David Giler (1943 – 2020)
O produtor e roteirista David Giler, um dos criadores da franquia “Alien” e autor de filmes de grande sucesso nos anos 1970 e 1980, morreu de câncer em 19 de dezembro em sua casa em Bangkok. Ele tinha 77 anos. “Se você conhecia David, sabia que ele era especial”, pronunciou-se o diretor Walter Hill, seu parceiro de longa data, nas redes sociais. “A magia de sua personalidade é difícil de descrever: engraçada, raivosa, extremamente culta, extremamente lida. Tive o privilégio de escrever e produzir com ele e, mais importante, de ter sua amizade íntima e profunda por quase 50 anos.” Giler começou sua carreira escrevendo episódios de séries dos anos 1960, como “A Lei de Burke”, “O Agente da UNCLE” e “A Garota da UNCLE”, e foi estrear no cinema em 1970 com “Homem e Mulher Até Certo Ponto” (Myra Breckinridge), um dos filmes mais polêmicos de sua época, em que Rachel Welch vivia uma transexual determinada a ensinar submissão aos executivos de Hollywood. Fracassou nas bilheterias, mas rendeu amizade entre o roteirista e o escritor da obra original, Gore Vidal. O roteirista não teve muito tempo para amargar o fracasso, porque em seguida escreveu o thriller político “A Trama” (The Parallax View, 1974), dirigido por Alan J. Pakula e estrelado por Warren Beatty, e as comédias “Adivinhe Quem vem para Roubar” (Fun With Dick And Jane, 1977), com Jane Fonda e George Segal, e “Um Dia a Casa Cai” (The Money Pit, 1986), um dos primeiros sucessos de Tom Hanks. Os três filmes marcaram época, mas no meio das duas comédias, Giler lançou outro título ainda mais famoso, ao iniciar sua parceria com Walter Hill, via fundação da produtora Brandywine Productions – que virou basicamente a produtora de uma única franquia. O primeiro sucesso da dupla de produtores foi nada menos que “Alien – O Oitavo Passageiro”, que Giler ajudou a conceber. Uma disputa legal com o escritor Dan O’Bannon fez com que este recebesse os créditos exclusivos do roteiro original, mas Giler foi reconhecido como autor dos roteiros das sequências seguintes, o excepcional “Aliens” (1986) e “Aliens 3” (1992). Ele continuou envolvido como produtor da franquia até o lançamento mais recente, “Alien: Covenant” de 2017. Giler também escreveu o intenso thriller “O Confronto Final” (Southern Confort, 1981), um dos melhores filmes dirigidos por seu sócio Walter Hill. Mas depois de trabalhar, sem receber créditos, na história de “Um Tira da Pesada 2” (Beverly Hills Cop II, 1987), ele e Hill se voltaram para a televisão, onde produziram a série “Contos da Cripta” (Tales from the Crypt, 1989-1996), um dos primeiros sucessos da HBO. Eles também produziram as adaptações cinematográficas da série, “Os Demônios da Noite” (1995) e “O Bordel de Sangue” (1996). Seu último roteiro foi um thriller dirigido pelo velho parceiro Hill, “O Imbatível” (Undisputed, 2002), com Wesley Snipes.
Nicette Bruno (1933 – 2020)
A atriz Nicette Bruno morreu na manhã deste domingo (20/12), aos 87 anos, após ficar mais de uma semana internada com covid-19 na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Casa de Saúde São José, no Rio de Janeiro. De acordo com o boletim médico, seu estado de saúde “era considerado muito grave”. Ela estava sedada e dependente de ventilação mecânica, e morreu por “complicações decorrentes da Covid-19”. Os filhos de Nicette, Bárbara Bruno, Beth Goulart e João Goulart Filho, chegaram a fazer correntes de orações nas redes sociais pela recuperação da mãe, informando aos seguidores da gravidade da doença. A vida da atriz foi toda dedicada à atuação, além da espiritualidade. Nicette Xavier Miessa nasceu em Niterói em 7 de janeiro de 1933 e começou a carreira ainda pequena, aos 4 anos, em um programa infantil na Rádio Guanabara. Ela dizia que foi por isso que adotou o sobrenome da mãe, Eleonor Bruno Xavier, cuja família já tinha tradição artística. Precoce, tomou gosto pelo teatro aos nove anos, ao ingressar no grupo da Associação Cristã de Moços (ACM). Depois disso, passou pelo Teatro