Guerra Cultural: Recorde de filmes brasileiros no Festival de Berlim não tem apoio do governo
O Festival de Berlim, que começou na quinta-feira, virou um marco da produção cinematográfica brasileira. Não apenas por conta da presença recorde de filmes nacionais — 19, incluindo coproduções — , que rendeu destaque até da revista americana Variety, mas pelo paradoxo que este reconhecimento internacional representa diante do desdém do governo do Brasil e ao desmonte da política cultural que permitiu esse sucesso. A edição do recorde também é primeira edição do Festival de Berlim em que os filmes selecionados não contam com apoio financeiro do governo federal para participar do evento. Desde que foi criada em 2001, a Ancine costumava apoiar mais do que a presença dos profissionais em quase cem festivais e laboratórios pelo mundo, mas também a confecção de material gráfico e cópias legendadas, o transporte das cópias para o exterior, seu armazenamento e conservação, além das despesas com a exportação. Em setembro passado, contudo, a diretoria da agência anunciou a suspensão do programa de apoio internacional, alegando falta de recursos. Em comunicado, a Ancine, sem querer (querendo?), culpa o governo Bolsonaro, ao alegar que o Programa de Apoio a Festivais foi “temporariamente” cortado “devido ao contingenciamento orçamentário determinado pelo Governo Federal”. O comunicado lembra ainda que o governo paralisou os trabalhos da Ancine, ao mencionar que a diretoria colegiada foi recomposta somente em janeiro de 2020, e só então “voltou a deliberar sobre as pautas represadas durante a vacância de diretores”. Deste modo, apenas a partir das primeiras reuniões da diretoria o programa poderá “ser reavaliado”. Mas já não foi nas duas primeiras, realizadas em fevereiro, onde houve a ratificação da suspensão e, por outro lado, aprovação de verbas para viagens internacionais de servidores da própria entidade. Além da Ancine, os filmes brasileiros também contavam com financiamento do Cinema do Brasil, um programa de exportação e fomento implementado em parceria pelo Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo (SIAESP) e pela Agência de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), ligada ao Ministério das Relações Exteriores. O apoio chegava a US$ 15 mil por produção até que, no ano passado, a então diretora de Negócios da Apex, Letícia Catelani, filiada ao PSL, interrompeu a distribuição dos recursos. Não se trata apenas de “política cultural”, mas econômica. As consequências diretas são o enfraquecimento da capacidade da indústria cinematográfica brasileira realizar negócios internacionais. Além de servir de mostra de filmes e da competição do Urso de Ouro, o Festival de Berlim também é um dos principais balcões de negócios da Europa, onde contratos de distribuição, financiamento e coproduções internacionais costumam ser fechados. Bons negócios não acontecem apenas com a exibição de filmes. Requerem material impresso, representação forte e até realização de eventos para o mercado, o que o governo brasileiro costumava apoiar até Bolsonaro ser eleito. Os países mais desenvolvidos do mundo transformam a produção cultural numa de suas maiores fontes de enriquecimento, mas o atual governo do Brasil prefere o empobrecimento em todos os sentidos.
Guerra Cultural: Bolsonaro nomeia pastor e diretora de festival cristão para a Ancine
Jair Bolsonaro costuma repetir, nos mais de 40 eventos evangélicos que frequentou desde que assumiu a presidência da República, que o Estado é laico, mas ele é cristão. Mas com cada vez mais nomeações de cristãos e servidores “terrivelmente evangélicos” para cargos estratégicos, a linha que separa a atividade estatal da religião começa a se dissipar. Nesta sexta (21/2), o presidente nomeou um pastor e uma diretora de festival de cinema cristão para integrar a diretoria da Ancine. As indicações foram publicadas no Diário Oficial da União e agora o Senado precisa avaliar e aprovar os nomes de Edilásio Santana Barra Júnior e Verônica Brendler. Edilásio Barra, o “pastor Tutuca”, já faz parte dos quadros da Ancine. Em 2019, ele assumiu a Superintendência de Desenvolvimento Econômico da Ancine, responsável pela gestão do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), a verba que responde pela principal fonte de fomento à produção de cinema no país, e que se encontra congelada desde que Bolsonaro foi eleito. Ele também é apresentador de TV e bispo da Igreja Continental do Amor de Jesus. Verônica Brendler é produtora cultural e diretora do Festival Internacional de Cinema Cristão. Em seu currículo, ela cita “mais de 80 projetos aprovados pela Rei Rouanet”, além de ter realizado a 1ª Mostra de Cinema Cristão, dirigir a Escola de Cinema Cristão e organizar 30 encontros de cineastas cristãos. As indicações fazem parte do projeto de instalar “filtros” na liberação de verbas para a aprovação de filmes e séries no Brasil, anunciado por Bolsonaro no ano passado. Bolsonaro já tinha posicionado peça importante na nova orientação que pretende impor ao cinema brasileiro ao nomear Hiran Silveira, um diretor da rede Record, braço televisivo da Igreja Universal, para o comitê que administra o caixa do FSA. Seria uma forma “malandra” de driblar a Constituição, que estabelece que o presidente pode ser cristão, mas o Estado não. Na prática, porém, o Estado deixa de ser laico quando regras religiosas passam a determinar a produção cultural de um país, estabelecendo que tipo de conteúdo é incentivado e, consequentemente, o que será vetado.
