Nova animação da Disney, “Mundo Estranho” é principal estreia nos cinemas
Duas das principais animações do ano chegam juntas aos cinemas nesta quinta (24/11), embora “Pinóquio” tenha distribuição limitada devido à prioridade dada por sua produtora, a Netflix, ao streaming. Isso deixa “Mundo Estranho” à vontade para dominar o circuito, com lançamento em mais de mil salas. Apesar desse monopólio, a produção infantil mais progressista da História da Disney vai enfrentar resistência dupla, de famílias conservadoras e da Copa do Mundo. Enquanto isso, o circuito limitado ainda traz uma ótima comédia britânica, três boas produções francesas, dois excelentes thrillers de ação sul-coreanos, mais dois longas brasileiros e um blockbuster do começo do século em relançamento comemorativo. Confira abaixo os detalhes de todos esses filmes. | MUNDO ESTRANHO | A animação é um marco de representatividade na filmografia da Disney, ao destacar como protagonista um adolescente gay de pais birraciais. O filme também possui uma forte mensagem de aceitação de diferenças e ressalta a importância do meio ambiente. E essa combinação de temas, capaz de dar urticária em conservadores, é a maior ousadia já vista numa produção infantil da Disney até hoje. A reação previsibilíssima a isso já preparou o estúdio a não lançar o filme em certos países e esperar ataques raivosos à produção na internet (e espera-se que apenas lá). Apesar disso, a história em si não se afasta muito do modelo das aventuras familiares tradicionais do estúdio. A trama acompanha a missão de uma família de exploradores espaciais que, anos depois do sumiço de seu velho patriarca, retorna ao mundo estranho em que ele desapareceu, um lugar desconhecido e traiçoeiro, cheio de criaturas fantásticas e prontas para engolir qualquer um. E para a surpresa de todos, eles encontram o velho aventureiro vivendo naquele lugar inóspito como se fosse um paraíso. Mas a grande descoberta da viagem é perceber que a maior ameaça que podem enfrentar são as diferenças entre eles. O filme tem roteiro de Qui Nguyen e direção de Don Hall, dupla responsável por “Raya e o Último Dragão” (2021), e o elenco de dubladores originais é encabeçado por Jake Gyllenhaal e Dennis Quaid, que voltam a viver pai e filho 18 anos depois de “O Dia Depois do Amanhã”, enquanto Jaboukie Young-White (“Only Murders in the Building”) encarna o filho e neto gay dos dois. Outras vozes famosas da versão legendada são Lucy Liu (“Elementary”), Gabrielle Union (“Doze é Demais”) e Alan Tudyk (“Resident Alien”). | PINÓQUIO | Há mais de uma década em desenvolvimento, a animação em stop-motion do cineasta Guillermo del Toro (vencedor do Oscar por “A Forma da Água”) conta uma versão altamente estilizada da fábula de Carlo Collodi (1826–1890), que abraça o lado mais sombrio da trama clássica, ao se focar na construção da autoestima de uma criança. Concebido com imaginação macabra, o filme surpreende por apresentar de forma inovadora uma história excessivamente conhecida – e que neste mesmo ano ganhou nova e tediosa versão da Disney. O fato é que a parceria do diretor com Mark Gustafson, animador de “O Fantástico Sr. Raposo” (2009), consegue emocionar e inspirar como as melhores lições dos contos de fada. E ainda conta com fantoches impressionantes, criados pela produtora Mackinnon and Saunders (“Noiva Cadáver”). A versão dublada em idioma inglês traz o estreante Gregory Mann como a voz de Pinóquio, Ewan McGregor (“Aves de Rapina”) como o Grilo Falante e David Bradley (“Game of Thrones”) como Gepeto, além de Cate Blanchett (“Carol”), Tilda Swinton (“Suspiria”), Tim Blake Nelson (“Watchmen”), Finn Wolfhard (“Stranger Things”), Ron Perlman (“Hellboy”), Christoph Waltz (“007 Contra Spectre”), John Turturro (“Transformers”) e Burn Gorman (“The Expanse”) em seu elenco grandioso. O lançamento nos cinemas é limitado, já que a produção foi feita pela Netflix visando o streaming – a estreia digital está marcada para 9 de dezembro. | SRA. HARRIS VAI A PARIS | Lesley Manville (“The Crown”) vive uma faxineira viúva na Londres dos anos 1950, que se apaixona perdidamente por um vestido de alta costura da Dior. Enquanto sonha com a alta costura inviável para sua condição financeira, ela recebe a notícia de que tem direito a uma pensão pela morte do marido na guerra e entende a descoberta como um sinal para viajar até Paris e adquirir um Dior diretamente da coleção da temporada. Mas ao chegar com suas roupas simples é ridicularizada e precisa mostrar que tem condições de realizar seu sonho. A comédia edificante é baseada num romance popular de Paul Gallico (1897-1976), autor mais conhecido pela trama de desastre que inspirou “O Destino do Poseidon” (1972) e seu remake de 2006. A direção é de Anthony Fabian (“Mais de Mil Palavras”) e o elenco também destaca a premiada Isabelle Huppert (“Elle”), Lambert Wilson (“Matrix Revolutions”), Alba Baptista (“Warrior Nun”) e Lucas Bravo (“Emily em Paris”). | LIGAÇÃO EXPLOSIVA | Thriller sul-coreano ao estilo de “Velocidade Máxima” (1994), acompanha um gerente de banco (Jo Woo-jin, de “Narco-Santos”) a caminho do trabalho com os dois filhos pequenos, que recebe uma ligação avisando que eles estão sentados em uma bomba. Se alguém sair do veículo, a bomba explodirá, a menos que ele pague uma fortuna. Depois de achar que é uma piada, ele muda de ideia quando vê outro carro-bomba explodir na sua frente. Só que passa a ser suspeito de terrorismo e