Caçadores de Trolls é renovada e exibirá novos capítulos com a voz do falecido Anton Yelchin
A Netflix anunciou a renovação de “Caçadores de Trolls” para sua 2ª temporada. Mais 13 episódios foram encomendados para série animada produzida pelo cineasta Guillermo del Toro (“A Colina Escarlate”). Além disso, Del Toro confirmou que o ator Anton Yelchin (“Star Trek: Sem Froteiras”) seguirá como a voz do protagonista Jim. Falecido tragicamente no ano passado, o ator deixou bastante material inédito para ser utilizado na nova temporada. “Temos muita coisa de Anton, o que nos permite continuar usando-o como dublador até a metade da temporada”, disse Del Toro. Contudo, o produtor confirma que haverá uma troca de dubladores na série da DreamWorks Animation. “Por coincidência, temos um evento no último episódio que Anton gravou que nos permite trocar sua voz levemente, então o personagem seguirá”, revelou.
Frank Pellegrino (1944 – 2017)
Morreu o ator Frank Pellegrino, uma das estrelas da série “Família Soprano”. Ele faleceu na terça-feira (31/1), em Nova York, aos 72 anos, de câncer de pulmão. Natural de Nova York, o ator estreou no cinema com um pequeno papel em “Os Bons Companheiros” (1990) e em seguida participou de dois filmes de Woody Allen, “Um Misterioso Assassinato em Manhattan” (1993) e “Celebridades” (1998). Sua filmografia inclui ainda “Cop Land: A Cidade dos Tiras” (1997), de James Mangold, a comédia de sucesso “Mickey Olhos Azuis” (1999) e o thriller “Filhos da Máfia” (2001), um dos primeiros filmes de Vin Diesel, que giravam em torno ou da corrupção policial ou da máfia. Pode-se dizer que sua carreira foi marcada por esse tipo de história, tanto que seu papel mais famoso foi mesmo na série da HBO “Família Soprano”, em que interpretou o chefe do FBI Frank Cubitoso, que liderava os esforços para tentar capturar o mafioso Tony Soprano (James Gandolfini). Além de ator, Pellegrino também era conhecido no circuito gastronômico nova-iorquino como um dos donos, ao lado do filho, do famoso restaurante italiano Rao’s, frequentado por seus ex-chefes Scorsese e Woody Allen. Ele ainda publicou vários livros de culinária baseados ns receitas de seu restaurante e abriu franquias em Los Angeles e Las Vegas. Sua morte foi confirmada por Bo Dietl, candidato à prefeitura de Nova York. “Nós perdemos uma parte de Nova York hoje quando perdemos Frankie. Não há ninguém como ele. Ele é um ícone”, afirmou à coluna Page Six, do New York Post.
Vic Militello (1943 – 2017)
A atriz Vic Militello, que marcou época na novela clássica “Estúpido Cupido” e conquistou novas gerações em “Florbella”, morreu neste sábado (28/1), aos 73 anos. Ela estava fazendo tratamento contra um câncer. Filha de artistas circenses, a paulistana Vicência Militello Martelli aprendeu a atuar no picadeiro, com os pais, Dirce Militello e Humberto Militello, apresentando-se em viagens pelo interior do Brasil. Não por acaso, firmou rapidamente sua carreira no teatro, destacando-se em “A Celestina” (1969) e “A Menina e o Vento” (1972), ao mesmo tempo em que dava os primeiros passos no cinema. A estreia na tela grande foi com participações em chanchadas de Fauzi Mansur, mas logo enveredou pelas pornochanchadas, sendo dirigida até por José Mojica Marin, o Zé do Caixão, no terror erótico “Como Consolar Viúvas (1976). Entre “O Poderoso Machão” (1974) e “Eu Faço… Elas Sentem” (1976), acabou encaixando um clássico do cinema brasileiro, “O Rei da Noite” (1975), de Hector Babenco, como uma das três irmãs apaixonadas pelo personagem-título, vivido por Paulo José. A repercussão do filme de Babenco lhe abriu as portas da rede Globo, onde foi logo escalada para viver seu papel mais famoso, como Joana D’Arc, a Daquinha, fazendo par romântico com Tony Ferreira na novela de época “Estúpido Cupido” (1976), sobre a juventude rebelde dos anos 1950. Sua carreira televisiva seguiu curiosa, indo enfrentar o Conde Drácula (ou melhor, Vladimir, vivido por Rubens de Falco) em “Um Homem Muito Especial” (1980), novela gótica romântica da Bandeirantes. Ao retornar para a Globo, conquistou destaque em parcerias com o autor de novelas Carlos Lombardi, que explorou seu lado cômico em papéis exóticos, como a enfermeira Theda Bara de “Vereda Tropical” (1984), a Dominatrix de “Uga Uga” (2000) e Vicky em “Kubanacan” (2003). Ela também participou das minisséries “Primo Basílio” (1988) e “Memorial de Maria Moura” (1994), antes de viver a governanta Helga da novela “Florbella” (na Band, em 2005) e a Mulher Barbada do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” (2005-2007) Paralelamente, seguiu fazendo teatro e cinema, alternando dramas importantes como “Romance da Empregada” (1987), de Bruno Barreto, e “O Homem do Ano”, de José Henrique Fonseca, com projetos mais comerciais, entre eles “Xuxa e os Duendes 2: No Caminho das Fadas” (2002), e “Mais Uma Vez Amor” (2005), em que voltou a se reunir com Lombardi. Seu último trabalho foi na comédia “Amanhã Nunca Mais” (2011), de Tadeu Jungle. Como a sogra do protagonista, vivido por Lázaro Ramos, foi responsável pelas melhores tiradas da produção.
