Clarisse Ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois é uma beleza de cinema
Terceiro longa-metragem de Petrus Cariry, “Clarisse Ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois” (2015) finaliza a chamada “Trilogia da morte”, iniciada com “O Grão” (2007) e “Mãe e Filha” (2011). O rigor formal apresentado nos trabalhos anteriores, bem como o cuidado com a beleza das imagens, que desde o primeiro filme têm sido comparadas a pinturas clássicas, se manifesta ainda mais forte neste novo trabalho, que conta a história de uma jovem mulher que vai passar uns dias na casa do pai doente. Não é um filme fácil. É propositalmente lento e com um tipo de dramaturgia que se distancia do naturalismo, por mais que a estranheza nas interpretações não nos impeça de admirar a excelente performance de Sabrina Greve, premiada na edição do Cine Ceará do ano passado. A atriz já havia aparecido em outro filme ainda mais ligado ao gênero horror, “O Duplo”, marcante curta-metragem de Juliana Rojas. Mas embora possa ser definido como terror, “Clarisse” frustrará quem esperar um filme típico do gênero, assim como pode desagradar quem não o aprecia. Por isso mesmo deve ser apreciado como ele é e não como deveria ter sido, conforme o gosto pessoal de cada espectador. Mas, uma vez que o espectador resolva se abrir a esse tipo de cinema mais hermético e cheio de signos a decifrar, a experiência é bastante recompensadora. Até porque a beleza das imagens (a direção de fotografia também é de Petrus) e dos movimentos de câmera são de encher os olhos. Inclusive, é possível perceber isso a partir do pouco que é mostrado no trailer. A enigmática história, que se passa bem longe de um lugar típico de filmes cearenses, também é contada com o auxílio de sons e ruídos, que são incorporados à obra de maneira orgânica. Aliás, o cuidado com o som é outro aspecto admirável de “Clarisse”, um filme que sangra e que parece um sonho. Diante da dificuldade de penetração de um filme como esse em um mercado cada vez menos tolerante a experimentações e invenções, deve-se comemorar a oportunidade de ver nos cinemas uma obra como esta, que, ao contrário dos besteiróis televisivos, merece para ser vista na tela grande.
Toni Erdmann é um filme de pegadinhas que surpreende pela profundidade
A primeira sugestão do que esperar das 2 horas e 32 minutos de “Toni Erdmann”, o candidato alemão ao Oscar 2017 de Melhor Filme em Língua Estrangeira, é dada logo nos primeiros segundos da trama: uma câmera foca uma porta. Nada acontece durante um minuto e meio até que um carteiro chega, toca a campainha e é atendido por Winfried Conradi, um homem grisalho que comenta: “O que meu irmão comprou desta vez? Ele acabou de sair da prisão. Foi preso por mandar um pacote-bomba”. O carteiro segue impassível, Winfried sai de cena e retorna como se fosse o tal irmão. Essa “pequena peça sem graça” que ele tenta pregar no carteiro e a gordura exagerada da cena são um pequeno resumo do que “Toni Erdmann” irá oferecer a partir do terceiro minuto de projeção, e o fato da história sobreviver (e de Hollywood se interessar a ponto de preparar um remake com Jack Nicholson no papel principal) demonstra que, sim, há um grande filme aqui. Escrito e dirigido por Maren Ade, uma das cineastas expoentes do movimento Escola de Berlim, “Toni Erdmann” é uma interessante tragicomédia que observa as relações familiares no mundo moderno através de um filtro provocante: Winfried (o excelente Peter Simonischek) é um professor de música divorciado viciado em brincadeiras bizarras. Ele usa uma dentadura postiça, um terno velho e, quando assume a persona de Toni Erdmann, uma peruca hilária. Toni, o personagem de Winfried, nasce em uma viagem a Bucareste, cidade onde vive a filha Ines (a também excelente Sandra Hüller), executiva de uma grande empresa de demissões e terceirizações. A relação dos dois é distante e complica quando o pai pergunta: “Você é feliz aqui?”. Maren Ade explora com destreza o cânion que separa pais e filhos, ofertando situações cômicas e bizarras, como uma cena sensacional de sexo (em que a filha parece tentar herdar o “estranho” humor do pai – e ao menos aqui consegue), uma festa de aniversário com o pessoal “da firma” transformada em festa do cabide e num dos grandes momentos musicais do ano (Whitney sorri) resultando num filme que, apesar das arestas pontudas, se revela uma pequena joia cinematográfica.