Universitário e pelo Teatro do Estudante, criado pelo ator Paschoal Carlos Magno. Aos 14 anos, já era atriz profissional na Companhia Dulcina-Odilon, da atriz Dulcina de Morais, na qual estreou na peça “A Filha de Iório”. Pela atuação como Ornela, recebeu prêmio como atriz revelação da Associação Brasileira de Críticas Teatrais. A paixão pelo teatro também a levou ao casamento com o colega ator Paulo Goulart. Ela tinha 19 anos quando o conheceu, ao contracenarem na peça “Senhorita Minha Mãe”, no Teatro de Alumínio, futuro Paço Municipal, em São Paulo. Os dois se casaram dois anos depois, em 1954, e compartilharam quase 60 anos de casamento. Ficaram juntos até a morte de Paulo, em 2014, e tiveram três filhos que seguiram a carreira dos pais: O casal também fundou em 1953 a companhia Teatro Íntimo de Nicette Bruno, que teve participação de nomes como Tônia Carrero e Walmor Chagas. Paralelamente, Nicette começou sua carreira na televisão. Pioneira, ela estreou junto da TV Tupi (primeiro canal do Brasil) em 1950, participando de recitais e de teleteatros, chegando a comandar a série “Teatro Nicette Bruno”, além de integrar a primeira adaptação do “Sítio do Picapau Amarelo”, exibida entre 1952 e 1962. Anos depois, ela estrelaria outra versão da obra de Monteiro Lobato, produzida pela Globo entre 2001 e 2004, como Dona Benta. A primeira novela foi “Os Fantoches”, realizada em 1967 na TV Excelsior. Mas logo voltou à Tupi para participar de grandes êxitos de audiência, como “A Muralha” (1968), “Sangue do Meu Sangue” (1969), “Meu Pé de Laranja Lima” (1970), “Éramos Seis” (1977) e, finalmente, a inacabada “Como Salvar Meu Casamento” (1979), tirada do ar com a extinção da emissora. Nicette foi para a Globo em 1981 após convite do diretor e ator Fabio Sabag para fazer parte da série “Obrigado, Doutor” como a freira Júlia, auxiliar do protagonista interpretado por Francisco Cuoco. Mas logo vieram as novelas, em papéis sempre importantes. Em “Sétimo Sentido” (1982), de Janete Clair, foi mãe da paranormal vivida por Regina Duarte. Em “Louco Amor” (1983), de Gilberto Braga, interpretou a cozinheira Isolda, que guardava o segredo da novela. Ao longo dos anos, integrou os elencos de atrações que marcaram época, como “Selva de Pedra” (1986), “Rainha da Sucata” (1990) e “Mulheres de Areia” (1993), sempre como mulheres de bem. A primeira vilã só veio em 1997, quando viveu a malvada Úrsula, em “O Amor Está no Ar”. Depois de três anos no novo “Sítio do Picapau Amarelo”, voltou a novelas convidada por Walcyr Carrasco, participando de “Alma Gêmea” (2005) como Ofélia, e “Sete Pecados” (2007), como Juju, grande amor do personagem de Ary Fontoura. A partir daí, teve presença constante nas telas, atuando em “A Vida da Gente” (2011), “Salve Jorge” (2012), “Joia Rara” (2013), “I Love Paraisópolis” (2015), “Pega Pega” (2017) e “Órfãos da Terra” (2019). Mesmo com o sucesso na televisão, a atriz nunca deixou o teatro, estrelando várias montagens e recebendo vários prêmios por seus trabalhos no palco. Mesmo com tanta experiência, ela nunca deixou de se reinventar. A morte de Paulo Goulart incentivou Nicette a fazer o primeiro monólogo de sua carreira, “Perdas e Ganhos”, em 2014, a partir de texto da escritora gaúcha Lya Luft. A direção e adaptação da peça que rodou o Brasil foi feita por sua filha, Beth. A intensa atividade no teatro e na TV, porém, deixou pouco tempo para o cinema. Nicette fez poucos filmes, estrelando como ela mesma “A Marcha” (1972), de Oswaldo Sampaio, e só voltando à tela grande em tempos mais recentes, em filmes como “A Guerra dos Rocha” (2008), de Jorge Fernando, “Doidas e Santas” (2016), de Paulo Thiago, e “O Avental Rosa” (2018), de Jayme Monjardim, todos em papéis de destaque. Sua última aparição nas telas foi ocasionada por uma homenagem da Globo. Nicette foi convidada a participar do remake de “Éramos Seis” como uma freira, na reta final da novela, para encontrar a personagem Lola (Gloria Pires), que ela interpretou na versão original da novela em sua juventude.