Barbara Hale (1922 – 2017)
Morreu Barbara Hale, atriz da série “Perry Mason” e par romântico, no cinema, de alguns dos principais astros de Hollywood. Ela tinha 94 anos e faleceu na quinta (26/1) em sua casa, em Sherman Oaks, na California. Hale começou a carreira como modelo nos anos 1940, o que levou a um contrato para filmar produções do estúdio RKO, a partir de 1943. Diz a lenda que ela ouviu um diretor de casting fazer uma ligação desesperada em busca de uma substituta para uma atriz que estava doente, e foi assim que estrelou em Hollywood. “Claro que aumentaram a história, porque não era um papel importante e eu tinha só uma frase”, ela contou, anos depois. Mas esse começo modesto não demorou a colocá-la ao lado dos grandes astros da época, como Frank Sinatra (“A Lua a Seu Alcance”, 1943), Robert Mitchum (“A Oeste de Pecos”, 1945), Robert Young (“A Dama da Sorte”, 1946, e “Três é Demais”, 1949), Robert Ryan (“O Menino dos Cabelos Verdes”, 1948) e James Stewart (“Radiomania”, 1950). Os papéis românticos foram diminuindo com o passar dos anos, levando-a a explorar outras vertentes, o que lhe rendeu protagonismo num par de clássicos do cinema noir – “Ninguém Crê em Mim” (1949), de Ted Tetzlaff, e “Alma em Sombras” (1949), de Richard Fleischer – , mas principalmente em diversos westerns B, em que fez par com cowboys clássicos de Hollywood, como Broderick Crawford (“O Sabre e a Flecha”, 1953), Randolph Scott (“O Fantasma do General Custer”, 1956), Joel McCrea (“Na Sombra do Disfarce”, 1953, e “Quando as Pistolas Decidem”, 1957), Jock Mahoney (“Nos Degraus da Glória”, 1957) e até Rock Hudson (“Seminole”, 1953). Ela adorava westerns, porque foi no primeiro que estrelou que conheceu seu futuro marido, o ator Bill Williams, coadjuvante de “A Oeste de Pecos” (1945). Ela aceitou o convite do rapaz para tomar um café e um ano depois já estavam casados. O pai de seus três filhos também foi responsável por demonstrar que fazer séries de TV podia ser prazeroso. Após uma longa carreira cinematográfica, Bill Williams estrelou com sucesso a série “As Aventuras de Kit Carson”, que rendeu mais de 100 episódios entre 1951 e 1955. Em 1957, Hale se juntou ao elenco de “Perry Mason”, uma das séries jurídicas mais influentes da história da TV, no papel de Della Street, a secretária do protagonista interpretado por Raymond Burr. Ela era responsável por alguns insights importantes na resolução dos casos da semana, invariavelmente resolvidos num tribunal. “Quando começamos, ainda havia poucas mulheres na TV retratadas como profissionais, pois eram quase todas donas de casa”, disse Hale, numa entrevista dos anos 1990, sobre o revival da série, “Eu também gostava que ela fosse independente a ponto de não ser casada, porque meu marido, Bill, não precisava me ver casada com outro homem, e nossos filhos não tinham que me ver cuidando de outras crianças”. Pelo papel, Barbara Hale venceu o Emmy como Melhor Atriz Coadjuvante de Série Dramática de 1959. Mas ela participou da série até 1966, aparecendo em todos os 271 episódios produzidos de suas impressionantes nove temporadas. Após o fim de “Perry Manson”, a atriz fez participações em algumas séries, inclusive “Têmpera de Aço”, a nova atração do ator Raymond Burr, e coestrelou o longa “Aeroporto” (1970), como a esposa do piloto vivido por Dean Martin. A produção, que incluía um terrorista a bordo de uma aeronave, gerou um frenesi tão grande que acabou responsável pela tendência dos filmes de desastre. A carreira cinematográfica só incluiu mais um filme relevante, “Amargo Reencontro” (1978), de John Millius, sobre surfistas, em que viveu a mãe de seu filho na vida real, William Katt. Por sinal, ela também fez uma participação num episódio da série que popularizou o filho, “Super-Herói Americano”, em 1982, e ainda atuou ao lado do marido no telefilme “Meu Amigo Lobo” (1976), da Disney. Enquanto isso, “Perry Mason” continuava a ser reprisada com sucesso em diversas estações americanas. A rede CBS tinha tentado se aproveitar disso ao lançar “The New Perry Mason”, uma série com outro elenco nos anos 1970, mas o público não aceitou Monte Markham como Perry Mason e Sharon Acker como Della Street. A novidade foi tão mal recebida que não passou dos 15 episódios. Curiosos para ver como o público reagiria à volta do elenco original, os produtores convidaram Burr e Hale a retomarem seus papéis num telefilme, que foi lançado com toda a pompa como “O Retorno de Perry Mason” em 1985. A produção bateu recorde de audiência. A repercussão foi tanta, que novos telefilmes foram encomendados, num total de 30, rendendo mais uma década de casos resolvidos. Nem a morte de Raymond Burr, em 1993, interrompeu a produção, mas deixou Della Street, a personagem de Hale, como a única que participou de todos casos originais de “Perry Mason”. Notadamente, o último telefilme, exibido em 1995, foi também o último trabalho da carreira da atriz.
