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  • Etc,  TV

    Yoná Magalhães (1935 – 2015)

    14 de novembro de 2015 /

    Morreu a atriz Yoná Magalhães, primeira estrela das novelas da rede Globo e protagonista de um dos maiores clássicos do cinema brasileiro. Ela estava internada desde o dia 18 de setembro na Casa de Saúde São José, no Rio de Janeiro, e faleceu na terça (20/10) após uma cirurgia para corrigir uma insuficiência cardíaca, aos 80 anos de idade. Yoná Magalhães Gonçalves Mendes da Costa nasceu em 7 de agosto de 1935 no bairro carioca do Lins de Vasconcelos, e virou atriz por necessidade, para ajudar na renda familiar quando o pai ficou desempregado, ainda na década de 1950. Começou fazendo figuração e pequenos papeis na TV Tupi, quando a TV dava seus primeiros passos e, aos 20 anos, integrou o elenco da telenovela “As Professoras” (1955), exibida ao vivo, antes da chegada dos videotapes. Apareceu em teleteatros da emissora e em dois filmes, “Pista de Grama” (1958) e “Alegria de Viver” (1958), antes de uma excursão teatral levá-la para a Bahia, onde se casou com o produtor Luís Augusto Mendes e se estabeleceu. A mudança para Salvador a levou a trabalhar com o grupo de teatro A Barca em produções da TV Itapoã. Mas principalmente a colocou no lugar certo e na hora certa em que Glauber Rocha procurava formar o elenco de sua obra-prima, “Deus e o Diabo na Terra do Sul” (1964) – com a ajuda de seu produtor, casado com Yoná. Por ocasião do cinquentário do filme, Yoná contou que o então marido, Luiz Augusto, foi quem convenceu Glauber a chamá-la para o papel de Rosa, uma personagem que lhe proporcionou umas das atuações mais importantes de sua carreira. “Creio que Glauber teria outra atriz em mente, porém se viu levado a me aceitar, cofiando mais em sua habilidade como diretor do que em meu talento. E ele estava certo: criou a Rosa e conseguiu fazer com que uma atriz iniciante, apesar de já ser profissional, realizasse uma grande performance”, ela contou no ano passado, em depoimento ao UOL. No grande clássico do Cinema Novo, Yoná interpretou a sofrida Rosa, mulher de Manoel (Geraldo Del Rey). Juntos, eles aderem ao bando do cangaceiro Corisco (Othon Bastos), braço-direito de Lampião, após Manoel, trabalhador pobre e explorado, matar o próprio patrão. O filme marcou época e se tornou a obra mais reverenciada do cinema brasileiro de todos os tempos. “Deus e o Diabo na Terra do Sol” deixou a crítica de joelhos e impulsionou a carreira de Yoná. Ela ainda faria a comédia “Society em Baby-Doll” (1965), de Luiz Carlos Maciel, mas logo não teria mais tempo para o cinema. No mesmo ano, assinou contrato de exclusividade com a recém-inaugurada TV Globo e virou a maior estrela da emissora. Yoná formou o primeiro par romântico de sucesso das telenovelas do canal com o ator Carlos Alberto, começando a parceria com “Eu Compro esta Mulher”, exibida em 1966. No mesmo ano, os dois se casaram, permanecendo juntos até 1971. O casal rapidamente se transformou na dupla preferida da novelista cubana Glória Magadan, responsável pela dramaturgia da emissora, o que transformou Yoná na rainha das telenovelas da Globo. Ela encaixou cinco produções seguidas da escritora. Além de “Eu Compro Esta Mulher”, estrelou “O Sheik de Agadir” (1965), “A Sombra de Rebeca” (1966), “O Homem Proibido” (também conhecido como “Demian, o Justiceiro”, 1968) e “A Gata de Vison” (1968). Atuou ainda em “A Ponte dos Suspiros”, de Dias Gomes, consagrando-se no período das adaptações dos folhetins de época por sua versatilidade, que lhe permitiu aparecer na telinha como espanhola, japonesa, indiana, francesa, norte-americana