Estrelas Além do Tempo exalta a conquista do espaço de três mulheres negras
Nos anos 1960, os EUA ainda tinham banheiros segregados para negros e banheiros para brancos. Embora estivesse ao lado de um toilette feminino, Katherine (Taraji P. Henson), que é negra, precisava sair do prédio onde trabalhava, e correr alguns blocos para chegar ao tal banheiro. Afinal, quando se tem vontade é preciso ir. Em “Estrelas Além do Tempo”, o diretor Theodore Melfi (“Um Santo Vizinho”) repete essa cena diversas vezes ao som de uma música, digamos, engraçadinha. E, vejam só, muita gente na plateia ri. O ápice dessa sequência envolve uma discussão entre Katherine e seu chefe interpretado por Kevin Costner. E quem riu antes, não volta a rir nessa cena em que Taraji P. Henson brilha de forma monumental. Que atriz! É a melhor parte do filme. Por que é a melhor? Porque é uma síntese de “Estrelas Além do Tempo” e sua passagem mais complexa. Podemos pensar, inicialmente, que a intenção do diretor foi fazer graça com o racismo, mas ao culminar a humilhação de Katherine com a cena do desabafo, a produção revela seu verdadeiro objetivo, que é expor o problema, induzir o espectador (a maioria branca) a rir da situação, para, depois, substituir o riso por uma imensa, justa e irreparável sensação de culpa. A situação descrita ilustra o quanto Katherine Gordon (depois Katherine Johnson) é uma mulher forte, mas ela também é talentosa e insubstituível. Não só ela, como suas amigas Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), pessoas que existiram de verdade e merecem ter suas histórias contadas, vistas e compartilhadas. A História oficial da conquista especial norte-americana costuma esquecer, mas as três trabalharam na NASA e foram essenciais para transformar em realidade as primeiras viagens dos astronautas dos EUA ao espaço, incluindo a primeira órbita ao redor da Terra, realizada por John Glenn. Pode-se, entretanto, dizer que, no geral, “Estrelas Além do Tempo” se contenta em ser um filme correto, convencional e simpático até demais. Só que a história de suas personagens é tão importante, envolvente e bem narrada, que pouco importa. “Estrelas Além do Tempo” enfatiza o lado profissional e a capacidade do trio de matemáticas, que se destaca independente da cor da pele e, talvez por isso, o filme não mostre suas estrelas como vítimas. Ao contrário, faz a exaltação de Katherine, Dorothy e Mary, exemplos de mulheres duplamente discriminadas, por serem mulheres e negras, numa época em que a conquista do espaço para mulheres e negros se dava mesmo na Terra. A conquista do espaço de Katherine, Dorothy e Mary aconteceu em seu cotidiano, no ambiente de trabalho. Além de Taraji, o filme permite bastante destaque para Octavia Spencer, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, e à cantora Janelle Monáe, que se mostra uma ótima revelação. Mas também não se pode esquecer de Kevin Costner, não somente por seu retorno a um filme importante, mas por também entregar uma atuação imponente. Daria para fazer um paralelo ou, melhor, uma sessão dupla com “Estrelas Além do Tempo” e “Os Eleitos”, obra-prima de 1983, dirigida por Philip Kaufman. Em seu épico sobre o início da corrida espacial, Kaufman não menciona Katherine, Dorothy e Mary, apesar de trazer diversos personagens em comum e destacar aspectos da mesma história. No clássico vencedor de quatro Oscars, as mulheres aparecem apenas como esposas e os negros nem sequer aparecem, sinalizando que o mundo mudou muito desde os anos 1960, mas também bastante dos anos 1980 para cá, a ponto de agora vermos o que era invisível, mas que sempre esteve lá. “Estrelas Além do Tempo” concorre ao Oscar 2017 de Melhor Filme, Atriz Coadjuvante e Roteiro Adaptado.
Magistral, A Qualquer Custo tem pontaria certeira para cada pequeno detalhe
A ação em “A Qualquer Custo” discorre com uma despretensão que inicialmente parece não levar a lugar algum. Há dois assaltantes em cena, mais dois policiais, um deserto, e estradas que cortam a planície e parecem não ter fim. Criado esse ambiente mínimo, porém, um jogo curioso se articula. De um lado, a história dos assaltantes revela um colorido bem mais complexo do que aparenta. São dois irmãos de temperamento opostos, um deles ex-presidiário de pavio curto (Ben Foster, de “O Grande Herói”), o outro, um cowboy desencantado de fala mansa (Chris Pinne, o capitão Kirk de “Star Trek”). Ambos tornam-se ladrões para pagar uma divida, mas também estão imbuídos de fazer um acerto de contas particular. Eles nunca foram tão próximos e nunca conversaram como fazem agora. Acontece que na outra ponta desse pequeno drama criminal com fundo western há os dois sujeitos que ameaçam estragar tudo. Os policiais (o veterano Jeff Bridges e Gil Birmingham, da franquia “Crepúsculo”) perseguem os irmãos como se estivessem numa divertida caçada de coelhos. Como nunca acontece nada naquelas paragens, o xerife vivido por Bridges vibra com a correria e cada vez que o parceiro mestiço ameaça cair no cochilo, ele o provoca com piadas racistas. O filme é magistral até quando apresenta essas impertinências. Os personagens são marcados por uma desproporção entre como agem e como falam, bem sutil. Se, em princípio, parece haver maldade no jeito como o xerife fala com o parceiro mestiço, nas atitudes vemos uma gentileza nada menosprezante. No fundo, o humor não nasce de um sentimento de superioridade, mas, ao contrário, de uma superabundância de admiração. Esse é um ponto, o outro bem estimulante é que conforme o quarteto dispara na estrada a bordo de carrões, um curioso subtexto se descola do pano de fundo. Nas vilas e cidades, quase desertas, tudo parece estar morrendo. Vemos rebanhos perdidos, rancheiros falidos, fazendas desapropriadas. Ironia: o banco é mostrado como o câncer das planícies e caipiras, endividados por todos os lados, torcem para que a dupla de assaltantes saia impune dos delitos. Enfim, essa é a nova América. Esqueça a Terra das Oportunidades, só sobrou espaço para especuladores. Resta aos quatro protagonistas travarem uma última luta, antes que o cenário que eles conheciam desapareça de vez. Para contar esta história que é o avesso do american way of life, o roteirista (Taylor Sheridan, que antes escreveu “Sicario”) e o diretor (David Mackenzie, de “Encarcerado”) polvilham se filme sombrio com um humor de pontaria fina. O espírito em cena é: Se todos estão à beira do precipício, o que mais resta de humano, a não ser criar piadas e rir? O curioso é que este inteligente policial estreou em meados do ano passado nos EUA, colhendo elogios da crítica, mas pouca repercussão de público. Com a temporada de prêmios, “A Qualquer Custo” voltou a cena revigorado, recebendo inclusive indicações ao Oscar para Melhor Filme, Roteiro Original, Edição e Ator Coadjuvante para o veterano Jeff Bridges. Aos poucos foi demonstrando que não era um filme fácil de ser esquecido.
