Estreias: Kung Fu Panda 3 chega em mais de mil salas em semana com dez lançamentos
Maior estreia da semana, “Kung Fu Panda 3” chega em mais de mil salas de cinema (654 em 3D) após quebrar recorde de bilheteria na China, num circuito 47% maior que o do longa anterior, que estreou em 714 salas em 2011. A aposta, por sinal, mais que dobra em relação à estreia da franquia em 2008, quando o primeiro “Kung Fu Panda” foi lançado em 417 salas. A esta altura, os personagens são bem conhecidos, o que supõe maior interesse. Mas o filme é para crianças e chega tarde, um mês após o lançamento original nos EUA, numa “estratégia” que lhe custa o benefício do período das férias escolares. Embora os golpes do kung fu animado conquistem um terço de todos os cinemas do país, duas comédias que já fracassaram nos EUA tentam recuperar o investimento nos shoppings brasileiros, com distribuição maior que suas “qualidades”. Lançada em quase 300 salas, “Cinquenta Tons de Preto” exibe uma paródia de “Cinquenta Tons de Cinza”, realizada pelos responsáveis por “Inatividade Paranormal”, enquanto “Zoolander 2” ocupa metade desse espaço com a continuação de uma comédia antiga (2001) de Ben Stiller sobre o universo da moda. O primeiro ridiculariza o que já é ridículo, o segundo tenta bater o recorde de aparições de celebridades, e ambos entregam esquetes em vez de histórias. O drama “Um Homem entre Gigantes” também falhou em empolgar público e crítica americanos. Cinebiografia do médico imigrante que enfrentou a liga de futebol americano para denunciar as condições de saúde dos atletas deste esporte violento, tem como destaque a boa interpretação de Will Smith, que chegou a acreditar na possibilidade de uma indicação ao Oscar. Ela não veio porque o resto – roteiro, direção, etc – não acompanhou seu desempenho. Lançado há seis semanas e já quase fora de cartaz nos EUA, o filme deu prejuízo, o que leva o estúdio a buscar o mercado internacional. Infelizmente, com expectativas acima das possibilidades: 74 salas é muita ambição para um filme sobre um esporte não olímpico e pouco apreciado no Brasil. Ironicamente, o melhor “filme americano” da semana é um terror. Gênero subestimado, de vez em quando revela boas surpresas como esta “A Bruxa”, que rendeu ao estreante Robert Eggers o prêmio de Melhor Direção no Festival de Sundance 2015, além de revelar a atriz Anya Taylor-Joy, que deve aparecer em mais quatro filmes nos próximos 10 meses. Fãs de terror convencional podem ter dificuldades com sua abordagem, que explora a atmosfera, a locação e a presença assustadora de um bode, misturando sangue e delírio de forma perturbadora. A trama se passa numa fazenda isolada e distante do século 17, onde vive um casal temente a Deus e seus cinco filhos, até que o desaparecimento de um bebê recém-nascido gera suspeitas da existência de uma bruxa nas redondezas. Um detalhe interessante é que se trata de um coprodução brasileira, com participação da RT Features, do produtor Rodrigo Teixeira, o que justifica seu lançamento pouco “indie”, em 97 salas. Mais uma curiosidade nacional é oferecida ao público em “Meu Amigo Hindu”. A volta de Hector Babenco, após nove anos sem filmar, é estrelada por um americano, Willem Dafoe, e foi originalmente filmada em inglês. Mas o elenco de apoio e as locações são de novela brasileira. O que leva a uma ironia peculiar: o filme ganhou dublagem nacional para chegar a 44 cinemas. A trama evoca um drama particular do diretor, usando Dafoe como seu alter ego, e resulta num longo filme de doença. Escolhido para abrir a Mostra de São Paulo do ano passado, agradou apenas aos críticos mais velhos, que tendem a ser reverentes. O maior lançamento brasileiro, porém, é outro. Uma comédia, é claro. E, como de praxe, com o subtítulo “O Filme”. Trata-se de “Apaixonados – O Filme”, que, apesar de se passar no carnaval, também é hollywoodiana, seguindo a fórmula da comédia romântica como conto de fadas. A direção é de Paulo Fontenelle, que chega ao terceiro longa sem demonstrar muita evolução – continua confundindo atores da rede Globo com talentos e roteiros televisivos com cinema. Pelo tempero nacional, “Apaixonados” sai-se melhor que os péssimos “Se Puder… Dirija” (2013) e “Divã a 2” (2015), mas compartilha com eles a previsibilidade de sua história. Em 124 