Skye Aubrey (1945 – 2020)
A atriz Skye Aubrey, que participou de várias séries dos anos 1960 e 1970, morreu em 27 de novembro de causas naturais em DeBary, Flórida, anunciou sua família nesta sexta (18/12). Ela apareceu em séries como “O Fazendeiro do Asfalto”, “Marcus Welby, Médico”, “Têmpera de Aço”, “O Jogo Perigoso do Amor” e “Ilha da Fantasia”, mas um detalhe que chama atenção em sua trajetória é a forte ligação de sua vida com as adaptações dos quadrinhos da DC Comics, do primeiro ao último papel. Aubrey estreou nas telas na série “Batman” em dois episódios de 1967. O primeiro foi um capítulo do segundo ano da produção, que trazia Eli Wallach como Senhor Frio. Já o segundo, da 3ª temporada, deu-lhe bastante destaque como uma “princesa hippie” responsável por organizar um festival de flores, que acabava sequestrada e sofria lavagem cerebral do vilão Louie, o Lilás (Milton Berle). Por coincidência, ela encerrou a carreira três décadas mais tarde também em dois episódios de uma série derivada das publicações da DC: “Superboy”, nos quais interpretou duas vilãs diferentes, Vora em 1989 e Tiger Eye em 1990. Além disso, ela era filha de Phyllis Thaxter, que interpretou Martha Kent, a mãe de Clark Kent/Superman no clássico “Superman – O Filme” (1978), e foi casada de 1976 a 1979 com Ilya Salkind, produtor dos filmes do Superman estrelados por Christopher Reeve. Seu pai, por sua vez, era James T. Aubrey, presidente da rede CBS de 1959 a 1965 e chefe do estúdio MGM de 1969 a 1973. Apesar de toda esse legado, ela apareceu em apenas um filme, no papel de uma enfermeira no suspense “Receita: Violência” (1972), estrelado por James Coburn (“Sete Homens e um Destino”), baseado num romance de Michael Crichton (“Jurassic Park”) e dirigido por Blake Edwards (“A Pantera Cor de Rosa”). Longe das telas, ela seguiu atuando no teatro até os últimos anos de sua vida.
Peter Lamont (1929 -2020)
O diretor de arte e designer de produção Peter Lamont, que venceu um Oscar pela cenografia de “Titanic”, morreu aos 91 anos. Ele também se destacou por seu trabalho em 18 dos 25 filmes da franquia “007” e foi descrito pelos produtores Michael G. Wilson e Barbara Broccoli como “um integrante amado da família 007 e um gigante da indústria”, nas redes sociais. Lamont começou a trabalhar na franquia em “007 Contra Goldfinger” (1964), criou os efeitos visuais de “007 Contra o Foguete da Morte” (1979) e se tornou o principal designer de produção dos longas a partir de “007: Somente Para os Seus Olhos” (1981), cargo que manteve até “007: Cassino Royale” (2006), filme que marcou sua aposentadoria. Seu trabalho consistia desde escolher locações, preparar cenários e selecionar acessórios. No caso de Bond, esse produção incluía armas icônicas, carros e apetrechos de espionagem que o personagem utilizava. Além de Bond, Lamont teve uma frutífera parceria com o cineasta James Cameron, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar por “Aliens: O Resgate” (1986) e a cobiçada estatueta por “Titanic” (1997). Ele foi indicado ao prêmio da Academia outras duas vezes, por “Um Violinista no Telhado” (1981) e “007: O Espião Que Me Amava” (1977).
Atriz do Zorra morre de covid sem conseguir leito de UTI
A atriz Christina Rodrigues morreu na manhã desta quinta (17/12) em decorrência de complicações de covid-19, com apenas 47 anos de idade. Desde segunda (14/12), ela estava internada na enfermaria da UPA (Unidade de Pronto Atendimento) da Tijuca com sintomas graves e dificuldades para respirar, sem conseguir uma vaga para ser transferida a um leito de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). A informação sobre a morte da atriz foi divulgada pela Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro. “Com pesar, informamos que a paciente Christina Maria Rodrigues Teixeira apresentou piora clínica e foi a óbito no fim desta manhã”, informou a pasta estadual. Rodrigues era conhecida por atuar em quadros de humor no “Zorra Total” (1999-2015), que depois mudou o nome para “Zorra” e foi extinto neste ano. Também fez participações em diversas novelas, entre elas, “Malhação – Sonhos” (2014-2015) e “Beleza Pura” (2008). Nas últimas semanas, a Globo também perdeu o ator Eduardo Galvão, de 58 anos. Ele estava internado no Hospital Unimed, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, e não resistiu a complicações causadas pela doença. O Rio de Janeiro tem fila de quase 500 pessoas por leitos em UTI, segundo reportagem publicada pela Folha de S. Paulo no início de dezembro. A fila chegou a 491 pessoas na rede pública no dia 8 de dezembro, sendo que 251 delas precisavam de terapia intensiva. Desde então, os casos de infecção pelo coronavírus dispararam.