Jackie é desafio quase experimental para o talento de Natalie Portman
O tempo não fez muita justiça para Jacqueline Lee Bouvier Kennedy Onassis. Até hoje, é reconhecida como Jackie Kennedy, viúva de JFK, ou Jackie O., viúva de Onassis. Para as mulheres, foi consolidada somente como um ícone da moda e modelo comportamental. Compreendeu a posição secundária de primeira-dama perfeitamente e os seus looks rosas ou vermelhos adornados com um colar de pérolas segue mais emblemático que os seus feitos pessoais. Durante os 100 minutos de “Jackie”, no entanto, o interesse do cineasta Pablo Larraín, auxiliado pelo roteiro de Noah Oppenheim e a fotografia de Stéphane Fontaine, está em conferir o devido protagonismo a essa figura pública, desmistificando os conceitos que a opinião pública formou sobre ela. E o faz embaralhando a cronologia de um recorte específico, iniciado pelas formalidades dos eventos sociais até a solidão de uma mulher que perdeu o seu companheiro. Algumas distorções visuais e sonoras tratam de corresponder a essa intenção. A primeira é justamente a razão do plano, usando a janela 1.66 : 1 outrora tão comum em produções europeias. E há também a trilha. Tão celebrada desde sua brilhante composição para “Sob a Pele”, a britânica Mica Levi (mais conhecida no meio musical como Micachu) prepara aqui outra vez um ambiente sonoro em que escancara a protagonista como uma alienígena, alguém sem nenhum controle inclusive na execução de protocolos. Natalie Portman corresponde muito bem a esse desafio de encarnar Jackie dentro de uma proposta quase experimental, por vezes tendo mais deveres do que somente processar a sua vocalidade e postura. Uma fusão sobrenatural entre essas duas mulheres acontece especialmente em um dos melhores momentos do filme, em que trechos do documentário televisivo “A Tour of the White House with Mrs. John F. Kennedy” é recriado. São esforços primorosos para oferecer uma cinebiografia respeitosa sobre Jackie, mas o resultado final é insuficiente. E isso acontece porque o apego por conjuntos sensoriais sufocam justamente o fator humano na narrativa. A Jackie Kennedy que encontramos aqui se distancia do molde esmerado de mulher, tão forte inclusive pela ilusão de competitividade com Marilyn Monroe, suposta amante de JFK. Mesmo assim, Jackie segue enclausurada em um contexto em que as atenções, no fim das contas, são todas direcionadas ao marido e presidente assassinado. A figura atenta aos bastidores, com filhos para criar diante a ausência paterna e que se renova como editora são meramente rascunhados diante de nossos olhos inebriados diante de tanta beleza estética.
Resident Evil 6 leva a franquia ao Capítulo Final que merece
A maior qualidade de “Resident Evil 6: O Capítulo Final” é o fato de ser o último filme da franquia. Chega a ser um alívio na verdade. Interessante como filmes ruins se tornam imensamente piores quando vistos numa tela gigante IMAX. É como se todos os seus defeitos ficassem ainda maiores, mais nítidos, mais incômodos. Foi assim no ano passado com coisas como “Independence Day: O Ressurgimento”, “Inferno – O Filme” e “Esquadrão Suicida”. E é assim inevitavelmente com essa… na falta de outro nome, adaptação de game. O segredo dessa franquia ter rendido tantas sequências concebidas por seu diretor e roteirista Paul W.S. Anderson está na forma como ele explora sem pudor sua esposa, a atriz Milla Jovovich, de forma fetichista, mostrando-a em trajes apertados, segurando armas e lutando em câmera lenta contra monstros e zumbis. Boa parte da franquia se resumiu a justificativas para mostrar Milla chutando traseiros de criaturas de forma geek-sexy. Muitas vezes, na companhia de outras atrizes bonitas – Michelle Rodriguez, no primeiro e quinto filmes, Sienna Guillory, no segundo e também no quinto filmes, Ali Larter, que apareceu em três longas, inclusive neste “Capítulo Final”, e a novata Ruby Rose, debutante nesta última bomba. Mesmo assim, houve alguns momentos memoráveis sem exploração feminina ao longo do caminho, como a incursão no interior da Colmeia e os cães zumbis bizarros do primeiro filme, a homenagem a “Os Pássaros” (1963), de Hitchcock, no terceiro, e a utilização de efeitos 3D digitais no quarto, até hoje visto por muitos como um dos melhores usos dessa tecnologia no cinema. Infelizmente, nada de memorável acontece em “Resident Evil 6: O Capítulo Final”. Os cenários não transmitem o mínimo senso de realismo ou beleza, a areia do deserto não parece areia, o roteiro, que nunca foi algo forte em “Resident Evil”, mostra-se ainda mais desleixado. E o filme avança aos trancos, para mostrar a revanche de Alice, a personagem de Milla, contra a corporação Umbrella, com direito a mais lutas em câmera lenta. Cenas que poderiam ser impactantes de alguma maneira, como a luta de Alice sobre um veículo militar, amarrada e perseguida de perto por uma multidão de zumbis, não conseguem despertar a mínima empolgação. A apatia, que já se manifestava nos outros filmes da franquia, agora toma conta do filme como um todo. Tudo é ruim: diálogos, cenas de ação, cenários, fotografia escura, efeitos 3D vagabundos, personagens desinteressantes e conclusão apressada e nada criativa. A única satisfação gerada pelo filme, após quase duas horas de projeção, é saber que acabou. E com direito a um “Capítulo Final” capaz de superar todos os defeitos dos longas anteriores. Um final à altura da franquia.