Cinearte, tradicional cinema de São Paulo, fecha as portas após 56 anos
O Cinearte, um dos cinemas mais tradicionais da cidade de São Paulo, localizado no Conjunto Nacional, no coração da Avenida Paulista, fechou as portas na noite de quarta-feira (19/2) devido à política cultural do governo Bolsonaro. O cinema foi inaugurado em 1963 com o nome de Cine Rio. Também já foi chamado de Cine Bombril, Cine Livraria Cultura e, até março de 2019, Cinearte Petrobras. Segundo orientação de Bolsonaro, a Petrobras não renovou o contrato de patrocínio com o cinema no começo de 2019. O corte foi geral e também atingiu festivais, como o Anima Mundi e o Festival de Rio, além de outros eventos culturais. A atriz Angela Leal revelou que chegou a enfartar quando seu teatro, o Rival, perdeu o apoio da Petrobrás no ano passado. O cinema não conseguiu novo patrocinador para ficar aberto, ao contrário do Cine Belas Artes, que enfrentou o mesmo problema em relação à Caixa Econômica Federal. Mas enquanto o Belas Artes, a poucos metros de distância, tornou sua situação – e causa – pública, o desfecho do Cinearte foi melancólico, sem aviso prévio ou alarde. A maioria do público chegou desavisado ao cinema na noite de quarta, sem saber que se tratava da última sessão. “Foram 22 anos de várias parcerias que tornaram possível a apresentação de inúmeros filmes independentes, debates, mostras, pré-estreias. Agradecemos a todos que, ao longo desta jornada, estiveram conosco nesta empreitada. Fechamos duas salas, mas não apagamos a crença na diversidade possível no cinema e que nosso lema Democracia na Tela esteja também no nosso cotidiano sempre”, disse Adhemar Oliveira, diretor do Circuito Cinearte, em comunicado. O último filme exibido foi “Parasita”, vencedor do Oscar 2020. Além de proibir que estatais possam ajudar a manter cinemas abertos, Bolsonaro vetou integralmente em dezembro a prorrogação do Recine (Regime Especial de Tributação para Desenvolvimento da Atividade de Exibição Cinematográfica) e dos incentivos fiscais da Lei do Audiovisual, que, entre outros objetivos, visavam fomentar a abertura de novos cinemas no Brasil. Não por acaso, durante o primeiro ano do governo Bolsonaro, o parque exibidor nacional registrou sua maior retração desde os anos 1990, perdendo 155 cinemas em relação ao relatório da administração anterior sobre a quantidade de salas de exibição existentes no país. A principal ironia desses dados é que a Ancine comemorou o resultado “robusto”. Quem quiser comparar e reparar na briga com a realidade, pode verificar um exemplo prático do orweliano Ministério da Verdade no próprio site oficial da Ancine, onde o relatório oficial de 2018 (aqui) exalta o recorde de 3.356 cinemas, enquanto o texto mais recente (aqui) afirma que o número era 3.194 e houve um crescimento “robusto” para 3.201 salas em 2019, “ressaltando o fortalecimento do número de cinemas no país”. O mesmo texto traz um link para powerpoints que não cobrem o ano passado, mas citam 3.352 salas em 2018. Noves fora, continuam aproximadamente 150 cinemas a menos.
Governo Bolsonaro já paralisa entre 400 e 600 projetos de filmes e séries no Brasil
O jornal O Globo fez um levantamento do financiamento da produção de filmes e séries nacionais pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Chegou a um número expressivo de projetos paralisados, entre 400 e 600, e resumiu sua descoberta no título “2020: o ano que não começou para o audiovisual”. Mas se trata de uma conclusão equivocada. A verdade é que o audiovisual brasileiro está parado desde a eleição de Jair Bolsonaro. O título correto devia ser 2019: o ano que ainda não começou para o audiovisual. Os projetos que conseguiram alguma verba no ano passado foram resultados de editais aprovados até 2018, antes de Bolsonaro virar presidente e travar a produção cultural brasileira. Com uma política assumida de destruição, o governo Bolsonaro cortou apoio de estatais a eventos, comprometendo a realização de importantes festivais de cinema, vetou leis para incentivar a criação de novas salas de cinema no Brasil, vetou a prorrogação de incentivos da Lei do Audiovisual, diminuiu tetos de outras leis de incentivos de produções artísticas, acabou com o Ministério da Cultura, jogando a pasta da Cultura de um ministério para outro, ameaçou uma das mais importantes escolas de cinema do país de despejo, limou apoio do Ministério das Relações Exteriores à exportação cultural e participação de artistas em eventos internacionais, “mandou pro saco” financiamento de séries específicas de temática LGBTQIA+, proibiu exibição de obras LGBTQIA+ em centros culturais de estatais, atacou nominalmente artistas nacionais, usou a receita federal para passar pente fino nas finanças de atores da Globo, instalou um simpatizante nazista como Secretário de Cultura, esvaziou diretorias e comissões responsáveis pelo financiamento cultural ao não nomear seus integrantes, etc. Em relação ao FSA, de onde sai o dinheiro para financiar novas séries e filmes, a aprovação do orçamento do ano passado foi confirmada apenas em dezembro, na última semana de trabalho de 2019, ainda assim deixando sua liberação para 2020. Normalmente, a verba do FSA é encaminhada no começo de cada ano, não no seu final. Na prática, isto significa que Bolsonaro paralisou a liberação da verbas para o audiovisual brasileiro desde que assumiu o governo. E ainda não liberou. A Pipoca Moderna vem chamando atenção disso desde agosto passado. O dinheiro que se encontra parado não faz parte do orçamento federal para outras áreas, como Saúde, Educação, etc. Não é fruto de Imposto de Renda, mas de uma taxa de mercado, chamada Condecine, que incide exclusivamente sobre o lucro da própria atividade cultural – é paga por produtoras, emissoras e provedores de conteúdo – e vinculada à aplicação no próprio mercado. Portanto, é uma verba que não pode ser realocada. Este montante, que alimenta o FSA, serve para regular e fomentar a produção, e supera R$ 700 milhões só em 2019, valor coletado entre janeiro e dezembro de 2018 e estacionado há mais de um ano. Detalhe: mesmo tendo sentado em cima dessa fortuna, o governo não deixou de cobrar a taxa. Isso significa que uma soma equivalente ao valor de 2019 já deve ter sido levantada (entre janeiro e dezembro passados) para 2020. Graças a isso, é bastante provável que o total de recursos paralisados pelo governo, que deveriam estar fomentando o audiovisual brasileiro, esteja atualmente girando em torno de R$ 1,5 bilhão. O Globo tentou questionar a Agência Nacional de Cinema (Ancine) sobre a paralisação do setor e ouviu que o órgão não comentaria o assunto. Para piorar, não há previsão para a liberação dos recursos. Para garantir a aplicação do montante tardiamente aprovado em dezembro, o Comitê Gestor do FSA ainda tem de detalhar as linhas de editais que serão abertos e quanto cada um ofertará para novos projetos. Mas o comitê não pode se reunir, porque está sem membros. Ele inclui a Secretaria Especial da Cultura, que ainda não teve sua chefia nomeada oficialmente – a falta de pressa de Regina Duarte em assumir a pasta coincide com o ritmo do governo – e também o secretário do Audiovisual. André Sturm chegou a ser indicado por Roberto Alvim e aceitou o convite, mas o ex-secretário foi exonerado – após fazer discurso nazista – , antes de assinar os papéis que oficializariam o novo secretário da pasta. Como Regina Duarte não assumiu, o governo segue sem secretário de Cultura e sem secretário do Audiovisual. E com toda as verbas de 2019 e 2020 paralisadas. É importante ressaltar sempre que a liberação do FSA em dezembro foi uma medida que deveria ter sido realizada em janeiro de 2019, e que neste momento o Comitê Gestor precisaria estar encaminhando a verba de 2020. Mas o governo não tem nem sequer previsão para pautar a reunião sobre a verba atrasada – melhor dizendo, retrasada. Os últimos projetos de filmes e séries beneficiados com verbas do FSA são ainda de editais do governo Temer. Em um balanço publicado em janeiro, a Ancine já começou a registrar a queda no número de lançamentos de filmes brasileiros. O total de títulos em 2019 foi 10,9% menor que em 2018. O número deve desabar em 2020. Não por acaso, durante o primeiro ano do governo Bolsonaro, o parque exibidor nacional também registrou sua maior retração desde os anos 1990, perdendo 155 cinemas em relação ao relatório da administração anterior sobre a quantidade de salas de exibição existentes no país. A principal ironia desses dados é que a Ancine comemorou o resultado “robusto”. Quem quiser comparar e reparar na briga com a realidade, pode verificar um exemplo prático do orweliano “Ministério da Verdade” no próprio site oficial da Ancine, onde o relatório oficial de 2018 (aqui) exalta o recorde de 3.356 cinemas, enquanto o texto mais recente (aqui) afirma que o número era 3.194 e houve um crescimento “robusto” para 3.201 salas em 2019, “ressaltando o fortalecimento do número de cinemas no país”. O mesmo texto traz um link para powerpoints que não cobrem o ano passado, mas citam 3.352 salas em 2018. Noves fora, continuam aproximadamente 150 cinemas a menos.