Jeremy Bulloch (1945 – 2020)
O ator inglês Jeremy Bulloch, que foi o intérprete original do caçador de recompensas Boba Fett na primeira trilogia “Star Wars”, morreu em um hospital de Londres nesta quinta (17/12), aos 75 anos. Segundo seus agentes, ele morreu pacificamente, cercado por sua família, de complicações de saúde após seus muitos anos vivendo com a doença de Parkinson. Além de viver Boba Fett, ele teve uma carreira longa de mais de 45 anos, iniciada ainda criança em 1958, em “Somente Deus por Testemunha”, um dos mais famosos filmes sobre o desastre do transatlântico Titanic. Ele participou de várias séries inglesas, incluindo “Doctor Who”, e produções populares do cinemas britânico, como “Tudo Começou em Paris” (1963), musical estrelado pelo roqueiro Cliff Richard, o drama “O Ídolo Caído (1966), com Jennifer Jones, a comédia “O Amor de um Homem” (1970), com Peter Sellers, e os clássicos “Mary Stuart, Rainha da Escócia (1971), com Vanessa Redgrave, e “Um Homem de Sorte” (1973), com Malcolm McDowell, sem esquecer sua entrada na franquia do agente secreto James Bond em “007: O Espião que me Amava” (1977), antes de aparecer numa galáxia distante. Até então relegado a pequenos papéis, Bulloch acabou ingressando na cultura pop mundial ao dar vida a Boba Fett em 1980, primeiro em “O Império Contra-Ataca” e depois em “O Retorno de Jedi”, em 1983. O ator acabou substituído no papel do caçador de recompensas na trilogia seguinte, mas mesmo assim voltou a aparecer em “Star Wars” – sem a máscara e a armadura mandaloriana – como o Capitão Colton em “A Vingança dos Sith” (2005). “Ele será lembrado não apenas por sua representação icônica do personagem lendário, mas também por seu calor e espírito generoso, que se tornaram uma parte duradoura de seu rico legado”, disse o perfil oficial de “Star Wars” no Instagram. Além de integrar o panteão de intérpretes de “Star Wars”, Bullock também deve ser saudado por participar de três longas de 007 como o personagem Smithers, um assistente do laboratório do inventor Q, na fase estrelada por Roger Moore. Depois da estreia em 1977, seu pequeno papel voltou a ser visto em “007 – Somente Para Seus Olhos” (1981) e “007 Contra Octopussy” (1983).
Rosaly Papadopol (1956 – 2020)
A atriz Rosaly Papadopol morreu na madrugada desta quarta-feira (16/12), em um hospital de São Paulo, após batalha contra um câncer no baço, aos 64 anos. Ela lutava há aproximadamente dois anos contra o câncer, que era bastante agressivo. Em suas redes sociais, chegou a publicar registros do tratamento e da queda de cabelo. Rosaly iniciou sua vida artística em 1975 no teatro, atuando inclusive no musical “Saudades do Brasil”, ao lado de Elis Regina. A maior parte da carreira foi sobre os palcos. Mas ela apareceu em diversas novelas e até em filmes. Sua estreia nas telas aconteceu em 1978, na novela “Salário Mínimo”, da TV Tupi, e no filme “As Amantes Latinas”, de Luiz Castellini. Ela também integrou o elenco de “Éramos Seis” (1994) e “Dona Anja” (1996), no SBT. Na Globo, trabalhou nas novelas “Porto dos Milagres” (2001), “Agora é Que São Elas” (2003), “Bang Bang” (2005), “Belíssima” (2005), “Pé na Jaca” (2006) e “Malhação” (2009), além da série “Minha Nada Mole Vida” (2006). Seus destaques cinematográficos ainda incluem “Nasce uma Mulher” (1985), de Roberto Santos, “Anjos da Noite” (1987), de Wilson Barros, “Lua Cheia” (1989), de Alain Fresnot, “O Príncipe” (2002), de Ugo Giorgetti, e “Bellini e a Esfinge” (2002), de Roberto Santucci. Seu último trabalho foi em 2018, quando fez uma participação especial nos dois primeiros episódios da série “Samantha!”, da Netflix.