salas. Como costuma acontecer em toda semana, o circuito limitado destaca um lançamento francês. Desta vez, um drama romântico de características surreais, “Fique Comigo”, que traz a atriz Isabelle Huppert (“Amor”) numa de suas histórias paralelas. Estreia em 11 salas em apenas quatro cidades. A programação se completa com dois filmes japoneses lançados de forma restrita. “Black Butler – O Mordomo de Preto”, que chega em apenas três salas no Rio, é adaptação de um mangá sobre um mordomo do inferno, que serve a um mestre em troca de sua alma. No filme, o mestre é uma mestra, o que gera subtexto de dominação sadomasoquista. O visual neogótico completa o pré-requisito cult, mas a trama é boba – uma história de vingança – e filmada de forma exagerada, como se fosse uma animação – o anime derivado dos quadrinhos, por sinal, é mais conhecido pelo título “O Mordomo Sombrio”. Por fim, “Nossa Irmã Mais Nova” é a obra mais recente de Hirokazu Koreeda, um dos maiores mestres dedicados a dramas sobre crianças no cinema contemporâneo – diretor dos sensíveis “Ninguém Pode Saber” (2004), “Andando” (2008) e “Pais e Filhos” (2014). O longa acompanha três irmãs que descobrem, no funeral do pai que as abandonou pequenas, que têm uma quarta irmã mais nova e, num ato impulsivo, a convidam a viver com elas. A chegada da quarta irmã perturba o ambiente da família materna, mas, como a mãe das jovens também as abandonou quando eram adolescentes, elas se sentem acima das críticas. Terno, tocante e encantador, “Nossa Irmã Mais Nova” é um filme que faz bem. Infelizmente, fará bem a poucos, lançado em apenas duas salas em São Paulo. Estreias de cinema nos shoppings Estreias em circuito limitado
Roteiristas de Terremoto escreverão versão com atores de Astro Boy
Os roteiristas Andre Fabrizio e Jeremy Passmore (“Terremoto: A Falha de San Andreas”) foram contratados para desenvolver a versão live action do anime “Astro Boy”, informou o site The Hollywood Reporter. “Astro Boy” foi criado pelo lendário artista Osamu Tezuka (1928-1989) num mangá de 1952, que por sua vez foi adaptado como anime em 1963 e se tornou o primeiro grande sucesso internacional da animação japonesa. O impacto foi tanto que, desde então, todos os desenhos japoneses adoram suas características, inaugurando a moda de exagerar no tamanho dos olhos dos personagens. A estética clássica dos animes começou com “Astro Boy”. A trama se passava num mundo futurístico, onde androides conviviam com seres humanos, e acompanhava o personagem-título, um poderoso robô criado pelo chefe do Ministério da Ciência para substituir seu filho falecido. Esta premissa foi mantida nos dois remakes que a série já ganhou, em 1980 e 2003. Recentemente, o personagem estrelou um longa de animação. Dublado por Freddie Highmore (série “Bates Motel”) e lançado em 2009, o filme se provou um grande fracasso de bilheteria e faliu a empresa Imagi Animation Studios, sediada em Hong Kong. O filme ainda não tem diretor definido.
Netflix vai exibir remake do anime Voltron e primeira série animada de Guillermo del Toro
A Netflix e a DreamWorks Animation anunciaram a produção de duas novas séries animadas, “Voltron” e “Trollhunters”. Enquanto a primeira é uma reimaginação do anime clássico “Voltron: O Defensor do Universo”, “Trollhunters” é uma criação inédita do cineasta Guillermo del Toro (“A Colina Escarlate”). A série de “Voltron” acompanha uma equipe de exploradores do espaço que pilota um robô gigante conhecido como Voltron. A história da produção original, sucesso dos anos 1980, é das mais bizarras. Os produtores americanos adquiriram os direitos de dois desenhos animados japoneses em 1984 e, além de decidirem emendar as duas séries, cortaram as cenas de violência e ainda inventaram todos os diálogos na tradução. Virou cult. Por sua vez, “Trollhunters” vai acompanhar a jornada de dois amigos que descobrem um surpreendente mundo mágico, povoado por trolls, debaixo de sua cidade natal. Não, os trolls não moram em caixas. Este é outro desenho. Outras séries serão desenvolvidas no âmbito da parceria, que pretende explorar novas produções baseadas nos filmes animados do estúdio, como o “Gato de Botas” e mais um desenho derivado de “Como Treinar o Seu Dragão”, entre outros. Ainda não há data para a estreia das novas atrações.