Emmanuelle Riva (1927 – 2017)
Morreu a atriz francesa Emmanuelle Riva, ícone da nouvelle vague, que ganhou fama mundial como a protagonista de “Hiroshima Meu Amor” (1959), de Alain Resnais, e voltou a ter grande destaque recentemente com “Amor” (2012), do austríaco Michael Haneke, que lhe rendeu a sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Ela lutava havia anos contra um câncer e faleceu na sexta-feira (27/1), aos 89 anos. Nascida em 1927 em uma família de operários do leste da França, Paulette (seu nome real) declamava desde a adolescência as falas de personagens clássicos do teatro em seu quarto. Aos 19 anos, pouco depois do fim da 2ª Guerra Mundial, viajou a Paris para estudar artes dramáticas, mas só foi aparecer no cinema no final da década seguinte. Após figurar em “Volúpia de Prazer” (1958), topou o desafio de aparecer nua num filme de caráter poético-experimental, sobre o romance entre uma francesa e um arquiteto japonês de Hiroshima, a cidade devastada pelo primeiro ataque com bomba atômica da história. Sua nudez serviu de chamariz para o filme, que era extremamente intelectual. Mas se virou musa instantânea, também precisou lutar para não ficar marcada como sexy. Para tanto, tomou uma série de decisões ousadas, ilustrando o lado pouco sensual da prostituição em “Ádua e Suas Companheiras” (1960), de Antonio Pietrangeli, e aparecendo totalmente desglamourizada em “Kapò: Uma História do Holocausto” (1960), de Gillo Pontecorvo, como uma prisioneira de campo de concentração nazista. Em 1962, ela venceu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza por seu papel em “Thérèse Desqueyroux”, como a fria personagem-título, suspeita de ter matado o próprio marido. Mas não voltar a receber maiores reconhecimentos por décadas, mesmo trabalhando com grandes cineastas, como André Cayatte em “Atentado ao Pudor” (1967), Fernando Arrabal em “Irei Como um Cavalo Louco” (1973), Marco Bellochio em “Olhos na Boca” (1982), Philippe Garrel em “Liberté, la Nuit” (1984) e Krzysztof Kieslowski em “A Liberdade É Azul” (1993). Passaram-se 50 anos até Riva voltar às cerimônias de premiação. Em “Amor” (2012), ela interpretou uma mulher doente, à beira da morte e em meio a grandes sofrimentos, compartilhados por seu marido, interpretado por Jean-Louis Trintignant, e a filha, vivida por Isabelle Huppert. Filmado nos cômodos de uma casa, de onde a personagem não conseguia sair, “Amor” se tornou o filme-sensação de 2012, iniciando uma carreira vitoriosa a partir de sua première com a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Ao ser indicada ao Oscar, Riva se tornou a atriz mais velha já reconhecida pela premiação. Não conquistou o troféu americano, mas venceu o César (o “Oscar francês”) e o BAFTA (o “Oscar inglês”). Ela também apareceu no simpático “O Verão do Skylab” (2011), de Julie Delpy, e viu aumentar os convites para filmar obras de cineastas dos mais diferentes países, enquanto buscava retomar a carreira no teatro, num surto de atividade com mais de 80 anos de idade. Em 2014, recebeu seu último prêmio, o Beaumarchais, entregue por um júri de críticos do jornal francês Le Figaro, por sua atuação na peça “Savannah Bay”, de Marguerite Duras. A atriz deixou um filme inédito, “Alma”, do islandês Kristín Jóhannesdóttir, e iria estrelar “Les Vacances”, do iraniano Mohsen Makhmalbaf. “Até o final permaneceu ativa”, declarou sua agente, Anne Alvares Correa. “Emmanuelle Riva era uma mulher comovente, uma artista de rara exigência”, afirmou Frédérique Bredin, presidente do Centro Nacional do Cinema (CNC) da França. “Foi-se uma voz inesquecível, habitada pelo amor das palavras e da poesia.”
John Hurt (1940 – 2017)
Morreu o ator inglês John Hurt, que marcou a história do cinema e da TV com personagens icônicos. Ao longo da carreira, ele enfrentou alienígenas e ajudou Indiana Jones, caçou espiões e foi caçado pelo Big Brother, viajou no tempo na Tardis e fabricou a varinha mágica de Harry Potter, deixando uma filmografia memorável de mais de cinco décadas de papéis inesquecíveis, vindo a falecer na sexta (27/1) em sua casa, em Norfolk, no interior da Inglaterra, aos 77 anos, após uma longa luta contra um câncer de pâncreas. Sua longa carreira começou nos anos 1960, com pequenos papéis em filmes como “O Homem que Não Vendeu sua Alma” (1966), “O Marinheiro de Gibraltar” (1967), “O Irresistível Bandoleiro” (1969) e “À Procura do Meu Homem” (1969), mas só foi se destacar na década seguinte por uma série de escolhas ousadas, a começar pelo papel de vítima do caso real de “O Estrangulador de Rillington Place” (1971) e o de canibal em “O Carniçal” (1975). O ponto de virada, porém, aconteceu na TV, no telefilme “Vida Nua” (1975) sobre a vida de Quentin Crisp. O escritor que exibia sua homossexualidade com orgulho, andando maquiado pelas ruas, era uma figura popular na Inglaterra, mas Hurt foi aconselhado por seus agentes a não vivê-lo na TV. Disseram que ficaria marcado como gay e nunca mais trabalharia novamente. Hurt ignorou os avisos e estrelou sua primeira obra como protagonista. Como resultado, ganhou seu primeiro reconhecimento da Academia britânica, o BAFTA de Melhor Ator. E, empolgado, assumiu em seguida um papel ainda mais controvertido, como o imperador Calígula na minissérie “Eu, Cláudio” (1976). O destaque obtido nas duas obras levou o diretor Alan Parker a escalá-lo em “O Expresso da Meia-Noite” (1978), como um prisioneiro viciado numa cadeia turca. A interpretação magistral lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e o seu segundo prêmio BAFTA. O papel pelo qual é mais lembrado, porém, não lhe rendeu troféus, mas fez sua popularidade atingir as estrelas. Em 1979, ele seguiu o diretor Ridley Scott para a morte certa, a bordo de uma nave espacial. Hurt foi a primeira vítima do que viria a se tornar uma franquia, dando “luz” ao terror de “Alien” (1979), literalmente com suas entranhas. A cena em que sua barriga explode, para o surgimento de um bebê alienígena, entrou para a história do cinema. Tornou-se tão famosa que rendeu até paródias – inclusive com o próprio Hurt revivendo o papel do astronauta Kane em “S.O.S. – Tem um Louco Solto no Espaço” (1987), de Mel Brooks. Sua segunda e última indicação ao Oscar veio logo em seguida, desta vez na categoria de Melhor Ator, sob a maquiagem pesada de “O Homem Elefante” (1980), de David Lynch. Para viver John Merrick, Hurt precisou demonstrar capacidade de se comunicar sob as próteses que o deformavam, realçando seu enorme talento para transmitir emoções. Consagrado, foi coadjuvar o western épico “O Portal do Paraíso” (1980), de Michael Cimino, uma das obras mais caras da época. O fracasso do projeto faliu o estúdio United Artists e até hoje rende discussões apaixonadas entre cinéfilos. Mas representou o fim de uma era para o cinema americano. Não por acaso, os próximo trabalhos do ator em Hollywood foram comédias de estilo besteirol, vivendo