O Ídolo transforma concurso musical em expressão de um povo oprimido
“O Ídolo” é uma produção palestina que conta com o apoio de vários outros países, como Reino Unido, Holanda, Catar e Emirados Árabes. O diretor Hany Abu-Assad, palestino da cidade de Nazaré, já realizou um belíssimo trabalho que foi exibido por aqui: o filme “Paradise Now” (2005), vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e premiado em Berlim. Mostra os preparativos que realizam dois “homens-bomba” suicidas palestinos, com suas convicções e suas dúvidas. Um libelo pela paz, um trabalho que provoca, incomoda e tenta entender e explicar o que parece incompreensível. “O Ídolo” é um filme mais simples, mais singelo. Mas muito capaz de nos envolver na improvável, mas verídica, história do cantor Mohammed Assaf, morador da Faixa de Gaza, que venceu o concurso “Arab Idol”, em 2013, o equivalente árabe do “American Idol”, importado também por aqui como “Ídolos”. Parece pouco para provocar emoções intensas. No entanto, o que o cineasta mostra é a opressão que atinge os palestinos em Gaza, dependendo das permissões israelenses para se locomover e convivendo com os verdadeiros escombros em que se transforma o seu ambiente bombardeado, semidestruído. Crianças e jovens, mesmo vivendo em condições adversas e de restrição de liberdade, se encantam com a música, formam bandas, cantam e têm sonhos que ultrapassam em muito a restritiva vida que levam. Quando alguém se distingue por um talento especial, como uma rara habilidade vocal para o canto, um concurso como o “Arab Idol” pode funcionar como saída para voos antes inimagináveis. De fato, Mohammed Assaf (vivido por Tawfeek Barhom, de “Os Árabes Também Dançam”, na fase adulta) passará a brilhar com a música no mundo árabe e se tornará um ídolo real, não apenas de um programa televisivo. Grande parte do seu sucesso virá da necessidade de um povo oprimido ser ouvido, mostrar que existe, que pode vencer, triunfar. É isso que faz dessa uma história cativante, não tanto a batalha pela superação das dificuldades, o que vem sendo muito explorado pelo cinema. A arte como meio de expressão, no caso a música, que transcende o cotidiano e alcança repercussão inesperada e significados surpreendentes, é o que “O Ídolo” mostra melhor. Ir ao Egito, chegar às finais do tal programa no Líbano, receber uma torcida entusiasmada, tomando as ruas na Palestina e em outras partes do mundo árabe, gerou uma expectativa inusitada de que a bela voz de um jovem que canta possa transformar o mundo. Ainda que seja uma grande ilusão, é bonito poder acreditar nisso. O filme tem um bom elenco e também boa música, um pouco diferente do que estamos acostumados a ouvir, mas bem bonita.
Associação de críticos franceses elege Aquarius o Melhor Filme Estrangeiro
O drama brasileiro “Aquarius” foi eleito o Melhor Filme Estrangeiro do ano passado pela União Francesa de Críticos de Cinema. O filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Sônia Braga teve sua première mundial na França, exibido no Festival de Cannes, de onde saiu sem prêmios, exatamente como, por coincidência, “Elle”, de Paul Verhoeven, que os críticos franceses consideraram o Melhor Filme de 2016. A produção estrelada por Isabelle Huppert recebeu até uma indicação ao Oscar 2017, na categoria de Melhor Atriz. Por outro lado, a Vitagraphic, que fez a distribuição invisível de “Aquarius” nos EUA, não inscreveu o longa brasileiro no Oscar, deixando-o inelegível. Outro filme indicado pela Academia, a animação “A Tartaruga Vermelha”, também foi destaque e levou o prêmio de Melhor DVD/Blu-ray Recente. Os prêmios da associação de críticos franceses foram criados em 2006 e são concedidos por jornalistas especializados. “Aquarius” também concorre ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no César 2017, maior premiação de cinema da França, comparada ao Oscar no país. A cerimônia está marcada para 24 de fevereiro.