Veja o teaser da nova série animada derivada de Naruto
Apesar do final do mangá, o universo de “Naruto” está longe de acabar. Uma das novas produções derivadas dos quadrinhos e desenhos animados clássicos será centrada no coadjuvante Itachi. Com o título “simplesinho” de “Naruto Shippuden: The True Legend of Itachi: Volume Light and Darkness”, a nova série animada teve seu primeiro teaser revelado. Ele foi gravado por celular numa convenção de quadrinhos em Tóquio, Jump Festa, que exibiu a novidade pela primeira vez. O pôster da atração também surgiu no evento. O teaser segue a fórmula oriental de revelar muito pouco da trama e do anime em si, mas a série será baseada em “The True Legend of Itachi”, uma graphic novel em dois volumes, derivada do mangá original, que conta a história do irmão mais velho de Sasuke. O lançamento é aguardado apenas para o fim de 2016 no Japão.
As Memórias de Marnie emociona com sensibilidade sobrenatural
Não fosse a marca forte e de qualidade dos estúdios Ghibli, “As Memórias de Marnie” talvez não tivesse a boa recepção internacional que merecidamente teve. Afinal, não é assinado por Hayao Miyazaki e Isao Takahata, os dois nomes mais conhecidos do estúdio. Mas o filme de Hiromasa Yonebayashi é um primor em sua história sobre solidão, amizade e relações familiares, aliado a um crescente e instigante clima de mistério. O contexto é muito comum à cultura japonesa, que lida com o próximo de uma maneira mais distanciada, enquanto, paradoxalmente, imagina os espíritos com formas físicas, como comprovam obras referenciais do J-horror, como “Contos da Lua Vaga” (1953), de Kenji Mizoguchi, e “Kwaidan – As Quatro Faces do Medo” (1964), de Masaki Kobayashi. Não que “As Memórias de Marnie” se enquadre exatamente nessa categoria, embora a tangencie (os momentos que aproximam a animação de um horror gótico lembram, inclusive, certas produções do gênero da velha Hollywood). A animação deixa claro, desde o início, que há algo de estranho na garotinha loira que mora em uma mansão abandonada. O lugar só pode ser acessado quando a maré está baixa ou via barco. E essa dificuldade cria um objeto de fascinação para a solitária Anna. Quando ela visita a mansão pela primeira vez, logo percebe que o lugar está abandonado. Mas vê que as luzes estão acesas. E finalmente tem a primeira visão e contato com a nova amiga. Há nuances nesse relacionamento que permitem imaginar que a atração entre as duas é mais que amizade, uma espécie de amor romântico, graças a detalhes como a forma como tocam suas mãos num barco, o momento em que Anna a convida para sua casa e a cena da dança na festa patrocinada pelos pais aristocratas de Marnie. O que as torna íntimas é a solidão que ambas sentem. As duas são órfãs e, por meio de suas conversas e flashbacks, os encontros viram confidências, aproximando-as também do espectador. Embora ameace cair no melodrama, “As Memórias de Marnie” se contém, evitando a manipulação ao atingir seu pico emocional, lá pelo finalzinho, quando o filme revela seu verdadeiro tema, a autodescoberta. E quando também, junto com Anna, o espectador finalmente descobre quem de fato é Marnie. Belo e sensível, “As Memórias de Marnie” foi indicado ao Oscar 2016 na categoria de Melhor Animação.
