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  • Filme,  Música

    Legalize Já acerta praticamente tudo ao contar a gênese do Planet Hemp

    27 de outubro de 2018 /

    É raro uma cinebiografia acertar a mão. Muitas tentam dar conta da vida completa do artista ou da pessoa em questão e acabam por tornar tanto a narrativa quanto o personagem rasos. Não é o caso de “Legalize Já – Amizade Nunca Morre”, dirigido por Johnny Araújo e Gustavo Bonafé, que faz um recorte destacando a amizade entre Marcelo D2 e Skunk, responsáveis pela criação de uma das bandas mais importantes do cenário brasileiro dos anos 1990, o Planet Hemp. Bastava estar vivo naquela década para lembrar o que o rolava nas rádios e nas televisões: era o boom do pagode e do axé. O surgimento das novas bandas da turma de 1994 foi crucial para dar uma oxigenada no rock daquele período, ainda que as bandas da década anterior ainda estivessem ativas e interessantes. Mas era preciso sangue novo e essa nova turma em geral soube lidar com a transgressão de maneira muito mais efetiva que a turma anterior. Colocar a legalização da maconha como principal bandeira por si só já foi um trunfo. Mas o Planet Hemp tinha também muito a oferecer no que se refere à qualidade de sua música. Uma coisa que muita gente não sabia era a importância de Skunk para a criação do conceito da banda. Marcelo não acreditava em si mesmo, embora as letras tenham partido dele desde o começo. Skunk, soropositivo, tentou lidar com a doença até onde deu. Na época, os coquetéis para combater o avanço do HIV eram muito desconfortáveis e tinham efeitos colaterais desagradáveis. “Legalize Já” ganhou o subtítulo “Amizade Nunca Morre” justamente por focar mais na amizade da dupla do que na criação musical. As linhas paralelas das vidas de Marcelo, camelô que vendia camisetas de banda de rock na rua, e Skunk, que morava com um amigo argentino dono de bar e de uma espécie de mini-estúdio caseiro, cruzam-se em um momento em que o rapa aparece para desmontar as bancas de alguns vendedores de rua. Chega a ser tocante ver a aproximação e a ótima química entre os dois, com Skunk sempre sendo o cara que motiva Marcelo a acreditar em si, em pensar grande com a ideia de montar uma das melhores bandas de rock do país. Apesar de haver aspectos dramáticos muito fortes, devido às situações nada fáceis da vida de ambos, o filme tem uma pegada leve, com cenas bem divertidas. E há também momentos musicais, que são de arrepiar. O que dizer da primeira vez em que ouvimos “Phunky Bhuda”? O que é aquele riff de guitarra, aquela energia? Vale destacar aqui as excelentes performances dos atores. Tanto Renato Góes (“Pequeno Dicionário Amoroso 2”) como Marcelo D2 quanto Ícaro Silva (“Sob Pressão”) como Skunk estão ótimos. Principalmente o segundo, que exala um carisma impressionante. E também a evolução do diretor Johnny Araújo, que filma rock desde sua estreia, “O Magnata” (2007), com roteiro de Chorão e participação do Marcelo Nova, e seguiu firme no tema com “Depois de Tudo” (2015), uma espécie de ode à canção “Soldados”, da Legião Urbana. “Legalize Já” é poesia urbana que, em vez de rimas, usa imagens.