Mistério na Costa Chanel cria humor surreal com personagens bizarros
Uma comédia surrealista é o que o diretor Bruno Dumont oferece com seu novo filme “Mistério na Costa Chanel”. Um elenco estelar, de grandes atores e atrizes, constrói personagens insanos, estranhos, exagerados, ambíguos ou que se inspiram em clichês e tipos familiares à história do cinema. Ma Loute (Brandon Lavieville), que dá o nome original ao filme, é uma figura bizarra. Ele transporta pessoas de um lado ao outro da água, carregando-as nos braços, mas também levando-as, junto com o pai, por meio de um barco, para mais longe. As pessoas que vão podem não voltar mais e esse é o mistério que se passa, no começo do século 20, numa pequena cidade costeira do litoral norte da França. Há muitos desaparecidos por lá, mas uma dupla de detetives desastrada, inspirada em o Gordo e o Magro do cinema, não percebe nada. Nem mesmo a existência de uma família de canibais da qual Ma Loute faz parte. O Gordo (Didier Despres) rola morro abaixo, enquanto a família Van Peteghem: André (Fabrice Luchini), Isabelle (Valeria Bruni Tedeschi) e dois filhos utilizam uma enorme e confortável casa com uma vista privilegiada do local. Receberão a visita de Aude (Juliette Binoche) e sua filha/filho Billie (Ralph). A ambiguidade de gênero do personagem Billie percorre todo o filme: será uma menina que gosta de se vestir de menino ou um menino feminino? Androginia, transexualidade, travestismo ou caso de intersexo? Também não importa muito. Quem disse que os mistérios existem para serem solucionados? Ali ninguém se entende ou se comunica para alcançar algo, muito menos qualquer tipo de racionalidade. Reações histéricas para fatos corriqueiros convivem com uma placidez diante de coisas muito graves que acontecem. As reações não combinam com os fatos. E, naturalmente, o amor que se estabelece entre Ma Loute e Billie pode ser um problema. Há um contexto de luta de classes implícito na trama que contrapõe a alta burguesia esnobe da família Van Peteghem aos pescadores pobres que com eles convivem. Mas ninguém se salva no exagero da caricatura e da farsa. Não há bem e mal, embora estejam caracterizadas diferenças sociais extremas. A maldade e a loucura dominam a cena e detonam tudo. É preciso, evidentemente, entrar na onda do filme, surfar no non sense e rir do besteirol criado por Dumont, que também assina o roteiro e a montagem. Mas não é uma bobagem qualquer. Trata-se de um diretor talentoso, responsável por filmes como “Camille Claudel 1915” (2013), “Fora de Satã” (2011) e “O Pecado de Hadewijch” (2009), capaz de criar sequências muito bem feitas, com um elenco magnífico que atrai todo o interesse. As locações são muito bonitas, mas não é só na Costa Chanel, na França, em 1910, que reside a insanidade. O mundo é uma loucura só. E sempre foi, parece nos dizer Bruno Dumont.
Mistura de fé e carnificina de Até o Último Homem é a cara de Mel Gibson
Nos filmes de “Mad Max” (1979-1985), “Máquina Mortífera” (1987-1998), “Coração Valente” (1995) e “Sinais” (2002), Mel Gibson incorporava o herói enfrentando desafios impossíveis. E ainda que ele não esteja em nenhuma cena de “Até o Último Homem”, sua presença atrás das câmeras confere a esse drama de guerra a sua cara. Truculento, reacionário e movido por uma contraditória fé religiosa. Hollywood adora emoldurar histórias de reabilitação, e depois de todos os revezes que o velho Mad Max passou, porque não abraçá-lo novamente? E “Até o Último Homem” funciona perfeitamente como peça de redenção. O filme está longe de ser ótimo, mas é feito por um sujeito que entende como poucos a ala conservadora da meca do cinema norte-americano (o que explica, e muito, as seis indicações ao Oscar – inclusive de Melhor Filme e Direção – que acaba de conquistar). Em cena, há uma história verídica, a proeza de um certo Desmond T. Doss, um pacifista americano temente a Deus, que serviu como um médico de combate durante a 2ª Guerra Mundial e, pessoalmente, salvou 75 soldados feridos da batalha de Okinawa, tornando-se finalmente o primeiro adventista do sétimo dia a receber a Medalha de Honra do Exército. Como fez em “Coração Valente” e “A Paixão do Cristo” (2004), Mel Gibson equipara virtude espiritual com um infernal teste de resistência corpórea. Seu assunto favorito é o teste e a purificação do temperamento moral de um homem – uma meta que só pode ser alcançada através do sofrimento e de uma brutalidade repugnante e intransigente. O que difere esse herói de outros que Gibson promoveu, é o fato de Desmond entrar na guerra de mãos limpas. Ele não pega em armas, nem mesmo quando seu pelotão é vencido e centenas de soldados japoneses ameaçam acuá-lo. O filme sugere que os buracos mágicos que nessas horas aparecem para o personagem se esconder, talvez tenham mais a ver com uma benção divina do que propriamente com sorte. O melhor em cena é a ironia que o diretor enxerga no compromisso de não-violência de Doss. Tudo começa depois que o ainda jovem e animado religioso (interpretado na infância pelo estreante Darcy Bryce) quase mata o irmão com um tijolo. Esse acidente leva Desmond a um momento messiânico, que Gibson dramatiza com close angustiados, música inchada e uma referência pesada a Caim e Abel. Então a ação salta uma década e vemos um Doss crescido em 1942, com o esforço de guerra americano em pleno andamento. Ele é um homem