Shazam! é o filme mais divertido da DC Comics
É interessante notar a guinada que a Warner deu nas adaptações de quadrinhos da DC Comics para chegar em “Shazam!”, seu filme mais divertido. O estúdio sempre teve tradição de fazer produções sombrias, desde seus filmes de gângster nos anos 1930 até a versão “Cavaleiro das Trevas” do Batman de Christopher Nolan. Por isso, suas tentativas de adaptar quadrinhos de forma cômica, como os Batmans de Joel Schumacher e o filme “Lanterna Verde” (2011), jamais convenceram público e crítica. Isto até Zack Snyder ultrapassar limites, ao acabar totalmente com o humor em seus filmes com Superman. O tom soturno de “O Homem de Aço” (2013) e “Batman vs. Superman” (2016) marcou um grande contraste com a vibração alegre das produções da Marvel. E essa diferença também se manifestou nas comparações de crítica e bilheterias. O que levou a Warner a puxar o freio e testar uma nova abordagem. Primeiro, conferindo maior leveza a “Mulher-Maravilha” (2017), ainda que de forma suave. Depois, intervindo em “Liga da Justiça” (2017) para incluir piadas, o que saiu pela culatra. Mas ao lançar “Aquaman” (2018), considerado um super-herói de segundo escalão, atingiu recorde de bilheteria com uma aventura sem compromisso de seriedade. Essa guinada, ironicamente comandada por diretores de terror e suspenses sombrios, atinge seu auge com “Shazam!”, de David F. Sandberg (“Annabelle 2: A Criação do Mal”). Comédia assumida, o filme tem uma leveza muito bem-vinda para contar a história de um garoto que, após um encontro quase casual com um mago, ganha a capacidade de se transformar num adulto superpoderoso. A semelhança com “Quero Ser Grande” (1988) é evidente, mas a verdade é que essa premissa tem 50 anos a mais que o filme estrelado por Tom Hanks, já que faz parte da história original do Capitão Marvel, nome do personagem criado em 1939, antes de duas brigas por direitos autorais forçarem sua transformação de herói mais popular do mundo em Shazam!, um coadjuvante da DC Comics – a primeira disputa levou o personagem da Fawcett para a DC e a segunda proibiu a nova editora de manter seu nome, registrado pela Marvel. Tanto que, no filme, o herói não tem um codinome e ainda brinca muito com isso. “Shazam!” começa apresentando o arqui-inimigo do herói, na figura de um bem jovem Dr. Thadeus Silvana, quando ele tem o seu primeiro contato com o Mago Shazam (Djimon Hounsou) e é rejeitado por não ser considerado digno – ele é tentado pelos demônios dos sete pecados capitais. Só muitos anos depois, com o desespero do envelhecido e enfraquecido mago, que o adolescente Billy Batson assume, não exatamente com vontade, a figura e os poderes de Shazam, que representam as virtudes de figuras mitológicas como Salomão, Hércules, Aquiles, Zeus etc. O bom humor do filme é contagiante. Sabe brincar com os estereótipos das falas de vilões e também do Mago. Direção de arte e figurinos também imprimem um tom colorido, que serve não apenas para destacar o uniforme do herói, mas também para dar ao lançamento um ar de produção infantil, por mais que os atos do supervilão possam parecer bem violentos. O filme ainda tem o mérito de, em meio à comédia, lidar com questões mais profundas, como o sentimento de abandono dos órfãos, como é o caso de Billy Batson (Asher Angel), o menino que vira Shazam, e de seu irmão nerd e deficiente Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), que é quem ajuda o inexperiente herói a lidar com seus novos e desconhecidos poderes. Para completar, ambos são acolhidos por uma família muito carinhosa, que cuida de vários meninos e meninas adotados. A ironia final é que, após ser forçado a mudar de nome, o herói Shazam! ganha um filme que parece produção da Marvel, ao estilo irreverente de “Homem-Formiga e a Vespa” (2018).