perseguido pela polícia, enquanto a voz no telefone lhe proíbe de parar e exige o dinheiro que seu banco protela para liberar. Tenso e com 89% de aprovação no Rotten Tomatoes. | FORÇA BRUTA | O divertido filme de ação sul-coreano é continuação de “The Outlaws” (2017), lançado direto em VOD no Brasil, e traz novamente o policial Ma Seok-do (vivido por Ma Dong-seok de “Invasão Zumbi”) como protagonista. Ele recebe a missão de ajudar na repatriação de um criminoso foragido no Vietnã. Porém, ao chegar no país estrangeiro, descobre que o caso é ligado a um assassino em série que atacou turistas por muitos anos. Com uma pancadaria elogiadíssima, o filme tem 96% de aprovação no Rotten Tomatoes. | MEU FILHO É UM CRAQUE | A simpática comédia familiar francesa acompanha um menino de apenas 12 anos que é bom de bola e a única alegria de seu pai deprimido. Vendo a dificuldade do pai para superar a separação de sua mãe, a criança resolve agradá-lo, dizendo que foi selecionado para a equipe infantil de um importante time inglês. Só que a mentira faz o homem abandonar tudo para planejar uma mudança para a Inglaterra. Baseado numa história em quadrinhos – “Dream Team”, dos espanhóis Artur Laperla e Mario Torrecillas – , o filme de Julien Rappeneau (“Rosalie Blum”) traz François Damiens (“A Família Belier”) e Ludivine Sagnier (“Lupin”) no papel dos pais. | MALI TWIST | O novo filme de Robert Guédiguian (“As Neves do Kilimandjaro”) é uma história de amor em tempo de twist e revolução. Passada no Mali em 1962, encontra jovens divididos entre a música do Ocidente e o marxismo. Quando Samba, um jovem socialista, se apaixona pela animada Lara durante uma de suas missões, resolve fugir com ela para a cidade grande. Mas seu romance é proibido, porque a fuga de Lara é de um casamento forçado que a lei e os costumes reconhecem. A ordem para se conformar e se integrar ao novo nacionalismo faz Samba duvidar da linha política que ajudou a implantar no país. O casal é vivido pelo franco-congolês Stéphane Bak (de “A Crônica Francesa”) e a estreante Alice da Luz, uma modelo de origem cabo-verdiana. | GOLIAS | No drama francês, o Golias da referência bíblica é uma poderosa empresa fabricante de pesticida, que promete grandes resultados na agricultura, enquanto envenena a população em troca do lucro. Mas vítimas se unem para enfrentar o gigante e seu advogado sedutor num processo milionário. Baseado numa história real, o filme tem direção de Frédéric Tellier (“Através do Fogo”) e destaca Pierre Niney (“Frantz”) como o advogado da empresa. | SERIAL KELLY | Gaby Amarantos (“De Perto Ela Não é Normal”) vive a Kelly do título, uma cantora de forró eletrônico que, enquanto cumpre uma agenda de shows em inferninhos pelo sertão, vai deixando um rastro de mortes pelo caminho. Ao se ver investigada pelos assassinatos de três homens, sua turnê mambembe se transforma em estratégia de fuga, com a polícia em seu encalço. Estreia em longa-metragem de René Guerra, diretor do curta premiado “Vaca Profana” (que levou o prêmio do público no Festival do Rio de 2017), o filme também traz Paula Cohen (“1 Contra Todos”) e Thomas Aquino (“Deserto Particular”) como policiais. | ALICE DOS ANJOS | Em clima de teatro infantil – e musical – , o longa de estreia de Daniel Leite Almeida adapta as histórias de Lewis Carrol sobre Alice (a do País das Maravilhas) para o sertão nordestino. Após correr atrás de um bode preto apressado que usa terno e gravata, a Alice brasileira é transportada a um lugar mágico, cheio de personagens malucos que se tornam seus novos amigos. Mas ela logo se depara com um viés social, ao encontrar um influente coronel que diz mandar em tudo e, em nome do poder e do progresso a qualquer preço, decide tomar as terras das comunidades tradicionais para construir uma usina hidrelétrica. A fábula politizada é estrelada pela jovem estreante Tiffanie Costa e vários atores pouco vistos nas telas. | HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA – 20º ANIVERSÁRIO | O segundo filme de “Harry Potter” volta aos cinemas em comemoração ao aniversário de 20 anos de seu lançamento.
Diretora revela que “Eternos” quase teve final deprimente
A diretora Chloé Zhao revelou que “Eternos” teria originalmente um final sombrio e até deprimente. “O filme terminaria com todo mundo de volta à espaçonave, com suas mentes apagadas, e indo para outro planeta, como num episódio de ‘Além da Imaginação'”, disse Zhao, em entrevista à revista Empire. Este final, porém, não funcionava no contexto das produções do estúdio, porque tiraria os personagens do MCU (Universo Cinematográfico da Marvel) ou, no mínimo, os deixaria indiferentes ao que viesse a acontecer dali em diante. “Eu me lembro que quando a tela ficava escura, todo mundo ficava pensando: ‘Eu não sei o que fazer'”, ela contou, sobre a reação durante as sessões de teste. “Além disso, é o MCU, e você quer ficar empolgado para o que virá a seguir”, completou Zhao, justificando o descarte deste final. Mesmo com a mudança para um desfecho menos triste, “Eternos” não agradou, consagrando-se como o filme pior avaliado do MCU, tanto entre a crítica (Rotten Tomatoes) como entre o público (CinemaScore). “Eternos” teve apenas 47% de aprovação no Rotten Tomatoes e registrou o primeiro “B” da Marvel no CinemaScore, superando a pior nota do estúdio até então, um “B+” conferido ao primeiro filme de Thor, em 2011. Todos os outros filmes do MCU receberam A-, A ou A+.