Minha Mãe É uma Peça 3 já é terceiro filme brasileiro mais visto em todos os tempos
O público do filme “Minha Mãe É uma Peça 3” não pára de crescer. Nesta quinta (13/2), a comédia de Paulo Gustavo atingiu 11,2 milhões de espectadores, superando os 11,1 milhões de ingressos vendidos de “Tropa de Elite 2”. Com isso, transformou-se no terceiro filme mais visto da história da indústria cinematográfica nacional, atrás apenas dos dramas “Nada a Perder” (2018) e “Os Dez Mandamentos” (2016), justamente os filmes que têm seu público questionado, por conta de uma estratégia da Igreja Universal, que esgotou os ingressos das sessões sem preencher os assentos dos cinemas com espectadores. Como a diferença é pequena, os números polêmicos do 2º colocado devem ser superados em breve. A diferença para “Os Dez Mandamentos” é de apenas 100 mil ingressos, enquanto “Nada a Perder” tem cerca de 900 mil de vantagem. Atualmente em 3º lugar no ranking nacional, “Minha Mãe É uma Peça 3” ainda continua lotando suas sessões. No fim de semana passado, levou 209 mil espectadores aos cinemas. Basta atingir metade desse número até domingo para superar o recorde de “Os Dez Mandamentos”. Há oito semanas em cartaz, a comédia da Dona Hermínia já tem um faturamento de R$ 175 milhões, que representa a maior bilheteria do cinema brasileiro em todos os tempos – recorde superado em janeiro passado, cerca de 40 milhões atrás. O valor se tornou, inclusive, maior que a soma da arrecadação conjunta dos dois primeiros filmes da franquia. A franquia “Minha Mãe É Uma Peça” é baseada na peça homônima, criada e estrelada por Paulo Gustavo como Dona Hermínia. Os dois primeiros filmes, lançados em 2013 e 2016, atingiram juntos o público de 13 milhões de espectadores e uma arrecadação total de R$ 173,7 milhões. O imenso sucesso e alcance de “Minha Mãe É Uma Peça 3” também coloca em cheque a definição do presidente Jair Bolsonaro sobre filmes que só agradam “uma minoria”, já que se trata de uma produção assumidamente LGBTQIA+. Sua trama é estrelada por um homem vestido de mulher (que na vida real é casado com outro homem), tem como tema um casamento homossexual e gira em torno de uma família que lida com a sexualidade de forma natural e bem-humorada.
O “segredo” do sucesso de Parasita: apoio e incentivo do governo sul-coreano
A consagração do primeiro longa não falado em inglês no Oscar de Melhor Filme tem rendido – e ainda vai render – muitos debates em Hollywood e em todo o mundo. E o Brasil faria muito bem se prestasse atenção. Afinal, enquanto o governo brasileiro atacou seu único representante na disputa, o país de “Parasita” apoiou seu representante do começo ao fim. Agora, com o aval da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA, a Coreia do Sul poderá colher a fartura, que representa a mudança de status comercial de sua indústria cinematográfica, traduzindo-se em mais exportações e divisas para a economia do país. O cinema sul-coreano penou durante 26 anos o sucateamento nas mãos de uma ditadura militar, após um golpe em 1961 instalar censura – ou “filtros” – para permitir apenas a produção de filmes nacionalistas e de apoio ideológico ao governo. Só que o público sul-coreano rejeitou esse modelo, levando a uma queda de 60% no consumo de cinema do país, entre 1969 e 1979. A reação da ditadura foi abrir o mercado para produções estrangeiras em 1986, preferencialmente de Hollywood, que voltaram a atrair espectadores, enquanto os filmes locais se notabilizavam como sinônimos de fracasso comercial. O fim da ditadura abriu ainda mais o mercado. Em 1988, todas as restrições foram derrubadas e os estúdios americanos começaram a se estabelecer no país. Poderia ter sido o fim completo do cinema local, desacreditado pelos temas impostos pela ditadura, mas o novo governo democrata acionou a política de cotas de exibição para produções nacionais, implantada pelos militares nos anos 1960, que foi gradativamente ampliada. Apesar disso, os filmes sul-coreanos ainda respondiam por apenas 16% das bilheterias do país até 1993. As cotas acabaram complementadas por incentivos e financiamento público em todas as etapas, da produção à exibição de filmes do país. Graças à política cultural, o governo atraiu grandes companhias, como a Samsung, que passaram a investir no cinema nacional. Estas mudanças possibilitaram o surgimento de uma nova geração de cineastas no final dos anos 1990, que começou a se apresentar para o mundo em festivais internacionais no final dos anos 1990. Diretores importantes iniciaram suas carreira nesse período, em meio ao movimento batizado pela mídia de “Novo Cinema Coreano”, como Park Chan-wook, Kim Jee-woon e até Bong Joon-Ho, diretor de “Parasita”. Desde seu filme de estreia, “Cão Que Ladra Não Morde” (2000), Bong Joon-Ho conta com apoio do governo, que em 1999 reformou o conselho de cinema do país, rebatizando-o e transformando-o em órgão de incentivo e fomento da produção cinematográfica local. O Korean Film Council (KOFIC, na sigla oficial) é equivalente à Ancine brasileira e faz tudo o que a Ancine poderia/deveria fazer – mas que deixou parcialmente de fazer sob o governo Bolsonaro – , desde financiar despesas de produção, estabelecer políticas de renúncia fiscal, organizar o mercado nacional e dar suporte financeiro para