Elegia de um Crime completa trilogia trágica sobre uma família brasileira
Há quem diga que Cristiano Burlan, diretor de “Elegia de um Crime”, construiu sua obra (ou boa parte dela) em torno da morte de sua família. Para quem não sabe, este novo trabalho é o terceiro da chamada trilogia do luto, que começou com os filmes “Construção” (2007), sobre a morte do pai do diretor, e “Mataram Meu Irmão” (2013), de título autoexplicativo. “Elegia de um Crime” é sobre a morte de sua mãe. Pode haver algum oportunismo, mas a história das obras de arte é cheia desse tipo de situação, em que artistas procuram transformar uma tragédia ou uma dor em algo belo, transcendental. O documentário traz à tona uma série de questionamentos, a partir da apresentação de familiares e da história que vai sendo construída da vida e da morte de Isabel Burlan da Silva, assassinada pelo namorado, aos 52 anos de idade. O crime ocorreu em 2011 e Burlan volta a Uberlândia para conversar com os irmãos e também com outras pessoas próximas sobre fatos relativos à mãe. E eis que, no meio de tudo isso, surge uma revelação sobre o próprio diretor: ele foi adotado. Isso pode trazer à tona alguns questionamentos a respeito da natureza do sangue como possível elemento de dádiva ou maldição para uma família. Afinal, Cristiano parece muito diferente dos outros dois irmãos, que enveredaram pelo crime e passaram pela prisão mais de uma vez. Um dos irmãos, inclusive, é o personagem mais trágico da história, mostrando-se extremamente fragilizado, física e espiritualmente, e muito arrependido de tudo que fez na vida. Conta do preconceito que sofre por ter fama de ladrão, mas logo em seguida o diretor faz questão de mostrar que o mesmo rapaz cairia mais uma vez, como se roubar ou cometer um crime fosse uma doença, tanto quanto o alcoolismo ou o vício em outras drogas. Mas as circunstâncias econômicas e sociais são também fundamentais para entender o que ocorre com essa família. Mas, voltando à questão da adoção, o momento mais emocionante do filme é a conversa de Cristiano com a irmã, que diz já saber sobre ele ter sido adotado e até conta a comovente história de Isabel e o filho que nasceu morto. Daí, ela ter compensado com uma criança adotada e até fantasiava o parto de Cristiano, como se para apagar a perda da criança que não sobreviveu. E o curioso é que essas questões se mostram até mais intensas na estrutura dramática do filme do que a própria morte da mãe de Burlan, que é o motivo de o filme existir. De todo modo, a figura da mãe e as circunstâncias trágicas de sua morte fornecem muitos momentos fortes, como o descaso da polícia, coisa que já aparece desde o prólogo, com Cristiano ligando para a Polícia Militar de uma cidade informando o paradeiro do assassino e recebendo a resposta de que isso não é da alçada deles. Há também a visita à casa onde ocorreu o crime, etc. Assim, se há oportunismo por parte do cineasta, o resultado do filme faz com que nos esqueçamos disso e nos solidarizemos com o drama trágico daquela família.
Maligno é um terror familiar acima da média
Os filmes de horror que têm chegado ao nosso circuito não têm passado exatamente por uma curadoria, por assim dizer. As distribuidoras em geral parecem apenas jogar o produto para os fãs que costumam prestigiar o gênero, por pior que seja o material. Isso, com o tempo, acaba gerando uma falta de interesse até nos próprios fãs, que se vêem frustrados pela falta de qualidade dos filmes, dando até a impressão de que não há mais bons exemplares no gênero atualmente. O que depois se confirma como uma mentira, quando vemos que filmes melhores não têm a chance de chegar ao nosso circuito, e muitas vezes nem mesmo aos serviços de streaming. “Maligno”, do cineasta americano Nicholas McCarthy, nem procura ser inovador. Ao contrário, há uma grande familiaridade na história do garoto Miles. O enredo em si traz elementos que lembram filmes tão distintos quanto “Brinquedo Assassino”, “A Órfã” e “Sobrenatural”. Mas embora tenha sido considerado medíocre pela crítica norte-americana, é um terror acima da média do que vem sendo despejado nos cinemas nacionais. Na trama, Taylor Schilling (da série “Orange Is the New Black”) é Sarah Blume, mãe de uma criança que aos poucos vai se revelando um prodígio: com poucos meses já começa a falar e logo cedo é enviado para uma escola de crianças superdotadas. Mas há algo de errado com o pequeno Miles (Jackson Robert Scott, de “It – A Coisa”). Aos poucos, ele passa a manifestar uma maldade pouco comum até para crianças perversas de sua idade. Um dos méritos do filme é conseguir criar uma atmosfera de terror e medo crescente. Uma vez que se descobre que o corpo do garoto está possuído pelo espírito de um homem muito perigoso, e o espectador passa a experimentar momentos de puro medo, a trama passa a envolver com o drama daquela mãe. O pai também é importante na história, mas ele a princípio não acredita na teoria de que o espírito do garoto está duelando com o espírito do psicopata. Soltando alguns alguns spoilers aqui: o que dizer da cena em que Sarah está sozinha na cama e o pequeno Miles pede para dormir com ela? De arrepiar! E a cena da hipnose, da batalha entre o garoto e o homem que descobriu seu segredo? E a ida de Sarah até a casa da última vítima do assassino serial? São as cenas mais marcantes desse filme bem conduzido e envolvente, que não recebeu o devido crédito. Quem sabe no futuro “Maligno” vire cult? Os dois longas anteriores de McCarthy, “Pesadelos no Passado” (2012) e “Na Porta do Diabo” (2014), não viraram.
