrial tardia criara péssimas condições de trabalho para os operários poloneses, enquanto empresários enriqueciam às custas da desumanização na virada do século 20. Brutal, é considerado um dos maiores filmes do cinema polonês. Satisfeito com a consagração, Wajda manteve o tema em seus filmes seguintes, acompanhando a evolução da situação dos operários poloneses ao longo do século. Mas os resultados foram o avesso do que a União Soviética gostaria de ver nas telas. A partir daí, sua carreira nunca mais foi a mesma. Seus filmes deixaram de ser cinema para virarem registros históricos, penetrando nas camadas mais profundas da cultura como agentes e símbolos de uma época de transformação social. “O Homem de Mármore” (1977) encontrou as raízes do descontentamento dos trabalhadores da Polônia no auge do stalinismo dos anos 1950. O filme era uma metáfora da situação política do país e também usava de metalinguagem para tratar da censura que o próprio Wajda sofria. A trama acompanhava uma estudante de cinema que busca filmar um documentário sobre um antigo herói do proletariado, que acreditava na revolução comunista e na igualdade social, mas, ao ter acesso a antigas filmagens censuradas para sua pesquisa, ela descobre que foi exatamente isto que causou sua queda e súbito desaparecimento da história. Diante da descoberta polêmica, a jovem vê seu projeto de documentário proibido. A censura política voltou a ser enfocada em “Sem Anestesia” (1978), história de um jornalista polonês que demonstra profundo conhecimento político e social numa convenção internacional, o que o faz ser perseguido pelo regime, que cancela suas palestras, aulas e privilégios, culminando até no fim de seu casamento, para reduzir o homem inteligente num homem incapaz de se pronunciar. Após ser novamente indicado ao Oscar por um longa romântico, “As Senhoritas de Wilko” (1979), Wajda foi à luta com o filme mais importante de sua carreira. “O Homem de Ferro” (1981) era uma obra de ficção, mas podia muito bem ser um documentário sobre a ascensão do movimento sindicalista Solidariedade, que, anos depois, levaria à queda do comunismo na Polônia e, num efeito dominó, ao fim da União Soviética. A narrativa era amarrada por meio da reportagem de um jornalista enviado para levantar sujeiras dos sindicalistas do porto de Gdansk, que estavam causando problemas, como uma inusitada greve em pleno regime comunista. Ao fingir-se simpatizante da causa dos estivadores, ele ouve histórias que traçam a longa trajetória de repressão aos movimentos sindicais no país, acompanhadas pelo uso de imagens documentais. O filme chega a incluir em sua história o líder real do Solidariedade, Lech Walesa, que depois se tornou presidente da Polônia. Apesar da trajetória evidente do cineasta, o regime foi pego de surpresa por “O Homem de Ferro”, percebendo apenas o que ele representava após sua première mundial no Festival de Cannes, onde venceu a Palma de Ouro e causou repercussão internacional. Sem saber como lidar com a polêmica, o governo polonês sofreu pressão mundial para o longa ir ao Oscar, rendendo mais uma indicação a Wajda e um confronto político com a União Soviética, que exigiu que o filme fosse banido dos cinemas. Assim, “O Homem de Ferro” só foi exibido em sessões privadas em igrejas em seu país. Considerado “persona non grata” e sem condições de filmar na Polônia, que virara campo de batalha, com o envio de tropas e tanques russos para sufocar o movimento pela democracia despertado pelo Solidariedade, Wajda assumiu seu primeiro longa internacional estrelado por um grande astro europeu, Gerard Depardieu. O tema não podia ser mais provocativo: a revolução burguesa da França. Em “Danton – O Processo da Revolução” (1983), o diretor mostrou como uma revolução bem intencionada podia ser facilmente subvertida, engolindo seus próprios mentores numa onda de terrorismo de estado. A história lhe dava razão, afinal Robespierre mandou Danton para a guilhotina, antes dele próprio ser guilhotinado. E mesmo assim o filme causou comoção, acusado de “contrarrevolucionário” por socialistas e comunistas franceses, que enxergaram seus claros paralelos com a União Soviética. Ficaram falando sozinhos, pois Wajda ganhou o César (o Oscar francês) de Melhor