John le Carré (1931 – 2020)
O escritor John le Carré, ex-espião britânico que se tornou o mais famoso escritor de best-sellers de espionagem, morreu na noite de sábado (12/12) em Cornwall, na Inglaterra, depois de uma curta doença, aos 89 anos. Seu verdadeiro nome era David John Moore Cornwell e ele teve um relacionamento difícil com seu pai, que cumpriu pena de prisão por fraude e foi sócio dos famosos gângsteres gêmeos britânicos, os irmãos Kray. Ainda jovem, ingressou no serviço de inteligência do Exército britânico, passando a ser agente do MI6, o Serviço Secreto de Sua Majestade, durante os anos 1960 na Alemanha Ocidental. Ele escreveu seu primeiro romance, “A Call for the Dead”, enquanto trabalhava na Alemanha. Mas o MI6 não o deixou publicar o livro com seu próprio nome, então ele virou John le Carré. “Só Deus sabe por que ou de onde tirei esse nome”, disse ele ao The New York Times. Com o passar dos anos, Le Carré começou a minimizar sua carreira de espião, evitando trazer à tona suas missões secretas. “Nos velhos tempos, era conveniente me apresentar como um espião que virou escritor”, disse ele. “Mas eu não era nada disso. Sou um escritor que, quando era muito jovem, passou alguns anos ineficazes, mas extremamente formativos, na inteligência britânica.” Ao todo, ele escreveu 23 romances com seu famoso pseudônimo entre 1961 e 2013, além de vários livros de não-ficção e contos e três roteiros. Boa parte de seus livros destacaram o personagem George Smiley, um oficial da agência de inteligência britânica conhecida como “o Circo”. “Com a possível exceção de JK Rowling, nenhum escritor vivo exerce o mesmo domínio sobre a imaginação britânica como John le Carré e seus romances de Smiley”, escreveu o jornal The Guardian em 2014. Seu primeiro grande sucesso foi “O Espião que Saiu do Frio” (1963), que também se tornou sua primeira obra adaptada para o cinema, em 1965, pelo diretor Martin Ritt. O filme trazia Richard Burton como um espião enviado à Alemanha com a missão de fingir traição para disseminar desinformação, mas que acabava relutando em se tornar apenas uma engrenagem numa grande conspiração. “O Homem que Veio do Frio” ainda trouxe a primeira encarnação física de George Smiley, vivido por Rupert Davies. Ao longo do tempo, alguns intérpretes bem mais famosos viveram o personagem, com destaque para Alec Guinnes na TV e Gary Oldman no cinema. Depois da primeira adaptação, vieram mais oito filmes baseados nos livros do escritor: “A Guerra no Espelho” (1970), “A Garota do Tambor” (1984), “A Casa da Rússia” (1990), “O Alfaiate do Panamá” (2001), “O Jardineiro Fiel” (2005), que foi dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, “O Espião Que Sabia Demais” (2011), “O Homem Mais Procurado” (2014) e “Nosso Fiel Traidor” (2016). As obras de Le Carré também viraram minisséries de sucesso da TV britânica, entre elas “Tinker Tailor Soldier Spy” (adaptação de “O Espião Que Sabia Demais”, de 1979), “Smiley’s People” (1982), “A Perfect Spy” (1987) e as recentes “The Night Manager” (“O Gerente da Noite”, 2017) e “The Little Drummer Girl” (“A Garota do Tambor”, 2018). Além disso, a BBC trabalha atualmente numa nova versão de “O Espião que Saiu do Frio” para a televisão. Ao longo da carreira, Le Carré evitou escrever roteiros, mas acabou assinando uma adaptação televisiva de seu livro “A Murder of Quality”, em 1991, e um episódio de 1970 da antologia de teleteatro da BBC “Armchair Theatre”. Por outro lado, ele fez várias participações especiais nas adaptações em seus textos, aparecendo em “A Garota do Tambor”, “O Espião Que Sabia Demais” e “O Homem Mais Procurado”, além das duas minisséries mais recentes.
Carol Sutton (1933 – 2020)
A atriz Carol Sutton, que fez carreira no teatro, mas também apareceu no cinema em filmes como “Flores de Aço” (1989), “O Júri” (2003) e “Ray” (2004), morreu na sexta-feira (11/12) de complicações causadas pela covid-19, aos 87 anos em Nova Orleans. “Carol Sutton foi praticamente a rainha do teatro de Nova Orleans, tendo enfeitado os palcos da cidade por décadas”, disse a prefeita da cidade, LaToya Cantrell, no comunicado que informou o falecimento da atriz. “O mundo pode reconhecê-la por suas atuações em filmes e na TV – seja nas série ‘Treme’ ou no filme ‘O Júri’ – , mas sempre nos lembraremos de sua presença de palco dominante, seus personagens ricamente retratados e o coração caloroso que ela compartilhou com seus colegas de elenco e equipe em produções como ‘4000 Miles’ e ‘A Raisin in the Sun’. Que ela descanse na paz perfeita de Deus”, acrescentou a prefeita. Ela estreou no teatro na década de 1960 e subiu centenas de vezes aos palcos desde então. Seus créditos mais recentes no cinema e na televisão incluem os filmes “O Último Exorcismo” (2010), “Histórias Cruzadas” (2011), “Anjos da Lei” (2012), “Belas e Perseguidas” (2015) e “As Rainhas da Torcida” (2019), além das séries “True Detective”, “Lovecraft Country” e “Queen Sugar”. Ava DuVernay, criadora de “Queen Sugar”, tuitou: “Foi uma honra dar as boas-vindas a esta atriz veterana de teatro e cinema na nossa série como Tia Martha no episódio 409. Que ela descanse em paz e no poder.”