Climax vai do sensual ao desagradável em busca de algo diferente
Às vezes basta uma cena para que um filme se torne memorável. Mesmo quando esse filme seja cheio de problemas e provoque mais insatisfações do que alegrias. Em “Climax”, de Gaspar Noé, trata-se de uma sucessão de performances solo dos dançarinos e dançarinas, mostrada através de uma câmera que visualiza a ação de cima. Aquilo é tão belo e sensual e a música é tão intensa e envolvente que, por alguns minutos, até parece que estamos vendo um dos melhores filmes do ano. A cena acontece depois que o público começa a conhecer um grupo relativamente grande de dançarinos numa festa de comemoração, apresentados de maneira interessante – e ao mesmo tempo dispersiva – na abertura do filme. É dispersiva principalmente para quem gosta de livros, filmes e estantes. Do lado de uma televisão, há duas prateleiras que completam a tela scope da janela com livros e capas de VHS (o filme se passa nos anos 1990) relacionados a cinema ou a temas ao gosto do diretor: Buñuel, Argento, Fassbinder, Pasolini, Nietzsche, entre outros. E por falar em Buñuel, o fato de as pessoas não poderem sair daquele espaço em que estão lembra um pouco “O Anjo Exterminador” (1962), clássico do mais talentoso dos cineastas espanhóis. Mas esse elemento acaba sendo esquecido ao longo das conversas entre os personagens, muitas delas sobre sexo. Destaque para o papo entre dois homens sobre quais mulheres do grupo eles já transaram e quais desejam transar e como vão fazer. Uma pena que Noé tenha uma obsessão quase infantil de querer chocar a plateia e acaba transformando o que poderia ser impactante do ponto de vista formal, sensual e poético em algo que busca se tornar desagradável, como já é tradicional em sua filmografia – como a cena prolongada de estupro de “Irreversível” (2002). Assim, o terceiro ato do filme tenta emular o estado de perturbação dos personagens, depois de terem sido drogados por uma substância alucinógena, abrindo espaço para cenas de câmeras rodopiantes e algumas cenas de violência gráfica e brutal (não é nada agradável ver uma mulher grávida receber chutes na barriga). Ainda assim, a lembrança que merece ser evocada desta experiência, filmada com um fiapo de roteiro de cinco páginas, participação da atriz Sofia Boutella (“A Múmia”), da porn star Giselle Palmer (“She Likes It Rough”) e muita vontade de fazer algo diferente, é das referidas danças sensuais ao som de um áudio poderoso – a música pulsante é cortesia de Thomas Bangalter, do Daft Punk. De fato, esse filme poderia ser muito mais gostoso se não precisasse contar uma história.
A Favorita diverte com show de interpretação e esquisitices
O cineasta grego Yorgos Lanthimos conseguiu projeção internacional pelo caráter único de seus filmes. Seu terceiro longa, “Dente Canino” (2009), foi a obra que deu início ao fascínio mundial por suas idiossincrasias, graças à indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Nesse filme já se percebia seu gosto tanto pelo bizarro quanto por um senso de humor muito particular. Afinal, por mais que alguém ache o filme um tanto perturbador em diversos aspectos, há ali tantos momentos desconcertantes que às vezes a única reação possível é rir. O gosto pelo surreal se aprofundou em “Alpes” (2011) e inundou seu primeiro filme em língua inglesa, “O Lagosta” (2015), que contou com Colin Farrell e Rachel Weisz. Trata-se de uma obra difícil de classificar, embora alguns possam imaginá-la como uma comédia romântica perversa e bizarra. Novamente com Farrell, “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (2017) se encaminhou mais para o gênero horror, embora fuja dos clichês e seja igualmente estranho. Por isso, mesmo sem abrir mão de suas esquisitices, “A Favorita” é o filme mais acessível do diretor. E, como resultado, recebeu 10 indicações ao Oscar. Mesmo assim, ainda pega muitos espectadores desprevenidos, já que sua aparência superficial de drama de época britânico esconde, sob os espartilhos, uma sátira sáfica, que lida com o homoerotismo. Mas “A Favorita” é, antes de tudo, sobre os jogos do poder. E há tempos não vemos um trio de atrizes tão forte representando seus papéis com tanta desenvoltura, que até parece que a disputa por prestígio também acontece por trás das câmeras, no sentido de que Emma Stone, Rachel Weisz e Olivia Colman parecem competir por atenção e admiração. Não por acaso, as três foram indicadas ao Oscar. Na trama, Emma Stone é uma jovem plebeia que é recebida para trabalhar no palácio de Anne (Colman), Rainha da Inglaterra do início do século 18. Além de chegar toda suja, ela ainda é ridicularizada pela mulher que é o braço direito da rainha (Weisz, inspirada). O que a jovem descobre, graças à sua inteligência e luta pela sobrevivência naquele ninho de cobras, é que as personagens de Colman e Weisz também são amantes. É então que percebe o caminho para conquistar o seu lugar ao sol, através daquela rainha que na maioria das vezes mais parece uma criança mimada. Para contar essa história, Lanthimos usa lente grande angular, que destaca principalmente a grandeza dos interiores do palácio real. Há também cenas com utilização apenas de luz natural, o que alimenta comparações com o clássico “Barry Lyndon” (1975), de Stanley Kubrick. E não dá para ignorar a suntuosidade dos cenários e figurinos. Tanto capricho poderia distrair do enredo, não fosse ele tão divertido e tão bem encenado, com um show de interpretação das três atrizes. Fala-se muito de Oliva Colman, que se projetou internacionalmente com este filme, após uma carreira focada na TV britânica, mas a “coadjuvante” Stone aparece mais em cena que a própria intérprete da rainha. A cena em que tenta seduzir um dos nobres do castelo à base de porrada está entre os pontos altos da produção. Considerando-se a fragilidade dos demais filmes indicados à categoria principal do Oscar, “A Favorita” se engrandece ainda mais, atingindo status de obra-prima.