Jesus Cristo em “A História do Mundo – Parte I” (1981), de Mel Brooks, e um policial gay em “Dois Tiras Meio Suspeitos (1982), de James Burrows. Após estrelar o suspense “O Casal Osterman” (1983), do mestre Sam Peckinpah, Hurt voltou a filmar com cineastas ingleses, rodando o thriller “O Traidor” (1984), com Stephen Frears, e a sci-fi “1984” (1984), com Michael Radford. Seu retorno à ficção científica novamente marcou época, dando à história clássica do Big Brother de George Orwell sua versão definitiva, com uma cenografia retrô, que entretanto não podia ser mais visionária. Hurt continuou se destacando também em produções de época, como “Incontrolável Paixão” (1987), passada na África colonial e dirigida por Radford, e “Escândalo: A História que Seduziu o Mundo” (1989), de Michael Caton-Jones, sobre um affair entre uma stripper e um ministro britânico nos anos 1960. Sua filmografia seguiu crescendo. Entre comédias americanas ligeiras como “Este Advogado É Uma Parada” (1987) e “Rei Por Acaso (1991), e dramas britânicos sérios, como “Terra da Discórdia” (1990), de Jim Sheridan, e “Uma Nova Chance” (1994), de Chris Menges, também encontrou espaço para um terror B, como “Frankenstein – O Monstro das Trevas” (1990), realizado por ninguém menos que Roger Corman, uma sci-fi sofisticada, como “Contato” (1997), de Robert Zemeckis, e um blockbuster épico, como “Rob Roy: A Saga de uma Paixão” (1995), de Caton-Jones. O século 21 ampliou sua galeria de blockbusters, com participações nas franquias “Harry Potter” (2001-2011) e “Hellboy” (2004-2008), na adaptação de quadrinhos “V de Vingança” (2005), na aventura “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” (2008), e mais recentemente no premiado suspense “O Espião Que Sabia Demais” (2011) e na sci-fi “Expresso do Amanhã” (2013). A voz rouca, capaz de soar serena ou ameaçadora, também lhe rendeu diversos trabalhos de dublagem e narração, em obras tão distintas quanto a versão animada de “O Senhor dos Anéis” (1978), de Ralph Bakshi, “Tigrão – O Filme” (2000), da Disney, e até “Dogville” (2003) e “Manderlay” (2005), de Lars Von Trier – sem esquecer a voz do dragão da série “As Aventuras de Merlin” (2008-2012). Entre seus últimos papéis, estão participações nas séries “Doctor Who” em 2013, como o personagem-título, e “The Last Panthers” (2015), além do filme “Jackie” (2016), indicado ao Oscar 2017. Incansável, Hurt deixou três filmes inéditos e trabalhava no quarto, a cinebiografia de Winston Churchill, “The Darkest Hour”, quando faleceu. Sua excepcional filmografia foi reconhecida com um BAFTA especial pela contribuição excepcional para o cinema britânico em 2012, além da distinção de ter sido nomeado cavaleiro da Ordem do Império Britânico pela Rainha Elizabeth II em 2015. Na mesma época, anunciou que lutava contra o câncer. John Hurt possui ainda a distinção de ter sido o ator que mais morreu em cena, na história do cinema. Mas sua lembrança permanecerá viva eternamente em papéis que encantaram gerações, e continuarão encantando por anos a fio. Nas redes sociais, os diversos artistas que se manifestaram sintetizaram suas homenagens basicamente numa palavra-chave: “Inspiração”.
Mike Connors (1925 – 2017)
Morreu o ator Mike Connors, intérprete da série “Mannix”, um dos grandes sucessos da TV dos anos 1960 e 1970. Ele faleceu em Los Angeles, aos 91 anos, de leucemia. Connors iniciou a carreira com o pseudônimo Touch Connors no início dos anos 1950, aparecendo em pequenos papéis nos clássicos “Precipícios d’Alma” (1952) e “Geleiras do Inferno” (1953), e logo se tornou um dos coadjuvantes mais utilizados nas primeiras produções baratas do diretor Roger Corman, como “Cinco Revólveres Mercenários” (1955), “O Dia que o Mundo Acabou” (1955), “Mulheres do Pântano” (1956) e “A Onça de Oklahoma” (1957). A variedade de produções do período ainda incluiu outros trash famosos, como “Jaguar” (1956), aventura na selva estrelada por Sabu, “Shake, Rattle & Rock!” (1956), um dos primeiros filmes de rock, com participação dos bluesmen Fats Domino e Big Joe Turner, e o cultuadíssimo “O Poço da Perdição” (Live Fast, Die Young, 1958), sobre garotas rebeldes. Ao mesmo tempo, ele também se juntou à luta de Moisés no clássico “Os Dez Mandamentos” (1956). Buscando se afastar da imagem de delinquente juvenil dos filmes B, passou a fazer participações em séries com seu nome real, Michael Connors. Ele apareceu em inúmeros episódios, especialmente de westerns – como “Paladino do Oeste”, “Maverick”, “Gunsmoke”, “Cavarana”, “Cheyenne” e “Cimarron” – , até se tornar conhecido o suficiente para estrelar sua própria atração. O primeiro protagonismo televisivo veio com “Na Corda Bamba” (Tightrope), na qual viveu um policial infiltrado no crime organizado. A trama marcou época, apesar de ter durado apenas uma longa temporada de 37 episódios em 1959. O cancelamento da atração o levou de volta ao cinema – chegou até filmar uma aventura no Rio, “Operação Paraíso” (1966) – , antes de voltar a protagonizar uma nova série, agora como Mike Connors. “Mannix” o consagrou como grande astro da TV americana. Produção da dupla Richard Levinson e William Link (criadores também de “Columbo” e “Assassinato por Escrito”) em parceria com Bruce Geller (criador de “Missão Impossível”), a série girava em torno dos casos investigados por Joe Mannix, um veterano de Guerra da Coreia transformado em detetive particular. O que o diferenciava dos demais detetives televisivos era que ele usava seus punhos, resolvendo seus casos na base da porrada. Para solucionar o crime da semana, invariavelmente se metia numa briga e, ainda que sempre vencesse, também apanhava muito. A série rendeu impressionantes 194 episódios, com oito temporadas exibidas entre 1967 e 1975, e sua popularidade rendeu até um crossover com a sitcom “Here’s Lucy”, de Lucille Ball – “Mannix” era uma produção da Desilu (empresa do casal Lucille Ball e Desi Arnaz). Mas a atração costuma ser mais lembrada por sua música-tema, uma das melhores da história da TV, composta pelo mestre Lalo Schifrin (também de “Missão Impossível”), que acompanhava uma abertura igualmente memorável, com imagens em tela dividida e cores inspiradas nos quadros de Mondrian. Após o final de “Mannix”, Connors atuou em diversos telefilmes e estrelou uma última série policial, “Today’s F.B.I.”, que durou só uma temporada em 1981. Ele continuou fazendo participações em séries, chegando a aparecer em três episódios de “Assassinato por Escrito”, dos mesmos criadores de “Mannix”, nos anos 1990. E até voltou a viver Joe Mannix na comédia de cinema “Ninguém Sabe Tudo” (2003), antes de encerrar a carreira com uma aparição num episódio de “Two and a Half Men”, em 2007. Connors tinha sido diagnosticado com leucemia há apenas uma semana e morreu cercado pela família, incluindo sua esposa Mary Lou, com quem foi casado por 68 anos. Relembre abaixo a abertura clássica de “Mannix”.