Diretor do ano. Sua militância política acabou arrefecendo no cinema, trocada por romances e dramas de época, como “Um Amor na Alemanha” (1983), “Crônica de Acontecimentos Amorosos” (1986) e “Os Possessos” (1988), adaptação de Dostoevsky que escreveu com a cineasta Agnieszka Holland. Em compensação, acirrou fora das telas. Ele assinou petições em prol de eleições diretas e participou de manifestações políticas, que levaram ao fim do comunismo na Polônia. As primeiras eleições diretas da história do país aconteceram em 1989, e Wajda se candidatou e foi eleito ao Senado. A atuação política fez mal à sua filmografia. Filmando menos e buscando um novo foco, seus longas dos anos 1990 não tiveram a mesma repercussão. Mas não deixavam de ser provocantes, como atesta “Senhorita Ninguém” (1996), sobre uma jovem católica devota, que acaba corrompida quando sua família se muda para a cidade grande, numa situação que evocava a decadência de valores do próprio país após o fim do comunismo. Por outro lado, seus filmes retratando o Holocausto – “As Duzentas Crianças do Dr. Korczak” (1990), sobre um professor que tenta proteger órfãos judeus no gueto de Varsóvia e morre nos campos de concentração, e “Semana Santa” (1995), evocando como a Polônia lidou com a revolta do gueto de Varsóvia em 1943 – receberam pouca atenção. O que o fez se retrair para o mercado doméstico, onde “Pan Tadeusz” (1999), baseado num poema épico polonês do século 19 sobre amor e intriga na nobreza, virou um sucesso. Durante duas décadas, Wajda sumiu dos festivais, onde sempre foi presença constante, conquistando prêmios, críticos e fãs. Mas estava apenas recarregando baterias, para retornar com tudo. Seu filme de 2007, “Katyn” se tornou uma verdadeira catarse nacional, quebrando o silêncio sobre uma tragédia que afetou milhares de famílias na Polônia: o massacre de 1940 na floresta de Katyn, em que cerca de 22 mil oficiais poloneses foram executados pela polícia secreta soviética. Quarta indicação ao Oscar de sua carreira, “Katyn” foi seu filme mais pessoal. Seu pai, um capitão da infantaria, estava entre as vítimas. Durante a divulgação do filme, o cineasta fez vários desabafos, ao constatar que jamais poderia ter feito “Katyn” sem que o comunismo tivesse acabado, uma vez que Moscou se recusava a admitir responsabilidade e o assunto era proibido sob o regime soviético. “Nunca achei que eu viveria para ver a Polônia como um país livre”, Wajda disse em 2007. “Achei que morreria naquele sistema.” Após acertar as contas com a história de seu pai, focou em outro momento importante de sua vida, ao retomar a trama de “Homem de Ferro” numa cinebiografia. Em “Walesa” (2013), mostrou como um operário simples se tornou o líder capaz de derrotar o comunismo na Polônia. Na ocasião, resumiu sua trajetória, dizendo: “Meus filmes poloneses sempre foram a imagem de um destino do qual eu mesmo havia participado”. Ao exibir “Walesa” no Festival de Veneza, Wajda já demonstrava a saúde fragilizada. Mas cinema era sua vida e ele encontrou forças para finalizar uma última obra, que ainda pode lhe render sua quinta indicação ao Oscar, já que foi selecionada para representar a Polônia na premiação da Academia. Seu último filme, “Afterimage” (2016), é a biografia de um artista de vanguarda, Wladyslaw Strzeminski, perseguido pelo regime de Stalin por se recusar a seguir a doutrina comunista. Um tema – a destruição de um indivíduo por um sistema totalitário – que sintetiza o cinema de Wajda, inclusive nos paralelos que permitem refletir o mundo atual, em que a liberdade artística sofre com o crescimento do conservadorismo. Com tantos filmes importantes, Andrzej Wajda ganhou vários prêmios por sua contribuição ao cinema mundial. Seu Oscar honorário, por exemplo, é de 2000, antes de “Katyn”, e o Festival de Veneza foi tão precipitado que precisou lhe homenagear duas vezes, em 1998 com um Leão de Ouro pela carreira e em 2013 com um “prêmio pessoal”. Há poucos dias, em setembro, ele ainda recebeu um prêmio especial do Festival de Cinema da Polônia. O diretor também é um dos homenageados da 40ª edição da Mostra de Cinema de São Paulo, que começa no dia 20 de outubro. A programação inclui uma retrospectiva com 17 longas do grande mestre polonês.