Asako I & II questiona romantismo de forma criativa
O Festival de Cannes tem o hábito de colocar em sua mostra competitiva obras de cineastas já celebrados. Daí a surpresa quando um nome menos conhecido vira destaque, como o de Ryûsuke Hamaguchi com seu “Asako I & II” em 2018. Acontece que o diretor já vinha se projetando e até foi bastante premiado em outros festivais com um longa de mais de cinco horas de duração, “Happy Hour” (2015), inédito comercialmente no Brasil. Com 10 filmes no currículo, incluindo curtas e documentários, Hamaguchi finalmente chega ao circuito brasileiro com seu “Asako I & II”, um drama romântico desconcertante. Ora o filme opta por um estilo mais naturalista, ora seus personagens parecem mais afetados nas interpretações. Isso acontece principalmente no primeiro momento, quando, embriagada de amor, a jovem Asako (Erika Karata) se vê sem chão quando seu amado Baku (Masahiro Higashide) desaparece. Ela muda de cidade, sai de Osaka e vai morar em Tóquio e tenta reconstruir sua vida. E quando o filme parece se aproximar de uma linha mais realista, e de fato o tom do filme muda um pouco, surge algo que perturba o coração de Asako: o fato de ela conhecer um rapaz idêntico a Baku. O jovem, de nome Ryôhei, vira rapidamente co-protagonista da narrativa. Diferente do enigmático Baku, Ryôhei é um sujeito comum, que sente que tem a sorte de conhecer uma moça tão bela e tão terna quanto Asako. O problema para Asako é que ela não sabe se o que ela sente por Ryôhei se dá pelo fato de ele ser muito parecido com Baku ou se ela está mesmo se apaixonando ou se apegando afetuosamente ao rapaz, que passa a representar a sua estabilidade emocional. Há uma cena entre os dois que é linda dentro de um contexto de caos, um encontro durante um terremoto. Mas há outra que é ainda mais bonita, já dentro do contexto de uma relação estável: Ryôhei está deitado no chão e Asako massageia seus pés. Aquele momento parece algo bem próximo do paraíso na Terra. O que “Asako I & II” traz de diferente em relação a outros dramas românticos, ou mesmo comédias românticas, é que ele procura inverter a felicidade, que deixa de ser algo mais próximo do romantismo para virar algo mais próximo do realismo. Para uma cultura que fez brotar um cineasta como Yasujiro Ozu, é até compreensível.
Em Chamas é filme raro para ver, ler o livro e rever novamente
Veja o filme, leia o conto, reveja o filme. Não é sempre que a gente se sente compelido a fazer isso, graças a uma obra cinematográfica capaz de intrigar e maravilhar. Mas este é o caso de “Em Chamas”, do diretor sul-coreano Lee Chang-dong, cuja última obra para cinema havia sido “Poesia” (2010). Passou tanto tempo assim entre um filme e outro e acabou por preservar um cineasta de maior quilate. O conto que inspirou o longa, “Queimar Celeiros”, contido no livro “O Elefante Desaparece”, de Haruki Murakami, é bem sintético em sua trama. Chang-dong acrescenta muita coisa a partir de uma história aparentemente simples e que se passa em sua maior parte na varanda da casa do personagem Jong-su (Ah-in Yoo, de “Sado”), onde ele recebe o casal Hae-mi (a estreante Jun Jong-seo) e Ben (Steven Yeun, mais conhecido como o querido Glenn, da série “The Walking Dead”). O próprio Chang-dong confessa que destinou mais esforço e energia para esta cena e para a cena final. As demais, ainda que maravilhosas também, ele dirigiu dando menor importância. Isso não deixa de ser coerente com o que vemos no filme, mas também não deixa de ser impressionante, levando em consideração a grande quantidade de cenas estupendas da obra, mesmo em sua sutileza. Vendo o filme pela segunda vez, por exemplo, é possível notar certos detalhes e belezas que na primeira podem passar desapercebidos. A própria aproximação de Hae-mi com Jong-su é feita com esmero. A moça, que no início não parece ser tão interessante assim para o rapaz, passa a se tornar cada vez mais digna de seu afeto, embora no começo ele não saiba disso. Na casa de Hae-mi, quando os dois fazem sexo, e Jong-su, um aspirante a romancista, olha com atenção e interesse para os arredores e para a janela do quarto, é como se ele estivesse procurando entender e captar melhor aquele momento de sua vida. E depois há coisas um tanto surreais, como o gato que nunca aparece; ou o tal celeiro que, apesar de mencionado, também não é detectado, assim como a garota que desaparece. A história acontece depois que Hae-mi volta da África e conhece Ben, um rapaz que é tudo que Jong-su não é: confiante, rico, tranquilo e bem-sucedido. “Como ele