A Morte de Luís XIV é uma obra mórbida de arte
Um filme que cheira à morte. Assim pode ser descrito a nova obra de Albert Serra, “A Morte de Luís XIV”, que apesar de parecer um desafio para um público mais amplo, é tão fascinantemente mórbido que prende o espectador até seu doloroso fim. Quem teve a paciência de ver até o final o primeiro filme do cineasta catalão, “Honra dos Cavaleiros” (2006), pode até considerar “A Morte de Luís XIV” extremamente acessível. Mas é um filme de andamento narrativo lento e que abusa da sensação de claustrofobia – a história se passa quase que inteiramente dentro do quarto de Sua Majestade. O título deixa claro do que a produção se trata. E desde o começo da narrativa o rei da França já aparece extremamente debilitado, reclamando de uma dor na perna. É razoável imaginar que o fato de ser um monarca lhe permitiria maior conforto, mas o tratamento privilegiado apenas torna sua decadência física mais incômoda e escancaradamente visível. Vê-se a manifestação tangível da morte em cada etapa de sua deterioração, a começar pelo orgulho próprio. Ansioso por participar de uma missa ou de uma reunião importante, o rei percebe que não tem condições de fazer qualquer coisa a não ser ficar deitado em seu leito. “A Morte de Luís XIV” mostra sua agonia com muitos silêncios e muitos sussurros. O rei pouco fala, até porque não tem forças. Mas aqueles que estão monitorando e tentando salvá-lo da doença conversam o tempo todo sobre as possibilidades de cura, de tentar salvar a perna doente, de pensar na alimentação como possível inimiga da saúde etc. E a linguagem narrativa de Serra em seu filme é tão impressionantemente realista que é quase como se estivéssemos ali pertinho do rei moribundo, aguardando como urubus o momento de sua partida final. Mas, ao mesmo tempo que é realista na condução da dramaturgia, há todo um cuidado formal com a disposição da câmera, das cores (com destaque para o vermelho) na fotografia, e outros aspectos que valorizam a construção das cenas, refletindo os tons e a suntuosidade da pinturas de Hyacinthe Rigaud, retratista favorito do rei. Não custa lembrar que Luís XIV é considerado o maior rei da França. Recebeu a alcunha de “Rei Sol” e reinou longos 72 anos, sendo que foi durante o seu reinado que o país chegou à liderança das potências europeias. Saber esses e outros detalhes é importante para situar a comoção que a morte do rei pode ter causado na época. Mas, mesmo não sabendo nada a respeito do personagem, o filme de Serra tem uma força impressionante, com sua atmosfera lúgubre. Para os cinéfilos, também ressoa a escalação de Jean-Pierre Léaud, que será eternamente lembrado por seu papel como o inquieto e enérgico Antoine Doinel, cuja trajetória começou ainda criança nos filmes de François Truffaut. Quem apostaria, em 1959, que o menor de “Os Incompreendidos” continuaria no cinema por mais de meio século para se mostrar como um homem velho em estado terminal?
Até o Último Homem é a melhor estreia em semana cheia de filmes de chorar
Com nove estreias, os cinemas voltam a registrar novidades no circuito limitado após a temporada de blockbusters de férias. Em parte é o efeito Oscar, com o lançamento de “Até o Último Homem” conquistando destaque num circuito intermediário. Melhor filme da semana e indicado a seis Oscars, “Até o Último Homem” é a volta de Mel Gibson à direção, uma década após seu último longa-metragem e depois de muitas polêmicas em sua vida pessoal. A produção traz as marcas do diretor, vencedor do Oscar por “Coração Valente” (1995). Com explosões, tiros, abusos e carnificina, apresenta um espetáculo apocalíptico de guerra, com direito a cenas brutais para ilustrar o contraste entre a desumanização e a fé. A trama é baseada na história real do soldado Desmond T. Doss, que ganhou a Medalha de Honra do Congresso dos EUA depois de se recusar a pegar numa arma durante toda a 2ª Guerra Mundial. Vivido por Andrew Garfield (“O Espetacular Homem-Aranha 2”), Doss sofre bullying e humilhação de seus colegas recrutas, mas não abre mão de suas convicções, conquistando o direito de ir a combate desarmado. Taxado de covarde, ele se torna uma lenda ao salvar, sozinho, a vida de 75 homens durante a Batalha de Okinawa, resgatando feridos e ajudando a evacuar as linhas inimigas, mesmo atingido por uma granada e um franco-atirador japonês. Entre os Oscars a que concorre, estão os de Melhor Filme, Direção e Ator. O filme de Gibson é assumidamente emotivo e chega numa semana repleta de filmes manipulativos, embora alguns lançamentos deem outros motivos para chorar. Como é difícil definir qual o pior, “Resident Evil 6 – O Capítulo Final” ao menos tem o mérito de dar o fim numa franquia excruciante. Além disso, o público sabe exatamente no que está se metendo ao comprar o ingresso, após cinco filmes com zumbis que não assustam, lutas em câmera-lenta que ressaltam como o tempo demora a passar e 3D que não esconde o aspecto B da produção. “Max Steel”, por sua vez, merece todas as cópias dubladas que vai receber, pois não passa de um telefilme superestimado para crianças. Lançado em 2 mil cinemas nos EUA, a adaptação do brinquedo/desenho animado só fez US$ 3 milhões e conseguiu recorde de desaprovação no site Rotten Tomatoes, atingindo 0% de críticas positivas. O impressionante é que isso não abalou os planos da distribuidora nacional, que está ocupando salas com seu lançamento. O cheio de lixo também exala de “Beleza Oculta”, indicado ao Framboesa de Ouro de pior combinação de elenco. Melodrama apelativo, tenta contar uma história edificante com diversos atores conhecidos, mas resulta hilariante no pior sentido. A média no Rotten Tomatoes é 12%. “Quatro Vidas de um Cachorro” é outra dose canina de manipulação emotiva. Feito para ressaltar a ligação afetiva entre homens e cachorros, apela para a crença na vida após a morte para confortar crianças com a ideia de que, quando morrem, os cãezinhos viram magicamente um novo cachorro. Não bastasse, a trama ainda mostra as dúvidas metafísicas do bicho. Mas o escândalo do vídeo editado, com supostos maus tratos na filmagem, deve ter diminuído a vontade dos fãs do best-seller (sério, esta história vendeu horrores) de pagar para chorar no cinema. 