“Eternos” é pior filme da Marvel no CinemaScore e vira “podre” no Rotten Tomatoes
Não foi só a crítica. “Eternos” também destoou dos outros filmes da Marvel na recepção do público. O filme dirigido por Chloé Zhao recebeu a nota mais baixa dentre todas as produções do MCU (Universo Cinematográfico da Marvel) no CinemaScore, que é uma pesquisa de opinião feita com o público na saída das sessões de cinema nos EUA. “Eternos” registrou o primeiro “B” do Marvel Studios, superando a pior nota do estúdio no CinemaScore, um “B+” conferido ao primeiro filme de Thor, em 2011. Todos os outros filmes do MCU receberam A-, A ou A+. A avaliação da crítica é ainda pior. Desde que as primeiras críticas começaram a ser publicadas, em 24 de outubro, a nota no Rotten Tomatoes não parou de cair. Se as resenhas iniciais causavam preocupação, com 72% de aprovação, a situação só piorou desde então. Neste sábado (6/11), um dia após a estreia do filme nos EUA, “Eternos” se tornou o primeiro lançamento do MCU considerado “podre”, desabando para 48% de aprovação. É nota de filme medíocre, condição evocada pelas críticas, que acusam o filme de ser genérico, mas principalmente uma grande decepção pela expectativa criada pela direção da vencedora do Oscar 2021 por “Nomadland” e pelo elenco estelar, incluindo Angelina Jolie, Salma Hayek e dois astros de “Game of Thrones”. Até então, as notas mais baixas da Marvel no Rotten Tomatoes pertenciam a “O Incrível Hulk” (67% de aprovação) e “Thor: O Mundo Sombrio” (66%). Apesar disso, as opiniões negativas não devem abalar muito a bilheteria da estreia da produção, que tem expectativa de faturar em torno de US$ 70 milhões em seu primeiro fim de semana na América do Norte. O impacto, se houver, será sentido a partir da segunda semana de exibição. “Eternos” também está em cartaz nos cinemas brasileiros.
“Eternos” tem pior nota da Marvel no Rotten Tomatoes
A decepção com “Eternos”, novo filme da Marvel, tem aumentado consideravelmente nos EUA, em proporção inversa à nota do filme do Rotten Tomatoes, que não para de cair. Atualmente com 63% de aprovação, o longa dirigido pela vencedora do Oscar Chloé Zhao (“Nomadlands”) tem a pior avaliação de todos os filmes da Marvel. A recepção da crítica já é pior que a recebida por “O Incrível Hulk” (67% de aprovação) e “Thor: O Mundo Sombrio” (66%), os patinhos feios do MCU (Universo Cinematográfico da Marvel). E a nota poderia ser ainda mais baixa, não fossem os elogios de sites com as palavras ComicBook (quadrinhos) e Fans em seus nomes, que sempre aplaudem qualquer lançamento da Marvel. É possível ponderar que parte dessa aparente decepção se deva à expectativa elevada, após Chloé Zhao vencer o Oscar, e por ver Angelina Jolie e outros astros famosos numa produção da Marvel. “‘Eternos’ pode não ser o pior dos filmes da Marvel, mas sem dúvidas é o mais decepcionante”, descreveu o site oficial da rede britânica BBC, incluindo a palavra “decepcionante” no título publicado no domingo passado (24/10), logo que o embargo foi levantado. “Está claro que Zhao, ao assinar para fazer este projeto, decidiu deixar seu estilo expressivo de lado e abraçar as convenções expositivas da Marvel. Isso é um pouco decepcionante”, elaborou a revista Variety. E este tem sido o tom geral. Atualmente, o Rotten Tomatoes contabiliza 93 críticas. O número deve dobrar conforme a data de estreia se aproxima. Resta saber quantos blogs de fãs de quadrinhos ainda restam para entrar nesta contabilidade.
Primeiras críticas de “Eternos” se dividem entre elogios e decepção
As primeiras críticas de “Eternos”, próximo filme da Marvel, que estreia em 4 de novembro no Brasil, começaram a ser publicadas neste domingo (24/10). E a reação ao longa dirigido pela vencedora do Oscar Chloé Zhao, diretora de “Nomadlands”, não se mostrou tão entusiasmada quanto o marketing da Disney, sedento por frases de efeito, gostaria. Todo a produção foi acompanhada por elogios internos, com o produtor Kevin Feige, chefão do estúdio, chegando a afirmar que o longa teria a fotografia mais bonita da Marvel e que Zhao traria seu “estilo exclusivo” para o filme. No entanto, “Eternos” chegou com apenas 72% de aprovação no Rotten Tomatoes – nota que deve sofrer alteração, podendo subir ou descer conforme novas críticas foram disponibilizadas. É muito significativo que não tenha começado com nota maior, marcando uma recepção abaixo da média histórica dos lançamentos da Marvel. Na verdade, 72% é a terceira pior avaliação de um longa do estúdio, à frente apenas de “Thor: O Mundo Sombrio” (66%) e “O Incrível Hulk” (70%), e empatada com “Homem de Ferro 2”. É possível ponderar que parte dessa aparente decepção se deva à expectativa elevada, após Chloé Zhao vencer o Oscar, e por ver Angelina Jolie e outros astros famosos numa produção da Marvel. “‘Eternos’ pode não ser o pior dos filmes da Marvel, mas sem dúvidas é o mais decepcionante”, descreveu o site oficial da rede britânica BBC, incluindo a palavra “decepcionante” no título. A crítica publicada pelo jornal Los Angeles Times foi uma das mais perspicazes ao registrar o contraste entre o que se espera da Marvel e o que se espera de Zhao. “Você sai da sessão com aquele pensamento depressivo de ter acabado de assistir a um dos filmes mais interessantes que a Marvel já fez, ao mesmo tempo em que torce para ser o filme menos interessante que Chloé Zhao fará em toda a sua carreira”, escreveu o jornalista Justin Chang. “Está claro que Zhao, ao assinar para fazer este projeto, decidiu deixar seu estilo expressivo de lado e abraçar as convenções expositivas da Marvel. Isso é um pouco decepcionante. Mesmo assim, a sensibilidade de Zhao, em um certo nível, está lá”, observou Owen Gleiberman no site da revista Variety. David Rooney, da revista The Hollywood Reporter, foi o mais elogioso de todos, especialmente em relação ao trabalho da diretora. “Desde a imagem inicial de Sersi emergindo de uma estação de metrô de Londres em Piccadilly Circus até as notas sonhadoras de “Time” do Pink Floyd, a emoção, o peso contemplativo da visão de Zhao coloca o filme entre as iniciativas mais interessantes e originais da Marvel em todos os tempos”. Ele explica que “a atenção aos personagens, às dinâmicas de grupo e profundidade emocional faz o filme soar mais vivo em seus momentos mais quietos do que na ação rotineira de computação gráfica. E essa profundidade dos sentimentos ajuda a contrabalançar a narrativa precária”. A “narrativa precária” foi alvo de várias outras publicações. O roteiro dos inexperientes primos Ryan e Kaz Firpo (roteiristas de curtas documentais), em parceria com Patrick Burleigh (“Pedro Coelho 2: O Fugitivo”), irritou tanto David Ehrlich, do site IndieWire, que sua crítica foi praticamente um desabafo. “Será que esses filmes não conseguem fazer mais nada? É pedir demais querer que o cinema dominante no mundo agite um pouco as coisas e se desafie de uma forma mais significativa?”, ele escreveu. Ou, como diz Scott Mendelson, da revista Forbes, sobre a história: “‘Eternos’ mostra a Marvel cometendo os mesmos erros (heróis genéricos, efeitos visuais chatos, um filme inteiro como um prólogo para uma sequência, etc) que seus rivais”. A tendência é que a nota caia ainda mais. Bem mais.