e italiana. Em 1970, Yoná e Carlos Alberto foram contratados a peso de ouro pela TV Tupi, para atuarem na novela “Simplesmente Maria”. Mas com o fim de seu casamento, a atriz retornou à Globo, vivendo sua primeira vilã em “Uma Rosa com Amor” (1972). Ela seguiu aparecendo em produções de sucesso, como “O Semideus” (1973), “Corrida do Ouro” (1974), “Cuca Legal” (1975), “Saramandaia” (1976) e acabou causando controvérsia em “O Grito” (1975), de Jorge Andrade, pela sensualidade de sua personagem, a secretária Kátia. Outro papel importante se materializou em “Espelho Mágico”, novela inovadora, que usava de metalinguagem. Seu personagem era Nora Pelegrine, uma atriz infeliz de novelas, que vivia das glórias e lembranças do passado. A história, porém, refletia de forma muito próxima a vida real, tanto que, após “Sinal de Alerta” (1978), a atriz cansou de viver coadjuvantes e voltou para a Tupi, onde protagonizou “Gaivotas” (1979). Na sequência, foi para a TV Bandeirantes, onde estrelou “Cavalo Amarelo” (1980), contracenando com Dercy Gonçalves, e foi a protagonista feminina de uma das mais ambiciosas produções da TV brasileira, “Os Imigrantes”, de Benedito Ruy Barbosa. Na trama, que se estendia por décadas, ela viveu a espanhola Mercedes, da juventude à velhice, bem como sua filha Mercedita. Os papéis renderam novo show de interpretação. A atriz voltou à TV Globo em 1984, com a novela “Amor com Amor se Paga”. E logo no ano seguinte participou de um dos maiores fenômenos de audiência da emissora, “Roque Santeiro” (1985). Na novela, viveu Matilde, mulher liberal, proprietária da Pousada do Sossego e da boate Sexu’s, o que lhe permitiu a criação de cenas antológicas com a colega Regina Duarte – a Viúva Porcina tinha ciúmes da amizade de Matilde com Sinhozinho Malta (Lima Duarte). Por conta do sucesso da personagem, ela foi convidada a posar nua para a revista Playboy. O detalhe: fez suas fotos sensuais no auge de seus 50 anos de idade. Sem diminuir o ritmo, viveu novos personagens marcantes, como a temperamental Índia do Brasil em “O Outro” (1987), a ex-prostituta milionária Lalá de “Vida Nova” (1988), a madastra de “Tieta” (1989), que fica alegre quando enviúva, e a fogosa e sofisticada Valentina Venturini de “Meu Bem Meu Mal” (1990). Durante a década de 1990, Yoná Magalhães atuou em mais seis novelas, quatro delas do autor Walther Negrão: “Despedida de Solteiro” (1992), “Anjo de Mim” (1996), “Era uma Vez” (1998) e “Vila Madalena” (1999). Esteve ainda em “Sonho Meu” (1993), de Marcílio Moraes, e “A Próxima Vítima” (1995), de Silvio de Abreu. Foi ainda mais ativa nos anos 2000, quando apareceu em sete novelas: “A Padroeira” (2001), “As Filhas da Mãe” (2001), “Agora É Que São Elas” (2003), “Senhora do Destino” (2004), “Paraíso Tropical” (2007), “Negócio da China” (2008) e “Cama de Gato” (2009). Além disso, completou sua participação na terceira minisséries de sua carreira: “Um Só Coração” (2004). As anteriores foram “Grande Sertão: Veredas” (1985) e “Engraçadinha” (1995). Mesmo com mais de 70 anos, a atriz ainda chamava atenção pela boa forma física. Em “Paraíso Tropical”, sua personagem tinha várias cenas em que fazia alongamentos, evidenciando sua silhueta atlética. “Eu sou vaidosa e fico feliz de ouvir as pessoas me elogiando, claro. Mas isso não é um mundo novo para mim. Sempre fiz alguma atividade”, disse em entrevista ao jornal O Globo na época, revelando o segredo de sua eterna beleza. Seus últimos trabalhos na TV foram as novelas da Globo “Tapas & Beijos” (2011) e “Sangue Bom” (2013). Ela deixa um filho, Marco Mendes, fruto do casamento com o produtor cinematográfico Luiz Augusto Mendes.

