
Divulgação/Paramount+
Guia da Pipoca: Dexter, zumbis e terror marcam streaming no Halloween
Destaques da semana incluem cinco filmes e séries de terror, a cinebiografia de Anthony Bourdain e uma nova produção brasileira da Netflix
O Guia da Pipoca apresenta os dez principais títulos que chegam ao streaming na semana do Halloween, com lançamentos da Netflix, Prime Video, Apple TV, Disney+ e Paramount+. O destaque é a 2ª temporada de “Dexter: Ressurreição”, acompanhada por uma seleção de terrores que inclui “Frutas Proibidas”, “Um Trabalho do Inferno”, “Isto Não é um Teste”, “Apocalipse Z: Novo Mundo” e “Until Dawn: Noite de Terror”, que estreia no próprio Dia das Bruxas. A programação ainda traz a cinebiografia “Tony”, sobre Anthony Bourdain, a série brasileira “Dom de Iludir”, o suspense policial “Noturno” e o k-drama “A Mentira Perfeita”.
SEGUNDA
🎞️ TONY | Prime Video
Antes de se tornar um chef de cozinha famoso, escritor de sucesso e apresentador de programas de viagens, Anthony Bourdain era um adolescente arrogante que não sabia o que fazer da vida. É este período pouco conhecido de sua trajetória que a cinebiografia produzida pela A24 retrata, com Dominic Sessa (“Os Rejeitados”) no papel principal. Dirigido por Matt Johnson (“BlackBerry”), o filme abandona a estrutura tradicional das biografias para acompanhar um único verão de 1975, quando o futuro astro da gastronomia tinha 19 anos e encontrou seu primeiro emprego numa cozinha profissional.
Convencido de que nasceu para ser escritor, Tony fracassa na tentativa de conseguir uma bolsa literária e decide passar as férias em Provincetown, no litoral de Massachusetts, onde pretende reencontrar Nancy (Emilia Jones, de “No Ritmo do Coração”), uma antiga paixão. Sem dinheiro, acaba empregado num restaurante comandado por um chef experiente, interpretado por Antonio Banderas (“Dor e Glória”). O ambiente caótico, com jornadas exaustivas, conflitos entre funcionários e uma disciplina que o jovem desconhece, desperta uma paixão inesperada pelo trabalho. Sua convivência com cozinheiros mais velhos, especialmente Sal (Leo Woodall, de “Um Dia”), também expõe a distância entre suas pretensões intelectuais e a realidade da vida adulta.
O roteiro recupera episódios de “Cozinha Confidencial”, livro em que Bourdain revelou os bastidores pouco glamourosos da gastronomia profissional. Em vez de apresentar um talento predestinado ao sucesso, Johnson acompanha um rapaz presunçoso, inseguro e frequentemente desagradável, cuja formação depende tanto de erros quanto dos ensinamentos recebidos. Sessa capta essa combinação de arrogância e vulnerabilidade, enquanto Banderas oferece o contraponto de um profissional que já conheceu os limites da própria ambição.
A opção por um recorte tão restrito evita o desfile de acontecimentos característico das cinebiografias, mas também deixa de fora praticamente tudo que tornou Bourdain uma figura pública. Seu principal interesse está no retrato da cozinha como um ambiente de aprendizado, onde o trabalho coletivo e a experiência concreta começam a modificar um jovem que acreditava saber mais do que todos ao redor. A produção alcançou 93% de aprovação no Rotten Tomatoes, impulsionada principalmente pela atuação de Sessa e pela abordagem pouco convencional de uma trajetória conhecida.
QUARTA
📺 DOM DE ILUDIR | Netflix
Marieta Severo, Alice Wegmann e Nanda Costta protagonizam um melodrama brasileiro que transforma a busca por uma cura milagrosa numa disputa envolvendo dinheiro, manipulação e segredos familiares. Ambientada entre os milionários do Rio de Janeiro, a produção da Netflix aproxima a tradição das novelas de suspense psicológico, com direção geral de Mauro Mendonça Filho (“Verdades Secretas”) e uma narrativa construída em torno de três mulheres que escondem muito mais do que revelam. A trama de dez episódios conta ainda com José de Abreu, Felipe Camargo, Luciana Paes e Laila Garin no elenco.