“G.I. Joe Origens: Snake Eyes” é destruído pela crítica americana
As primeiras críticas registram um grande desapontamento da imprensa norte-americana com “G.I. Joe Origens: Snake Eyes”. Com 59 resenhas computadas, o filme atingiu apenas 44% de aprovação no Rotten Tomatoes – e o número vem caindo, conforme as publicações são indexadas. Apenas as performances do elenco, em particular Henry Golding (“Podres de Ricos”) no papel-título e Andrew Koji (da série “Warrior”) como seu antagonista Storm Shadow, foram poupadas. Ganharam até elogios. Mas o trabalho de Robert Schwentke, que assinou dois filmes da franquia “Divergente”, chegou a ser chamado de pior direção de um blockbuster de ação em todos os tempos. “É como se Schwentke operasse a partir de uma lista de esperados clichês de filmes de ação e apressasse todos eles”, publicou o jornal Seattle Times. “Schwentke abusa das firulas e o resultado é que os cortes rápidos e close-ups obscurecem a ação ao invés de destacá-la”, apontou a revista Entertainment Weekly. “É quase comovente ver tudo fracassar como filme de ação, porque há muitos socos e poses icônicas, e espetáculo ninja de grande orçamento. Mas apesar da encenação impressionante e trabalho de dublê impecável, as lutas e perseguições são filmadas por ‘shaky cam’ (câmera tremida) arbitrária e editadas com uma falta clareza do tipo que demora 15 cortes para retratar alguém pulando uma cerca”, descreveu a revista Forbes. “A ação parece ótima quando podemos ver. Mas o diretor Robert Schwentke, infelizmente, optou por capturar muito disso em close-ups de câmera sacudida e editados com muitos cortes rápidos, diluindo a força dos golpes em vez de aumentar seu impacto”, ecoou o jornal Los Angeles Times. As reclamações também se dirigiram ao roteiro escrito pelo grego Evan Spiliotopoulos, cheio de filmes pouco recomendáveis no currículo, como “Hércules” (2014) e “O Caçador e a Rainha do Gelo” (2016). “O roteiro é marcado por clichês, obviedades e previsibilidade sem fim”, lamentou o jornal inglês The Observer. “É um filme de super-heróis medíocre”, resumiu o jornal San Francisco Chronicle. “Pega o GI Joe mais popular e o desmistifica totalmente até que tudo o que resta na tela é um cara com uma espada”, acrescentou o site Screen Crush. “O verdadeiro pecado é que Snake Eyes como personagem é mortalmente tedioso. Ele mal tem personalidade”, descreveu a crítica da agência Associeted Press. “O drama é confuso, a ação é turva e o enredo fica cada vez mais idiota até que, no final, todas as tentativas deste filme de relançar a franquia ‘GI Joe’ explodem”, finalizou o site The Wrap. Mas houve quem gostasse. “‘G.I. Joe Origens: Snake Eyes’ é provavelmente o melhor filme possível com o nome ‘G.I. Joe’ em seu título”, parece ter elogiado a revista Variety. “Em termos de filmes pipoca descaradamente corporativos, ‘Snake Eyes’ é melhor do que a maioria. Isso não é um grande elogio, mas considerando o pedigree estúpido do filme, é melhor que nada”, ponderou mais claramente a revista The Hollywood Reporter. O filme estreia nesta sexta (23/7) nos EUA, mas vai demorar quase um mês para chegar ao Brasil, onde o lançamento está marcado para 19 de agosto.