filmes sul-coreanos participarem de eventos internacionais, com autonomia em relação ao partido no poder. Graças ao KOFIC, em pouco tempo o cinema sul-coreano virou o jogo, passando a dominar as bilheterias do país e a vencer prêmios importantes nos maiores festivais de cinema do mundo. Tanto que, em 2006, os filmes nacionais já representavam 50% das bilheterias do país e o governo pôde diminuir a cota de tela sem causar qualquer efeito negativo no mercado. Mesmo com cota menor, a média de lançamento de filmes sul-coreanos manteve-se como uma das maiores do planeta, com pelo menos um título novo por semana. A força das produções locais ainda propiciou que mais empresas, como a Hyundai, passassem a investir nesse segmento. E assim as conversas sobre regulamentação atingiram outro patamar, em torno de apoio maior para os pequenos estúdios e menos incentivo para projetos mais comerciais e lucrativos – o oposto do que Osmar Terra, ministro da Cidadania, planejava para o futuro do cinema brasileiro, em discurso registrado no ano passado. Outras mudanças não tão óbvias também contribuíram para esse resultado, como a educação da população. O estudo de Cinema passou a ser incluído no currículo escolar. Cai no (equivalente ao) vestibular. Estudantes também têm direito à meia-entrada nas bilheterias. Além disso, o governo incentivou aberturas de cursos e escolas de Cinema, contribuindo para a formação de técnicos capazes de realizar trabalhos dignos de Hollywood, e patrocinou a criação de festivais, como o de Busan, que se tornou um dos mais importantes da Ásia. No Brasil, estatais do governo Bolsonaro cortaram o apoio a festivais e ameaçam despejar uma das escolas de cinema mais tradicionais. Para completar, esse apoio às artes foi estendido a várias outras áreas da cultura sul-coreana. E o sucesso mundial do K-Pop é outro grande exemplo da diferença que faz o apoio do Estado à cultura de um país.
Secretário de Direitos Humanos da PGR aciona Justiça contra José de Abreu
Após José de Abreu atacar a ex-colega Regina Duarte com palavras de baixo nível, o secretário de Direitos Humanos da Procuradoria Geral da República, Ailton Benedito, encaminhou ofício ao Ministério Público Federal de São Paulo sugerindo que o órgão tome providências em relação às ofensas. Convidada pelo presidente Jair Bolsonaro para assumir a Secretaria Especial da Cultura, Regina Duarte aguarda apenas a nomeação para tomar posse. “Ainda hoje, 4 de fevereiro de 2020, será encaminhado ofício ao Ministério Público Federal no Estado de São Paulo, a fim de que tome conhecimento do fato e promova as medidas que entender cabíveis nas suas atribuições em face do sujeito que ofendeu todas as mulheres brasileiras”, escreveu Benedito no Twitter, para em seguida confirmar o envio do ofício ao Ministério Público, que de fato recebeu o documento. Benedito encaminhou o ofício após criticar, também no Twitter, as declarações dadas por José de Abreu em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo para justificar agressividade anterior contra Regina. Ao comentar a ida de atriz para o governo Bolsonaro, ele afirmou: “Facista não tem sexo. Vagina não transforma uma mulher em um ser humano. Eu não vou parar, eu sou radical mesmo e estou em um caminho sem volta”. Antes da entrevista, José de Abreu já havia sido criticado, tanto pela esquerda quanto pela direita, por um post no Instagram em que ameaçava “desmascarar” Regina, citando os cabelos brancos, rugas e banhas da atriz e dizendo que sabia o que “fizemos” no passado. “Eu sei o que fizemos na sua casa, na Barra da Tijuca. Eu sou artista, assumo meus vícios e me libertei deles. Mas você, assumindo um cargo público, vai ter que prestar conta deles”, escreveu o ator no post, posteriormente deletado. “Lembra de quantos gays lhe tiraram rugas? Coloriram seus cabelos brancos? Criaram figurinos para esconder suas banhas? Você está cagando na cabeça deles! Eles me ligam, desesperados, com sua postura! Tenha vergonha nessa cara! Vou até o fim. Regina Duarte, vou lhe desmascarar! Assuma seu cargo de apoiadora de fascista se tiver coragem. E aguente as consequências”, completou Abreu na mesma publicação. Com suas declarações, Abreu conseguiu envergonhar até petistas que o consideravam seu ator de estimação. Mas não foi sua primeira manifestação execrável. Em 2016, ele chegou a cuspir num casal em um restaurante e ainda se vangloriou no Twitter, orgulhoso: “Cuspi na cara do coxinha e da mulher dele! Não reagiu! Covarde”, mudando o sentido do que significa covardia. Além disso, desde outubro de 2017 ele é procurado por oficiais de justiça, que tentam citá-lo num processo aberto pela então primeira-dama da capital paulista, Bia Doria — hoje primeira-dama do estado. O motivo foi outra manifestação machista do ator, que escreveu no Twitter, em 9 de outubro de 2016: “STF proíbe vaquejada mas permite que a Bia Doria dê entrevista? É um crime contra os animais…”. Para o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), o ator “se encontra em local incerto e não sabido”. Os ataques recentes foram publicados no exterior, enquanto Abreu curtia uma lua de mel com sua nova mulher, 51 anos mais jovem. Em um post de quarta-feira (6/2), ele avisou que o casal não volta ao Brasil, planejando morar na Nova Zelândia.
