Crítica: Meu Nome É Dolemite é um dos melhores filmes do ano


“Meu Nome É Dolemite” (2019) é facilmente um dos melhores filmes do ano. É um filme sobre dizer não ao roteiro que a vida preparou para você e virar o jogo. É sobre a verdadeira arte que brota das próprias experiências de vida de um autor, que busca dinheiro sim, mas o reconhecimento de seu talento acima de tudo. É uma história real tão surreal que só poderia ser sobre cinema e acabar no cinema. E tem Eddie Murphy brilhando de forma tão intensa como há tempos não se via.

Como Rudy Ray Moore, um dos nomes mais importantes do cinema “blaxploitation” dos anos 1970, Murphy traz de volta a energia do início de sua carreira, de filmes como “Um Tira da Pesada”, “48 Horas” e “Trocando as Bolas”. Está engraçado, mas subversivo; encantador, porém despido de qualquer vaidade; com um sorrisão no rosto escondendo melancolia e decepção. E longe de sua zona de conforto, porque “Meu Nome é Dolemite” pode ser divertido, mas não é a comédia tradicional. É praticamente um drama adaptado da (dura) vida real, que se torna engraçado pelas próprias dificuldades enfrentadas.

A produção da Netflix relembra a trajetória de Rudy Ray Moore, que jamais se conformou com a pobreza e, principalmente, com o anonimato. Trabalhava numa loja de discos, mas gravava músicas, fazia stand-up comedy em um clube noturno, mas nunca desistiu mesmo quando ninguém notava seu talento. Quando criou o personagem Dolemite, apropriando-se de piadas ouvidas de mendigos, sua carreira estourou. Antes que você julgue o protagonista pela atitude politicamente incorreta, bom, de acordo com o filme, Moore e todos naquele ecossistema estavam entregues à própria sorte em um mundo à parte esquecido pela elite branca e por Deus.

Mas o sucesso de Dolemite entre os fãs de sua comunidade não foi o bastante. Moore decide levar sua palavra a um número maior de pessoas. E qual é a melhor mídia para alcançar esse objetivo? O cinema, claro.

O que se vê deste momento em diante coloca “Meu Nome é Dolemite” na galeria dos filmes mais bacanas que falam sobre filmes. Só que mais do que uma declaração de amor ao cinema, o longa é uma ode a todos que não desistem de seus sonhos como artistas de diferentes segmentos. Ao mesmo tempo, é também uma porrada no sistema que dificulta o caminho de muita gente. Moore não desistiu e sua história ainda é contada aqui para inspirar outros vários sonhadores.


A história remete a outras cinebiografias dos roteiristas Scott Alexander e Larry Karaszewski, como “O Povo Contra Larry Flynt”, “O Mundo de Andy”, ambos dirigidos por Milos Forman, e “Ed Wood”, de Tim Burton. Aliás, o Rudy de Eddie Murphy é um estranho no ninho e sua história teria tudo para virar um ótimo filme nas mãos do saudoso Milos Forman, um cineasta que firmou sua arte dando voz aos “desajustados”, aqueles que não se encaixam, mas seguem lutando. O diretor Craig Brewer deve ser fã de Forman.

Brewer, que fez “Ritmo de um Sonho” e o remake de “Footloose”, consegue capturar perfeitamente o processo criativo de Moore. Desde os motivos que levam a seus insights, passando pela concepção do personagem, a postura e o jeito de falar, até sua ascensão no cinema.

O diretor foca em Eddie Murphy, mas também sabe o quanto é importante cercá-lo de grandes coadjuvantes. E nisto se destaca Wesley Snipes, no papel do ator e diretor D’Urville Martin, que surpreende como um grande comediante. Aquele cara durão de filmes de ação como “Blade”, “Passageiro 57” e “O Demolidor” revela-se imprevisível como seu personagem afetado, egocêntrico e mimado que rouba todas as cenas em que aparece. E o elenco tem ainda a maravilhosa Da’Vine Joy Randolph (da série “People of Earth”) como Lady Reed, que faz o filme respirar toda vez que surge em cena com seu talento monumental. Eddie Murphy, que também assina a obra como produtor, jamais teria feito a maior atuação de sua carreira sem os dois.

Apesar dos palavrões (e uma cena de sexo divertidíssima), “Meu Nome É Dolemite” ainda joga para cima o manual que diz que toda cinebiografia tem que ter momentos dramáticos e depressivos. O filme inteiro é alegre demais, uma produção que escolheu ser feliz para exaltar a paixão dos artistas e como a arte pode surgir dos lugares menos prováveis. É uma comédia que dá realmente para assistir com um sorriso de orelha a orelha, do começo ao fim.



Otávio Almeida é formado em Publicidade e Propaganda e Jornalismo. Nasceu no Rio de Janeiro, mora em São Paulo, mas sempre torcerá pelo Flamengo. É fã de Star Wars, Steven Spielberg, Stanley Kubrick, Blade Runner, Martin Scorsese, Indiana Jones, Frank Capra, Billy Wilder, John Ford, Clint Eastwood, O Senhor dos Anéis, Woody Allen, George Lucas, Lawrence da Arábia, Quentin Tarantino, Rocco e Seus Irmãos, James Cameron e Chinatown. Além de editor do Hollywoodiano, escreve sobre cinema como colaborador da revista Preview.



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