mora em uma casa como essa tendo a idade que tem?”, Jong-su pergunta a Hae-mi, a namorada de Ben. E esse nem é um dos grandes mistérios que intrigam Jong-su. O desaparecimento de Hae-mi é que o atormenta e passa a ser a razão de sua existência. Assim como encontrar o tal celeiro queimado por Ben. Quanto à tal cena da varanda, ela é tão cheia de encantamento que faz o coração do espectador pulsar mais forte. Tanto no momento em que os três estão fumando um baseado, quanto na cena da dança de Hae-mi, que parece saída de um filme de David Lynch. Isso se dá principalmente pela inclusão de uma música de Miles Davis, a mesma que aparece em “Ascensor para o Cadafalso” (1958), de Louis Malle. O próprio Chang-dong disse que gosta muito do filme de Malle, em entrevista para a revista Cinema Scope (edição 75). Se há algo no filme capaz de empolgar menos são as cenas em que Jong-su tenta lidar com a prisão do pai. O reencontro com a mãe é interessante, mas toda a parte com o pai parece pequena diante da trama principal, quase como se fosse possível destacar. Funciona mais para acentuar o aspecto da solidão e abandono a que o personagem foi submetido. No mais, há muito o que se alimentar da riqueza de “Em Chamas”, seja tentando entender mais detalhes de sua trama, seja se aproveitando também das influências literárias (o próprio Murakami, William Faulkner, F. Scott Fitzgerald) e musicais, seja adentrando na profundidade e no abismo de seus personagens. Não é sempre que vemos um filme assim.
Legalize Já acerta praticamente tudo ao contar a gênese do Planet Hemp
É raro uma cinebiografia acertar a mão. Muitas tentam dar conta da vida completa do artista ou da pessoa em questão e acabam por tornar tanto a narrativa quanto o personagem rasos. Não é o caso de “Legalize Já – Amizade Nunca Morre”, dirigido por Johnny Araújo e Gustavo Bonafé, que faz um recorte destacando a amizade entre Marcelo D2 e Skunk, responsáveis pela criação de uma das bandas mais importantes do cenário brasileiro dos anos 1990, o Planet Hemp. Bastava estar vivo naquela década para lembrar o que o rolava nas rádios e nas televisões: era o boom do pagode e do axé. O surgimento das novas bandas da turma de 1994 foi crucial para dar uma oxigenada no rock daquele período, ainda que as bandas da década anterior ainda estivessem ativas e interessantes. Mas era preciso sangue novo e essa nova turma em geral soube lidar com a transgressão de maneira muito mais efetiva que a turma anterior. Colocar a legalização da maconha como principal bandeira por si só já foi um trunfo. Mas o Planet Hemp tinha também muito a oferecer no que se refere à qualidade de sua música. Uma coisa que muita gente não sabia era a importância de Skunk para a criação do conceito da banda. Marcelo não acreditava em si mesmo, embora as letras tenham partido dele desde o começo. Skunk, soropositivo, tentou lidar com a doença até onde deu. Na época, os coquetéis para combater o avanço do HIV eram muito desconfortáveis e tinham efeitos colaterais desagradáveis. “Legalize Já” ganhou o subtítulo “Amizade Nunca Morre” justamente por focar mais na amizade da dupla do que na criação musical. As linhas paralelas das vidas de Marcelo, camelô que vendia camisetas de banda de rock na rua, e Skunk, que morava com um amigo argentino dono de bar e de uma espécie de mini-estúdio caseiro, cruzam-se em um momento em que o rapa aparece para desmontar as bancas de alguns vendedores de rua. Chega a ser tocante ver a aproximação e a ótima química entre os dois, com Skunk sempre sendo o cara que motiva Marcelo a acreditar em si, em pensar grande com a ideia de montar uma das melhores bandas de rock do país. Apesar de haver aspectos dramáticos muito fortes, devido às situações nada fáceis da vida de ambos, o filme tem uma pegada leve, com cenas bem divertidas. E há também momentos musicais, que são de arrepiar. O que dizer da primeira vez em que ouvimos “Phunky Bhuda”? O que é aquele riff de guitarra, aquela energia? Vale destacar aqui as excelentes performances dos atores. Tanto Renato Góes (“Pequeno Dicionário Amoroso 2”) como Marcelo D2 quanto Ícaro Silva (“Sob Pressão”) como Skunk estão ótimos. Principalmente o segundo, que exala um carisma impressionante. E também a evolução do diretor Johnny Araújo, que filma rock desde sua estreia, “O Magnata” (2007), com roteiro de Chorão e participação do Marcelo Nova, e seguiu firme no tema com “Depois de Tudo” (2015), uma espécie de ode à canção “Soldados”, da Legião Urbana. “Legalize Já” é poesia urbana que, em vez de rimas, usa imagens.