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  • Filme,  Música

    Nasce uma Estrela é um show de talento na frente e atrás das câmeras

    17 de outubro de 2018 /

    Uma frase dita no final de “Nasce uma Estrela” pelo ator e (agora) diretor Bradley Cooper define a abordagem do filme. “Música é, essencialmente, 12 notas entre qualquer oitava. 12 notas e a oitava repete. É a mesma história sendo contada de novo e de novo. Tudo o que um artista pode oferecer ao mundo é como ele enxerga essas 12 notas.” Além de ter seu contexto na trama, é a forma como o astro justifica a repetição dos roteiros contados diversas vezes por Hollywood, incluindo seu próprio remake. A diferença estaria na interpretação de cada artista – ou cineasta. Diferentes gerações tiveram seu “Nasce uma Estrela” – este é o quarto – e, por isso, é quase um milagre que o diretor de primeira viagem não tenha oferecido o previsível mais do mesmo. Pelo contrário, conta sua versão com tanta paixão que a torna relevante para os tempos atuais, extremamente carentes de boas histórias que exalem valores básicos da humanidade, como amizade, amor, bondade, coisas que perdemos pelo caminho. E o filme de Bradley Cooper não tem medo de ser feliz ao abraçar seu romantismo exacerbado e por vezes brega. Ora, existe sentimento mais brega que o amor? Cooper não tem a mínima vergonha disso e se aproveita do momento cínico que o mundo vive para emprestar um pouco de frescor a uma fórmula tão desgastada. Entrega, assim, um filme emocionante e que vicia, porque gruda como chiclete da mesma forma que um belo refrão. Mas nada disso seria possível sem uma musa inspiradora. Neste caso, Lady Gaga, que é sim boa atriz e, mais que isso, entrega talvez a melhor performance de uma cantora famosa no cinema desde Cher em “Feitiço da Lua”, de 1987. E o melhor elogio que se pode fazer nem é esse. É que ela consegue fazer o público esquecer que está diante de Lady Gaga. Até mesmo quando sua personagem começa a ficar famosa e cantar cada vez mais. Todo mundo conhece a trama de “Nasce uma Estrela”. Músico decadente e alcoólatra (Jackson Maine) ganha uma segunda chance não na carreira, mas na vida ao abrir as portas do showbusiness para uma cantora amadora, porém promissora (Ally). Bradley Cooper optou por falar e cantar (muito bem) pra dentro, o que tem tudo a ver com Jackson Maine, personagem reprimido e autodestrutivo. Não por acaso recebeu conselhos de Eddie Vedder para cantar, embora mantenha um estilo mais Chris Cornell no quesito comportamento. Por sua vez, ele próprio se disse influenciado por Neil Young – a banda mais recente do roqueiro canadense o acompanha nas músicas. Mas é interessante como o ator engrossa a voz para revelar a surpreendente opção pela técnica: seu personagem é irmão de Sam Elliott, com seu melhor papel em anos e dono de um dos vozeirões mais imponentes e inconfundíveis de Hollywood. É visível a evolução de Cooper como ator e dá pra cravar que ele nunca esteve tão bem quanto em “Nasce uma Estrela”. Mas o que nasce de verdade aqui é um novo diretor americano talentoso, que ainda pode dar muitas alegrias para o cinema, pois mostrou dominar algo que Hollywood valoriza muito: o equilíbrio entre integridade artística e viés comercial (um recado nas entrelinhas do próprio roteiro que bate sutilmente na indústria fonográfica). Sobretudo, Cooper sabe contar uma história, mesmo que dê uma acelerada aqui e ali no processo, como um noivado que vira casamento da noite para o dia e a estreia nos palcos da personagem de Lady Gaga num piscar de olhos, que é a melhor cena do filme ao som da melhor canção feita para o cinema nos últimos anos, “Shallow”, embora tenhamos também as ótimas “Maybe It’s Time”, “I’ll Never Love Again” e “Black Eyes” – a trilha sonora está vendendo tanto quanto os ingressos de cinema. Outro momento acelerado é quando o empresário de Ally fala algumas verdades e toma uma decisão polêmica sem pensar muito ou discutir com a moça a respeito das consequências. Mas ao invés de criticar Bradley Cooper, é válida a tentativa de se colocar no lugar do artista, que costuma ser intenso e trazer tudo à flor da pele. Por exemplo, os olhares que brilham quando Jackson e Ally se encontram no início do filme. E se você prefere a primeira metade de “Nasce uma Estrela”, é porque o amor é lindo e você foi fisgado. Se a segunda metade parece mais pesada é porque a vida não é fácil e a realidade, mais cedo ou mais tarde, bate à nossa porta. Imagine, então, que essa história é sobre artistas que transparecem mil vezes mais sensibilidade em relação a um mero mortal. Até “La La Land” também se inspirou nas versões anteriores de “Nasce uma Estrela”. No filme de Bradley Cooper, essa linha tênue entre estar nas nuvens ou no inferno é refletida quando as lentes do diretor de fotografia Matthew Libatique estão seguindo Ally e Jackson, principalmente nos palcos, e se perdem entre flashes e sombras. A opção por deixar os rostos dos atores bem próximos à câmera sugere um mergulho interno, como se ela quisesse olhar dentro deles para tentar entender o que estão pensando seus personagens. Compare como o filme abre com Jackson de costas, cabisbaixo, rasgando sua guitarra, envolto pela penumbra, enquanto o final é dominado por cores fortes e Ally cantando como nunca cantou antes, até o último frame que traz Lady Gaga olhando para frente – na verdade para vocês, espectadores, que assistiram ao show. São imagens claras de transição, do ocaso de um artista ao momento em que nasce uma estrela.