Lúcia Rossetti (Severo) é uma colecionadora de obras de arte que mantém uma relação de controle quase absoluto sobre a filha, Maíra (Wegmann), acometida por uma doença misteriosa que a deixa boa parte do tempo confinada à cama. Desesperada para encontrar um tratamento, a empresária recorre a Irina (Costta), uma terapeuta espiritual que afirma possuir habilidades especiais. A aproximação termina num golpe que ameaça a fortuna de Lúcia e expõe conexões inesperadas entre duas famílias. À medida que antigas acusações vêm à tona, a condição de Maíra e as verdadeiras intenções das pessoas que a cercam passam a ser questionadas.
A série recupera elementos clássicos do melodrama, como a matriarca autoritária, a herança ameaçada e a presença de uma mulher misteriosa capaz de desestabilizar relações familiares. A diferença está no uso da doença como instrumento de tensão: a necessidade de proteger uma filha também serve para justificar o controle que sua mãe exerce sobre ela, enquanto a intervenção de Irina coloca crenças espirituais e interesses financeiros numa mesma disputa. A música-tema é uma nova gravação de “Dom de Iludir”, de Caetano Veloso, na voz de Liniker, que reforça a ideia central da história: a verdade pode ser tão manipuladora quanto uma mentira.
O projeto é uma criação de Diane Maia (“O Meu Sangue Ferve por Você”) e Mirna Nogueira (“Meu Nome É Gal”), com direção de episódios assinada por Gabriela Amaral Almeida (“O Animal Cordial”), cineasta ligada ao terror brasileiro, e Daniela Carvalho (“Sintonia”). A combinação de profissionais de diferentes linguagens aponta para uma atualização da novela de suspense, sem abandonar reviravoltas, conflitos de classe e personagens moralmente ambíguos.
QUINTA
🎞️ FRUTAS PROIBIDAS | Prime Video
Imagine “Meninas Malvadas” misturado com “Jovens Bruxas”, mas com as disputas adolescentes transferidas para uma loja de roupas de shopping e seus rituais secretos. Essa é a proposta da comédia de terror dirigida pela estreante Meredith Alloway, que transforma pseudo-empoderamento e consumo de grifes em matéria-prima para uma sátira sangrenta. Lili Reinhart (“Riverdale”), Lola Tung (“O Verão que Mudou Minha Vida”), Victoria Pedretti (“A Maldição da Residência Hill”) e Alexandra Shipp (“Barbie”) formam o quarteto central de uma produção que tem Diablo Cody (“Garota Infernal”) entre seus produtores.
Apple (Reinhart) comanda uma loja chamada Free Eden, onde exerce controle absoluto sobre as colegas Cherry (Pedretti) e Fig (Shipp). Depois do expediente, as funcionárias se reúnem no porão para praticar rituais de bruxaria e reafirmar uma irmandade baseada em regras rígidas de comportamento. A chegada de Pumpkin (Tung), uma nova contratada que começa a questionar a autoridade de Apple, ameaça desestabilizar o grupo. Desconfianças, rivalidades e desejos reprimidos acabam desencadeando acontecimentos violentos, enquanto a pretensa comunidade de mulheres revela uma estrutura de poder tão opressiva quanto aquela que afirma combater.
Adaptado de uma peça teatral de Lily Houghton, o filme combina humor ácido, erotismo e violência gráfica para ridicularizar discursos de empoderamento transformados em instrumentos de dominação. As personagens adotam nomes de frutas, reproduzem slogans de autoajuda e apresentam a obediência como uma demonstração de pertencimento. A estética colorida da loja contrasta com a brutalidade dos rituais, numa abordagem que recupera o exagero visual e a ironia de produções como “Garota Infernal”.
A estreia de Alloway na direção de longas tem personalidade e encontra força na atuação de Reinhart, cuja personagem oscila entre líder carismática e manipuladora cruel. A relação entre as quatro protagonistas oferece momentos de humor e tensão, embora o excesso de referências e a insistência no comportamento extravagante tornem a sátira ocasionalmente dispersa. Com 76% de aprovação no Rotten Tomatoes, a produção funciona como uma crítica às hierarquias escondidas sob discursos de sororidade, numa embalagem deliberadamente exagerada de terror juvenil.