Raya e o Último Dragão mantém 1º lugar nos EUA
“Raya e o Último Dragão” se manteve em 1º lugar pelo segundo fim de semana consecutivo, faturando US$ 5,5 milhões em 2,1 mil salas. São 100 salas a mais que na semana passada e uma queda de apenas 35% de faturamento em relação à estreia. O desempenho melhor que o esperado reflete a reabertura, em ritmo lento, dos cinemas nos EUA. Mas os valores podiam ser maiores. Além da pandemia, o filme da Disney tem enfrentado boicote de algumas redes de cinema norte-americanas, que se recusam a exibi-lo com preço de lançamento exclusivo, quando também está disponível em streaming. A Warner, que adotou a mesma tática com “Tom & Jerry – O Filme”, 2º lugar nas bilheterias com US$ 4 milhões, aumentou a fatia percentual dos exibidores, mas a Disney não aceitou negociar. Em dez dias, Raya e o Último Dragão” só rendeu US$ 15,8 milhões no mercado interno, menos da metade do que arrecadou no exterior. Somando tudo, a animação tem uma arrecadação global de US$ 52,6 milhões. Além desses valores, entram na conta o aluguel no Disney Plus, o serviço de streaming da empresa, que cobra uma taxa extra de US$ 30 para quem quiser ver o filme online nos EUA. Mas a Disney não revela o quanto isso tem rendido. Os dias de lançamentos simultâneos, porém, podem estar contados. O mercado deve começar a voltar ao normal na próxima semana, após a liberação dos cinemas de Los Angeles, que se juntam aos cinemas recém-abertos de Nova York. Os dois maiores circuitos cinematográficos dos EUA ficaram fechados por praticamente um ano inteiro. Cerca de 50% dos cinemas do país já estão abertos neste fim de semana, de acordo com a Comscore, um grande incremento em relação ao mês passado, quando havia apenas 35% das telas recebiam o público. “O negócio está se recuperando lentamente”, disse Paul Dergarabedian, analista de mídia sênior da Comscore, à revista Variety. “Com a reabertura de grandes cidades como Nova York e Los Angeles, felizmente estamos no limiar do ressurgimento da experiência da tela grande.” Os exibidores agora esperam que a reabertura dos cinemas em Nova York e Los Angeles incentive os estúdios a abandonar os adiamentos consecutivos e os lançamentos simultâneos em streaming. “Viúva Negra” da Disney e “Um Lugar Silencioso – Parte II” da Paramount estão mantendo suas estreias para maio.
Raya e o Último Dragão supera pandemia e boicote com 1º lugar nos EUA
“Raya e o Último Dragão” precisou vencer mais que a pandemia para abrir em 1º lugar nas bilheterias dos cinemas dos EUA e Canadá neste fim de semana. A nova animação da Disney enfrentou boicote de algumas redes de exibição, que se recusaram a colocar o filme em cartaz devido ao que chamaram de intransigência do estúdio ao negociar valores de distribuição. Os cinemas que aceitaram acomodar os planos da Warner de realizar lançamentos simultâneos em streaming, graças a maior compensação financeira, não teriam encontrado a mesma disposição para negociações de parte da Disney, segundo relatos da imprensa americana. Por isso, mesmo exibindo “Mulher-Maravilha 1984”, “Tom & Jerry” e os filmes lançados na HBO Max, a Cinemark e outras redes preferiram ignorar “Raya e o Último Dragão” para passar um recado para a Disney. Por conta dessa má vontade do circuito exibidor, “Raya e o Último Dragão” não chegou a tantas telas quanto poderia, mesmo com a reabertura dos cinemas de Nova York neste fim de semana. Exibido em 2.045 salas, a fantasia animada estreou com US$ 8,6 milhões de bilheteria. Os valores são distantes do desempenho de “Tom & Jerry” na semana passada, que faturou a segunda maior abertura da pandemia, com US$ 14,1 milhões. E vale observar que, enquanto o híbrido animado da Warner foi destruído pela crítica, com apenas 25% de aprovação no Rotten Tomatoes, a princesa guerreira da Disney foi incensada com 95%. A queda de braços, porém, não se limita ao espaço dos cinemas. “Raya e o Último Dragão” foi lançado simultaneamente na plataforma Disney+ (Disney Plus), onde está sendo oferecido com sobrepreço (além do preço da assinatura), numa iniciativa batizada de Premier Access. O valor é US$ 30 para assinantes do Disney+ nos EUA (R$ 69,90 no Brasil, mais a assinatura mensal do serviço!), o que equivale a seis vezes o que o estúdio ganharia em cada ingresso vendido nos cinemas. A Disney já tinha testado esta formato com “Mulan”, mas não o repetiu com “Soul”, lançado sem sobrepreço no Disney+. Diferente de ambos, “Raya e o Último Dragão” é o primeiro lançamento mundial disponibilizado pelo estúdio ao mesmo tempo nos cinemas e em casa – “Mulan” saiu antes da Disney+ se expandir no mercado internacional. Mas de forma elucidativa, os países sem acesso ao Disney+ são os que estão rendendo maior bilheteria para o filme no mercado internacional. Globalmente, “Raya” faturou US$ 26 milhões, com a China e a Rússia fornecendo as maiores bilheterias, respectivamente com US$ 8,4 milhões e US$ 2,8 milhões. O CEO da Disney, Bob Chapek, demonstrou-se muito convencido da força desta opção na semana passada, quando sugeriu que estuda diminuir o período de exclusividade dos cinemas para seus filmes – a chamada janela de distribuição. “O consumidor provavelmente está mais impaciente do que nunca”, disse ele sobre as mudanças no mercado precipitadas pela covid-19, “principalmente porque agora eles tiveram o luxo de passar um ano inteiro recebendo títulos em casa praticamente quando quiseram. Portanto, não tenho certeza se há um retorno”. Ele acrescentou que os espectadores não “terão muita tolerância para esperar por meses que um título saia dos cinemas”, enquanto “apenas fica lá [nos cinemas], juntando poeira”, antes de migrar para o streaming ou outras janelas. Por isso, a Disney não quis negociar valores maiores para as distribuidoras. Enquanto isso, a Warner, que também está fazendo lançamentos simultâneos em streaming, mas dando compensações aos exibidores, comemorou o segundo fim de semana de “Tom & Jerry”, que arrecadou quase tanto quanto “Raya” no mercado interno, US$ 6,6 milhões, elevando sua receita para US$ 23 milhões em dez dias na América do Norte, apesar de também estar disponível na HBO Max. No mundo inteiro, “Tom & Jerry” já faturou US$ 57,3 milhões, um bom desempenho para um mercado que sofre com os lockdowns da pandemia. Alheio a essa disputa, a Lionsgate deve estar lamentando não ter seu próprio streaming, ao ver “Mundo em Caos” ser destruído pela crítica (23% de aprovação) e pouco apreciado pelo público. A sci-fi estrelada por Tom Holland e Daisy Ridley arrecadou anêmicos US$ 3,8 milhões para ocupar o 3º lugar. O filme, que custou cerca de US$ 100 milhões, vai se tornar um grande prejuízo para o estúdio.