Barbara Windsor (1937 – 2020)
A atriz britânica Barbara Windsor, bastante popular no Reino Unido por estrelar mais de 1,5 mil episódios da longeva novela “EastEnders” e os filmes da franquia “Carry on”, como “Manda Ver, Doutor” (1967) e “Fuzarca no Acampamento” (1969), morreu na última quinta-feira (10/12), aos 83 anos, de causas não reveladas. Ela teria morrido “em paz” na casa de repouso que vivia em Londres, ao lado do marido, Scott Mitchell. “Eu perdi minha mulher, minha melhor amiga e minha alma gêmea. Meu coração e minha vida nunca mais serão os mesmos sem você”, disse o viúvo. Acompanhada pelo marido, Barbara lidou em seus últimos sete anos com o Alzheimer. “Sempre serei imensamente orgulhoso da coragem, dignidade e generosidade com que Barbara lidou com sua doença, enquanto ainda tentava ajudar outros, sensibilizando enquanto pôde”, explicou Mitchell. Nascida no condado de Londres, Barbara começou sua carreira no teatro aos 13 anos. Seu primeiro filme foi a comédia colegial “The Belles of St. Trinian’s” (1954), quando tinha 17. No total, ela fez 31 longas-metragens, nove deles da franquia cômica britânica “Carry On”, lançados entre as décadas de 1960 e 1970. Outros títulos de destaque em sua filmografia incluem a comédia “Ela Era Irresistível” (1960), com Jayne Mansfield, o drama racial “Lá Fora Ruge o Ódio” (1961), o cultuado “Névoas do Terror” (1965), em que Sherlock Holmes investiga os crimes de Jack, o Estripador, a fantasia musical “O Calhambeque Mágico” (1968), com Dick Van Dyke, e a comédia “O Namoradinho” (1971), com Twiggy. Seu papel mais conhecido no Reino Unido foi o de Peggy Mitchell, a proprietária do pub The Queen Victoria na novela “EastEnders”, da BBC. Barbara entrou no elenco em 1994 e logo popularizou o bordão “Saiam do meu pub!”. Apesar de ter sido diagnosticada com Alzheimer em 2014, ela continuou trabalhando na atração até 2016. Depois de se afastar da TV, Barbara foi condecorada dama pela familia real britânica, por sua contribuição para o entretenimento e para a filantropia do país. Apesar de lutar contra os sintomas da doença, no ano passado encontrou-se com o primeiro-ministro Boris Johnson para aumentar a conscientização sobre o mal de Alzheimer.
Victoria Racimo (1943 – 2020)
A atriz Victoria Racimo, que apareceu em vários filmes e séries dos anos 1970 e 1980, morreu em 29 de novembro em Williamsburg, Virgínia (EUA), aos 69 anos. Apesar do tempo transcorrido, a causa de sua morte não foi anunciada. Nascida em Nova York, mas descendente de Filipinos, ela geralmente era escalada em papéis “étnicos”. Na TV, gravou episódios de “Mod Squad”, “Mannix”, “Kung Fu”, “Havaí 5-0”, “Fuga das Estrelas” (Logan’s Run) e “Ilha da Fantasia”, entre outras séries, além de ter um arco importante durante a 3ª temporada do popular drama novelesco “Falcon Crest”. No cinema, foram menos papéis, incluindo pequenas participações no thriller “O Dia do Golfinho” (1973), de Mike Nichols, e no terror “A Semente do Diabo” (1979), de John Frankenheimer. Mas se destacou na aventura “Os Homens da Montanha” (1980), no papel de uma índia resgatada por Charlton Heston, que motivava uma luta por sua “posse”. Seu último filme foi outra incursão a “terras selvagens”, “Caninos Brancos 2: A Lenda do Lobo Branco” (1994). Após desistir de atuar nos anos 1990, Racimo passou a dirigir, escrever e produzir. Ela foi produtora executiva da comédia “Casi Casi” (2006) e escreveu e dirigiu o documentário “One Day”, sobre uma reserva para cavalos de corrida puro-sangue e éguas reprodutoras. Uma forte defensora do bem-estar e direitos dos equinos, ela também escreveu em 2017 um livro sobre “A Vida Equestre de Elvis Presley”.