Imprensa mundial repercute ataque do governo à Petra Costa e ela responde: “Não podemos ficar calados”
O ataque oficial do governo Bolsonaro a uma cidadã brasileira, a cineasta Petra Costa, repercutiu no mundo inteiro. A notícia foi distribuída pela agência AP a jornais tão diferentes quanto o New York Times e publicações da Ásia. Outras grifes da imprensa buscaram refletir por conta própria o que foi considerado “extraordinário” – isto é, foram do comum. “A maioria dos governos celebram quando seus cidadão são indicados para o Oscar, mas não no Brasil de Jair Bolsonaro”, escreveu o jornal inglês The Guardian, que citou a forma como o documentário “Democracia em Vertigem” e sua diretora estão sendo agredidos verbalmente por representantes do Estado brasileiro. Ao retuitar a reportagem sobre as ofensas que recebeu, a diretora se manifestou sobre o ataque. “O governo brasileiro usou sua conta oficial da Secretária de Comunicação nas mídias sociais para me atacar, chamando-me de anti-patriota. Este é mais um passo em direção ao autoritarismo, em relação ao qual não podemos permanecer calados”, ela escreveu, em inglês, falando ao mundo. A repercussão levou o Washington Post a contatá-la, dando espaço para que ela apontasse que o ataque contra ela foi também um ataque contra a liberdade de expressão. “Quando eles me chamam de ‘militante anti-Brasil’, como fazem com muitos que não concordam com eles, estão tentando censurar críticas e pensamentos divergentes, o que é garantido por nosso direito fundamental à liberdade de expressão”, Petra disse ao jornal americano. Diretora de “Democracia em Vertigem”, que disputa o Oscar de Melhor Documentário, Petra vem dando uma série de entrevistas para a imprensa americana, conforme a data da premiação se aproxima. E uma delas causou a ira do clã Bolsonaro. Um dos filhosdo presidente chegou a chamá-la de “canalha” e a comparou a um criminoso. Eduardo Bolsonaro, que queria ser embaixador do Brasil nos EUA, costuma usar essa truculência para consumo interno de seus seguidores, mas ao atacar Petra, no momento de maior visibilidade da cineasta, acabou jogando o comportamento agressivo de sua família nos holofotes da mídia internacional. Mas o que realmente motivou interesse mundial foi o fato de a Secom (Secretaria de Comunicação do governo) usar seus canais oficiais para perseguir a diretora, acusando-a de “denegrir uma nação” durante a entrevista “polêmica” ao canal americano PBS. Num série de posts publicados em inglês e português no Twitter, a Secom sustentou que a cineasta “assumiu o papel de militante anti-Brasil e está difamando a imagem do País no exterior”, “sem respeito por sua Pátria e seu povo”. O motivo? Ela denunciou justamente o perfil autoritário do governo, auto-exemplificado pela Secom. O responsável pela secretaria, Fabio Wajngarten, investigado por suspeita de corrupção (peculato e outros crimes) pela Polícia Federal, ainda foi ao Twitter defender o tom gravíssimo do ataque. “Um dos deveres da comunicação do governo é informar os fatos, sobretudo quando informações falsas são espalhadas no Brasil e no exterior. Porém, o que muitos querem, de fato, é denegrir o país sem direito a réplica por parte dos brasileiros. Isso sim é censura”, disse, repetindo a expressão “denegrir”, politicamente incorreta. Vale pausar para tentar entender o raciocínio: dar entrevistas contra o governo, fazendo uso da liberdade de expressão, “isso sim é censura”. Em seu clássico distópico “1984”, George Orwell batizou o ato de usar contradições evidentes em manifestações oficiais de “duplipensar”. A frase de Wajngarten é um dos melhores exemplos do significado desse uso político da boa e velha hipocrisia. Ouvidos pelos jornais Folha de S. Paulo e O Globo, diversos juristas consideraram o uso da Secom para atacar uma cidadã brasileira como anticonstitucional, pois fere o princípio da impessoalidade. Em outras palavras, Eduardo Bolsonaro pode chamar Petra Costa de “canalha” – e talvez responder por isso num processo por calúnia e difamação. Mas o Estado não pode perseguir nenhum cidadão, especialmente se esta pessoa não cometeu crime algum. À Folha, a advogada Mônica Sapucaia Machado, professora da Escola de Direito do Brasil, disse que os posts atropelam o artigo 37 da Constituição, que alerta para a forma de comunicação permitida ao governo, com termos como “impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, e determina ainda que a publicidade dos governos terá caráter educativo, informativo ou de orientação social”. Para Machado, a Secom se comportou “como um instrumento de opinião sobre determinada obra cultural” num país onde “a liberdade de expressão é um pilar constitucional”. Por conta da polêmica, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) já protocolou no Ministério Público Federal uma representação contra Fabio Wajngarten, que vai se acumular a seu processo criminal. “Esta importante secretaria do Poder Executivo Federal, em sua conta oficial do Twitter (@secomvc), de forma inacreditável, passou a atacar de forma pessoalizada e nada republicana a cineasta Petra Costa”, diz o texto encaminhado à Procuradoria pela equipe da deputada. Importante salientar que no exterior ninguém sabe quem é o subalterno de Bolsonaro responsável pela Secom. As reportagens internacionais simplesmente ignoram qualquer distinção entre a figura do secretário e a cabeça do governo. Todos são Bolsonaro. Como Bolsonaro costuma dizer que a imprensa brasileira tem “má vontade” contra seu governo, ele já deve saber como proceder. Após um órgão da presidência atacar a liberdade de expressão de uma artista brasileira em plenos Estados Unidos, país que considera a liberdade de expressão sagrada, ele só vai precisar estender a denúncia de “má vontade” à cobertura de toda a imprensa internacional. “Democracia em Vertigem” não era favorito ao Oscar de Melhor Documentário, mas a divulgação de última hora do governo Bolsonaro pode ter mudado a intensão de voto. A votação se encerrou nesta terça (4/2) e o resultado será conhecido no domingo (9/2), com transmissão ao vivo para o Brasil pelos canais Globo e TNT. The Brazilian government used its Secretary of Communication official account on social media to attack me calling me an anti-patriot. This is yet another step towards authoritarianism, in face of which we should not remain silent #TheEdgeofDemocracy https://t.co/4rJ9VmRNsy — Petra Costa (@petracostal) February 4, 2020