SEXTA
📺 DEXTER: RESSURREIÇÃO 2 | Paramount+
Vinte anos depois da estreia de “Dexter”, Michael C. Hall volta a interpretar o serial killer que conquistou o público ao direcionar seus impulsos homicidas contra outros criminosos. A 2ª temporada do revival ambientado em Nova York amplia esse conceito ao colocar o protagonista diante de assassinos que também transformaram a violência numa identidade pública. Brian Cox (“Succession”) e Dan Stevens (“Abigail”) entram no elenco como dois criminosos de métodos diferentes, enquanto Uma Thurman (“Kill Bill”) retoma o papel de Charley, antiga chefe de segurança de uma organização clandestina de assassinos.
Depois de sobreviver aos acontecimentos de “Dexter: Sangue Novo”, Dexter Morgan se mudou para Nova York na tentativa de reconstruir o relacionamento com o filho Harrison (Jack Alcott). A experiência terminou por envolvê-lo num clube secreto de assassinos milionários, comandado por Leon Prater (Peter Dinklage), e numa série de mortes que ameaçaram revelar sua identidade. Agora, ele precisa enfrentar novos adversários, incluindo o Estripador de Nova York, interpretado por Cox, criminoso que abandonou os assassinatos, mas continua a atormentar psicologicamente suas antigas vítimas. Stevens vive o Assassino dos Cinco Distritos, responsável por ameaças públicas e crimes destinados a conquistar notoriedade.
A situação se complica com o retorno de Charley, que possui contas pendentes com Dexter, e com as dificuldades de Harrison para construir uma vida independente. O jovem também se aproxima de Fiona Mixon (Nona Parker Johnson), filha de um capitão da polícia interpretado por Bokeem Woodbine (“Fargo”), criando novas conexões entre a família Morgan e as autoridades que investigam os assassinatos.
A produção comandada por Clyde Phillips mantém a combinação de suspense e humor negro que marcou as melhores temporadas da série original. A diferença está no envelhecimento do protagonista: Dexter já não enfrenta apenas os riscos de sua vida dupla, mas também limitações físicas e a possibilidade de transmitir ao filho os mesmos comportamentos que determinaram sua existência.
A presença de criminosos com identidades públicas e métodos extravagantes aproxima a temporada de uma galeria de vilões, mas também reforça a contradição central da franquia. Dexter estabelece regras para justificar seus próprios assassinatos, embora continue dependente da violência para organizar sua vida. O desafio da história é preservar essa ambiguidade depois de duas décadas em que o personagem passou de ameaça moralmente perturbadora a protagonista de uma franquia construída em torno de sua popularidade.
📺 UM TRABALHO DO INFERNO | Netflix
A precariedade do mercado de trabalho ganha contornos sobrenaturais na minissérie sul-coreana. Estrelada por Lee Jae-wook (“Alquimia das Almas”), a produção mistura terror, fantasia e humor macabro numa sucessão de serviços temporários oferecidos por uma agência misteriosa, onde os empregos mais bem remunerados se revelam muito perigosos. A direção é de Kim Da-min, roteirista de “O Paradoxo do Assassino”, enquanto Han Jun-hee, responsável por “D.P. Dog Day”, supervisiona o desenvolvimento criativo dos oito episódios.
Hyeok-jun (Lee Jae-wook) está atolado em dívidas quando descobre uma agência de empregos que oferece pagamentos até 50 vezes superiores aos valores habituais. A única condição é não revelar o que acontece durante o expediente. Desesperado, aceita a proposta e recebe sua primeira missão: trabalhar no turno noturno de uma loja de conveniência aparentemente comum. O local, entretanto, esconde fenômenos assustadores que colocam sua vida em risco. A experiência se repete em outros estabelecimentos, cada um com regras próprias e ameaças inexplicáveis, obrigando o rapaz a decidir até onde está disposto a chegar para ganhar dinheiro. Go Min-si (“Gostinho de Amor”), Kim Min-ha (“Pachinko”) e Lee Hee-jun (“Karma”) completam o elenco principal.