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  • Luiz Carlos Miele
    Filme,  TV

    Luiz Carlos Miele (1938 – 2015)

    14 de novembro de 2015 /

    Morreu o ator, apresentador, cantor e diretor Luiz Carlos Miele. Ele faleceu na manhã desta quarta-feira (14/10), aos 77 anos de idade, em seu apartamento em São Conrado, Zona Sul do Rio de Janeiro, após sentir indisposição e sofrer um mal súbito por volta das 8h23. Luiz Carlos Miele nasceu em 31 de maio de 1938, em São Paulo. Filho da atriz e cantora Regina Macedo (cujo nome real era Irma Miele), ele cresceu em meio ao showbusiness brasileiro do começo do século 20, frequentando programas de rádio desde a infância e dando literalmente “os primeiros passos” da TV brasileira. Sua estreia artística aconteceu por acaso, aos 12 anos de idade, quando o menino que seria protagonista da radionovela “Meu Filho, Meu Orgulho”, na Rádio Excelsior, ficou muito nervoso durante o teste. Regina sugeriu que o filho assumisse o papel, e assim começou uma carreira marcada por “acidentes” e casualidades, como o próprio Miele costumava contar. A transição para a TV também foi fruto de um famoso acidente. Miele estava na rádio Tupi quando a televisão chegou no Brasil, trazida por Assis Chateaubriand. Curioso, o menino entrou no estúdio da TV Tupi durante uma das primeiras transmissões ao vivo e, sem querer, passou na frente da câmera, de calça curta. “Daí alguém falou ‘A TV brasileira dá os primeiros passos’. E os primeiros passos da TV foram as minhas pernas”, ele recordou, em entrevista ao UOL. A estreia oficial na TV acabou acontecendo no “Clube do Canguru Mirim”, programa infantil da TV Tupi em que contracenou com os então adolescentes Érlon Chaves, Régis Cardoso e Walter Avancini. Entretanto, ele não demorou a demonstrar interesse em outras áreas do entretenimento. Em 1959, mudou-se para o Rio de Janeiro para trabalhar na TV Continental como diretor de estúdio e assistente de edição. Como o salário era baixo, precisava dividir um apartamento no Catete com outros seis moradores, incluindo o ator Francisco Milani. Mas a mudança também o inseriu em outro universo artístico. “Miele não era um saudosista, estava sempre pensando em seu próximo projeto. Uma das figuras mais importantes para o entretenimento brasileiro” – João Marcelo Bôscoli No mesmo ano, Miele conheceu o jornalista e letrista Ronaldo Bôscoli, um dos nomes envolvidos na então nascente bossa nova e com quem formaria uma das mais importantes duplas do showbusiness brasileiro. Juntos, produziram shows no hoje lendário Beco das Garrafas, em Copacabana, trabalhando com cantores como Elis Regina, Wilson Simonal e Sérgio Mendes. O êxito da empreitada os levou a organizar espetáculos de alguns dos principais artistas brasileiros, como Roberto Carlos, e até estrangeiros, como Sarah Vaughan. Também tiveram uma boate no Rio, a Monsieur Pujol, por onde passaram, entre 1970 e 1974, astros como Dione Warwick, Burt Bacharach e Stevie Wonder. O sucesso da dupla chamou a atenção da então nascente TV Globo, que os contratou no mesmo mês em que foi fundada, em abril de 1965, para produzir programas musicais. Foram dezenas de programas, entre eles “Alô, Dolly”, “Um Cantor por Dez Milhões, Dez Milhões por uma Canção” e a pioneira série de comédia “Dick & Betty 17”, estrelada pelo cantor Dick Farney e a atriz Betty Faria em 1965 – o primeiro sitcom da Globo. A maior realização televisiva da dupla, porém, foi ao ar num canal rival: o célebre programa “O Fino da Bossa”, apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues na TV Record. Além disso, também produziram “Musical em Bossa 9”, “Dois no Balanço” e a série de comédia “Se Meu Apartamento Falasse”, com Cyl Farney e Odete Lara, na TV Excelsior. Entre muitas outras atrações. Os dois acabaram voltando à Rede Globo em 1970, onde produziram programas de Elis Regina e Marília Pêra e assumiram a direção musical do “Fantástico”. “O Miele