30% no Rotten Tomatoes. Dentre tantos produtos infantilóides, a melhor opção para as crianças é a animação “A Bailarina”, produção franco-canadense que tenta replicar a magia da Disney e surpreende pela qualidade técnica. A trama gira em torno de uma menina órfã (dublada no Brasil por Mel Maia) que sonha virar uma grande bailarina na Paris do século 19, mas para seguir seu sonho precisa fugir de casa, com a ajuda de um menino que sonha virar um grande inventor. Não há fada madrinha para abrir caminhos de forma mágica, o que torna a mensagem desta Cinderela mais relevante, ao mostrar que trabalho e dedicação são o caminho para conquistar os sonhos. A realização de sonhos também é o mote de “O Ídolo”, uma espécie de “Quem Quer Ser um Milionário?” palestino. Escrito e dirigido por Hany Abu-Assad, acompanha um jovem da Faixa de Gaza, que sonha virar músico e vê no programa “Arab Idol” (o “Ídolos” do Oriente Médio) a oportunidade de trocar a penúria da zona de conflito pela vida de artista famoso. A fórmula bem conhecida de sucessos de Hollywood, baseada em “fatos reais”, desta vez é apresentada como filme de arte. E exibida em circuito limitado. Filme russo de maior destaque nos festivais mais recentes, “Paraíso” é trabalho de um mestre, Andrey Konchalovskiy, que recuperou o prestígio com vários troféus acumulados após voltar ao cinema de arte, tendo dirigido até Sylvester Stallone nos anos 1980. Filmado em preto e branco e apresentado como um pseudo-documentário, com depoimentos dos protagonistas, acompanha as circunstâncias dramáticas do reencontro entre uma aristocrata russa, condenada aos campos de concentração por abrigar judeus, e um oficial nazista que a amava desde a juventude. Completa o circuito o lançamento mais “artístico” e “difícil”, “A Morte de Luís XIV”. Mórbido, retrata a lenta agonia do rei da França, que começa a morrer cercado por seus súditos. Além da interpretação de Jean-Pierre Léaud, chama atenção a belíssima fotografia, que evoca pinturas dos grandes mestres do período. O diretor catalão Albert Serra já tinha tratado do tema da deterioração humana em seu filme anterior, “História da Minha Morte” (2013). Em suas obras, morrer não é bonito como em “Quatro Vidas de um Cachorro”. Clique nos títulos dos filmes para ver os trailers de cada uma das estreias.
Mary Tyler Moore (1936 – 2017)
Morreu a atriz Mary Tyler Moore, estrela da série pioneira que levava seu nome, vencedora de seis prêmios Emmy e indicada a um Oscar de Melhor Atriz por “Gente como a Gente” (1980). Ela faleceu nesta quarta (25/1), aos 80 anos. “Hoje, nosso amada e icônica Mary Tyler Moore faleceu aos 80 anos na companhia de amigos e de seu marido por 33 anos, Dr. S. Robert Levine”, disse sua agente Mara Buxbaum em comunicado. “Uma grande atriz, produtora e apaixonada defensora da Fundação pela Pesquisa da Diabetes Juvenil, Mary vai ser lembrada como uma destemida visionária que transformou o mundo com seu sorriso.” O sorriso marcante da atriz era mencionado na música-tema (“Quem pode ligar o mundo com seu sorriso?”) da série batizada com seu nome. Mas muito antes disso já chamava a atenção na TV. Afinal, sua carreira começou como atriz mirim, em comerciais dos anos 1950. Nascida no Brooklyn, em Nova York, em 1936, Mary se mudou com a família para Los Angeles quando tinha 8 anos. O sonho de infância de virar dançarina acabou se tornando seu primeiro papel, escalada como bailarina em diversas séries e filmes, antes de ter direito às primeiras falas. Ela rodopiou por inúmeras atrações sem chamar atenção, até cair nas graças do produtor Carl Reiner, que lhe deu seu primeiro personagem fixo na série “The Dick Van Dyke Show”. Mary despontou para o estrelato ao interpretar uma dona de casa suburbana, apesar de ter só 25 anos, casada com Dick Van Dyke, 11 anos mais velho que ela. Exibida entre 1961 e 1966, na rede americana CBS, “The Dick Van Dyke Show” também marcou seu primeiro choque com o conservadorismo americano. Afinal, ela aparecia na série de calças capri, em vez de vestidos. Os mais velhos reclamaram. E as calças viraram moda. Sucesso de público, a personagem Laura Petrie lhe rendeu sua primeira indicação ao Emmy em 1963, seguida por duas vitórias na premiação, em 1964 e 1966, que abriram as portas de Hollywood. E foi amor à primeira vista. O famoso sorriso de Mary chegou a roubar as cenas de Julie Andrews na comédia “Positivamente Millie” (1967), seduzir George Peppard em “À Caça de um Clandestino” (1968) e encantar até Elvis Presley em “Ele e as Três Noviças” (1969). A fama atingiu proporções tão grandes que os produtores da rede CBS lhe propuseram um negócio que poucas mulheres poderiam esperar naquela época: sua própria série, com seu nome, com ela própria produzindo, a partir de sua empresa, que ela ainda não tinha. Se o negócio a transformava numa das mulheres mais poderosas da indústria do entretenimento, “The Mary Tyler Moore Show”, que no Brasil foi exibida simplesmente como “Mary Tyler Moore”, também impressionou pela ousadia de sua temática feminista. O título confundia muita gente no Brasil, já que a personagem se chamava Mary Richards. Mas a mensagem não deixava dúvidas: aquela Mary era uma mulher sensacional. Ainda era 1970, e enquanto a maioria das atrizes da TV interpretava donas de casa, Mary era definitivamente solteira e não buscava um marido como objetivo de vida. Ao contrário, sua