Tom & Jerry supera críticas negativas com segunda maior estreia da pandemia nos EUA
O lançamento de “Tom & Jerry – O Filme” conquistou a segunda maior bilheteria de estreia da América do Norte desde que os cinemas reabriram, durante a pandemia, em agosto passado. O filme faturou US$ 14,1 milhões em 2,4 mil cinemas, perdendo apenas para outro título da Warner Bros., “Mulher Maravilha 1984”, que arrecadou US$ 16,4 milhões durante o Natal. O detalhe é que ambos os filmes foram lançados simultaneamente em streaming, na plataforma HBO Max. O sucesso dos filmes da Warner contraria previsões pessimistas sobre seu desempenho cinematográfico com a disponibilização online. Nenhum outro filme lançado nos últimos 10 meses foi capaz de ultrapassar a marca de US$ 10 milhões em sua estreia no mercado doméstico, incluindo os sucessos “Os Croods 2: Uma Nova Era” (US$ 9,7 milhões) e “Tenet” (US$ 9,35 milhões). No exterior, onde “Tom & Jerry” foi exibido apenas nos cinemas, o filme fez mais US$ 25,1 milhões, somando ao todo US$ 38,8 milhões. Um bom começo para uma produção de Hollywood durante a pandemia, apesar do orçamento salgado de US$ 79 milhões. Contrastando com os números positivos, a reação da crítica ao filme foi completamente negativa. O híbrido de animação e live-action, dirigido pelo veterano Tim Story (“Quarteto Fantástico”), recebeu apenas 25% de aprovação na média do Rotten Tomatoes. “Desesperadamente sem graça”, definiu o crítico do Vulture/New York Magazine. O 2ª lugar nas bilheterias norte-americanas ficou com “Os Croods 2: Uma Nova Era”, que fez US$ 1,2 milhões após impressionantes dois meses em cartaz – e apesar de também estar disponível online. O desempenho desses dois filmes sugere que as produções voltadas ao público infantil são as únicas capazes de atrair grande volume de espectadores aos cinemas durante a atual crise sanitária. Outro detalhe interessante no relatório divulgado pela Warner à imprensa é que as vendas de ingressos de “Tom and Jerry” foram impulsionadas pelo aluguel de cinemas particulares, que foram fechados para receber poucas famílias por vez. E as famílias, ao contrário da crítica, aprovaram o filme, dando nota A- no CinemaScore (pesquisa feita com o público na saída dos cinemas).
Amor Estranho Amor: Exibição na TV foi presente para cinéfilos
Na época que se dispôs a fazer “Amor Estranho Amor”, Xuxa não sabia que se tornaria apresentadora de programa infantil. Ela era namorada do Pelé, que por sua vez era amigo do produtor Aníbal Massaini Neto, e, como Walter Hugo Khouri era um cineasta que valorizava muito as atrizes que eram elevadas a um posto de sucesso sempre que apareciam em seus filmes, a chance de trabalhar com o cineasta parecia uma oportunidade de ouro. Mesmo sendo um filme que deu uma dor de cabeça para a futura apresentadora, que pagou US$ 60 mil anuais à Cinearte Produções, durante os anos de 1991 a 2018, para sua interdição, não dá para negar que trata-se da obra cinematográfica mais importante e bonita que ela já fez. Mas na filmografia de Khouri, o filme era considerado uma obra menor. Equipará-lo a outras obras do diretor é uma tarefa ingrata, pois estamos falando de alguém que fez grandes filmes através de cinco décadas. Entretanto, “Amor Estranho Amor” cresce na revisão permitida pelo resgate histórico no Canal Brasil, como uma obra-solo, por mais que seja difícil não fazer referência a outros tantos títulos do realizador, especialmente os que apresentam o alter-ego Marcelo. Aqui o nome do protagonista não é Marcelo; é Hugo, representado pelo menino Marcelo Ribeiro e pelo idoso Walter Forster, que comparece como uma espécie de fantasma vindo do futuro para relembrar o seu breve período numa mansão que funcionava como um prostíbulo de luxo, onde sua mãe trabalhava e morava. A mãe, vivida por Vera Fischer, chama-se Ana, nome frequentemente usado por Khouri em seus filmes estrelados pelo mulherengo Marcelo. Vera Fischer aparece com uma beleza tão extraordinária neste filme que parece saída de alguma pintura clássica. Não à toa, a cena em que ela se relaciona intimamente com o filho é explicitamente inspirada na Pietà de Michelangelo. O modo como Khouri vê os corpos femininos tem essa relação da apreciação artística. Embora o desejo esteja também presente, o sentido de busca da beleza clássica comparece de maneira forte. E há os close-ups dos olhares, todos poderosos. Principalmente quando vemos Ana, mas também o personagem de Tarcísio Meira, que interpreta um rico político paulista que exige exclusividade de Ana naquele bordel, e tem a intenção de ajudar a liderar a oposição a Getúlio Vargas momentos antes de o presidente instituir o Estado Novo. Uma das coisas que mais chama atenção no filme é seu início, quando o menino Hugo chega no prostíbulo sem saber que ambiente era aquele. Sua intenção é encontrar a mãe, que fica numa situação complicada. Afinal, como explicar a presença de uma criança em um lugar destinado a adultos? E enquanto o garoto espera e é também olhado e assediado pelas outras jovens mulheres do bordel, ouvimos canções clássicas do cancioneiro brasileiro na voz de cantores como Francisco Alves e Orlando Silva. Inclusive, no final do filme, ainda ouvimos mais uma linda do Francisco Alves, chamada “Misterioso Amor”, que brinca com o título do filme e sua temática edipiana. Ainda que vejamos em outros filmes do realizador personagens que atravessam a infância e a adolescência tendo que lidar com o desejo, como em “Eros – O Deus do Amor” (1981) e “As Feras” (1995), em nenhum outro filme de Khouri o complexo de Édipo é tão bem explorado quanto em “Amor Estranho Amor”. Quando o garoto vai para seu quarto e sabe que a mãe está transado com um homem, ele chora copiosamente. O filme ganha uma dimensão onírica quando o desejo inconsciente (ou talvez nem tão inconsciente assim naquele momento) se materializa na cena entre mãe e filho. Eis um filme que oferece pano para manga para uma série de estudos e discussões, que vão muito além da polêmica pobre que se instalou em torno dele nesses anos todos. Além do mais, junto à direção cheia de classe do realizador, há ainda a música sempre brilhante de Rogério Duprat, a Traditional Jazz Band (a banda tem cenas numa festa), a direção de fotografia do mestre Antonio Meliande, um elenco de apoio de primeira linha – Mauro Mendonça e Otávio Augusto, as jovens Vanessa Alves, Sandra Graffi e principalmente Matilde Mastrangi, rainha do cinema erótico brasileiro, que comparece em uma cena pra lá de inspirada. Por tudo isso, a exibição do filme no Canal Brasil com um upgrade na imagem e no som na última quinta-feira (11/2) foi um presente para os cinéfilos e para os apreciadores da obra do diretor.