mudado – literalmente, interpretado por aquele bom moço que já foi “O Espetacular Homem Aranha”, Andrew Garfield. Um adventista do sétimo dia que se recusa a carregar armas, Doss, no entanto, anseia por servir ao seu país e se alista no exército – embora não antes de se apaixonar por uma bela enfermeira, Dorothy (Teresa Palmer, de “Meu Namorado É um Zumbi”), que ele persegue com a mesma alegre teimosia que caracteriza cada uma de suas decisões. Sem dúvida, ele herdou parte da vontade de ferro de seu pai, Tom (Hugo Weaving, da trilogia “O Hobbit”), um veterano da 1ª Guerra Mundial, com cicatrizes e amarguras, que irrompe regularmente em ataques de abuso de bebedeiras. Uma vez levantado o esqueleto da trama, Gibson não ousa pisar fora das fronteiras do maniqueísmo. É tudo muito preto ou muito branco. Os homens que Doss encontra no campo de treinamento são uma mistura previsível de caras duros e de arquétipos cômicos, mas todos eles, num momento, ou em outro, são malvados com o recruta. Entre eles estão Vince Vaughn (“Os Estagiários”), como um sargento bonachão, e Sam Worthington (“Evereste”) como um capitão intransigente. Depois, na segunda parte, transfere-se a malvadeza para os japoneses. Nenhum inimigo é tratado com profundidade. São todos caricatos. E então, na hora de mostrar a batalha, Gibson mal se segura. Dá pra sentir o prazer com que ele encena a carnificina. Não há nenhuma eficiência limpa e cauterizada que caracterize as cenas de guerra. É um festival de balas rasgando a carne, de corpos sendo explodidos em dois, de membros sendo arrancados ou sendo queimados. Em nome de mais realismo, o diretor exerce seu gosto pelo virtuosismo sádico. Mas não é o que mais incomoda em “Até o Último Homem”. Há algo mais desconfortável no centro desse projeto. Uma ênfase de que foi a pureza da fé de Doss que salvou o dia, o que implica em dizer que os mortos e os derrotados não eram suficientemente puros. O Doss real, que morreu em 2006, aparece em uma breve e emocionante entrevista pouco antes do rolo de créditos, acrescentando mais um pouco de veracidade à interpretação de Gibson dos eventos. E uma das coisas mais ressonantes que ele diz é que ele ainda acredita que “ninguém deve ser forçado a agir contra suas convicções”. Mas esse conto de heroísmo na vida real parece menos uma celebração das convicções humanistas e mais uma declaração da superioridade moral dos fiéis sobre os infiéis.
A Morte de Luís XIV é uma obra mórbida de arte
Um filme que cheira à morte. Assim pode ser descrito a nova obra de Albert Serra, “A Morte de Luís XIV”, que apesar de parecer um desafio para um público mais amplo, é tão fascinantemente mórbido que prende o espectador até seu doloroso fim. Quem teve a paciência de ver até o final o primeiro filme do cineasta catalão, “Honra dos Cavaleiros” (2006), pode até considerar “A Morte de Luís XIV” extremamente acessível. Mas é um filme de andamento narrativo lento e que abusa da sensação de claustrofobia – a história se passa quase que inteiramente dentro do quarto de Sua Majestade. O título deixa claro do que a produção se trata. E desde o começo da narrativa o rei da França já aparece extremamente debilitado, reclamando de uma dor na perna. É razoável imaginar que o fato de ser um monarca lhe permitiria maior conforto, mas o tratamento privilegiado apenas torna sua decadência física mais incômoda e escancaradamente visível. Vê-se a manifestação tangível da morte em cada etapa de sua deterioração, a começar pelo orgulho próprio. Ansioso por participar de uma missa ou de uma reunião importante, o rei percebe que não tem condições de fazer qualquer coisa a não ser ficar deitado em seu leito. “A Morte de Luís XIV” mostra sua agonia com muitos silêncios e muitos sussurros. O rei pouco fala, até porque não tem forças. Mas aqueles que estão monitorando e tentando salvá-lo da doença conversam o tempo todo sobre as possibilidades de cura, de tentar salvar a perna doente, de pensar na alimentação como possível inimiga da saúde etc. E a linguagem narrativa de Serra em seu filme é tão impressionantemente realista que é quase como se estivéssemos ali pertinho do rei moribundo, aguardando como urubus o momento de sua partida final. Mas, ao mesmo tempo que é realista na condução da dramaturgia, há todo um cuidado formal com a disposição da câmera, das cores (com destaque para o vermelho) na fotografia, e outros aspectos que valorizam a construção das cenas, refletindo os tons e a suntuosidade da pinturas de Hyacinthe Rigaud, retratista favorito do rei. Não custa lembrar que Luís XIV é considerado o maior rei da França. Recebeu a alcunha de “Rei Sol” e reinou longos 72 anos, sendo que foi durante o seu reinado que o país chegou à liderança das potências europeias. Saber esses e outros detalhes é importante para situar a comoção que a morte do rei pode ter causado na época. Mas, mesmo não sabendo nada a respeito do personagem, o filme de Serra tem uma força impressionante, com sua atmosfera lúgubre. Para os cinéfilos, também ressoa a escalação de Jean-Pierre Léaud, que será eternamente lembrado por seu papel como o inquieto e enérgico Antoine Doinel, cuja trajetória começou ainda criança nos filmes de François Truffaut. Quem apostaria, em 1959, que o menor de “Os Incompreendidos” continuaria no cinema por mais de meio século para se mostrar como um homem velho em estado terminal?