não tinha noção da sua própria importância” – Roberto Menescal Neste retorno, Miele acumulou funções e se desdobrou para atuar como apresentador de atrações musicais, como o festival MPB Shell, e shows de variedades como “Miele Show” e “Sandra & Miele” (com a atriz Sandra Brea), investindo ainda na carreira de comediante, com participações em três humorísticos que marcaram época: “Faça Humor, Não Faça Guerra” (1970-1973), “Satiricom” (1973-1976) e “Planeta dos Homens” (1976-1982) – ao lado de Jô Soares, Renato Corte Real, Berta Loran, Paulo Silvino, Renata Fronzi, Agildo Ribeiro e outras feras do humor nacional. Paralelamente, também fez shows de humor, gravou discos (dois deles em parceria com Elis e até o primeiro rap brasileiro, “O Melô do Tagarela”, lançado em 1980) e investiu na carreira de ator de cinema. A estreia na tela grande foi em “Um Homem e Sua Jaula” (1969), seguido pela cultuada comédia “O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil” (1971), de Antonio Calmon. Em ambas, atuou com o amigo Hugo Carvana. Na fase de ouro da Embrafilme, participou ainda do drama clássico “A Estrela Sobe” (1974), de Bruno Barreto, e das antologias “Cada um Dá o que Tem” (1975) e “Ninguém Segura Essas Mulheres” (1976). Em 1976, após a morte do humorista Manuel de Nóbrega, Miele passou a apresentar o humorístico “A Praça da Alegria” na Rede Globo. Do mesmo modo que Manuel na versão original, ele chegava à praça cenográfica, sentava-se no banco e tentava iniciar a leitura de um jornal, quando era interrompido, a todo momento, pelos mais variados tipos, que surgiam de todos os lados. Essa versão do programa durou até 1979, com roteiros e participação de Carlos Alberto de Nóbrega, que depois assumiria o programa de seu pai como “A Praça É Nossa” no SBT. Miele ainda trabalhou na TV Manchete, a partir de 1985, e apresentou o programa “Coquetel” em 1992 no SBT, antes de se focar exclusivamente no trabalho de ator, retomando o cinema numa participação em “O Homem Nu” (1997), dirigido pelo velho amigo Hugo Carvana. Uma década depois, os dois reatariam a parceria no filme “Casa da Mãe Joana” (2008). Ele também participou de três lançamentos recentes, as comédias “As Aventuras de Agamenon, o Repórter” e “Os Penetras”, ambas de 2012 e estreladas pelo jovem humorista Marcelo Adnet, e a cinebiografia “Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho” (2014). “Em outro país, o Miele teria sido o maior showman de todos os tempos” – Sandra Sá Nos últimos anos, voltara a ser presença constante na TV, atuando como integrante fixo do elenco de “Mandrake” (2005-2013), série de detetive inspirada na obra de Rubem Fonseca, no canal pago HBO, e em diversas produções da Globo, como as séries “Casos & Acasos” (2008), “Tapas e Beijos” (2011), “A Teia” (2014), a minissérie “O Brado Retumbante” (2012), a novela “Geração Brasil” (2014), o programa “Domingão do Faustão” (competiu no quadro Dança dos Famosos em 2014) e os humorísticos “Zorra Total” e “Tomara que Caia”. Neste programa, fez sua última aparição televisiva, exibida no dia 6 de setembro. Como ator, Miele ainda deixa uma participação inédita no filme de comédia “Uma Loucura de Mulher”, estreia na direção de Marcus Ligocki (produtor de “O Último Cine Drive-In”), que só chegará aos cinemas em 2016. Cheio de planos, ele até chegou a gravar o piloto de um novo programa de TV, em que lembrava causos de sua vida agitada, e planejava rodar o país com o one-man show “Miele — Contador de Histórias”, título de seu mais recente livro de memórias. Mas, novamente, um acidente aconteceu no meio do caminho. “Estou tristíssima, mas Miele não era um cara de ficar deitadinho dodói. Morreu animadíssimo como foi a vida inteira”, destacou a atriz e amiga Betty Faria. “Não consigo dizer nada além de lugares comuns sobre essa pessoa fantástica. Ele era um amigo de verdade, não só um colega de trabalho. Saudades, só isso”, despediu-se o colega Jô Soares.