Kim Ki-duk (1960 – 2020)
O polêmico cineasta sul-coreano Kim Ki-duk morreu de complicações decorrentes de covid-19 na madrugada desta sexta (11/12), num hospital da Letônia, aos 59 anos. Ele teria viajado para o país báltico com a intenção de comprar uma casa e obter uma autorização de residência. A notícia foi confirmada por Vitaly Mansky, o documentarista russo que mora na Letônia e dirige o ArtDocFest local, e o Ministério de Relações Exteriores da Coreia do Sul foi citado como tendo confirmado a morte do diretor em reportagens da mídia coreana. Nascido em 20 de dezembro de 1960, em Bonghwa, Coreia do Sul, Kim se estabeleceu como autor de cinema de arte premiado, com filmes de temas sombrios e polêmicos, sempre em evidência no circuito dos festivais internacionais. Mas nos últimos anos vivia um ostracismo forçado, após ser acusado de má conduta sexual por atrizes com quem trabalhou, durante a mudança sísmica da indústria cinematográfica, decorrente do movimento #MeToo. Ele sempre foi queridinho dos festivais europeus, fazendo premières no continente desde sua estreia cinematográfica de 1996. Seu debut de baixo orçamento, “Crocodile”, foi lançado no Festival Karlovy Vary, na Reública Tcheca, assim como os dois longas seguintes, “Animais Selvagens” (1997) e “Paran Daemun” (1998). Sua consagração veio com o quarto lançamento, “A Ilha” (2000), premiado nos festivais de Veneza, Bruxelas e Fantasporto. “A Ilha” também ganhou notoriedade por suas cenas terríveis de violência, inclusive contra animais – supostamente reais – , e conteúdo abertamente indigesto, um padrão que se tornaria marca do diretor. Reza a lenda que, durante a exibição em Veneza, o público abandonou as sessões entre surtos de vômitos e desmaios. O longa nunca foi exibido no Reino Unido, onde teve a projeção proibida. Também recebeu críticas extremamente negativas da imprensa sul-coreana, que o considerou de péssimo gosto. Mas os elogios europeus acabaram prevalecendo e a controvérsia ajudou a projetar seu nome. “Endereço Desconhecido” (2001) levou-o de volta a Veneza, “Bad Guy” (2001) inaugurou sua relação com o Festival de Berlim e “The Coast Guard” (2002) lhe rendeu três troféus em Karlovy Vary. Mas o filme que realmente o popularizou entre os cinéfilos acabou não tendo nada a ver com os caminhos que ele vinha trilhando. “Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera” (2003) abordava um mosteiro budista que flutuava num lago em meio a uma floresta intocada, e representava uma suavidade inédita em sua carreira. Venceu o Leopardo de Ouro e mais quatro troféus no Festival de Locarno, além do Prêmio do Público no Festival de San Sebástian, e graças à repercussão amplamente positiva – sem nenhum resquício de polêmica – conseguiu distribuição internacional da Sony. Só que seu lançamento seguinte voltou a mergulhar no horror. “Samaritana” (2004) acompanhava um prostituta amadora numa história de amor, morte e desespero, apontando um guinada sexual para o sadismo do diretor. Foi o começo de uma radicalização, que, no entanto, não se deu de uma hora para outra. Kim Ki-duk seguiu alimentando sua fama com a conquista do Leão de Prata de Melhor Diretor por “Casa Vazia” (2004), no Festival de Veneza. Ele ainda adentrou o Festival de Cannes com “O Arco” (2005), antes de retomar o cinema extremo com “Time – O Amor Contra a Passagem do Tempo” (2006), sobre uma mulher que decide sofrer cirurgia plástica extensa para salvar seu relacionamento. Este filme passou e foi premiado apenas em festivais de terror, como Fantasporto e Sitges. Após um par de dramas românticos incomuns, ele realizou seu primeiro documentário, “Arirang” (2011), refletindo sobre sua própria carreira. A obra autocongratulatória venceu a mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes. Só que o sangue voltou a rolar logo em seguida, no impressionante “Pieta” (2012). O filme venceu o Leão de Ouro, mas causou muita controvérsia devido a uma cena forte de estupro. Alguns espectadores abandonaram a première em Veneza, diante dos desdobramentos da relação entre um violento cobrador de dívidas, que fere devedores de forma brutal, e uma mulher que afirma ser sua mãe. Kim Ki-duk disse que as cenas polêmicas eram uma metáfora do capitalismo. A premiação de “Pieta” serviu de incentivo para o diretor explorar ainda mais seu sadismo cinematográfico. O lançamento