Sob a Sombra encontra o terror na cultura iraniana
Há um monstro em “Sob a Sombra”, mas não um monstro como aqueles a que fomos habituado pelo cinema norte-americano. A criatura pode ou não estar escondida dentro do lar da iraniana Shideh (Narges Rashidi), mas há uma guerra correndo lá fora, e apenas Shided e sua filha pequena, Dorsa (Avin Manshadi), parecem amedrontadas pela sinistra figura. O míssil encravado no apartamento do vizinho de cima sem detonar, talvez explique o pavor que mãe e filha vivem, enquanto o marido, um médico do exército recrutado para dar assistência no front, não volta. O horror vem da aflição e do perigo eminente do desconhecido, mas também da sombra de algo bem conhecido: a guerra. No caso, o final do confronto entre Irã e Iraque em 1988, um episódio histórico que deixou milhares de mortos e a cidade de Teerã em ruínas. O diretor e roteirista estreante Babak Anvari baseou-se em sua própria experiência de infância do período para recriar o clima de agonia e tensão de “Sob a Escuridão”. Intriga a forma como ele faz o terror progredir. A ameaça não vem de fora, ela brota de dentro. É como se estivesse debaixo da pele e atingisse primeiro os ossos. A mãe procura manter a rotina dentro de casa tranquila e a violência, embora referida a todo momento, nunca ocorre em quadro. Os barulhos das explosões e as rajadas de metralhadoras parecem longe, mas funcionam como pequenos lembretes. Não adianta fingir, é preciso estar sempre alerta. É por isso que mãe e filha dormem pouco. A pequena Dorsa é a primeira a pressentir os sinais dos “djins”. Só muda o nome, essas figuras folclóricas da cultura persa, no fundo são carregadas pelo vento do mesmo modo que o bicho papão da cultura ocidental. Shideh, é claro, tenta tranquilizar a criança, mas quando vislumbra atrás dela, espelhada na tela da TV, algo que não deveria estar lá, as duas esquecem o temor da guerra e os perigos da noite, e correm em pânico pelas ruas. É um alívio quando avistam as luzes de um veículo policial à frente; a dedução é que certamente esses homens virão em auxílio. Mas, em vez disso, eles repreendem as duas, com uma pergunta: “Estamos na Europa agora?” Só então a iraniana Shihed percebe que esqueceu a burka. Cáustica ironia, além de enfrentar a guerra e os “djins”, ainda há tempo para os oficiais lembrá-las dos costumes e do decoro. O que nos leva a crer que, em filme de terror do Oriente Médio, a desvantagem das vítimas é muito maior. Disponibilizado por streaming pela Netflix, a coprodução entre Irã e Reino Unido foi uma das sensações do Festival de Sundance do ano passado e, desde então, conquistou diversos prêmios, como Melhor Filme da mostra New Visions do Festival de Sitges (o mais famoso evento de cinema fantástico do mundo), além dos BIFAs (prêmio do cinema independente do Reino Unido) de Melhor Roteiro, Atriz Coadjuvante e Diretor Estreante – sem esquecer que ainda está indicada ao BAFTA (o “Oscar britânico”) e ao Independent Spirit Awards (o “Oscar indie”) em diversas categorias.