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  • Etc,  Filme

    Maria Schneider (1952 – 2011)

    3 de fevereiro de 2011 /

    A atriz francesa Maria Schneider morreu nesta quarta (3/2) em Paris, de câncer, aos 58 anos. Ela ficou internacionalmente conhecida por seu papel no drama “O Último Tango em Paris” (1972), que a transformou em ícone sexual dos anos 70. Nascida Marie Christine Gélin em Paris, Maria Schneider era filha de uma modelo de origem romena e do ator Daniel Gélin, que nunca a reconheceu, e fez pequenos papéis num punhado de filmes, antes de estourar em “O Último Tango em Paris”. Maria só conheceu o pai aos 15 anos, quando fugiu de casa, mas a filiação a ajudou a conseguir emprego no cinema, como figurante, aos 17 anos. Ela estreou sem receber créditos no filme “Les Femmes” (1969). Seu nome não apareceu nas telas, mas foi reconhecido por Brigitte Bardot, a estrela do filme, que era amiga de seu pai. Sabendo de sua história, a estrela a convidou morar em sua mansão. Graças a Brigitte, Maria conheceu diversas personalidades da indústria cinematográfica. Warren Beatty a apresentou à agência de talentos William Morris, que fez subir seu status: de figurante sem falas, tornou-se coadjuvante sem nome em “Madly” (1970), estrelado por Alain Delon, e finalmente uma adolescente sexy e rebelde em “Les Jambes en l’Air” (1971) – praticamente, uma jovem Brigitte Bardot. Ela estava empolgada em fazer um novo filme com Delon, então o maior galã da França, quando veio a oferta para estrelar “O Último Tango em Paris”. Seu primeiro impulso, ao ler o roteiro, foi recusar o papel, mas a agência William Morris lhe aconselhou o contrário: “É um papel de protagonista ao lado de Marlon Brando — você não pode recusar.” A atriz foi selecionada pelo cineasta Bernardo Bertolucci aos 19 anos, após vê-la na casa de Brigitte Bardot. Bertolucci se encantou com aquela jovem ainda desconhecida, que circulava com intimidade pelos quartos da maior estrela da França, acreditando que possuía uma beleza angelical capaz de incendiar o mundo. E tratou de despir seu corpo, para contar uma história tórrida, sobre uma adolescente e um viúvo americano de passagem por Paris, que transam sem se conhecer. Foi um escândalo. Por conta das cenas de nudez frontal e uma sequência picante, envolvendo manteiga e sodomia, o maior sucesso de Maria Schneider se tornou também um dos mais filmes polêmicos de sua época. Não por acaso, “O Último Tanto em Paris” ficou proibido de ser exibido no Brasil por quase uma década, censurado pela ditadura militar. A fama do filme também pesou sobre a carreira da atriz, que passou a receber sempre ofertas de papéis de devassa. Dizendo-se manipulada por Bertolucci e traumatizada pelas cenas mais violentas – o estupro com manteiga não estava originalmente no roteiro e foi improvisado por Brando – , ela jurou nunca mais tirar as roupas no cinema e evitou falar sobre “O Último Tanto em Paris” por boa parte de sua vida. Quando voltou a falar do filme, não teve palavras gentis. Em 2007, ela revelou, numa entrevista: “Marlon me disse na ocasião da cena com a manteiga: ‘Maria, não se preocupe, é apenas um filme’. Mas durante a cena, ainda que não fosse real, eu chorei lágrimas verdadeiras. Eu me senti humilhada e, para ser honesta, um pouco estuprada por Brando e por Bertolucci. Eu devia ter chamado meu agente ou um advogado, porque não sabia se devia fazer uma cena que não estava no roteiro. E, depois da cena, Marlon não me consolou nem se desculpou. Felizmente, tudo durou apenas um take”. Sem tirar as roupas, ela estrelou outra produção importante de mais um proeminente cineasta italiano: “Profissão: Repórter” (1975), de