Supergirl faz história ao escalar a primeira super-heroína transexual da TV


A equipe de “Supergirl” anunciou uma grande novidade da 4ª temporada na San Diego Comic-Con: a atriz transexual Nicole Maines (vista num episódio de “Royal Pains”) entrou no elenco da atração no papel de Nia Nal, uma jornalista transsexual, que, segundo os produtores, se tornará uma super-heroína chamada Dreamer.

A participação representa mais um avanço da série na opção por tramas inclusivas, após elogiados arcos em que Alex (Chyler Leigh), irmã da heroína, assumiu-se lésbica, o super-herói Caçador de Marte (David Harewood) ilustrou a dificuldade de lidar com a demência de seu velho pai e o Guardião (Mehcad Brooks) refletiu o estigma do racismo. A forma como a série adapta temas relevantes da atualidade em tramas de super-heróis a diferencia de todas as outras produções do Arrowverse.

Nas publicações da DC Comics, Dreamer, traduzida no Brasil como Sonhadora, é uma heroína conhecida da Legião dos Super-Heróis, o grupo do século 31 que foi introduzido em “Supergirl” na temporada passada. Mas muitos detalhes diferenciam a Sonhadora dos quadrinhos da versão televisiva.

A personagem é descrita na série como “confiante e fashionista” e “como uma versão mais jovem de Cat Grant” (Calista Flockhart). “Antes escritora de discursos políticos, Nia é a nova adição à equipe de jornalismo investigativo da CatCo, trazendo com ela astúcia e humor. Sob uma fachada de deboche existe uma jovem mulher com muito a oferecer ao mundo”, diz a sinopse da produção.

Embora a identidade civil de Sonhadora tenha sido pouco explorada nos quadrinhos, seu nome original não é Nia, mas Nura Nal e ela vem de outro planeta, chamado Nalor. Seu poder é quase uma doença, uma condição que a faz sofrer de narcolepsia, dormir subitamente. Neste estado, Sonhadora manifesta a habilidade especial de literalmente sonhar. E as imagens de seus sonhos são visões do futuro que sempre se realizam, ainda que lhe cheguem incompletas.

Ela não é transexual nos quadrinhos, mas uma loira platinada inspirada por pin-ups e starlets de Hollywood – como Jayne Mansfield e Mamie van Doren – , desenhada por John Forte em 1964 como a mais bonita e glamourosa das heroínas do futuro, fato enaltecido pela forma como deixa os legionários a seus pés em sua estreia, conforme pode ser visto na ilustração abaixo. Detalhe: na época, ela era chamada de Dream Girl, a Garota dos Sonhos.

Mas um fato divertido – e relativamente recente – é que Sonhadora já compartilhou o corpo com Brianiac 5, o que não deixa de ser uma analogia para a transexualidade. Ao ganhar novamente um corpo feminino, ela terminou se casando com Brainy – antes da DC anular todos os casamentos da Legião dos Super-Heróis com muitos reboots desnecessários.



Vale lembrar que, após estrear na temporada passada, Brainiac 5 será personagem fixo dos próximos episódios da série, interpretado por Jesse Rath.

Um detalhe nada irrelevante na contratação de Nicole Maines é que ela é bastante conhecida nos Estados Unidos por seu ativismo LGBTQ+. Em 2013, Maines venceu um processo histórico na justiça americana, pelo direito de frequentar banheiros femininos. A ação virou jurisprudência e a tornou célebre, levando-a a aparecer no documentário da HBO “The Trans List” (2016) e até ter sua vida transformada em livro – “Becoming Nicole” (2015), escrito por Amy Ellis Nutt.

Os planos para introduzir uma super-heroína transgênero no Arrowverse foram anunciados dias após a confirmação do projeto de “Batwoman”, que será a primeira série criada em torno de uma super-heroína lésbica – fato que não diminui a importância de Nafessa Williams como Tormenta, a primeira super-heroína lésbica negra da TV, na série “Black Lightning” (Raio Negro).

“Supergirl” retorna em 14 de outubro nos Estados Unidos. No Brasil, a série é exibida pelo canal pago Warner e também está disponível no catálogo da Netflix.

Veja abaixo a hilária introdução da Garota dos Sonhos em 1964 nos quadrinhos da DC Comics.


Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna



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