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  • Filme

    Os Invisíveis resgata história dos judeus que sobreviveram ao nazismo em Berlim

    13 de outubro de 2018 /

    Em junho de 1943, o ministro Joseph Goebbels declarou Berlim “livre de judeus”. Mas, na verdade, cerca de 7 mil judeus permaneceram na capital alemã, na clandestinidade, a maior parte jovens. 1,7 mil deles conseguiram sobreviver até o final da guerra. Para que isso fosse possível, era preciso que muitos alemães – dezenas de milhares – ajudassem a escondê-los ou, pelo menos, deixassem de denunciá-los. O que indica que, apesar do maciço apoio ao regime nazista, havia uma oposição humanitária e corajosa, agindo silenciosamente nos subterrâneos. Esse fato histórico é explorado em “Os Invisíveis”, uma ficção não só inspirada na realidade comprovada, como mesclada ao documentário, por meio de entrevistas com os sobreviventes retratados na narrativa do filme de Claus Räfle. São eles Cioma Schönhaus (1922-2015), interpretado por Max Mauff (“Sense8”), Ruth Arndt (1922-2013), papel de Ruby O. Fee (“Os Irmãos Negros”), Hanni Lévy, nascida em 1924 e vivendo em Paris, interpretada por Alice Dwyer (“A Garota das Nove Perucas”, e Eugen Friede, nascido em 1926 e vivendo na Suíça, papel de Aaron Altaras (“Nem Todos Eram Assassinos”). Pequena parte das entrevistas feitas com esses quatro sobreviventes, que são os protagonistas da trama, aparece no filme entremeada com a evolução da narrativa ficcional. A sobrevivência de Cioma, Hanni, Ruth e Eugen é mostrada alternadamente em histórias paralelas, sem encontro entre eles. Cada um deles, todos muito jovens, se torna “invisível” de forma diferente, numa clandestinidade que aparece à luz do sol. Cioma, estudante de artes gráficas, acabou trabalhando como falsificador de passaportes e se utilizou desse mesmo recurso para se salvar, chegando à fronteira com a Suíça, onde passou a viver. Hanni, de 17 anos, após a morte dos pais encontrou refúgio ao ser acolhida por uma vendedora de ingressos de cinema em sua casa, após pintar o cabelo de loiro, o que a tornava algo invisível. Passava a maior parte do tempo na rua. Ruth vive uma odisseia de esconderijo em esconderijo, se disfarça de viúva de guerra e trabalha como empregada doméstica na casa de um oficial das forças armadas do Terceiro Reich. Eugen, de 16 anos, único na família que precisava usar a estrela amarela porque tinha mãe judia e padrasto cristão, viveu escondido e se juntou a um grupo de resistência que, por meio de panfletos, denunciava crimes nazistas. O que eles vivem, mostrado realisticamente, mas em tom poético, com suspense e até humor, traz um retrato humanista, muito colado á realidade, e esperançoso, quase otimista, apesar de toda a barbárie. A forte sustentação documental do filme se explica por anos de pesquisa, instituições alemãs que preservam a memória do período e pela longa experiência anterior do cineasta como documentarista.

