Crítica: A Lavanderia é o mais novo mico de Steven Soderbergh



Steven Soderbergh é um cineasta talentoso, mas coloca sua imagem muitas vezes em risco ao apostar em trabalhos experimentais que não contribuem em nada para sua evolução ou do próprio cinema. Ele dificilmente se repete no filme seguinte, mas geralmente entrega uma decepção retumbante logo após acertar no alvo. É só lembrar das continuações de “Onze Homens e um Segredo” ou perceber que o diretor de “Traffic” e “Erin Brockovich” também fez “O Desinformante!”. Neste ano, Soderbergh lançou dois filmes pela Netflix. E se “High Flying Bird” deixou boa impressão, o horroroso “A Lavanderia” confirma que se trata de um diretor de altos e baixos.

E olha que o roteiro de Scott Z. Burns reconstitui a queda do esquema de corrupção conhecido como “Os Papéis do Panamá”, que envolveu inclusive a Odebrecht num caso bastante repercutido aqui no Brasil. Mas em vez de se concentrar em um ponto ou personagem que represente o todo, Soderbergh prefere abraçar o mundo. Conta diversas historinhas que entrelaçam a teia tecida pela Mossack-Fonseca, empresa jurídica que foi o coração dessa podridão. No começo, até parece que a trama será guiada pela personagem de Meryl Streep, vítima do esquema após a trágica morte do marido (numa cena muito bem filmada). Mas ela é apenas o centro de um dos muitos “episódios” narrados pelos sócios criminosos Jürgen Mossack e Ramón Fonseca, interpretados respectivamente por Gary Oldman e Antonio Banderas.

“A Lavanderia” é um belo exemplo de como causar uma quebra descomunal no ritmo de um filme. Isto acontece pela opção de Soderbergh de contrastar as aparições de Oldman e Banderas, que se divertem ao entregar interpretações caricaturais e exageradas, com a atuação visivelmente dramática de Meryl Streep. A dupla chega a esbarrar na canastrice, gritando, fazendo caretas e gesticulando de forma exacerbada, segundos depois da tela promover o sofrimento de Meryl.



Não parece que o problema esteja no roteiro, mas sim na falta de foco de Soderbergh, que tenta resgatar o tom cômico desastrado de “O Desinformante!” com um coral de personagens digno de “Traffic”. Adam McKay conseguiu se sair bem nesse registro, em “A Grande Aposta”. Mas desta vez não deu certo. O equívoco foi tentar explicar o enredo complexo de maneira excessivamente didática, usando como “professores” os dois vilões irritantes que jamais engajam o espectador. Pelo contrário, repelem.

Soderbergh pretendia mostrar que existem outras Mossack-Fonsecas por aí e que a corrupção está enraizada numa profundidade inimaginável. Porém, que mico! Beira o insuportável quando Gary Oldman entra em cena falando alto, gritando e emulando um sotaque patético. Difícil saber quantos aguentaram até o fim da história, após suas primeiras aparições em cena.



Otávio Almeida é formado em Publicidade e Propaganda e Jornalismo. Nasceu no Rio de Janeiro, mora em São Paulo, mas sempre torcerá pelo Flamengo. É fã de Star Wars, Steven Spielberg, Stanley Kubrick, Blade Runner, Martin Scorsese, Indiana Jones, Frank Capra, Billy Wilder, John Ford, Clint Eastwood, O Senhor dos Anéis, Woody Allen, George Lucas, Lawrence da Arábia, Quentin Tarantino, Rocco e Seus Irmãos, James Cameron e Chinatown. Além de editor do Hollywoodiano, escreve sobre cinema como colaborador da revista Preview.



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