Crítica: Elegia de um Crime completa trilogia trágica sobre uma família brasileira



Há quem diga que Cristiano Burlan, diretor de “Elegia de um Crime”, construiu sua obra (ou boa parte dela) em torno da morte de sua família. Para quem não sabe, este novo trabalho é o terceiro da chamada trilogia do luto, que começou com os filmes “Construção” (2007), sobre a morte do pai do diretor, e “Mataram Meu Irmão” (2013), de título autoexplicativo.

“Elegia de um Crime” é sobre a morte de sua mãe.

Pode haver algum oportunismo, mas a história das obras de arte é cheia desse tipo de situação, em que artistas procuram transformar uma tragédia ou uma dor em algo belo, transcendental.

O documentário traz à tona uma série de questionamentos, a partir da apresentação de familiares e da história que vai sendo construída da vida e da morte de Isabel Burlan da Silva, assassinada pelo namorado, aos 52 anos de idade. O crime ocorreu em 2011 e Burlan volta a Uberlândia para conversar com os irmãos e também com outras pessoas próximas sobre fatos relativos à mãe.

E eis que, no meio de tudo isso, surge uma revelação sobre o próprio diretor: ele foi adotado. Isso pode trazer à tona alguns questionamentos a respeito da natureza do sangue como possível elemento de dádiva ou maldição para uma família. Afinal, Cristiano parece muito diferente dos outros dois irmãos, que enveredaram pelo crime e passaram pela prisão mais de uma vez.



Um dos irmãos, inclusive, é o personagem mais trágico da história, mostrando-se extremamente fragilizado, física e espiritualmente, e muito arrependido de tudo que fez na vida. Conta do preconceito que sofre por ter fama de ladrão, mas logo em seguida o diretor faz questão de mostrar que o mesmo rapaz cairia mais uma vez, como se roubar ou cometer um crime fosse uma doença, tanto quanto o alcoolismo ou o vício em outras drogas. Mas as circunstâncias econômicas e sociais são também fundamentais para entender o que ocorre com essa família.

Mas, voltando à questão da adoção, o momento mais emocionante do filme é a conversa de Cristiano com a irmã, que diz já saber sobre ele ter sido adotado e até conta a comovente história de Isabel e o filho que nasceu morto. Daí, ela ter compensado com uma criança adotada e até fantasiava o parto de Cristiano, como se para apagar a perda da criança que não sobreviveu.

E o curioso é que essas questões se mostram até mais intensas na estrutura dramática do filme do que a própria morte da mãe de Burlan, que é o motivo de o filme existir.

De todo modo, a figura da mãe e as circunstâncias trágicas de sua morte fornecem muitos momentos fortes, como o descaso da polícia, coisa que já aparece desde o prólogo, com Cristiano ligando para a Polícia Militar de uma cidade informando o paradeiro do assassino e recebendo a resposta de que isso não é da alçada deles. Há também a visita à casa onde ocorreu o crime, etc. Assim, se há oportunismo por parte do cineasta, o resultado do filme faz com que nos esqueçamos disso e nos solidarizemos com o drama trágico daquela família.


Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.



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