A estrutura de episódios dedicados a diferentes trabalhos permite explorar vários subgêneros de terror dentro da mesma história. Os perigos incluem criaturas sobrenaturais, situações absurdas e ambientes aparentemente banais que se revelam armadilhas. O formato recupera a tradição das antologias de horror, mas mantém um protagonista constante, cuja necessidade financeira o impede de abandonar experiências que qualquer pessoa em condições normais evitaria.
O elemento mais interessante é a relação entre exploração profissional e sobrevivência. A agência oferece salários extraordinários justamente porque seus serviços envolvem riscos desumanos, mas não obriga os trabalhadores a aceitá-los: o endividamento já cumpre essa função. A fantasia radicaliza uma experiência cotidiana de insegurança econômica e transforma a promessa de dinheiro fácil numa sucessão de pesadelos.
🎞️ ISTO NÃO É UM TESTE | Netflix
O apocalipse zumbi encontra o drama adolescente na adaptação do romance de Courtney Summers, que utiliza uma invasão de mortos-vivos para discutir depressão, traumas familiares e o desejo de continuar vivendo. Dirigido por Adam MacDonald (“A Bruxa do Gelo”), o terror canadense traz Olivia Holt (“Cruel Summer”) como uma estudante que perdeu a vontade de viver e acaba obrigada a lutar pela sobrevivência quando sua cidade é tomada por infectados. Froy Gutierrez (“Cruel Summer”) e Corteon Moore (“A Origem”) integram o grupo de jovens que procura refúgio numa escola.
Sloane Price (Holt) enfrenta uma situação familiar marcada por violência e abandono quando a epidemia transforma sua cidade num cenário de caos. Ao lado de quatro colegas, consegue escapar dos primeiros ataques e se refugia no colégio, onde os sobreviventes bloqueiam as entradas e tentam descobrir o que está acontecendo do lado de fora. A ameaça constante dos zumbis intensifica conflitos internos, com disputas sobre liderança, confiança e a possibilidade de abandonar o abrigo. Enquanto os companheiros fazem planos para continuar vivos, Sloane precisa enfrentar uma questão diferente: descobrir se ainda tem razões para desejar a própria sobrevivência.
A premissa diferencia o filme de outros representantes do gênero ao colocar uma personagem emocionalmente fragilizada no centro da ação. A epidemia funciona como uma experiência extrema que obriga a protagonista a reconsiderar sua relação com a morte, enquanto os confrontos entre adolescentes revelam ressentimentos e comportamentos violentos anteriores ao desastre.
O problema está na execução. Os conflitos psicológicos são tratados de maneira irregular, e os personagens secundários raramente ultrapassam os tipos convencionais de histórias sobre jovens confinados. A violência gráfica e as perseguições sustentam alguns momentos de tensão, mas a relação entre depressão e sobrevivência não recebe o desenvolvimento necessário e desperdiça o potencial da premissa, que poderia oferecer uma perspectiva diferente num gênero já bastante explorado.
🎞️ APOCALIPSE Z: NOVO MUNDO | Prime Video
O terror espanhol de zumbis retorna com uma continuação que troca a sobrevivência individual por uma operação militar no continente devastado. Baseado no universo literário de Manel Loureiro, o novo filme de Carles Torrens amplia a história iniciada em “Apocalipse Z: O Princípio do Fim”, sucesso do Prime Video em 2024, que acompanhava um advogado tentando escapar de uma epidemia ao lado de seu gato. Agora, a ameaça do vírus TSJ se espalhou pela Europa e as Ilhas Canárias representam um dos últimos refúgios da população não infectada.
