Estreias europeias são destaques da semana, de animação para crianças ao vencedor do Festival de Berlim

A maior aposta dos cinemas no feriadão de Natal é uma animação espanhola, visando o público infantil, que superou a concorrência do musical circense de Hugh Jackman (“Logan”) e da tentativa de George Clooney (“Ave César”) de se tornar um dos irmãos Coen (“Ave César”), para vir ocupar mais de 400 telas nesta quinta-feira (21/12).

Apesar disso, os cinéfilos não ficarão sem presente de Papai Noel. A programação do circuito limitado traz um dos melhores filmes de 2017 – para incluir naquelas listas obrigatórias de fim de ano. Leia abaixo para saber mais detalhes e clique nos títulos para ver os trailers de cada estreia.

“As Aventuras de Tadeo 2: O Segredo do Rei Midas” traz aos cinemas a continuação da simpática animação espanhola de 2012 sobre o herói Tadeo Jones, inspirado em Indiana Jones. Criado por Enrique Gato, Tadeo sonhava virar arqueólogo, mas acabou se tornando pedreiro, até embarcar numa viagem ao Peru, onde reencontrou sua vocação – em luta contra um grupo de mercenários, ao lado de uma exploradora e com a descoberta do tesouro de uma cidade perdida. A história continua com uma nova aventura mirabolante, envolvendo uma relíquia mística, sua parceira favorita, bichinhos de estimação e a múmia com quem ele fez amizade no primeiro filme.

As duas outras produções com distribuição ampla não entusiasmam tanto a crítica, apesar de terem sido feitas com pretensões sérias para a temporada de premiações.

“O Rei do Show”, que estreia simultaneamente na América do Norte, ficou com 48% de aprovação no Rotten Tomatoes. Curiosamente, os maiores elogios e os comentários mais negativos tiveram o mesmo alvo: o clima de exaltação otimista, a energia positiva e a cafonice conservadora, sem matizes, do longa.

Com roteiro escrito por Jenny Bicks (“Sex and the City”) e revisado por Bill Condon (“A Bela e a Fera”), o filme gira em torno da figura controvertida de P.T. Barnum (papel de Hugh Jackman), empresário que começou a trabalhar com shows de variedades em Nova York em 1834 e ficou conhecido por apresentar freaks – anões, mulher barbada, etc – como se fosse um espetáculo. Ele também criou um novo formato de circo itinerante, com um picadeiro e bichos exóticos, que revolucionou os shows circenses – e o maltrato aos animais. A isso ele dava o nome de “O Maior Espetáculo da Terra”.

A história é transformada num musical alegre, ao mesmo tempo revisionista e anacrônico, e com composições inéditas de Justin Paul e Benj Pasek, vencedores do Oscar 2017 por “La La Land”, e direção de Michael Gracey, que faz sua estreia no cinema após se destacar na publicidade. O elenco ainda inclui Michelle Williams (“Manchete à Beira-Mar”), Zac Efron (“Baywatch”), Zendaya (“Homem-Aranha: De Volta ao Lar”), Rebecca Ferguson (“Missão Impossível: Nação Fantasma”) e Keala Settle (“Ricki and the Flash: De Volta Para Casa”).

“Suburbicon – Bem-Vindos ao Paraíso” fez mais barulho ao fracassar. Tentativa de criar um noir de humor negro, o filme foi incluído em vários festivais importantes e acabou ridicularizado pela crítica – 29% de aprovação no Rotten Tomatoes. E olha que George Clooney chegou a chamar os irmãos Coen para ajudar no roteiro.

A trama se passa num bairro tranquilo de subúrbio, durante o verão de 1959, e envolve o assassinato misterioso da mulher de Matt Damon (“Perdido em Marte”), a máfia, a cunhada pronta para ajudar o viúvo e um agente de seguros cheio de suspeitas. E é para o meio disso que se muda a primeira família negra da vizinhança. Oscar Isaac (“Star Wars: O Despertar da Força”) e Julianne Moore (“Para Sempre Alice”) estão no elenco.

Em compensação, o circuito limitado tem um filme que atingiu 92% de aprovação. O grande destaque entre os lançamentos da semana é o romance húngaro “Corpo e Alma”, que venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim e está na disputa por uma indicação ao Oscar 2018, na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

“Corpo e Alma” é o sétimo longa da diretora Ildiko Enyedi, a quinta mulher a ganhar o Urso de Ouro, e seu trabalho mais sensual desde que venceu a Câmera de Ouro do Festival de Cannes por “My Twientieth Century” em 1989. A trama é um romance inusual, com toques de surrealismo, muito erotismo e violência animal. Uma bela mulher com síndrome de Asperger descobre que tem os mesmos sonhos de seu chefe, um homem mais velho e solitário que sofre sintomas de AVC. Ambos se veem como cervos apaixonados em seus sonhos, interagindo numa floresta nevada, e isto faz com que se aproximem, mesmo não tendo nada em comum. A simbologia ainda inclui um detalhe: os dois trabalham num matadouro, e as imagens explicitam a brutalidade do ambiente.

O circuito limitado também inclui duas produções francesas completamente diferentes entre si. Cinemão comercial, “Assim É a Vida” é a nova comédia dos diretores do blockbuster “Intocáveis” (2011), Olivier Nakache e Eric Toledano, passada nos bastidores de um casamento milionário onde tudo dá errado. Apesar de convencional, supera os similares americanos.

“Jovem Mulher” representa a nova geração do cinema de arte francês. Rendeu a Câmera de Ouro no Festival de Cannes para a diretora estreante Léonor Serraille, mas sua grande revelação é a atriz Laetitia Dosch, que vive uma “Frances Ha” francesa e energética. Sua personagem não é tão jovem quanto acredita ser, nem tem dinheiro, planos ou mesmo um teto, mas está decidida a não se deixar abalar e recomeçar do zero após sair de um relacionamento. Sem se preocupar em resolver totalmente a trama, o filme é um estudo de personagem apaixonante.

Por fim, “Todas as Meninas Reunidas Vamos Lá” apresenta um projeto de resistência roqueira e feminista nacional: o Girls Rock Camp Brasil, um acampamento só para meninas em Sorocaba, interior de São Paulo, em que elas aprendem a tocar instrumentos, formam bandas, desenvolvem a criatividade, exploram a autoestima e experimentam o empoderamento. Bacana. Mas pena que pareça mais um infomercial do curso do que um documentário de verdade.