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  • Filme

    Uma Noite de 12 Anos relembra a repressão das ditaduras militares na América Latina

    6 de outubro de 2018 /

    Nos anos 1960 e 1970, pipocaram ditaduras militares por toda a América Latina. Contavam com apoio civil relevante, internamente, e apoio decisivo internacional, em especial dos governos dos Estados Unidos, que atuavam como financiadores e capacitadores das ações de repressão. O que se viu no Brasil por longos 21 anos aconteceu no mesmo período, ainda que por menos tempo, na Argentina, no Chile e no Uruguai. Os níveis de violência, tortura e morte dos opositores variam bastante, mas os métodos se assemelham. Vivia-se o mesmo período de trevas e supressão da democracia, em todos os lugares. Assim como havia o terrorismo de Estado, também se desenvolveu a luta armada de resistência. O padrão de resposta à opressão também variou muito, mas com elementos comuns. No caso uruguaio, foram de 12 para 13 anos de ditadura, de 1972 a 1985, e a resistência armada foi protagonizada por um forte e ousado grupo de guerrilheiros urbanos, do movimento de libertação nacional conhecido como Os Tupamaros. O filme “Uma Noite de 12 Anos” trata da prisão e sequestro de três membros dos Tupamaros, que estiveram nas mãos dos militares nesse período. A saber: José Mujica, o Pepe (Antonio de la Torre, de “Os Amantes Passageiros”), que acabaria sendo eleito presidente do Uruguai em 2010, Eleuterio Fernandez Huidoro (Alfonso Tort, de “O Silêncio do Céu”), que depois foi senador e ministro, e o jornalista e escritor Maurício Rosencof (Chino Darín, também de “O Silêncio do Céu”). A prisão que eles amargaram por esses 12 anos é algo absolutamente inominável, como mostra o filme do diretor uruguaio, que vive na Espanha, Álvaro Brechner (“Sr. Kaplan”). A opressão é absoluta, desmedida. As condições de encarceramento em isolamento, desumanas e degradantes, sem nenhum respeito aos direitos humanos. Numa situação tal que é um milagre conseguir sobreviver sem enlouquecer. O filme mostra claramente esse dia a dia abominável, em que a tortura psicológica atua e complementa a tortura física, nas condições mais humilhantes que o ser humano pode conceber. Também mostra os poucos respiros que surgem na convivência humana, mesmo nessas condições. Inclui imagens de memória, sonho ou imaginação, que aliviam a carga dramática. Mas faz um retrato da desumanidade que é assustador. Como foi possível que todo aquele sofrimento pudesse gerar uma figura tão cativante quanto o presidente Pepe Mujica? É absolutamente incrível! Assistir a “Uma Noite de 12 Anos” é politicamente recomendável para entendermos a que ponto pode chegar o autoritarismo de um regime de força. Ainda que o filme seja sofrido e pesado – e não tenha uma intenção de exploração histórica do período, com referências ao que estava acontecendo tão perto, como o regime de terror de Pinochet no Chile, por exemplo. A entrega dos atores às filmagens das condições do cárcere ilegal compõe um retrato realista, que acaba tornando tudo muito claro e didático. Por se tratar de uma situação extrema, a que nenhum ser humano pode ser submetido – mas que continua acontecendo pelo mundo, em meio às guerras e perseguições de toda ordem – , resta-nos lutar pela preservação da democracia, para que, ao menos, possamos usufruir de um convívio civilizado que respeite a vida, a integridade e a dignidade das pessoas.

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  • Filme

    A Fábrica de Nada reflete o crescimento do desemprego na fase atual do capitalismo