Governo Bolsonaro acusa diretora de Democracia em Vertigem de “denegrir” o Brasil
O governo Bolsonaro decidiu atacar a cineasta Petra Costa em seus canais oficiais. A Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) acusou a cineasta do documentário “Democracia em Vertigem”, indicado ao Oscar 2020, de “denegrir uma nação” diante da mídia dos EUA. Em um série de posts do Twitter, em inglês e português, a Secom sustenta que a cineasta “assumiu o papel de militante anti-Brasil e está difamando a imagem do País no exterior”, “sem respeito por sua Pátria e seu povo”, por denunciar, em entrevistas, o perfil autoritário do governo, seus ataques a minorias, desmandos na área de meio-ambiente e os reflexos da eleição passada no aumento dramático no número de mortes em ações policiais. “É incrível que uma cineasta possa criar uma narrativa cheia de mentiras e prognósticos absurdos a fim de denegrir uma nação só porque não aceita o resultado das eleições”, diz um dos tuítes da Secom, que busca desmentir pontualmente as “fake news” da diretora, criando sua própria versão dos fatos. Leia abaixo toda a narrativa oficial – que ignora dados como recordes de desmatamentos, pressão mundial para início de trabalhos de defesa ambiental, acusação leviana do presidente contra ONGs, que envolveram ataques gratuitos até ao ator Leonardo DiCaprio, projetos para garimpagem e atividades agropecuárias em terras indígenas, sem esquecer a situação catastrófica de poluição litorânea, além das tentativas de aprovar leis que isentam de punição militares e policiais, e descriminalizar a letalidade em ação policial (autos de resistência). O vídeo que acompanha os tuítes é ainda mais parcial, chegando a afirmar que “o governo federal não fez nenhuma ação contra direitos de minorias”. O presidente só disse publicamente que “não fazia sentido” incentivar filmes e séries de temática LGBTQIA+, afirmando que ia “mandar pro pau” projetos do gênero, o que levou à derrubada de um edital. Também esteve por trás de censura explícita e demissão de quem autorizou publicidade estatal com LGBTQs+ e da notória proibição de manifestações artísticas sobre diversidade sexual em centros culturais ligados a estatais. “Nenhuma ação”? A votação do Oscar se encerra nas próximas horas (em 4/2), mas o governo brasileiro, que até então não tinha ajudado a única representante do cinema nacional que disputa a premiação, acabou prestando grande serviço, ao fazer propaganda gratuita de última hora. O ataque acaba materializando um forte motivo para os votantes optarem pelo filme de Petra Costa, em repúdio a mais uma manifestação contra o trabalho de artistas feita oficialmente pela administração de Bolsonaro. A campanha anti-Petra se dá em função de a cineasta ter ganhado grande visibilidade com a indicação ao Oscar e estar no centro da mídia americana, dando diversas entrevistas em que denuncia o crescente autoritarismo do governo. Claramente sem perceber a ironia, o ataque da Secom apenas confirma o diagnóstico da diretora para o mundo inteiro – ainda escandalizado ao descobrir que o Brasil tinha um secretário de Cultura simpatizante do nazismo. Ninguém nega, nem a própria Petra, que “Democracia em Vertigem” faz uma retrospectiva de um ponto de vista pessoal – e assumidamente petista – dos eventos recentes da política brasileira, com ênfase no impeachment de Dilma Rousseff. Trata-se de uma peça da guerra de narrativas políticas. Há outra, feita pelo MBL, chamado “Não Vai Ter Golpe”, que conta versão diferente. E democracia é exatamente isso, a convivência entre diferenças de perspectivas. Quem tem bom-senso sabe que a parcialidade faz parte desse jogo. Entretanto, não vem à lembrança outro caso em que o governo de um país democrático – a Rússia não se enquadra – tenha denunciado um cineasta como anti-patriota por conta de críticas políticas, como a Secom acaba de fazer. Vale considerar que, se criticar um presidente fosse “denegrir uma nação”, Bolsonaro seria um dos maiores anti-patriotas da história do Brasil. Não só atacou os governos petistas como votou pelo Impeachment de Dilma Rousseff. Mas ele se considera o maior patriota de todos. E tem seu direito constitucional garantido de criticar presidentes passados, porque um nação democrática não se confunde com seus governantes. Quando a crítica ao governo passa a ser considerado antipatriotismo, a declarada saudade da ditadura do presidente sai do terreno das ideologias para se materializar com a força de uma ação oficial. Nesse sentido, é interessante reparar ainda na escolha de palavras da Secom. “Denegrir” é o termo mais politicamente incorreto que poderia ter sido usado na situação. Sua inclusão ajuda a aprofundar o intertexto, num vislumbre da mente dos responsáveis pelo ataque oficial, que ainda chamam negros brasileiros de afro-americanos. Só que afro-americano é um termo que identifica exclusivamente afro-descendentes nos EUA – e não no Brasil. Ou seja, se a discussão for racismo no governo, a Secom contribuiu apenas para piorar o quadro. Para completar, ressalte-se que a Secom está atualmente envolvida num escândalo político, graças às denúncias sobre a atuação de seu chefe, Fábio Wajngarten, suspeito de peculato (subtração ou desvio, por abuso de confiança, de dinheiro público), advocacia administrativa (patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a administração pública) e quebra do princípio da impessoalidade na administração (colocar interesses pessoais acima do interesse público), que estão sendo investigadas pelo MPF (Ministério Público Federal) e pelo TCU (Tribunal de Contas da União). Nos Estados Unidos, a cineasta Petra Costa assumiu o papel de militante anti-Brasil e está difamando a imagem do País no exterior. Mas estamos aqui para mostrar a realidade. Não acredite em ficção, acredite nos fatos. pic.twitter.com/NLnf8gA87c — SecomVc (@secomvc) February 3, 2020 Filmmaker Petra Costa played the role of an anti-Brazil activist and tarnished the country's image abroad with a series of fake news in an interview on American television. pic.twitter.com/jRxCGqLoAo — SecomVc (@secomvc) February 3, 2020 It is unbelievable that a filmmaker can create a narrative full of lies and absurd forecasts in order to denigrate a nation just because she does not accept the result of elections. — SecomVc (@secomvc) February 3, 2020 Quanto ao suposto excesso de letalidade das forças policiais do Rio de Janeiro, é importante lembrar que essa é uma responsabilidade do Governo do Estado do Rio de Janeiro. — SecomVc (@secomvc) February 3, 2020 O presidente @jairbolsonaro já reforçou o compromisso brasileiro com o Meio Ambiente e a preservação da Amazônia em discurso na ONU e com ações efetivas. A criação do Conselho da Amazônia e da Força Nacional Ambiental são duas delas. — SecomVc (@secomvc) February 3, 2020 O @MMeioambiente lançou o Pacto pelo Ambientalismo de Resultado: incluir para preservar. O resultado: combate ao desmatamento ilegal na Amazônia e tolerância zero com os desmatadores. — SecomVc (@secomvc) February 3, 2020