Boca de Ouro é a versão mais violenta de Nelson Rodrigues
Um filme como “Boca de Ouro”, com um elenco estelar, tempos atrás teria ótimas chances de conseguir uma boa bilheteria. Mas está passando em cinemas vazios. Tempos estranhos estes de pandemia. Há vários motivos para ver o filme. Para começar, o texto de Nelson Rodrigues, que é um autor que costuma garantir o sucesso de suas adaptações. Há também a volta de Daniel Filho na direção, depois de um hiato longo – desde a comédia “Sorria, Você Está Sendo Filmado”, de 2014. E há um elenco muito atraente, que traz outra volta, Malu Mader, e destaca nomes como Marcos Palmeira no papel-título, Guilherme Fontes, Fernanda Vasconcellos, Anselmo Vasconcelos, além do próprio Daniel Filho. Apesar disso, o grande atrativo acaba sendo a revelação da jovem Lorena Comparato, no papel de Celeste, a mulher casada que cai nas graças do gângster de dentes de ouro. Outro ator jovem, mais conhecido pelas telenovelas, Thiago Rodrigues, faz o papel de seu marido, Leleco, personagem que, na adaptação de Nelson Pereira dos Santos, exibida em 1963, tinha sido interpretado pelo próprio Daniel Filho. A estrutura, por sinal, é igual à do filme de Nelson Pereira dos Santos, uma espécie de “Rashomon” (1950), com a personagem de Malu Mader contando três histórias diferentes, ao mesmo tempo contraditórias e complementares sobre o temido Boca de Ouro, bicheiro que acabou de ser encontrado morto. A dupla de repórteres que entra na casa de Guigui (Mader) para colher depoimentos, acaba por ouvir essas histórias, mudadas de acordo com o humor ou a vontade da narradora. As narrativas se equilibram em momentos muito bons e outros menos interessantes, mas todas elas são atraentes e poderosas no uso da violência rodrigueana e que agora pode ser vista de maneira mais explícita. Daniel Filho segue um caminho de sangue e nudez, que já era trilhado pelos melhores especialistas em adaptações de Nelson Rodrigues, como Neville D’Almeida e Braz Chediak. Mas em “Boca de Ouro” ela é mais gráfica, derivada do cinema de horror, e mais bonita plasticamente. É uma violência que vai além do visual, já que Boca de Ouro é um personagem extremamente perturbador, seja quando procura estuprar uma mulher e matar seu marido, quando faz concurso de seios mais bonitos e quando planeja a execução de uma mulher em sua casa. Assim, há espaço para fazer bombear fortemente o coração do espectador diversas vezes, com os atos cruéis desse fascinante personagem da literatura brasileira.