Café com Canela é um achado que não merecia ficar perdido em poucas salas
Impressionante como “Café com Canela” consegue ser ao mesmo tempo experimental e tão popular, tão capaz de falar ao grande público. O premiado trabalho de Glenda Nicácio e Ary Rosa, que venceu três troféus no Festival de Brasília 2017 e apresenta a uma baianidade muito gostosa, traz duas histórias paralelas: a de duas mulheres negras, de diferentes idades e situações. A jovem Violeta (a estreante Aline Brunne, encantadora) ganha a vida vendendo coxinhas e cuidando da avó muito velhinha e acamada, além de também cuidar com muita alegria e amor do marido, dos filhos e dos amigos. A outra linha paralela mostra um cenário mais sombrio, o de Margarida (Valdinéia Soriano, de “Ó Paí, Ó”), uma mulher que vive presa na própria casa, pela depressão causada pela perda do filho pequeno. O contraste entre as duas vidas é bem explícito e é natural sentirmos certo mal estar quando estamos na casa de Margarida, tão triste e tão abandonada. Mais do que isso: um lugar assombrado. Por isso o gosto pela vida de Violeta pega o público tão fortemente: é lindo vê-la cantando para a avó doente e que só se comunica pelos olhos e pelo sorriso. Ela canta com muito carinho, dá-lhe massagens nas mãos. Claro que nem tudo são flores e Violeta testemunha também a triste partida de um de seus vizinhos em outra passagem muito emocionante e também cheia de amor. Há algumas cenas que se destacam e que, ao serem lembradas, falam forte ao coração. Desde a mais simples, que pode ser vista como apenas um detalhe, envolvendo o cachorro e a avó de Violet ou o cantar de um dos personagens coadjuvantes. Ou, ainda, a descrição antecipada e triste da perda de um grande amor do personagem de Babu Santana (de “Tim Maia”) e a cena da bicicleta. Meus Deus, o que dizer da cena da bicicleta, algo capaz de encher os corações de amor? E no meio de tudo isso, no meio de uma celebração da vida como poucos filmes são capazes, ainda há um semi-monólogo fantástico de Margarida sobre a magia do cinema. Sim, a vida pode ser maravilhosa, mas o cinema é fantástico. Há até uma brincadeira com a quebra da quarta parede. Há ainda espaço para a celebração da riqueza da cultura afrobrasileira. O que lembra que se trata de um filme inteiramente feito com atores e atrizes negros, grande maioria da população da Bahia, onde “Café com Canela” se passa. No final, nem são esses detalhes – se é que podemos chamar de detalhes, inclusive os formais -, mas o quanto o filme mexe com as emoções do público. Um achado que, por falta de salas, tende a ficar perdido, como tantas outras joias recentes do cinema nacional.
Distúrbio é mergulho na paranoia com um iPhone
Apesar da irregularidade e falta de foco para um cinema autoral, a carreira de Steven Soderbergh é uma das mais interessantes dentre os cineastas surgidos do cenário indie nos últimos 30 anos. Trata-se de um diretor que se mostrou interessado nos mais diversos assuntos, sendo suas obsessões bastante fragmentadas. Da estreia em “Sexo, Mentiras e Videotape” (1989) a sua incursão por série interativa (“Mosaic”), Soderbergh não parece ficar preso ao mesmo interesse por muito tempo. Mas o título de seu primeiro longa pode ser considerado revelador de algumas tendências, como as decepções incluídas na realidade e o cinema que pode ser feito com a tecnologia acessível de sua época. Até um celular, com no caso de seu novo filme. “Distúrbio” (Unsane) é o segundo longa de Soderbergh depois de uma anunciada aposentadoria que não se concretizou. O anterior foi a divertida comédia “Roubo em Família” (Logan Lucky), que retomou o tema do grande assalto, celebrado em “Onze Homens e um Segredo” (2001). Em “Distúrbio”, o diretor volta a outro tema que lhe interessa: a questão da sanidade mental, abordada em um registro mais dramático em “Terapia de Risco” (2013). No novo trabalho, ele serve um suspense bem eficiente. Na trama, Claire Foy (a Elizabeth II de “The Crown”) vive Sawyer Valentini, vítima de uma fobia que é descortinada aos poucos. Ela mora em uma cidade distante de sua família para fugir de um homem obcecado. Certo dia, após uma consulta com uma psicóloga, ela acaba assinando papéis em que concorda em ficar detida em um sanatório por um determinado período de tempo. Mas, ao chegar lá, afirma que um dos funcionários é o tal homem que a persegue. Demora um pouco para o público descobrir se o que ela diz é fato ou fruto de sua imaginação. Mas, até lá, a personagem segue em uma espiral de medo e perturbação que é acentuada por imagens às vezes desfocadas, às vezes em enquadramentos pouco usuais, filmadas em uma câmera de iPhone 7 Plus. O filme foi lançado diretamente em VOD no Brasil.