Tema de Roque Santeiro ganha versão de apoio ao governo e incomoda autor, que vai processar
O músico Guarabyra pretende processar o responsável por uma versão pirata de “Dona”, que ele gravou com o parceiro Sá e se tornou grande sucesso como tema da Viúva Porcina na novela “Roque Santeiro” (1985). A música ganhou letra modificada para exaltar Regina Duarte, a própria Viúva Porcina, na Secretaria Especial da Cultura. Publicada em 30 de janeiro no YouTube, a versão pirata é acompanhada por uma galeria de fotos ilustrativas, que, de forma didática, ajuda a propagar os pontos mais preconceituosos e intolerantes da visão “cultural” representada pelo atual governo. Exemplos: funk é lixo “travestido de cultura” e Regina “representa os bons tempos”, uma “patriota que tem fé”, e por isso vai resgatar os “valores cristãos” e “rejeitar o que não convém”. O que é um elogio pouco disfarçado à censura. “A versão de nossa música ‘Dona’, com letra pró Secretária da Educação não foi autorizada por nós, e a questão está sendo estudada pelo departamento jurídico da Editora que representa a obra”, escreveu Guarabira, em seu perfil oficial no YouTube, corrigindo-se em seguida pela confusão de figurinhas do governo. “Digo, Secretária de Cultura”. O autor da canção é identificado no YouTube como Guto Sallen, cantor que imitava Roberto Carlos no programa Raul Gil. Ultimamente, ele tem se especializado em canções com ataques à bailes funk, LGBTQs e outros “inimigos”. Também transformou o clássico “Let it Be”, dos Beatles, em “Ele sim”, a favor de Bolsonaro. Ironicamente, o ator Lima Duarte, que estrelou “Roque Santeiro” como o vilão Sinhozinho Malta, chegou a comparar à ida da atriz ao governo com o enredo da novela, dizendo que era uma representação perfeita “para o Brasil de hoje: Sinhozinho Malta na Presidência e Viúva Porcina na Cultura”. Digo, Secretária da Cultura. — Guarabyra (@Gutbyra) February 2, 2020
Regina Duarte irrita colegas que a apoiavam e culpa “resistência ideológica”
A polêmica de Regina Duarte com os colegas de classe aumentou. A decisão de juntar no Instagram diversas fotinhas de atores que apoiaram sua decisão de assumir a Secretaria Especial de Cultura do governo Bolsonaro causou inúmeras reclamações. Poucas horas após colocar o post no ar, na sexta (31/1), ela precisou retirar uma das fotos, atendendo ao pedido de Carolina Ferraz. Regina substituiu a imagem por uma foto de Carla Daniel, que também reclamou, pedindo para que sua imagem não fosse usada. Na própria noite de sexta, foi ao ar uma terceira versão da montagem com apoiadores. Mas logo outros artistas se manifestaram. E Regina acabou tirando o post inteiro do ar neste sábado (1/2), reclamando de “resistência ideológica”. No post original, as imagens apareciam reunidas sob o título: “Artistas quebram o silêncio e apoiam Regina Duarte”. Vendo a montagem, Carolina enviou um áudio de WhatsApp, que vazou na internet, desaprovando o uso de sua foto pela equipe da colega. “Eu não imaginei que você fosse colocar minha foto ou de qualquer um né, colega nosso, sem pedir autorização da gente, né”, disse a atriz no áudio, que a Folha confirmou ser de autoria de Carolina. Na mensagem, ela admite que torce pela colega, mas não quer ter seu nome associado a “um governo que desprestigia tanto a classe artística”. “Realmente, torço para que você consiga exercer e fazer a diferença em um governo que desprestigia tanto a classe artística, que persegue tanto a classe artística”, continuou a atriz. “Mas eu não quero ser usada como alguém que está ali no seu Instagram, porque dá a entender que apoio o governo Bolsonaro e eu não apoio, Regina. Eu nunca aprovei e nunca compactuei com esse governo e inclusive não votei no Bolsonaro”, completou. Ao aparecer na montagem, Carla Daniel também reclamou publicamente. “Regina, vamos deixar claro uma coisa com todo carinho. Apoiei a sua coragem e seu amor à Cultura. Não compactuo com esse governo e nem o anterior. Torço pela sua gestão”, escreveu Carla nas redes sociais. Além de Carolina Ferraz e Carla Daniel, também sumiram da montagem Beth Goulart e Mario Frias, que não se manifestaram publicamente. Maitê Proença, que vinha defendendo a atriz em entrevistas, registrou: “Eu também NÃO GOSTEI de ter sido usada em uma montagem que dá a entender o apoio a um governo que não aprovo. Que fique claro. Não aprovo este governo mas apoiarei até a morte o direito de quem pensa diferente de mim”. O comediante Luiz Fernando Guimarães ficou ainda mais revoltado. Ele publicou: “Pessoal, sobre a minha imagem estar sendo divulgada fazendo menção ao apoio do governo atual, é MENTIRA! Apoio a querida Regina, e espero que ela faça um belo trabalho, porém não concordo com a administração atual, e não compactuo dos mesmos pensamentos e ideias. Já solicitei que retirassem minha imagem das postagens”. Questionado por fãs em sua conta no Instagram se apoia o governo, já que foi incluído nas montagens divulgadas por Regina Duarte, Ary Fontoura repetiu mais de uma vez: “Não apoio ninguém”. Em suma, Regina Duarte confundiu o afeto dos colegas com apoio político. Ao publicar suas imagens sem autorização, percebeu que está realmente isolada, praticamente sozinha entre os atores da Globo, ao se posicionar a favor de Bolsonaro. Carlos Vereza é a exceção, tendo comparecido em Brasília neste sábado para manifestar seu apoio. Ao excluir a montagem polêmica de seu perfil, ela publicou nova mensagem dizendo: “Vou tirar post com artistas porque agora é a Maitê pedindo pra sair”. Para justificar porque publicou fotos de artistas sem autorização, optou por politizar o incômodo que causou. “Meu desejo de pacificar, de UNIFICAR a classe artística já mostra que a RESISTÊNCIA IDEOLÓGICA vai bater forte e tentar impedir que a polarização reinante possa ser vencida. Vou, no entanto, lutando para que a CULTURA do nosso país possa estar acima de ideologias e partidos.”