dedicação era ao trabalho e às amigas, ainda que a descrição da personagem dizia que ela não tinha “sorte no amor”. Primeira mulher independente da TV americana, Mary Richards era uma jornalista recém-chegada na cidade de Minneapolis, que conseguia um emprego numa estação de TV local. Na verdade, era tão incomum ver mulheres trabalhando em redações de telejornais, que Mary foi a primeira profissional feminina do programa fictício da série, e precisou enfrentar muito machismo para ser levada a sério. Sua personagem inclusive cobrava igualdade salarial aos colegas de trabalho do sexo masculino. Mas “Mary Tyler Moore” também mostrava a vida da personagem nas horas de folga, revelando a amizade com a senhoria idiossincrática, a vizinha fashionista e outras mulheres em diferentes estágios de vida, apresentando temas até então inéditos na TV, como – escândalo! – o uso de anticoncepcionais. O programa virou ícone feminista, mas também representou como poucos o zeitgeist da década de 1970. O mais impressionante é que o pioneirismo não espantou o público. Ao contrário, “Mary Tyler Moore” ficou no ar entre 1970 e 1977, rendendo grande audiência e mais prêmios para atriz. Ela concorreu ao Emmy durante todos os anos em que a série foi exibida, vencendo em mais três oportunidades. O sucesso foi tanto, que se desdobrou numa coleção de spin-offs, dedicados à amiga fashionista Rhoda (Valerie Harper), à senhoria Phyllis (Cloris Leachman) e ao editor Lou Grant (Edward Asner). Logo ao final da produção, a atriz despontou no cinema, vivendo uma mãe amargurada pela morte do filho mais velho no drama “Gente como a Gente” (1980), estreia na direção do ator Robert Redford. Pelo papel, foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz. A produção acabou vencendo o Oscar de Melhor Filme e Direção, e não falta, até hoje, quem considere estes prêmios um equívoco provocado pelo carisma de Redford, querido em Hollywood – “Gente como a Gente” e Redford venceram simplesmente a obra-prima “O Touro Indomável” e seu cineasta, Martin Scorsese. Em paralelo à produção, Richie, seu filho do primeiro casamento, morreu devido ao disparo acidental de uma espingarda, aos 24 anos. “Gente como a Gente” virou gente como Mary Tyler Moore. E ela sentiu o baque. Seja por qual motivo, o fato é que, o que parecia um começo promissor para sua carreira cinematográfica, acabou dando em nada. Ela teve apenas outro papel de protagonista no cinema, em “Só Entre Amigas” (1986), de Allan Burns, e pouquíssimos trabalhos de coadjuvante. A atriz também não conseguiu emplacar outra série de sucesso, mesmo usando seu nome (“The Mary Tyler Moore Hour” e “Mary”) como chamariz. Entretanto, sempre que a CBS produzia um especial de reencontro do elenco da “Mary Tyler Moore” original, a audiência disparava. Foram vários, entre eles um especial de aniversário de 20 anos, exibido em 1991, e um telefilme de duas horas, “Mary and Rhoda” (2000), que mostrava o que tinha acontecido com as duas grandes amigas, 30 anos depois. O sucesso desta produção rendeu nova reunião com todo o elenco, dois anos depois. A verdade é que a TV continuou cultivando a idolatria da série por anos a fio, a ponto de realizar um reencontro informal há pouquíssimo tempo, com todo as atrizes originais num episódio do sitcom “Calor em Cleveland” (Hot in Cleveland), exibido em 2013. Além de trabalhar como atriz, Mary experimentou colocar em prática o modo de vida que pregava diante das câmeras. Virou uma empresária bem-sucedida, após a companhia que criou para produzir “Mary Tyler Moore” em 1970, a MTM Enterprises, lançar novos sucessos nos anos 1980, como as séries aclamadas “Bob Newhart Show” e “Hill Street Blues”, além de produzir vários espetáculos na Broadway. O negócio foi vendido em 1988 por US$ 320 milhões, quando ela decidiu se “aposentar”. Com o dinheiro, passou a trabalhar apenas por prazer, fazendo o que realmente tivesse vontade. Com o tempo livre, Mary escreveu duas autobiografias, em que revelou os bastidores de sua tumultuada vida pessoal, reconhecendo ser alcóolatra, além de relatar o perigo que isso representava por sofrer de diabetes. Em 2011, ela foi diagnosticada com um tumor no cérebro, passou por uma cirurgia para a retirada de um meningioma – tumor benigno que se desenvolve nas meninges – , e parecia recuperada. A causa de sua morte não foi informada. Relembre abaixo o episódio piloto de “Mary Tyler Moore” e a versão punk rock de Joan Jett para a música-tema da atração.
Morte de Teori Zavascki afeta projeto dos filmes sobre a Lava-Jato
A morte do ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki, falecido na quinta (19/1) num acidente de avião em Paraty, irá alterar o roteiro do filme sobre a Operação Lava Jato, uma vez que ele era o relator do processo no STF. Mas as mudanças só devem afetar o segundo longa da, hmm, franquia. “Todo o roteiro agora será repensado por causa disso. O pessoal que está trabalhando no roteiro está chocado. Há bilhões de propina envolvidos. Não posso afirmar nada, mas já tem muita gente com teoria da conspiração aí”, afirmou o produtor Tomislav Blazic em declaração ao jornal Folha de São Paulo. Intitulado “Polícia Federal – A Justiça é Para Todos”, o filme sobre a Operação Lava Jato tem estreia prevista para os cinemas brasileiros entre junho e julho, mas sua continuação ainda não tem estreia prevista. O primeiro dos longas irá contar os bastidores da investigação até o momento de sua 24ª fase (aquela em que houve a condução coercitiva do ex-presidente Lula) e não contará com ministros do Supremo entre seus personagens. Já o segundo longa, que está em fase de pré-produção, mostraria cenas ambientadas no STF. O roteiro será escrito por Thomas Stavros e Gustavo Lipsztein, que também estão por trás da história da série “1 Contra Todos”.