    30 de setembro de 2018 /

    Condição necessária para a existência da produção e, consequentemente, do lucro no sistema capitalista, é a mão de obra geral e especializada, que vem dos trabalhadores. Mas em tempos de tecnologia avançada, robótica e que tais, o próprio trabalhador começa a ser dispensável. Máquinas podem ser eliminadas ou substituídas por equipamentos mais recentes, que chegam a tornar obsoletos a própria estrutura física das fábricas e seu maquinário tradicional. Ou esse maquinário pode ser deslocado para onde a tecnologia não se sofisticou e que mantém custos de mão de obra tão baixos que se aproximam da escravidão. Esse é o pano de fundo da história do filme português “A Fábrica de Nada”, dirigido por Pedro Pinho (“Um Fim do Mundo”) a partir de ideia original do cineasta Jorge Silva Melo (“Agosto”), com base na peça “The Nothing Factory”, da escritora holandesa Judith Herzberg. A referência teatral não impede que o realizador trabalhe o material fílmico de forma documental, inclusive dedicando a obra aos trabalhadores da Fateleva, que, entre 1975 e 2016, levaram a cabo uma experiência de autogestão na fábrica de elevadores Otis portuguesa. Experiência que, certamente, inspirou “A Fábrica de Nada”, tanto quanto a peça original holandesa. Trata-se, de qualquer modo, de uma ficção. Quando equipamentos da fábrica vão desaparecendo, ou são roubados, à noite, esvaziando as condições de trabalho e produção, seus operários decidem fazer vigílias para impedir que isso continue a acontecer. A fábrica, porém, para de produzir. Eles não têm o que fazer e agora são os seus empregos que estão em jogo. Há um plano evidente de desativar a fábrica e dispensar os trabalhadores. Eles partem para a greve, recurso histórico e legítimo dos operários. Mas greve numa fábrica que já parou? A ideia do roteiro é ótima, muito bem desenvolvida e com um elenco convincente, que nos põe no mundo dessa fábrica estranha que, no entanto, é tão representativa dos dias econômicos atuais. E, de quebra, reflexões teóricas sobre a presente etapa do capitalismo, que se caracteriza pelo desemprego, vão sendo lançadas ao longo do filme, ilustrando as encenações, ou melhor, dando a elas um caráter mais geral, extrapolando o caso concreto que está sendo mostrado. Apesar das quase três horas de projeção, o filme flui bem, cria uma situação de expectativa e de suspense que mantém o espectador interessado no que vai ocorrer em seguida.

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    Sierra Burgess É uma Loser recicla Cyrano de Bergerac para a geração Netflix

    23 de setembro de 2018 /

    Há uma razão para afirmar que “Sierra Burgess É uma Loser”, comédia teen da Netflix, nasceu velha. Não por se entregar aos clichês da comédia romântica adolescente e de escolinha, mas principalmente por confiar em conceitos que falavam com a sociedade de quase 40 anos atrás, mas que hoje soam retrógrados e, mesmo que originados de boas intenção, resultam como equivocados e até mesmo preconceituosos. O filme do estreante em longas Ian Samuels (do curta premiado em Sundance “Myrna the Monster”) colhe sua inspiração de “Cyrano de Bergerac”, peça clássica de 1897. Já vimos diversos filmes adaptados da obra de Edmond Rostand e não é a primeira vez que os figurinos de época são deixados no armário e substituídos por roupas do período em que a produção foi rodada, como “Roxanne”, de 1987, com Steve Martin e Daryl Hannah. Apesar do título, o filme de Fred Schepisi não é contado do ponto de vista da personagem título interpretada por Daryl Hannah, mas pelo Cyrano narigudo de Steve Martin que tem outro nome que ninguém lembra, embora faça referência ao protagonista da obra clássica. Só que as pessoas lembrarão do nome de Sierra Burgess (vivida por Shannon Purser, a Barb de “Stranger Things”), que não é nariguda, mas gorda. E também lembrarão dos filmes dos John Hughes. E nostalgia é uma sensação indescritível de tão boa. Só que Hughes é a cara dos anos 1980 e o mundo mudou muito nas últimas décadas, não? É preciso atualizar alguns conceitos, afinal certas soluções não podem mais funcionar em 2018. Veja “Gatinhas e Gatões” agora e tente não ficar indignado. Por sinal, a produção da Netflix traz alguns ídolos juvenis dos anos 1980, como Lea Thompson, que esteve em “De Volta para o Futuro”, e Alan Ruck, de “Curtindo a Vida Adoidado” (de John Hughes!). Na trama, Sierra é uma adolescente intelectual, que sofre bullying das meninas populares da escola, como a líder de torcida Veronica (Kristine Froseth), que apronta essa aqui: ao invés de dar o número de seu celular para o ingênuo Jamey (Noah Centineo, da série “The Fosters”), ela passa o de Sierra para humilhar ainda mais a coitada, que acaba se apaixonando pelo rapaz via mensagens de texto (!). Mas olha o dilema. Sierra se acha feia, e como Veronica deve uma a ela por causa da cachorrada, pede ajuda a inimiga, que deverá se passar por ela quando tiver de encontrar o cara ao vivo. Em troca, Sierra promete dar aulas particulares a Veronica, que pode ser popular, mas tira zero nas provas. É como Cyrano, mas invertendo os papéis do casal central para avacalhar com o sexo oposto. O roteiro de Lindsey Beer (do vindouro “Mundo em Caos”), no fundo, é uma visão artística mais team Veronica que team Sierra. Não por acaso, a amiga da protagonista possui um arco dramático muito mais completo e redentor. Além de bonita (e exemplo de beleza vendido para a sociedade), ela termina o filme bem mais inteligente e um doce de pessoa, ao contrário da monstra apresentada no início. Para piorar, “Sierra Burgess É uma Loser” realmente conclui que a protagonista é feia, embora pondere de maneira hipócrita que, mesmo assim, devemos olhar para sua inteligência acima da média e beleza interior. A personagem serve, ao menos, para pavimentar a ascensão da talentosa Shannon Purser, ainda que o filme acabe sendo dessa descoberta impressionante que rouba todas as cenas, Kristine Froseth.

