Crítica: Ana e Vitória foge das armadilhas da cinebiografia musical para virar retrato geracional


A primeira cena de “Ana e Vitória” estabelece rapidamente que o filme não é uma cinebiografia tradicional das cantoras do título, mas um retrato geracional, ao mostrar um grupo de pessoas em uma festa olhando para os seus próprios aparelhos celulares em meio a uma pequena multidão. Quando não, estão usando os celulares para filmar a moça que está cantando. Esse hábito moderno faz com que as pessoas estejam quase o tempo todo com a cabeça voltada para baixo, como se estivessem tristes, ainda que vez ou outra estejam sorrindo e conversando com alguém. E isso mostra como a solidão pode ter “evoluído”, passando a sensação falsa de ter ficado menor por causa do ambiente virtual, mas a necessidade de encontrar uma pessoa para amar continua sendo algo intenso no espírito humano.

Há também uma mudança de valores muito interessante captadas na tela. As duas meninas, Ana Caetano e Vitória Falcão, vivendo a si mesmas, têm relações com pessoas do mesmo sexo com certa naturalidade. Ana, inclusive, até prefere as meninas, como dá a entender desde o começo.

Mas “Ana e Vitória” é um filme, acima de tudo, sobre amizade feminina, com foi, anos atrás, o belíssimo “Baixo Gávea” (1986), de Haroldo Marinho Barbosa. A diferença é aqui temos uma outra pegada, um outro diretor com maior familiaridade com a linguagem jovem. Matheus Souza, que já havia trabalhado com outra estrela da música e do mundo pop, Clarice Falcão, em “Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo com a minha Vida” (2012), desta vez se arrisca a fazer um musical com as jovens cantoras de Tocantins, que na vida real se identificam como Anavitória e estão fazendo um sucesso popular bem considerável.

Por mais que Souza pareça ter um jeito quase amador de lidar com a dramaturgia e com os diálogos, eles são espirituosos e não buscam ser intelectuais. Na verdade, o filme consegue ser inteligente justamente porque suas personagens agem de maneira natural e falam muita bobagem. Uma das primeiras conversas de Ana com Vitória sobre comer formiga ser bom para a vista é um exemplo disso. E essa é apenas uma dentre as várias outras passagens que exploram o jeito simples das duas meninas que se aventuram pelo Rio de Janeiro.



O filme acompanha a jornada de união e sucesso das duas jovens, que começam a cantar juntas, fazer sucesso e a arrebanham uma legião de fãs. Para a surpresa delas. Há algumas passagens cantadas e que apresentam novas canções da dupla, e algumas delas são cointerpretadas por Clarissa Müller, que faz par romântico com Ana. Pena que as novas canções não sejam tão inspiradas quanto as do primeiro disco, mas isso não tira o brilho do filme.

No fim das contas, “Ana e Vitória” apresenta mais uma história sobre chegadas e partidas, encontros e desencontros amorosos, que poderia pertencer a qualquer garota dessa geração, mais do que a história profissional das duas meninas. O que é ótimo, pois acaba por flagrar um momento muito especial da vida humana, aquele momento em que tudo é muito incerto e doloroso, mas também muito excitante e cheio de vida.


Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.



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