Ana e Vitória foge das armadilhas da cinebiografia musical para virar retrato geracional
A primeira cena de “Ana e Vitória” estabelece rapidamente que o filme não é uma cinebiografia tradicional das cantoras do título, mas um retrato geracional, ao mostrar um grupo de pessoas em uma festa olhando para os seus próprios aparelhos celulares em meio a uma pequena multidão. Quando não, estão usando os celulares para filmar a moça que está cantando. Esse hábito moderno faz com que as pessoas estejam quase o tempo todo com a cabeça voltada para baixo, como se estivessem tristes, ainda que vez ou outra estejam sorrindo e conversando com alguém. E isso mostra como a solidão pode ter “evoluído”, passando a sensação falsa de ter ficado menor por causa do ambiente virtual, mas a necessidade de encontrar uma pessoa para amar continua sendo algo intenso no espírito humano. Há também uma mudança de valores muito interessante captadas na tela. As duas meninas, Ana Caetano e Vitória Falcão, vivendo a si mesmas, têm relações com pessoas do mesmo sexo com certa naturalidade. Ana, inclusive, até prefere as meninas, como dá a entender desde o começo. Mas “Ana e Vitória” é um filme, acima de tudo, sobre amizade feminina, com foi, anos atrás, o belíssimo “Baixo Gávea” (1986), de Haroldo Marinho Barbosa. A diferença é aqui temos uma outra pegada, um outro diretor com maior familiaridade com a linguagem jovem. Matheus Souza, que já havia trabalhado com outra estrela da música e do mundo pop, Clarice Falcão, em “Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo com a minha Vida” (2012), desta vez se arrisca a fazer um musical com as jovens cantoras de Tocantins, que na vida real se identificam como Anavitória e estão fazendo um sucesso popular bem considerável. Por mais que Souza pareça ter um jeito quase amador de lidar com a dramaturgia e com os diálogos, eles são espirituosos e não buscam ser intelectuais. Na verdade, o filme consegue ser inteligente justamente porque suas personagens agem de maneira natural e falam muita bobagem. Uma das primeiras conversas de Ana com Vitória sobre comer formiga ser bom para a vista é um exemplo disso. E essa é apenas uma dentre as várias outras passagens que exploram o jeito simples das duas meninas que se aventuram pelo Rio de Janeiro. O filme acompanha a jornada de união e sucesso das duas jovens, que começam a cantar juntas, fazer sucesso e a arrebanham uma legião de fãs. Para a surpresa delas. Há algumas passagens cantadas e que apresentam novas canções da dupla, e algumas delas são cointerpretadas por Clarissa Müller, que faz par romântico com Ana. Pena que as novas canções não sejam tão inspiradas quanto as do primeiro disco, mas isso não tira o brilho do filme. No fim das contas, “Ana e Vitória” apresenta mais uma história sobre chegadas e partidas, encontros e desencontros amorosos, que poderia pertencer a qualquer garota dessa geração, mais do que a história profissional das duas meninas. O que é ótimo, pois acaba por flagrar um momento muito especial da vida humana, aquele momento em que tudo é muito incerto e doloroso, mas também muito excitante e cheio de vida.
Arranha-Céu – Coragem sem Limite é tão exagerado que causa indiferença
Eis um filme que dá saudades do cinema de ação que deixou de ser feito há algumas décadas. “Arranha-Céu – Coragem sem Limite” acaba remetendo, inevitavelmente, aos filmes dos anos 1980 e 1990, em particular ao clássico “Duro de Matar”, divisor de águas entre as explosões cenográficas da era Reagan e o que surgiria com mais sofisticação na década seguinte. Trata-se da mesma história do herói passando por situações perigosas para enfrentar terroristas armados, em um prédio alto e isolado pelas autoridades. Acontece que tudo é anabolizado, exagerado e inverossímil a ponto de o efeito para o espectador ser uma sensação de anestesia e indiferença. A começar por Dwayne Johnson, uma figura tão forte e tão cheia de músculos que parece um super-herói, mesmo quando seu personagem é retratado com perna prostética. Nada parece ser obstáculo para sua determinação, que lhe permite passar de um lado a outro do prédio mais alto do mundo com auxílio de fitas adesivas nas mãos, como um Homem-Aranha. A comparação deixa Bruce Willis parecendo um homem normal, que até sangra bastante no original. Retratar o protagonista com uma deficiência física (o herói perde a perna em ação no início do filme) não significa que o personagem tenha pontos fracos. Ao contrário, ele se torna ainda mais invencível com aquela perna falsa, que lhe será muito útil em determinadas situações de perigo. A trama, que ainda inclui um incêndio para aumentar o perigo, não promete nenhuma sutileza. Nem a equipe de efeitos especiais se preocupa em deixar as cenas realistas a ponto de fazer o espectador se importar com o protagonista. Não é uma produção feita no capricho de um “Missão Impossível” e nem tem a pretensão de ser, na verdade. Mas o diretor Rawson Marshall Thurber, que já trabalhara com Johnson em “Um Espião e Meio” (2016), poderia usar os exageros a seu favor, como acontece em “Velozes e Furiosos”. Poderia-se elogiar a volta de Neve Campbell a um papel de destaque no cinema. Intérprete da mulher de Johnson, ela retorna após ausência de sete anos, desde “Pânico 4”. Mas a eterna Sidney, que enfrentava assassinos psicopatas com destemor, agora não é mais do que uma esposa em perigo cuidando de seus dois filhos. Resta, portanto, a locação. Hong Kong é um charme e tem sido um grande polo de filmes de ação há várias décadas. Parte do elenco é composta por atores locais. Além do homem que idealizou o prédio mais alto do mundo, vivido por Chin Han, há uma personagem coadjuvante, do grupo dos vilões, que poderia ter sido melhor aproveitada, a jovem e bela Hannah Quinlivan. Ela e Neve Campbell tem um momento juntas, mas é muito pouco. Porque Dwayne Johnson ocupa a maioria das cenas, com seu vigor exaustivo. É curioso que, assim como o ator na sala de cinema, o protagonista da trama passa a ter suas ações acompanhadas por uma multidão através de uma imensa tela de televisão, enquanto o prédio está em chamas e sua família corre perigo. Um instante de metalinguagem que, claro, o diretor não soube ou não quis explorar. A trama é o de menos: envolve os inimigos do empresário que planejam por em chamas o prédio mais alto do mundo. As cenas não deixam de passar uma lembrança do 11 de setembro. Talvez a ideia de Thurber tenha sido esta: fazer um grande épico de ação que remetesse a um grande desastre americano. Conseguiu: fez um simulacro de “Duro de Matar” que dá saudades de “A Força em Alerta”.