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    As Herdeiras é surpresa paraguaia premiada em Berlim e Gramado

    23 de setembro de 2018 /

    Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarita Irún) são “As Herdeiras”. Juntas há 30 anos e já em idade avançada, dependem da venda de seus bens, herdados das famílias abastadas de ambas, para sobreviverem com dignidade. Ainda que não consigam manter o padrão sofisticado da classe alta de Assunção, elas têm uma relação homoafetiva aparentemente tranquila e as coisas caminham razoavelmente bem, apesar dos contratempos atuais. Dívidas não quitadas, porém, produzirão uma separação que dará origem a novas possibilidades e, quem sabe, desejos que se renovem. No meio disso, um modelo de transporte particular, ao estilo Uber, tem um grande peso na trama. “As Herdeiras” é audacioso na abordagem, apesar da aparência convencional e do ambiente discreto que cria. Tem uma narrativa bem construída, atrizes competentes, que dão o tom preciso às personagens e às situações. Tudo se passa em tom baixo, sem grandes sobressaltos. Mas a vida muda. E não é fácil reconhecer e aceitar isso. É um desafio que pode aparecer em qualquer momento da existência. Mesmo após um longo tempo de convívio, cuidadosamente protegido. O modesto cinema paraguaio, de poucas produções anuais e dependente do apoio de coproduções, como é o caso dessa, com Alemanha, Brasil e Uruguai, mostra aqui uma realização cinematográfica de peso, premiada em Berlim e Gramado. E que também pode ser vista como uma metáfora da elite de seu país, segundo o diretor Marcelo Martinessi.

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    A Vida em Família mostra tipos desencontrados com leveza

    23 de setembro de 2018 /

    Uma pequena comunidade no sul da Itália, em que todos se conhecem e têm laços, experiências em comum, é algo que pode ser equiparado a uma grande família. Ainda assim, chamar a comédia “La Vita in Comune” de “A Vida em Família” não corresponde ao que se vê na tela. Disperata, a comunidade, reúne muitos tipos desencontrados consigo mesmos, que não se sentem parte integrante de um contexto social harmonioso. Ao contrário, todos parecem estar fora do lugar, à procura de algo que lhes falta ou com o que se identifiquem. A estreiteza do pequeno mundo onde vivem não lhes permite grandes voos, exceto os imaginários. Um prefeito poeta, incompetente no cargo, busca se realizar por meio de discussões literárias com um pequeno grupo de presos. Mirabolante tentativa de assalto, que acaba em violência contra um cão, produz complicações inúteis e uma culpa insuperável. E assim, a comédia do diretor Edoardo Winspeare (“Sangue Vivo”) rola solta. Um roteiro muito competente, atores talentosos e com ótimo timing para o humor, uma direção que trabalha o clima provinciano da localidade com graça e sutileza, fazem de “A Vida em Família” um programa cinematográfico muito bem feito, leve e divertido.