Manchester à Beira-Mar oferece mergulho dramático consagrador a Casey Affleck
É próprio dos grandes atores serem capazes de preservar-se da influência negativa dos holofotes. Casey Affleck manteve essa discrição em sua carreira até não poder mais. Já tinha brilhado em “O Assassinato de Jesse James” (2007), mas do mesmo modo que o filme salientou seu talento, inclusive com uma indicação para o Oscar, deixou-o temeroso de aceitar uma nova condição em Hollywood, e assim Affleck rapidamente voltou a penumbra. “Manchester à Beira-Mar” (Manchester by the Sea) arranca o ator do segundo plano mais uma vez. E com maior contundência. Não é por acaso que o filme está em quase todas as listas dos melhores do ano. É um mergulho no realismo das relações, filmadas cruamente e sem pudor. Não tem nada a ver com o sentimentalismo infantil e declamatório, que tantas vezes já vimos no cinema norte-americano. É uma outra coisa. Há uma riqueza ilimitada de expressões no ser humano, e a curiosidade de observador do ínfimo drama cotidiano é algo que o diretor e dramaturgo Kenneth Lonergan (“Conte Comigo”) vem apurando ao longo dos anos. Com Casey Affleck, Lonergan encontra o ator ideal para inscrever na tela a dor do ser anônimo mergulhado na solidão e no luto. “Manchester” abre com uma charmosa vinheta de dois homens e um menino numa excursão de verão no barco de pesca da família. Os dois são os irmãos Chandler. Joe, o mais velho (Kyle Chandler) pilota o barco; Lee, o mais novo (Affleck), ensina o sobrinho, Patrick, a pescar. É um momento alto astral, mas a cena seguinte revela que essa nau flutua entre o presente, o passado e há uma tragédia conectando os dois tempos. No presente, Lee vive como um zumbi num porão em Boston. De dia, leva um trabalho pesado de zelador num condomínio. É ótimo na execução das tarefas, mas não tem tolerância para lidar com os humores dos condôminos. Nem paciência para entabular uma conversa com uma garota que se aproxima, à noite no bar. Ele se irrita com a moça e deixa bem claro sua condição de ermitão. Sua fiação emocional parece desgastada, e parece haver uma pitada de penitência em sua solidão. A forma como Affleck submerge neste personagem tem uma extensão assombrosa. Vai levar uma hora ou mais para descobrirmos o porquê. Mas o ator projeta a gravidade do personagem em todos seus olhares e gestos: as mãos presas nos bolsos, os olhos inquietos, enquanto o álcool o eleva e afasta da Terra. Então um telefone toca tirando o homem amortecido da rotina. A chamada é de um hospital em Manchester: o irmão mais velho, Joe, teve um ataque cardíaco. Enquanto Lee empreende a longa viagem de volta a sua terra natal, Lonergan mantém o filme num ritmo sereno. Definitivamente, ele não é um diretor adepto de sobressaltos ou de firulas visuais, mas a partir daqui, cria um emaranhado de sutilezas e um complexo jogo de espaços e interações inusitado. A começar pela habilidade que interliga a trama em flashbacks. Em princípio, as idas e vindas parecem óbvias, mas na verdade, elas estruturam o filme no mesmo estado de levitação do barco no início. O irmão de Lee morre antes que ele consiga percorrer o extenso caminho de Boston a costa. E quando ele é colocado em frente ao cadáver, imediatamente, Lonergan se nega a mostrar o morto, levando-nos a um flashback de quando o homem recebia naquele mesmo hospital o diagnóstico de que tinha pouco tempo de vida. O passado e o presente se fundem, sem demora, deixando a estranha sensação de ver uma pessoa viva imediatamente após a sua morte. O “é” e o “foram” no filme são enlaçados e amarrados juntos. O mérito de “Manchester à Beira-Mar” reside justamente na criação dessa atmosfera oscilante, por vezes trágica, por vezes pontilhada de momentos cômicos. Os personagens invariavelmente riem de suas desgraças. Joe é o primeiro a fazer piada com seu estado, quando o médico lhe dá a péssima notícia. O sobrinho então esquece as diferenças com o tio quando precisa que ele distraia a mãe da namorada, para que possa ir até onde deseja no quarto da menina. Algumas cenas parecem saídas de uma comédia ligeira, outras são de uma mordacidade incrível. Num dos momentos mais terríveis, logo depois de um incêndio, enfermeiros tentam carregar numa maca a mulher que perdeu os filhos no fogo e não conseguem colocá-la na ambulância. As pernas da maca emperram. A trapalhada dura dois segundos, mas é o suficiente para desconcertar de tão patética. Pior de tudo, vemos como um pequeno erro estúpido de um personagem adquire consequências tão vastas que reduzem a vida de outros a cinzas. A ironia é cáustica aqui. Para desespero de Lee, ele acaba nomeado como o guardião legal de Patrick (Lucas Hedges), filho de Joe. É o mesmo menino do início na pesca, só que ele cresceu, tem 16 anos, e não tem absolutamente nenhum desejo de se acertar com o tio. Grande parte da história envolve as duas figuras se medindo, estudando, tentando chegar a algum lugar. Numa segunda instância, ocorre uma outra dificuldade de acerto de Lee. Em seu regresso forçado a Manchester, ele reencontra também a ex-mulher (Michelle Williams). O personagem procura adiar a conversa com ela, mas são tantas as coisas que a mulher tem sufocada para dizer, que quando eles se encontram numa esquina, as emoções jorram numa torrente. Hollywood gosta de insistir que, ao encontrar uma pessoa especial, seja um forasteiro, alienígena ou amigo, você pode curar ou ser curado de seus males. Ninguém é curado no final de “Manchester à Beira-Mar”. A inquietação cresce, e o diretor consegue-nos manter sempre no fio instável do desconforto, num equilíbrio entre a aflição e o alívio, com um nó na garganta, no corpo todo, que não se desata nunca. O passado é um novelo que vai acumulando mal-entendidos e equívocos e, de uma forma sempre elegante, jogando com uma espécie de fora de campo do som e das palavras, Lonergan vai-nos alertando para o que ficou por dizer. E como numa verdadeira tragédia grega não há redenção possível. A cidade do título é devidamente esboçada, inclusive em suas cores – nem sempre fica claro onde o cinza do oceano termina e começa o céu do inverno. Seja como for, o odor é a última memória a partir.