Canastra Suja é filme importante desrespeitado pelos cinemas brasileiros
Para quê fazer cinema no Brasil, se o circuito exibidor trata a maioria dos filmes (os que não são derivados/produções de TV) com tanto desrespeito? Tudo bem que a fila precisa andar, levando em consideração a quantidade gigante de lançamentos. Mas a verdade é que os filmes brasileiros não estão sendo lançados; estão sendo arremessados. Muitos só encontram um único horário e se são lançados em cinema de shopping só duram mesmo uma semana em cartaz e pronto. Não há tempo para o boca a boca. Trata-se, infelizmente, do caso de “Canastra Suja”, terceiro longa de Caio Sóh, cineasta que não consegue projeção nacional porque seus filmes não chegam aos cinemas de todo o país. “Canastra Suja”, em particular, tem gerado um clamor justificado, pois se trata de um filme que tem despertado muitas paixões. Há, claro, o caso de algumas críticas negativas, em especial uma famosa publicada no jornal O Globo, e que alguns dizem ser responsável pelo fracasso comercial do lançamento, mas há, sem dúvida, pouco recurso para contra-atacar com marketing, já que as imagens de divulgação são de arrepiar, muito atraentes para quem não viu e muito significativas e emocionantes para quem já viu o filme. Mas falemos do filme em si, que já começa com uma câmera subjetiva de alguém adentrando uma casa humilde. Mais tarde, a história retoma a este ponto. Assim, logo em seguida, somos convidados a conhecer os dramas dos habitantes daquela casa, o pai Batista (Marco Ricca), a mãe Maria (Adriana Esteves) e os filhos jovens Emília (Bianca Bin) e Pedro (Pedro Nercessian) e a adolescente especial Ritinha (Cacá Ottoni). Entre os demais personagens importantes, há que se destacar o amigo da família Tatu (David Junior), namorado de Emília. Batista é alcoólatra e está tentando deixar o vício, e tem a intenção de levar o filho a seguir seus passos no trabalho de manobrista, já que o rapaz não quer saber de estudar e nem tem nenhuma formação profissional. Em clima de desgraça pouca é bobagem, mas também trazendo muito humor diante dos percalços de seus personagens, o filme vai aos poucos levando-os a uma espiral de descida aos infernos, com seus dramas se acentuando cada vez mais. O diretor e seu elenco têm a habilidade de manter a trama envolvente, por vezes divertida (como não se divertir com as cenas de Pedro e Tatu em um clube muito especial?), mas por vezes devastadora. Daí, as várias semelhanças que alguns críticos têm feito com a obra de Nelson Rodrigues, embora do ponto de vista do cinema possamos lembrar tanto do neorrealismo italiano (“Rocco e seus Irmãos”!) quanto do cinema brasileiro dos anos 1970 e 1980, quando os nossos filmes tinham de fato a intenção de destoar das telenovelas. no que se refere à exploração e explicitação dos problemas sociais. Aliás, falando em telenovelas, que bom que é poder ver Bianca Bin, uma atriz linda e talentosa, saindo um pouco da TV e enriquecendo o nosso cinema. O longa foi feito de forma bastante independente. Até a distribuidora é desconhecida, provavelmente própria. O elenco ajuda com a produção e o simbolismo da cena do karaokê é representativo deste espírito de união da equipe para a realização da obra. Assim, chegar até o final da narrativa é chegar a um ponto de extravasamento das emoções, acumuladas diante de tantas situações ruins vividas por aqueles personagens de quem aprendemos a gostar em pouco tempo de metragem, mas também pelas dificuldades econômicas da produção. Por isso é fácil entender a aposta que todo o elenco fez no filme, abrindo mão de seus cachês por acreditar na proposta de Sóh. Agora é torcer por ao menos uma maior visibilidade nos serviços de streaming. O importante é que este filme seja visto. Muito visto.