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    Cheio de clichês, A Freira é um terror que não assusta

    15 de setembro de 2018 /

    O terror “A Freira” é o mais recente derivado da franquia “Invocação do Mal” (os outros são os filmes da “Annabelle”), mas o idealizador da franquia, James Wan, aparece aqui apenas como produtor, sem exercer muita influência na realização do longa. Wan tem um talento ímpar para o terror, investindo muito mais na tensão do que no susto (embora este sempre surja como uma forma alívio para a tensão). Mas mais do que isso, o diretor trabalha com protagonistas tridimensionais, estabelecendo uma ligação entre eles e o espectador (algo essencial para o gênero). Infelizmente, essas são qualidades que nenhum destes derivados conseguiu atingir. E “A Freira” não é diferente. Escrito por Gary Dauberman (“Annabelle 2: A Criação do Mal”), o roteiro busca explorar a origem da figura demoníaca vista pela primeira vez em Invocação do Mal 2 – há, inclusive, algumas menções a Ed e Lorraine Warren. A trama se passa em 1952 e acompanha Burke (Demián Bichir, de “Os Oito Odiados”), um padre que trabalha investigando casos sobrenaturais à mando do Vaticano, e Irene (Taissa Farmiga, de “American Horror Story”), uma jovem noviça que costuma ter visões sobrenaturais. Os dois são enviados para uma abadia localizada numa região remota da Romênia para investigar o suicídio de uma freira. Chegando lá, eles contam com a ajuda de um guia, Frenchie (Jonas Bloquet, de “Elle”), que lhes fala sobre o medo dos moradores em relação àquele lugar e sobre como parece que a abadia serve para aprisionar algum tipo de mal em seu interior. Dauberman é um roteirista bastante limitado. Quando trabalha com outras pessoas é capaz de criar personagens tridimensionais e metáforas eficientes (como aconteceu em “It: A Coisa”). Mas quando escreve sozinho apela para situações inverossímeis e escolhas duvidosas. Isso fica claro quando descobrimos que a trama aqui envolve um portal para o inferno e o sangue de Cristo (literalmente). O roteirista também sacrifica a estrutura do texto em busca de entendimento rápido e raso: é o que acontece, por exemplo, quando vemos o flashback de um exorcismo realizado pelo padre, que culminou na morte de um garoto, somente para que este mesmo garoto apareça assombrando-o na cena seguinte. Já o fato de Irene ter visões sobrenaturais pouco importa para a história, a não ser quando tais visões servem para esmiuçar alguma informação importante – numa decisão narrativa um tanto preguiçosa. Aliás, Irene é a única personagem a ganhar algum tipo de desenvolvimento. Enquanto o padre Burke é mostrado como uma espécie de Indiana Jones a serviço da igreja, e Frenchie tenta a todo custo ser um alívio cômico, a jovem noviça ao menos esboça um conflito interior a respeito da obediência cega aos dogmas da Igreja. Não que isso seja bem explorado pelo filme, mas ao menos possibilita que se crie algumas tomadas visualmente interessantes: em determinado momento, vemos um círculo de freiras rezando, todas vestidas de preto, e a noviça está localizada no centro, com suas vestes brancas simbolizando, entre outras coisas, as visões distintas daquelas mulheres em relação à fé. Porém, a inexpressividade de Taissa Farmiga a impede de expressar todos os conflitos da sua personagem, cabendo ao roteiro explicitá-los por meio de diálogos expositivos. Baseando-se em um texto tão limitado, o diretor Corin Hardy (“A Maldição da Floresta”) faz o possível para dar ao seu filme uma identidade própria. A ambientação de época é um ponto que funciona a seu favor, com a arquitetura gótica do cenário remetendo às produções do estúdio Hammer, uma grande influência. Hardy também acerta ao tornar a Freira uma presença que habita a escuridão daquele lugar; ela é mais sentida do que vista. O problema é que ele não sabe trabalhar os protagonistas, que são separados em cômodos diferentes sem qualquer motivo aparente e passam a maior parte do tempo andando em círculos, procurando por assombrações em cantos escuros apenas para descobrirem que estas não estão mais lá. A repetição das mesmas estratégias para gerar tensão acaba gerando o efeito contrário. A ideia de mostrar a ameaça se aproximando das costas do personagem sem que este a perceba é repetida à exaustão, até o ponto em que o público consiga antecipá-las. Falta a Corin Hardy a originalidade para conceber situações inovadoras ou a criatividade para manipular os clichês a seu favor. Estas são algumas das qualidades que fazem os trabalhos de James Wan se descarem dentro do gênero. A ausência destes atributos iguala “A Freira” aos demais spin-offs deste universo. Ou seja, é um terror mediano, que se encontra a anos-luz do material que o originou.