seguinte, “Moebius”, foi recusado nos cinemas sul-coreanos, pelo conteúdo com incesto, castração e outras formas de situações “impróprias”, segundo a Korea Media Rating Board (KMRB), responsável pela classificação etária dos filmes no país. A trama apresentava uma família destrutiva, questionando os seus desejos sexuais básicos. “One On One” (2014) buscou mais violência, com o assassinato em série de suspeitos da morte de uma jovem estudante. Dividido entre o desejo dos fãs por filmes cada vez mais radicais e a falta de interesse dos festivais na brutalidade gratuita, a carreira de Ki-duk acabou à deriva, como o protagonista de seu filme “A Rede” (2016), encontrado perdido entre as Coreias do Norte e do Sul. Uma reviravolta marcou o lançamento de “Humano, Espaço, Tempo e Humano” (2018) no Festival de Berlim, que foi marcado por protestos – não por imagens terríveis, mas pelo homem atrás das câmeras. Kim deixou de ser um cineasta de cenas sádicas para virar um cineasta sádico, ao ser condenado por agressão contra uma atriz durante as filmagens de “Moebius” (2013). A vítima, cuja identidade foi mantida em sigilo, acusou Kim em 2017 de lhe dar três tapas e forçá-la a realizar cenas sexuais sem roupa, que não estavam no roteiro, nos bastidores da produção. A acusadora afirmou que Kim forçou-a a pegar o pênis de um ator, apesar de uma garantia anterior de que uma prótese seria usada. Devido a seus protestos, ela foi substituída por outra atriz no filme. O que a levou a entrar na justiça. Um tribunal sul-coreano multou Kim em US$ 4,6 mil por agressão, mas os promotores não consideraram as acusações de abuso sexual citando a falta de provas. Foi uma quantia irrisória. Mas custou sua carreira. Kim tentou aproveitar o palco oferecido pelo Festival de Berlim para se defender, afirmando que os tapas foram dados como instruções para atuação. Mas, logo em seguida, mais duas atrizes denunciaram abusos ainda piores cometidos pelo diretor. Uma delas disse que Kim exigiu vê-la nua durante um processo “humilhante” de seleção, enquanto a outra contou que Kim e seu ator favorito, Cho Jae-hyeon, a estupraram após convocá-la para um encontro num hotel para “discutir detalhes de um roteiro”. O diretor ainda conseguiu exibir seu último filme, “Din” (2019), no Festival de Cannes, mas não houve interessados para lançá-lo comercialmente. Inconformado, ele tentou processar as atrizes denunciantes. Fracassou. As últimas notícias afirmavam que ele tinha entrado em depressão profunda e não tinha nenhum trabalho em desenvolvimento.
Tommy “Tiny” Lister (1958 – 2020)
O ator e lutador Tommy “Tiny” Lister, conhecido por participar de filmes como “Sexta-Feira em Apuros” (1995) e “O Quinto Elemento” (1997), foi encontrado morto na quinta (10/12) em seu apartamento em Marina Del Rey, Califórnia, aos 62 anos. Sua agente, Cindy Cowan, contou à revista People que apesar de não ter testado positivo para o coronavírus, ele morreu após apresentar “sintomas de covid-19” por uma semana. De acordo com ela, o ator estava escalado para trabalhar em um filme nos próximos dias, mas já havia cancelado. “Ele estava reclamando, mas estava fraco para ir ao médico”, disse. “Ele era um gigante gentil e único”, desabafou ela. “Um homem que é meu irmão há 20 anos”, acrescentou Cindy. Antes de atuar, ele foi um lutador profissional da federação de luta-livre, creditado como Zeus e ZGangsta nas competições da WWE. A mudança de carreira começou em 1985, quando apareceu no clássico de ação “Expresso para o Inferno”. Mas Lister seguiu exercendo as duas atividades paralelamente por um bom tempo, até aparecer como ele mesmo no filme “Desafio Total” (1989), estrelado pelo também lutador Hulk Hogan. Ao todo, Lister participou de mais de 80 filmes, incluindo os dois da franquia “Sexta-Feira em Apuros”, ao lado de Ice Cube. Entre seus papéis de destaque, incluem-se atuações em vários blockbusters, como “O Quinto Elemento” (1997), onde teve uma participação memorável como o presidente Lindberg, “Um Tira da Pesada II” (1987), “Soldado Universal” (1992), “Austin Powers em o Homem do Membro de Ouro” (2002) e “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (2008). Nos últimos anos, porém, vinha fazendo filmes de baixo orçamento para o mercado de VOD (locação digital). Ele deixou finalizadas participações em cinco longas desse tipo, ainda inéditos.