Tenet irrita com explicações, mas fascina com ação
A decisão da Warner de lançar “Tenet” nos cinemas mesmo com os índices de contaminação ainda altos e com o público temeroso de pisar em uma sala de exibição foi arriscada. Com isso, o filme do diretor Christopher Nolan tornou-se o único “blockbuster” do semestre, já que houve uma rejeição a “Os Novos Mutantes” – um filme bem simpático e que mereceria um pouco mais de consideração. Começar o texto falando de loucura de lançar “Tenet” em plena pandemia contrasta com o fato de Nolan ser reconhecido como um diretor cerebral. Em seus filmes, quem fica com os neurônios pegando fogo é o público. E se as pessoas acharam “A Origem” (2010) e “Interestelar” (2014) complicados, “Tenet” eleva essa complexidade a uma outra escala. Quando se acha que está começando a entender a trama, Nolan apresenta novas cenas para deixar o espectador perdido novamente. Mas é preciso respeitar um cineasta que é capaz de fazer um filme caro como este, de difícil compreensão, sem um protagonista do nível de Leonardo DiCaprio (“A Origem”) ou Matthew McConnaughey (“Insterestelar”), e seu estúdio apostar que isso atrairia um número considerável de espectadores em plena pandemia. “Tenet” é um filme que faz o público variar sua reação ao longo da projeção. Dá para se irritar com as explicações sobre as balas reversas, depois achar fascinante a história de um mundo reverso e ficar bastante impressionado com as cenas de ação, e em especial com o som, com a qualidade de som do filme, que numa sala IMAX é estrondoso. A trilha sonora, a cargo do sueco Ludwig Göransson, lembra algumas bandas de rock industrial, como o Ministry. É possível embarcar na proposta de Nolan: um diretor com uma fascinação absoluta pelo tempo, e que vem brincando com isso de maneira cerebral ao longo de toda sua filmografia, talvez desde a sua obra de estreia. Lembremos que em Nolan até o sonho é racionalizado, vide “A Origem”. Até porque, com “Tenet”, ele reforça sua posição como um dos cineastas mais determinados a realizar ficção científica da maneira mais séria possível. Ou seja, trazendo conceitos científicos reais, de física e química, para a construção de uma trama complexa. O problema (ou seria a solução?) é que ele não quis fazer um filme de ficção científica, mas uma espécie de thriller de espionagem à moda de James Bond, com o mérito de trazer um protagonista negro e cheio de carisma. John David Washington foi uma grande aposta, já que seu papel de maior destaque até então tinha sido “Infiltrado na Klan”, de Spike Lee, um filme mais direcionado ao circuito alternativo. Aqui ele incorpora um James Bond meio perdido, mas que nunca abandona a elegância. Sempre com um terno chique, mesmo quando está às voltas com lutas braçais com criaturas vindo do futuro. O fato de o protagonista (ele não tem nome no filme) estar tão perdido quanto o espectador não deixa de ser um alento. Aliás, é curioso que, na época da divulgação do filme, contou-se que nem o elenco entendeu a história de “Tenet”. Então, quando vemos os personagens dialogando sobre conceitos complicados de uma maneira até um tanto robótica, a impressão é que Nolan realmente não se importou muito com a preparação dos atores, mais interessado na mise-en-scène, como Alfred Hitchcock tempos atrás. As cenas que mais se aproximam de uma sensação dramática ou minimamente sentimental vem da personagem de Elizabeth Debicki, que interpreta a esposa do personagem de Kenneth Branagh, um homem que tem em suas mãos o destino do universo. Uma das sequências mais empolgantes do filme, inclusive, acontece quando os dois coadjuvantes estão em um barco. Por outro lado, as cenas de ação mais ambiciosas, como as perseguições rodoviárias, parecem um pouco engessadas. Mas ainda assim funcionam como um alívio para o cérebro nas duas horas e meia de duração que, acredite se quiser, passam voando.
Os Novos Mutantes é bem melhor que os últimos filmes dos X-Men
Um filme que já nasceu como um cachorro morto para o povo chutar. Ou para as pessoas não verem. A própria distribuidora o lançou no meio da pandemia, quando ninguém quer ir ao cinema. E chovem críticas negativas (34% de aprovação no site Rotten Tomatoes). Mas “Os Novos Mutantes” é envolvente. É bom que exista e finalmente tenha sido lançado, após tanto tempo na geladeira, por mais que tenha sido mais arremessado do que exatamente lançado. É como se a Disney, mesmo tendo comprado a Fox, tratasse o material como obra de concorrente, que não deveria existir. O filme de Josh Boone, diretor dos bons dramas de relacionamentos “Ligados pelo Amor” (2012) e “A Culpa é das Estrelas” (2014), é sem dúvida superior aos dois filmes anteriores dos “X-Men” – os horríveis “X-Men: Apocalipse” (2016) e “X-Men: Fênix Negra” (2019). É também uma produção mais barata e humilde, sem a megalomania dos outros filmes dos mutantes. E com um diferencial muito atraente: o tom de filme de horror, que oferece uma experiência diferente ao subgênero de filmes de super-heróis. Junte-se a isso as angústias dos adolescentes em lidar com seus poderes, que podem servir de metáfora para as explosões hormonais que surgem neste estágio da vida humana. Há um romance gay muito bonito entre duas personagens, inclusive, o que conta ainda mais pontos a favor do filme. Assim, nota-se que a escolha de Boone para a direção do filme teve mais a ver com seu sucesso popular com o melodrama teen “A Culpa é das Estrelas” do que com sua intimidade com filmes de ação ou horror. Na verdade, ele não tinha nenhuma. E isso infelizmente depõe contra o filme quando ele se aproxima de seu clímax e as cenas de ação carecem de um cuidado maior. É quando “Os Novos Mutantes” cai bastante. Os efeitos especiais do urso gigante também são outro problema. Mas há outros tantos aspectos positivos, como a presença brilhante de Anya Taylor-Joy (“A Bruxa”) como a provocadora e badass Ilyana Raspuntin. A atriz ficou muito bem, trazendo expressividade e charme para a personagem. Ilyana tem o poder de se teleportar para um limbo, tem uma espada mágica gigante e um dragãozinho demoníaco como companheiro. Todos os demais atores e atrizes acabam ficando eclipsados pela presença de Taylor-Joy (atualmente arrancando aplausos na minissérie “O Gâmbito da Rainha”). Mas isso não quer dizer que a química não funcione. Rahne Sinclair (Maisie Williams, de “Game of Thrones”), a menina que se transforma em lobo; Danielle “Dani” Moonstar (Blu Hunt, de “The Originals”), com poderes a ser descobertos; Sam Guthrie (Charlie Heaton, de “Stranger Things”), uma espécie de míssil humano descontrolado; e Roberto da Costa (Henry Zaga, ator brasileiro de “13 Reasons Why”), cujo corpo arde como um vulcão; todos estão bem. Aliás, o elenco tem dois intérpretes brasileiros: além de Zaga, Alice Braga (“A Rainha do Sul”) aparece no papel da médica responsável pelos novos mutantes na instalação que os aprisiona. Quem leu as histórias clássicas do grupo, com roteiro de Chris Claremont e arte de Bill Sienkiewicz e Bob McLeod, provavelmente terá ainda mais prazer vendo o filme. É uma pena que os personagens não passarão desse único longa. Assim sendo, a abertura para o futuro na vida daqueles jovens em processo de autodescoberta ao final da narrativa traz um gostinho amargo de interrupção. Caso de obra que definitivamente teve má sorte em seu processo de produção, pós-produção e lançamento.