Roberto (Carlos Alcaide) integra uma missão enviada ao continente para recuperar suprimentos essenciais à sobrevivência dos refugiados. O grupo reúne militares e civis com interesses diferentes, e o protagonista possui motivações particulares que colocam sua lealdade em dúvida. Quando a operação encontra uma quantidade de infectados muito superior à prevista, os integrantes precisam improvisar uma rota de fuga e enfrentar disputas internas que ameaçam destruir a equipe. Entre os personagens que retornam estão Pritchenko (José María Yazpik), sobrevivente do primeiro filme, e Lucía (Berta Vázquez), enfermeira que enfrenta os efeitos da epidemia num hospital isolado. O gato Lúculo, um dos elementos mais lembrados da aventura original, também reaparece.
A mudança de cenário permite ampliar a escala das sequências de ação, com confrontos envolvendo grupos armados, veículos militares e grandes quantidades de mortos-vivos. A ameaça deixa de ser uma catástrofe que os personagens ainda tentam compreender e passa a integrar a realidade cotidiana de uma sociedade que se reorganizou depois do colapso.
O roteiro preserva um tema recorrente nas histórias de zumbis: diante de uma epidemia, a desconfiança entre os sobreviventes pode ser tão perigosa quanto os infectados. A operação em busca de recursos coloca essa questão em termos concretos, pois cada decisão envolve escolher entre proteger o próprio grupo e arriscar vidas para ajudar desconhecidos. A continuação se aproxima do cinema de ação pós-apocalíptico e amplia o universo da franquia, embora a dimensão militar reduza parte da sensação de vulnerabilidade que diferenciava a aventura original.
📺 NOTURNO | Apple TV
Um assassino em série preso continua aterrorizando suas vítimas e manipulando investigações policiais. Adaptação americana dos romances de Lars Kepler, pseudônimo do casal de escritores suecos Alexandra e Alexander Ahndoril, a trama transporta para a Pensilvânia uma história originalmente ambientada na Suécia. Os dez episódios têm criação de Rowan Joffé (“Tin Star”) e John Hlavin (“Shooter”), com direção inicial de Tim Van Patten (“Boardwalk Empire”). O elenco de peso reúne Liev Schreiber (“O Casal Perfeito”), Zazie Beetz (“Coringa”) e Stephen Graham (“Adolescência”),
Jonah Lynn (Schreiber) é um ex-militar que abandonou a rotina violenta da polícia de Filadélfia para trabalhar numa pequena cidade. Sua tentativa de construir uma vida tranquila termina quando o assassino Jurek Walter (Graham) volta a ameaçar sua família. Mesmo encarcerado, o criminoso parece conhecer detalhes sobre desaparecimentos que a polícia não conseguiu solucionar. Quando uma de suas vítimas reaparece viva, Jonah percebe que outra pessoa continua desaparecida e precisa agir rapidamente para encontrá-la. A investigação o leva a enviar sua protegida, a agente federal Saga Bauer (Beetz), numa operação de infiltração para conseguir informações diretamente com o assassino.
A produção adapta elementos de “O Homem de Areia” e “Lazarus”, dois romances da série policial do detetive Joona Linna. A mudança de país e de protagonistas preserva o principal conflito dos livros: um criminoso cuja capacidade de manipulação transforma a prisão em mais um instrumento de poder.
O confronto entre Schreiber e Graham estabelece o centro dramático, enquanto Beetz ocupa a posição mais perigosa da investigação, obrigada a se aproximar de alguém que conhece os mecanismos do medo e sabe utilizá-los contra os adversários. A história recupera elementos dos thrillers sobre serial killers, de “O Silêncio dos Inocentes” a “Mindhunter”, mas desloca a ameaça para o interior de uma relação familiar. O suspense não depende apenas de descobrir onde estão as vítimas, e sim de compreender como um assassino continua exercendo controle sobre pessoas que aparentemente estão longe de seu alcance.
📺 A MENTIRA PERFEITA | Disney+
Dez anos depois de contracenarem no drama médico “Dr. Romântico”, Yoo Yeon-seok (“Quando o Telefone Toca”) e Seo Hyun-jin (“Por Que Her?”) voltam a formar um casal na televisão sul-coreana, mas agora como adversários numa disputa judicial. A nova série da emissora MBC utiliza o início de um relacionamento para construir um suspense psicológico sobre versões contraditórias de um mesmo acontecimento. Dirigida por Jo Young-min (“Você e Tudo Mais”), a produção tem 12 episódios e parte de uma pergunta: o que acontece quando duas pessoas afirmam dizer a verdade, mas suas histórias são incompatíveis?