Sam Riley negocia viver o vilão da adaptação do mangá Ghost in the Shell
A adaptação do mangá “Ghost in the Shell” entrou em fase final de pré-produção, definindo os intérpretes de alguns personagens chaves. Segundo o site Deadline, o ator britânico Sam Riley (“Na Estrada”) está em negociações adiantadas para interpretar o líder terrorista da trama, com Michael Pitt (série “Boardwalk Empire”) também sendo considerado. O papel seria o do vilão conhecido como The Laughing Man (o homem que ri). O detalhe é que ele não aparece no mangá original nem no anime clássico de 1995, mas na série televisiva “Ghost in the Shell: Stand Alone Complex”. Isso indica que o roteiro deve aproveitar várias fontes da mitologia da franquia. “Ghost in the Shell” foi criado como mangá em 1989 por Masamune Shirow (criador também de “Appleseed”), um dos maiores mestres dos quadrinhos japoneses, e deu origem a uma franquia animada, composta por três longas, quatro OVAs (filmes lançados diretamente em vídeo) e duas séries de televisão. Trata-se de um thriller futurista, passado em 2029, que acompanha a major Mokoto Kusanagi, a cyborg comandante de uma unidade de combate ao terrorismo cibernético, em luta contra uma conspiração de hackers, cujo objetivo é levar anarquia às ruas de uma megacidade japonesa. Considerado um marco da literatura cyberpunk, o mangá de Shirow se tornou tão influente quanto o celebrado “Akira”, de Katsuhiro Otomo. Caso a negociação seja bem-sucedida, Riley ou Pitt se juntarão a Scarlett Johansson (“Os Vingadores”), que viverá a protagonista da trama, e ao dinamarquês Pilou Asbæk (série “Os Borgias”), intérprete de seu segundo-em-comando Batou. O nome da personagem de Johansson pode ser alterado, uma vez que a atriz não tem traços japoneses. A direção está a cargo de Rupert Sanders (“Branca de Neve e o Caçador”) e a produção terá supervisão de Steven Spielberg (“Lincoln”), dono do estúdio DreamWorks, que é fã assumido do material original. A primeira versão da adaptação americana foi escrita por Laeta Kalogridis (“Ilha do Medo”) há cinco anos. Mas a Dreamworks não pretende aproveitar esse roteiro, trabalhando com uma nova história de Jonathan Herman (“Straight Outt Compton”) e Jamie Moss (“Os Reis da Rua”). O filme tem data de estreia marcada para abril de 2017 e já possui título nacional: “O Fantasma do Futuro”, mantendo a “tradução” infeliz usada no lançamento do DVD do anime original no Brasil.
As Memórias de Marnie trata da adolescência com encanto e magia
Provável último filme do estúdio Ghibli – que legou ao cinema obras-primas como “Meu Amigo Totoro” (1988), “A Viagem de Chihiro” (2001) e o recente “A Lenda da Princesa Kaguya” (2013) – , “As Memórias de Marnie” é um trabalho de uma sensibilidade e delicadeza ímpares. E mesmo que não chegue a ser tão perfeito como os citados acima, é um filme maravilhoso e emocionante – o que nos força a cair novamente no clichê já comum às obras do Ghibli: um verdadeiro poema em movimento. O filme conta a história da garota Anna, filha de pais adotivos, introvertida e solitária, que é enviada, por conta de problemas de saúde, para passar alguns dias na casa dos tios, no interior, que fica próxima a um lago. A rotina e um certo marasmo destes dias logo são quebrados quando a garota conhece Marnie, uma garota de cabelos loiros que parece ser a única habitante da mansão abandonada que fica do outro lado do lago. O filme não faz questão de disfarçar ou enganar o espectador, investindo no tom de magia desde o início. Assim, fica logo claro que Marnie não é uma garota comum. A relação entre as duas cresce com o tempo, com Anna encontrando em Marnie a amizade verdadeira que tanto procurava. Marnie, por sua vez, vê em Anna a possibilidade de (re)viver com alegria momentos que pareciam para sempre desaparecidos. Dirigido por Yomasa Yonebaiashi (“O Mundo dos Pequeninos”), Marnie tem uma traço mais tradicional – longe da ousadia estética de “Kaguya”, por exemplo – , mas compensa isso com uma animação fluída e natural, além de uma paleta de cores absurdamente linda, capaz de transformar cada quadro em um verdadeira pintura. Some-se a isso uma trilha sonora perfeita e o resultado não é menos que fascinante. O filme é baseado no livro homônimo da escritora inglesa Joan G. Robinson, e traça um primoroso registro de diversas questões da adolescência, como a falta de habilidade em lidar com os sentimentos, a necessidade de pertencimento e o desejo quase insuportável de se sentir feliz e amada. Com Marnie, Anna aprende a lidar com seus sentimentos e a enfrentar suas dúvidas e frustrações, principalmente relativas à família que nunca conheceu – um arco que será devidamente trabalhado ao longo do filme. E mesmo quando dá uma derrapada em seu terço final, tornando-se quase redundante em suas revelações – outrora apresentadas de forma bem mais sutil e inteligente – é impossível não se emocionar ao extremo das lágrimas com os desdobramentos da relação entre Marnie e Anna, almas gêmeas que compartilham algo muito maior do que uma simples amizade. Se este for o canto do cisne dos Estúdios Ghibli, que sucumbiu diante de um mercado cada vez mais comercial, que assim o seja: uma despedida leve, despretensiosa, mas tão repleta de magia e emoção quanto se poderia desejar.