Miguel Ferrer (1955 – 2017)
Morreu o ator Miguel Ferrer, que foi vilão em diversos filmes e policial em inúmeras séries. Ele sofria de câncer na garganta e faleceu nesta quinta-feira (19/1), aos 61 anos. Ferrer nasceu em Hollywood. Ele era filho de artista, do grande José Ferrer (vencedor do Oscar por “Cyrano de Bergerac”) e da cantora Rosemary Clooney (“Natal Branco”). Seu primo, o ator George Clooney, foi quem compartilhou a notícia. “Miguel deixou o mundo mais brilhante e engraçado e a perda dela será sentida profundamente em nossa família”. Antes de se tornar ator, ele tentou ser músico, tocando bateria nas turnês de sua mãe e do cantor Bing Crosby. E devia ser bom, porque foi convidado por ninguém menos que Keith Moon, o lendário baterista da banda The Who, a tocar bateria em seu disco solo, “Two Sides of the Moon” (1975). Embora não tenha investido na carreira musical, nos últimos anos retomou a música como passatempo, formando uma banda com seu velho amigo Bill Mumy (o Will Robinson de “Perdidos no Espaço”), The Jenerators. Após figurar em séries e filmes no começo dos anos 1980 – inclusive como oficial da Federação em “Jornada nas Estrelas 3” (1984) – acabou chamando atenção em “RoboCop” (1987), como um dos executivos da empresa responsável em criar o “policial do futuro”. Foi tão convincente que acabou marcado como vilão, voltando a viver papel de malvado em vários gêneros, como na sci-fi “Abismo do Terror” (1989), no thriller “A Assassina” (1993), na comédia “Uma Nova Tocaia” (1993), no drama “Traffic: Ninguém Sai Limpo” (2000) e até no filme de super-herói “Homem de Ferro 3” (2013). Ironicamente, a TV o via de forma completamente oposta, como um cara do bem. Ferrer acabou se especializando em homens da lei, estrelando diversas séries, a começar pela clássica “Twin Peaks”, na qual interpretou o agente do FBI Albert Rosenfield, contracenando com Kyle MacLachlan, o criador da série David Lynch e o cantor David Bowie. Ele também combateu o crime em tempo integral nas séries “Broken Badges”, “Crossing Jordan” (em mais de 100 capítulos), no remake de “A Mulher Biônica”, “The Protector” e “NCIS: Los Angeles” (também em mais de 100 capítulos), que ainda tem episódios inéditos com seu personagem, Owen Granger, em sua 8ª temporada. Por coincidência, seu último trabalho foi uma volta ao primeiro personagem fixo de sua carreira televisiva. Ele retomou o agente Rosenfield no revival de “Twin Peaks”, cuja estreia está marcada para maio.
Dick Gautier (1931 – 2017)
Morreu Dick Gautier, que foi um dos espiões mais populares da série clássica “Agente 86”. Ele faleceu na sexta (13/1) aos 85 anos, em uma casa de assistência para idosos em Arcadia, na Califórnia, nos EUA, depois de lutar contra uma doença de longa data. Richard Gautier começou a carreira fazendo comédia stand-up e recebeu uma indicação ao Tony (o “Oscar do teatro”) ao interpretar um cantor inspirado em Elvis na produção original de “Bye, Bye Birdie”, na Broadway. Isto o levou a receber convites para trabalhar na TV, onde os cachês eram mais altos. O ator apareceu como o agente Hymie em apenas seis episódios de “Agente 86” (1965-1970), mas, como as participações foram espalhadas ao longo de quatro temporadas, tornou-se um dos personagens mais longevos da série, que fazia uma paródia dos filmes de espionagem dos anos 1960. A piada é que Hymie era um robô. Além de ser incrivelmente forte, ele tinha um supercomputador como cérebro e componentes mecânicos em um compartimento em seu peito. Originalmente, o androide tinha sido construído com propósitos malignos pela organização Kaos (a KGB da série), mas acabou virando um agente do Controle (a CIA da série) porque o Agente 86 do título, Maxwell Smart (Don Adams), foi o primeiro a tratá-lo como uma pessoa real. Max até convidou Hymie para ser seu padrinho no episódio clássico do casamento com a Agente 99 (Barbara Feldon), em 1968. Por sinal, foi a última aparição de Gautier na série. Mas ele ainda voltou a viver o robô num telefilme de reunião do elenco, lançado em 1989. Ainda nos anos 1960, Gautier integrou o elenco fixo de “Mr. Terrific”, uma série de comédia de super-herói, que não fez o mesmo sucesso e foi cancelada ao final da 1ª temporada, deixando-o à deriva, como ator convidado de inúmeras atrações clássicas, como “Gidget”, “A Feiticeira”, “O Show da Patty Duke”, “A Noviça Voadora” e “Mary Tyler Moore” – curiosamente, todas séries com protagonistas femininas. Ele teve a chance de virar protagonista em outra produção de comédia criada por Mel Brooks, o lendário cineasta que também criou “Agente 86”. Lançada em 1975, “When Things Were Rotten” satirizava as aventuras de Robin Hood, interpretado por Gautier. Mas a atração durou apenas 13 episódios. Nunca mais teve outra oportunidade como aquela e, no resto da carreira, alinhou dezenas de participações em episódios de séries famosas, de “As Panteras” até a mais recente “Estética” (Nip/Tuck) em 2010, seu último trabalho. Entretanto, no meio dessa rotina, Gautier acabou descobrindo um novo talento: a dublagem. Ele estreou fazendo vozes adicionais na série animada “Galtar e a Lança Dourada” (1985), um sub-“He-Man” da Hanna-Barbera, e logo emplacou inúmeras atrações animadas. Foi Serpentor em “Comandos em Ação” e até o herói Hot Rod em “Transformers”, além de ter participado de dezenas de desenhos que marcaram época, de “Batman: A Série Animada” a “A Vaca e o Frango”. Gautier também apareceu em meia dúzia de filmes, como “Divórcio à Americana” (1967), em que viveu o advogado de Dick Van Dyke, “Adivinhe Quem Vem para Roubar” (1977) e “Billy Jack Vai a Washington” (1977). Menos conhecido foi seu talento como roteirista. Ele escreveu dois filmes sensacionalistas: “Maryjane” (1968), sobre os perigos da maconha, e “Wild in the Sky” (1972), em que ativistas negros sequestram um avião, além de dois episódios da série “O Jogo Perigoso do Amor”. Como se não bastasse, ainda foi cartunista, tendo inclusive lançado livros sobre como desenhar. “Desenhar tem sido meu hobby, minha terapia, um delicioso passatempo e ocasionalmente a minha salvação – que me ajudou a superar alguns apuros financeiros quando eu era um ator sem trabalho”, ele escreveu na introdução de seu livro “The Creative Cartoonist”, em 1989.