Min Joon-ho (Yoo) é um cirurgião cardíaco respeitado que cria sozinho o filho após a morte da esposa. Sua rotina muda quando conhece Kang Ji-sun (Seo), uma professora e bibliotecária escolar com quem desenvolve uma atração imediata. Os dois passam uma noite juntos depois de um encontro romântico, mas no dia seguinte acabam numa delegacia, onde apresentam relatos completamente diferentes sobre o que aconteceu. Sem testemunhas ou provas conclusivas, a investigação se transforma numa disputa sobre credibilidade. Um resultado inesperado no teste do polígrafo torna o caso ainda mais confuso, enquanto informações relacionadas à falecida esposa do médico revelam conexões que ultrapassam o encontro inicial.
A trama retoma a tradição dos suspenses sobre narradores não confiáveis, mas distribui a dúvida entre dois protagonistas igualmente convencidos de suas versões. A reputação profissional de Joon-ho e a capacidade de observação de Ji-sun influenciam a maneira como seus depoimentos são recebidos, num conflito que também envolve expectativas sociais sobre homens e mulheres.
A escolha dos atores reforça essa ambiguidade. A lembrança de seu relacionamento amoroso em “Dr. Romântico” contrasta com a hostilidade da nova história, na qual a intimidade deixa de ser uma demonstração de confiança e passa a representar uma ameaça. O suspense utiliza a ausência de provas para discutir a diferença entre aquilo que aconteceu, o que cada personagem recorda e o que está disposto a admitir publicamente.
SÁBADO
🎞️ UNTIL DAWN: NOITE DE TERROR | Prime Video
A adaptação do videogame de terror da PlayStation, que transformou escolhas dos jogadores em decisões de vida ou morte, substitui a narrativa interativa por um pesadelo de repetição temporal. Dirigido por David F. Sandberg (“Annabelle 2: A Criação do Mal”), o filme acompanha um grupo de jovens obrigado a morrer repetidas vezes até descobrir como escapar de um lugar amaldiçoado. A produção reúne Ella Rubin (“Uma Ideia de Você”), Michael Cimino (“Com Amor, Victor”) e Odessa A’zion (“Hellraiser: Renascido do Inferno”), com Peter Stormare retomando o papel enigmático que interpretou no jogo original.
Um ano depois do desaparecimento da irmã Melanie, Clover (Rubin) decide retornar ao vale isolado onde ela foi vista pela última vez. Acompanhada por amigos, encontra um centro de visitantes abandonado e começa a investigar o local, mas o grupo é perseguido por um assassino mascarado que mata seus integrantes um a um. Quando todos parecem mortos, despertam no começo da mesma noite, sem compreender o que aconteceu. A situação se repete, mas cada ciclo apresenta ameaças diferentes, incluindo criaturas monstruosas, possessões e novas formas de violência. Os jovens descobrem que não podem morrer indefinidamente e que a única maneira de escapar é sobreviver até o amanhecer.
A principal mudança em relação ao videogame está na mecânica narrativa. Enquanto a experiência interativa permitia modificar o destino dos personagens conforme as decisões do jogador, o filme utiliza o reset de um “game over” para experimentar diferentes modalidades de terror. Cada retorno ao início da noite funciona como uma oportunidade de introduzir outra ameaça, alternando perseguições de assassinos, manifestações sobrenaturais e horror corporal.
A proposta encontra seus melhores momentos na variedade das mortes e na maneira como os personagens tentam compreender as regras do pesadelo. O problema está na fragilidade da caracterização do grupo, cujos integrantes raramente ultrapassam os arquétipos das histórias de jovens em perigo. A repetição das situações também reduz gradualmente o impacto da violência, já que a morte deixa de representar um desfecho definitivo. Mesmo assim, a direção de Sandberg sustenta um espetáculo de sustos, criaturas e efeitos visuais que se aproxima da experiência de assistir a diferentes filmes de terror numa única sessão. Uma opção particularmente adequada para a noite de Halloween.