Michelangelo Antonioni, em que atuou ao lado de Jack Nicholson. Obra de fotografia sublime, “Profissão: Repórter” deveria ter estabelecido Maria Schneider como uma das maiores estrelas da Europa. Mas Nicholson, que era um dos produtores, não quis que o filme tivesse um grande lançamento comercial, controlando sua distribuição para garantir que ele fosse apreciado como um “filme de arte”. A atriz também estrelou “La Baby Sitter” (1975), último filme do mestre francês René Clément, que infelizmente fracassou nas bilheterias, uma maldição que acompanhou todo o resto de sua carreira. Ela se envolveu com drogas, passou a ter comportamento errático e desenvolver fama de excêntrica. Em 1975, declarou-se bissexual. Escalada para viver uma das personagens principais de “Caligula” (1979), o épico erótico mais caro do cinema, deu chilique, disse que não tiraria a roupa nas filmagens e acabou demitida. Saiu dos sets de filmagem diretamente para uma clínica psiquiátrica em Roma, onde passou vários dias acompanhada por uma mulher descrita como sua amante. Sua recusa em fazer cenas de nudez também a levou a ser despedida do clássico “Esse Obscuro Objeto do Desejo” (1977), de Luis Buñuel. E houve também uma passagem escandalosa pelo Brasil, em que ela veio filmar no Rio, com a diretora Ana Carolina, surtou e largou a produção antes mesmo de começarem as filmagens. Numa entrevista dada mais tarde, Maria assumiu ter “perdido sete anos” da sua vida, entre o vício em heroína, overdoses, uma tentativa de suicídio e um internamento psiquiátrico. Ao se recusar a mostrar o corpo, ela acabou por enveredar pelo nascente cinema feminista. Auxiliou o despertar sexual de uma dona de casa oprimida em “Io Solo Mia” (1978), drama pioneiro por ter uma equipe técnica composta só por mulheres, da diretora Sofia Scandurra à assistente de iluminação. Assumiu um romance lésbico com a holandesa Monique van de Ven no avançado “Een vrouw als Eva” (1979), um dos primeiros a mostrar de forma positiva um casal de lésbicas. Interpretou ainda uma prostituta sofrida em “La Dérobade” (1979), que lhe rendeu uma indicação ao César (o Oscar francês). Mas, paradoxalmente, encerrou sua década de glória como vítima de “Mama Dracula” (1980), uma vampira que precisava do sangue de jovens virgens, numa das piores interpretações de sua filmografia. O despertar feminista teria sido motivado pelo grande amor de sua vida, a quem ela mencionava apenas como “meu anjo”, sem entrar na polêmica do sexo do anjos – embora as colunas de fofoca apontassem ser a herdeira americana Joan “Joey” Townsend. Maria Schneider continuou a aparecer no cinema e na TV até 2008, quase sempre em papéis secundários – entre eles, o da esposa insana de Edward Rochester na versão de Franco Zeffirelli para o romance gótico “Jane Eyre” (1996). Zeffirelli também lhe ofereceu o papel de Maria em sua minissérie “Jesus de Nazaré” (1977), mas ela recusou, prevendo a polêmica – uma decisão da qual ela se arrependeu. Embora seja sempre lembrada pelo escândalo de “O Último Tanto em Paris”, a atriz emplacou outros cults em sua filmografia. Além dos dramas feministas já citados, fez o suspense surreal “Merry-Go-Round” (1981), do mestre francês Jacques Rivette, e a sci-fi “Bunker Palace Hotel” (1989), do autor de quadrinhos Enki Bilal, um dos fundadores da revista “Metal Hurlant” (“Heavy Metal” nos EUA e resto do mundo). Seu último filme foi “Cliente” (2008), de Josiane Balasko. Na ocasião, lhe perguntaram que conselho daria para as jovens atrizes que estavam começando. “Nunca tire as roupas para velhos safados que dizem que isso é arte”, foi sua resposta.

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