
Divulgação/A24
Festival de Veneza traz menos apostas de Hollywood e mais filmes políticos
Diretor do evento aponta retração dos grandes estúdios em meio a filmes sobre Gaza, Ucrânia, imigração e o poder dos bilionários
Veneza começa com Hollywood mais distante
O Festival de Veneza abre sua 83ª edição nesta quarta-feira (2/9) com uma presença reduzida dos grandes estúdios americanos e uma seleção fortemente marcada por questões políticas. Para o diretor artístico Alberto Barbera, a retração dos títulos que tradicionalmente chegavam ao Lido para iniciar campanhas ao Oscar reflete um problema mais amplo da indústria cinematográfica americana.
Por que cinema americano perdeu espaço?
“O problema é Hollywood. Eles enfrentam uma enorme crise”, afirmou Barbera à Reuters. “Estão produzindo menos filmes, que são mais caros. Alguns deles dão muito certo e outros, ao contrário, são um desastre comercial. Por isso, não sabem o que fazer.”
Além da redução na quantidade de produções, os estúdios também avaliam com mais cautela o custo de grandes lançamentos em festivais e o risco de uma recepção negativa meses antes da estreia comercial. A reação a “Coringa: Delírio a Dois” na própria Veneza, em 2024, tornou-se um dos exemplos recentes desse perigo.
Política marca programação
A ausência de parte das grandes apostas americanas abriu espaço para uma seleção marcada pela resposta de cineastas às tensões contemporâneas. Barbera citou entre os temas recorrentes os bombardeios de Israel em Gaza, a invasão russa da Ucrânia, as políticas de imigração nos Estados Unidos e a concentração de poder nas mãos de bilionários.
O próprio filme de abertura coloca poder político e mídia no centro. “Ink”, de Danny Boyle, dramatiza a compra do tabloide britânico The Sun pelo magnata australiano Rupert Murdoch em 1969, episódio decisivo para a construção do império internacional do dono da rede de TV americana Fox. Jack O’Connell, Guy Pearce e Claire Foy lideram o elenco.
Entre os documentários, “Musk”, de Alex Gibney, complementa o tema dedicando 3h45 a Elon Musk e à ascensão de um dos bilionários mais influentes do planeta.
A invasão da Ucrânia chega ao festival por meio de “My Undesirable Friends: Part II – Exile”, documentário de quase seis horas de Julia Loktev. A cineasta acompanha jornalistas independentes que abandonaram a Rússia depois do início da guerra e do fechamento do espaço para a imprensa crítica ao Kremlin. A programação ainda inclui “Mr. Nelson, Did You Kill People?”, de Shinya Tsukamoto, sobre a Guerra do Vietnã, e “Ritorno a Buenos Aires”, coprodução ítalo-brasileira de Marco Bechis centrada num sobrevivente da ditadura argentina que retorna ao país para depor contra militares envolvidos em sua tortura.
Já “They’re Here”, curta de Laura Poitras e Rachel Lauren Mueller, acompanha operações do ICE contra imigrantes em Minnesota, nos Estados Unidos.
Gaza se torna principal foco político
Nenhum tema, entretanto, ocupa tanto espaço quanto a crise humanitária na Palestina. Barbera afirma que Veneza selecionou quatro obras relacionadas à destruição de Gaza por Israel. A de maior repercussão tende a ser “Naza”, incluída por último entre os concorrentes ao Leão de Ouro. O documentário é dirigido pelos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, dois dos quatro realizadores de “Sem Chão”, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2025.
Filmado à noite em telhados de Tel Aviv, “Naza” investiga o sistema utilizado pelas forças israelenses nos bombardeios de Gaza e o impacto sobre civis palestinos. A sigla do título é usada no aparato militar para indicar previsões de vítimas civis. O longa foi produzido pelo The Guardian e pela JW Films, com Jonathan Glazer entre os produtores executivos.
Fora da competição, “Citizen Osama”, de Ahmed Hassouna, acompanha um fotógrafo que permanece no norte de Gaza cercado, tentando proteger a mulher e o filho recém-nascido ao mesmo tempo que documenta a destruição ao seu redor. “Conversation With the Sea”, de Muayad Alayan, parte da história de um palestino de Jerusalém obrigado por um tribunal israelense a pagar uma dívida atribuída ao filho morto décadas antes.
Protestos começaram antes do primeiro filme
A seleção ocorre em meio à mobilização do Venice4Palestine, coletivo que pediu à Biennale medidas concretas de apoio aos palestinos. Entre os signatários do novo manifesto estão Roger Waters, Annie Ernaux, Matteo Garrone, Guy Pearce, Jasmine Trinca e outras personalidades do cinema e da cultura.
O grupo reivindica, entre outras medidas, a exposição da bandeira palestina durante o festival, transparência nas relações mantidas pela indústria cinematográfica e a suspensão de acordos com instituições ligadas ao governo de Israel.