Atrizes reclamam após Regina Duarte incluí-las em foto-montagem de apoio
A atriz Regina Duarte arrumou a primeira polêmica com os colegas de classe na noite de sexta (31/1), ao resolver juntar no Instagram diversas fotinhas de atores que apoiaram sua decisão de assumir a Secretaria Especial de Cultura do governo Bolsonaro. Poucas horas após colocar o post com as imagens no ar, ela precisou retirar uma das fotos, atendendo ao pedido de Carolina Ferraz. Carolina enviou um áudio de WhatsApp, que vazou na internet, desaprovando o uso de sua imagem pela equipe da colega. No post original, as imagens apareciam numa montagem sob o título: “Artistas quebram o silêncio e apoiam Regina Duarte”. “Eu não imaginei que você fosse colocar minha foto ou de qualquer um né, colega nosso, sem pedir autorização da gente, né”, disse a atriz no áudio, que a Folha confirmou ser de autoria de Carolina. Na mensagem, ela admite que torce pela colega, mas não quer ter seu nome associado a “um governo que desprestigia tanto a classe artística”. “Realmente, torço para que você consiga exercer e fazer a diferença em um governo que desprestigia tanto a classe artística, que persegue tanto a classe artística”, continuou a atriz. “Mas eu não quero ser usada como alguém que está ali no seu Instagram, porque dá a entender que apoio o governo Bolsonaro e eu não apoio, Regina. Eu nunca aprovei e nunca compactuei com esse governo e inclusive não votei no Bolsonaro”, completou. O post foi substituído por um novo, trazendo a atriz Carla Daniel no lugar de Carolina. Mas a troca rendeu outro problema. Carla Daniel também reclamou publicamente. “Regina, vamos deixar claro uma coisa com todo carinho. Apoiei a sua coragem e seu amor à Cultura. Não compactuo com esse governo e nem o anterior. Torço pela sua gestão”, escreveu Carla nas redes sociais. Assim, uma terceira versão do post, sem título sensacionalista, foi ao ar, desta vez com Rosamarinho Murtinho ao lado de Ary Fontoura, Maitê Proença, Márcio Garcia, Carlos Vereza, Beth Goulart e a autora de novelas Gloria Perez, entre outros. Regina, porém, não deixou barato. Ela também fez questão de publicar as mensagens originais que recebeu de Carolina e Carla apoiando a sua nomeação. Precisava? Nenhuma das duas negou o apoio crítico. Anteriormente, Antonio Fagundes disse ter pena de Regina por ter aceitado o cargo. “Tenho pena de artista que entra nessa jogada“, disse o ator. “Temos tanta coisa para fazer e o jogo sujo da política só pode trazer coisa ruim”. Ver essa foto no Instagram 🥰🤩👍🙏🙏🙏💞💞💝💝 Uma publicação compartilhada por Regina (@reginaduarte) em 31 de Jan, 2020 às 5:28 PST
Gregório Duvivier revela que anda com seguranças e pensou em sair do país após ataque ao Porta dos Fundos
Gregório Duvivier, que interpreta o Jesus Gay no Especial de Natal do Porta dos Fundos para a Netflix, revelou em entrevista à agência francesa de notícias AFP que, desde o ataque com bombas incendiárias à produtora, anda com seguranças e até pensou em sair do Brasil. Mas, ao mesmo tempo, ficou “com vontade ainda maior de lutar” e que a liberdade de expressão é algo “inegociável”. Logo após a disponibilização do especial “A Primeira Tentação de Cristo”, o Porta dos Fundos foi alvo de várias críticas de grupos religiosos e movimentos conservadores, gerando desde processos na Justiça pela censura do programa até manifestações no Congresso Nacional contra a Netflix pelo lançamento da produção. Este clima culminou num atentado violento, em que quatro homens encapuzados atiraram coquetéis molotov contra a sede da produtora no Rio de Janeiro. As cenas foram registradas em vídeos de segurança e pelos próprios criminosos, que posteriormente as divulgaram junto de um “manifesto revolucionário” típico de ações terroristas de fundamentalistas religiosos. “Fiquei muito assustado porque a imagem é assustadora mesmo. O vigia que estava lá sofreu sério risco de ter morrido. Nesse momento, você se diz: talvez seja o momento de sair do país. Estão tentando colocar fogo na minha empresa. Por outro lado, também dá aquela vontade ainda maior de lutar”, contou sobre o ataque. Ele continuou: “As ameaças são constantes, e não vêm apenas de pessoas anônimas. Há inclusive congressistas que falam, no Congresso… Tem sujeito berrando: a justiça não se faz só no céu, se faz também na Terra. São ameaças veladas, não ameaças de morte. Se chegar um momento em que eu sentir de fato que as ameaças são serias e algo pode acontecer, vou sair daqui, não faz sentido.” Gregório ainda contou na entrevista que o conglomerado americano Viacom, acionista majoritário na produtora Porta dos Fundos, tem cuidado de sua proteção. “O momento já está bastante inconfortável, estou só andando com segurança e carro blindado, por decisão da Viacom. É uma coisa constrangedora, cerceia a liberdade, mas por outro lado se estão propiciando isso pra gente, temos que aproveitar essa estrutura de proteção”, contou. O humorista considera que a intolerância e escalada de violência seja fruto da ascensão de Bolsonaro e da extrema direita ao poder no país, uma vez que o presidente trata determinadas manifestações artísticas como “degeneradas” e inimigas da família brasileira. Mas, em seu ponto de vista, o verdadeiro inimigo do Brasil é o próprio Bolsonaro. “O que me preocupa é a erosão da democracia, nossa democracia é muito recente. Isso se vê em todas a áreas, inclusive a cultura. Todos esses filmes que foram premiados no ano passado em Cannes (‘Bacurau’, vencedor do Prêmio do Júri, e ‘A Vida Invisível’, filme que conta com Duvivier no elenco, vencedor da mostra Um Certo Olhar) foram feitos com incentivos fiscais, graças a uma política que demorou 30 anos para ser implementada. Essa política já foi para o ralo. Já desmontou tudo, já não existe. Outra coisa que me preocupa é o meio ambiente. O Brasil tinha criado uma estrutura para inibir o desmatamento, controlar ele, com Ibama, Inpe. Isso já foi por água abaixo. Ele exonerou o presidente do Inpe por divulgar a realidade. O grande inimigo dele é a realidade. O que mais me preocupa com isso é que é um ponto que não dá mais para voltar. De todos os absurdos que ele fala, talvez esse seja o mais sério, porque não tem volta. Não tem outro planeta pra gente se mudar”.










