Crítica: O Ídolo transforma concurso musical em expressão de um povo oprimido

 

“O Ídolo” é uma produção palestina que conta com o apoio de vários outros países, como Reino Unido, Holanda, Catar e Emirados Árabes. O diretor Hany Abu-Assad, palestino da cidade de Nazaré, já realizou um belíssimo trabalho que foi exibido por aqui: o filme “Paradise Now” (2005), vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e premiado em Berlim. Mostra os preparativos que realizam dois “homens-bomba” suicidas palestinos, com suas convicções e suas dúvidas. Um libelo pela paz, um trabalho que provoca, incomoda e tenta entender e explicar o que parece incompreensível.

“O Ídolo” é um filme mais simples, mais singelo. Mas muito capaz de nos envolver na improvável, mas verídica, história do cantor Mohammed Assaf, morador da Faixa de Gaza, que venceu o concurso “Arab Idol”, em 2013, o equivalente árabe do “American Idol”, importado também por aqui como “Ídolos”.

Parece pouco para provocar emoções intensas. No entanto, o que o cineasta mostra é a opressão que atinge os palestinos em Gaza, dependendo das permissões israelenses para se locomover e convivendo com os verdadeiros escombros em que se transforma o seu ambiente bombardeado, semidestruído.

Crianças e jovens, mesmo vivendo em condições adversas e de restrição de liberdade, se encantam com a música, formam bandas, cantam e têm sonhos que ultrapassam em muito a restritiva vida que levam. Quando alguém se distingue por um talento especial, como uma rara habilidade vocal para o canto, um concurso como o “Arab Idol” pode funcionar como saída para voos antes inimagináveis.

De fato, Mohammed Assaf (vivido por Tawfeek Barhom, de “Os Árabes Também Dançam”, na fase adulta) passará a brilhar com a música no mundo árabe e se tornará um ídolo real, não apenas de um programa televisivo. Grande parte do seu sucesso virá da necessidade de um povo oprimido ser ouvido, mostrar que existe, que pode vencer, triunfar. É isso que faz dessa uma história cativante, não tanto a batalha pela superação das dificuldades, o que vem sendo muito explorado pelo cinema.

A arte como meio de expressão, no caso a música, que transcende o cotidiano e alcança repercussão inesperada e significados surpreendentes, é o que “O Ídolo” mostra melhor. Ir ao Egito, chegar às finais do tal programa no Líbano, receber uma torcida entusiasmada, tomando as ruas na Palestina e em outras partes do mundo árabe, gerou uma expectativa inusitada de que a bela voz de um jovem que canta possa transformar o mundo. Ainda que seja uma grande ilusão, é bonito poder acreditar nisso.

O filme tem um bom elenco e também boa música, um pouco diferente do que estamos acostumados a ouvir, mas bem bonita.

Comente

Antonio Carlos Egypto é psicólogo educacional e clínico, sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS - Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de "Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar","No Meu Corpo Mando Eu","Sexo, Prazeres e Riscos", "Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão" e "Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante", entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Participa da Confraria Lumière, é associado da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e edita o blog Cinema com Recheio

Back to site top
Change privacy settings