A pressão política chegou inclusive à rotina institucional do evento. A tradicional coletiva de abertura com o júri internacional, presidido por Maggie Gyllenhaal, chegou a ser retirada da programação. A organização atribuiu a decisão a um conflito de agenda, mas a medida provocou críticas e suspeitas de que o festival pretendia evitar perguntas sobre Gaza e outros temas sensíveis. Depois da repercussão, Veneza voltou atrás e recolocou a entrevista coletiva na agenda.
Competição tem apenas uma diretora solo
Outra controvérsia envolve a baixa representação feminina na disputa pelo Leão de Ouro. Dos 21 longas selecionados, somente “Woman Unknown” é dirigido exclusivamente por uma mulher. A cineasta dinamarquesa May el-Toukhy acompanha uma jovem empregada doméstica na Europa do pós-2ª Guerra, que tenta esconder uma relação mantida anteriormente com um soldado alemão e enfrenta a perseguição reservada às mulheres acusadas de colaborar intimamente com as forças de ocupação.
“Naza” amplia parcialmente a presença feminina porque Rachel Szor divide a direção com Yuval Abraham. Mesmo considerando a dupla, porém, a disparidade permanece evidente numa competição dominada por cineastas homens.
Poucos diretores americanos
Mesmo entre os filmes falados em inglês, a competição evidencia a retração de Hollywood. Seis dos 21 concorrentes são inteiramente em inglês, mas apenas dois têm direção americana: “Company”, de Casey Affleck, e “Primetime”, de Lance Oppenheim. Os outros quatro são comandados pelo britânico Danny Boyle, o alemão Werner Herzog, o britânico-irlandês Martin McDonagh e o japonês Shinya Tsukamoto.
Boyle abre o festival com “Ink”. Já Herzog concorre com “O Vale Imaginário” (Bucking Fastard), estrelado pelas irmãs Kate Mara e Rooney Mara como gêmeas que falam em uníssono, compartilham os mesmos sonhos e se apaixonam pelo mesmo homem. Orlando Bloom e Domhnall Gleeson também estão no elenco.
Martin McDonagh apresenta “Wild Horse Nine”, com John Malkovich, Sam Rockwell, Steve Buscemi, Tom Waits e Parker Posey. Ambientada pouco antes do golpe militar chileno de 1973, a história acompanha dois agentes da CIA enviados de Santiago à Ilha de Páscoa. A aproximação de um deles com estudantes rebeldes ameaça complicar uma missão já atravessada pelo passado da dupla e pelas conspirações políticas do período.
Shinya Tsukamoto também filmou inteiramente em inglês “Mr. Nelson, Did You Kill People?”, inspirado na história real de Allen Nelson. Nascido em uma família pobre de Nova York, ele entrou para os Marines aos 18 anos e foi enviado ao Vietnã em 1966. O filme acompanha tanto sua participação na violência contra civis quanto o trauma que o acompanhou ao voltar aos Estados Unidos, quando sofreu com insônia, rompeu relações familiares e chegou a viver nas ruas. Geoffrey Rush e Tatyana Ali integram o elenco.
A predominância estrangeira se amplia com “Bunker”, falado em inglês e espanhol e dirigido pelo francês Florian Zeller. A coprodução entre França e Espanha reúne Penélope Cruz, Javier Bardem, Stephen Graham, Paul Dano e Patrick Schwarzenegger.
Entre os americanos, Lance Oppenheim dirige “Primetime”, produção da A24 estrelada pelo inglês Robert Pattinson como Chris Hansen. O filme revisita o auge de “To Catch a Predator”, programa que transformou em espetáculo televisivo operações destinadas a confrontar homens que buscavam encontros sexuais com menores pela internet, e aborda as consequências do sucesso do formato para apresentadores, produtores e participantes.
Casey Affleck completa a reduzida representação americana com “Company”, drama independente que ele também escreveu. O longa reúne Nick Nolte, Ben Mendelsohn, Scoot McNairy e Adelaide Clemens numa narrativa que atravessa diferentes épocas. A trama começa em 1975, quando uma mulher misteriosa chega sem convite a uma confraternização e conta a história de um eremita que, durante uma nevasca no Colorado em 1953, acolheu uma atriz presa na estrada. Esse relato abre caminho para outra história, situada ainda antes, envolvendo um casal de fazendeiros, um jovem andarilho e uma sequência de assassinatos.
Destaques internacionais
A seleção também inclui trabalhos do sul-coreano Lee Chang-dong e do japonês Hirokazu Kore-eda. O último traz “Look Back”, adaptação do mangá de Tatsuki Fujimoto, criador de “Chainsaw Man”, sobre duas jovens unidas pela paixão pelos quadrinhos.
Entre os europeus, Nanni Moretti volta à competição com “It Will Happen Tonight”, centrado em antigos amantes que buscam uma segunda chance.
Já na lista de documentários, o principal destaque não politizado trará os irmãos Liam e Noel Gallagher ao Lido para a estreia de “Don’t Look Back in Anger”, sobre a turnê de reunião da banda Oasis.
O festival, que segue até 12 de setembro, ainda homenageará George Clooney e Ellen Burstyn com Leões de Ouro pelo conjunto de suas carreiras.