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    Ferrugem cria tensão com abordagem de bullying, mas subverte expectativas

    15 de setembro de 2018 /

    Aly Muritiba é um nome que se infiltra no sistema desde os curtas-metragens. Foi semifinalista do Oscar nesta categoria em 2013 com “A Fábrica”, que conta a história de um detento que convence a mãe a trazer um celular para a penitenciária. Seus curtas seguintes, com destaque para “Tarântula”, circularam em dezenas de festivais nacionais e internacionais, ganhando prêmios que foram crescendo de relevância gradativamente. A transição para os longas aparentemente foi natural para o diretor baiano radicado em Curitiba. Começou com o documentário “A Gente”, mostrando o cotidiano de carcereiros, ex-colegas do diretor (Muritiba trabalhou como carcereiro durante 7 anos antes de iniciar a carreira de cineasta), num presídio em Curitiba. Mas o salto mesmo veio com o excelente “Para Minha Amada Morta”, um dos melhores filmes de 2016. Este longa, o primeiro de ficção do diretor, circulou em festivais de maior destaque, como San Sebastián e Montreal – além de ter vencido seis prêmios no Festival de Brasília – fazendo com que o nome de Muritiba pintasse como uma nova voz instigante do cinema brasileiro. Portanto, não foi tão surpreendente ver “Ferrugem” surgindo com o carimbo da seleção oficial do Festival de Sundance, e conquistando Gramado no fim do mês passado. A sensação que fica ao se assistir ao trabalho é a de um filme tenso, bem filmado, com uma temática relevante e encarada com profundidade, mas que parece carecer de intensidade e foco na segunda metade, até que determinado personagem assuma maior função e, perto do fim, diga sobre o que de fato é o filme como um todo. Dividido em duas partes, o filme inicia apresentando o cotidiano da adolescente Tati (Tifanny Dopke), uma garota popular no colégio, que numa festa fica com Renet (Giovanni de Lorenzi). Nesse dia, o celular da garota some, e logo depois um vídeo íntimo dela cai no grupo de whats app do colégio. A situação da garota vai se tornando cada vez mais tensa, até culminar num gravíssimo acontecimento. A segunda parte é mais focada em Renet, e nas consequências do que vimos antes. O garoto é levado pelo pai, Davi (Enrique Diaz), para passar um tempo numa casa de praia, e lá percebemos de que maneira os acontecimentos mexem com a vida do rapaz, além do próprio pai. Quando conduzido por Tati, “Ferrugem” é grande. Muritiba é um cineasta que apresenta com densidade os desdobramentos psicológicos de suas personagens que, quando colocadas em situações extremas, são obrigadas a tirar de si atitudes que aparentemente não fazem parte da sua personalidade, mas que se tornam possíveis pelo contexto. Desde a inconsequência da adolescência e suas ações impensadas, e a evidente misoginia que casos como esse apresentam – afinal apenas a garota é vista como vagabunda, ou outra ofensa do tipo, enquanto que para o garoto exposto as consequências são muito mais brandas – , tudo chega na tela a partir de uma cadeia coerente de acontecimentos e comportamentos violentos que levam a uma atitude extrema. Essa violência está presente nas relações entre os adolescentes, nos insultos pichados no banheiro, nas “brincadeiras” durante a apresentação de um trabalho escolar, ou em ações mais sérias, como o garoto que também estava no vídeo, que reage com falta de caráter num momento delicado para a garota. Muito por conta da construção de tensão na excelente primeira metade, o filme causa uma impressão de forte queda ao iniciar sua segunda parte. É claro que a quebra de ritmo é uma proposta assumida pelo filme, deixando claro o elemento hitchcockiano da troca de protagonista e foco no meio do filme, o que demanda um tempo para que o espectador se acostume. Ao mesmo tempo, porém, é forte a sensação de que a história mudou para pior, seja qual for a intenção que a segunda parte tenha, principalmente no início. E aqui acredito que haja uma deficiência coletiva na construção do personagem de Renet, dividida entre os roteiristas, Muritiba e Jessica Candal, com o intérprete, Giovanni de Lorenzi. Aparentemente, teríamos uma versão adolescente do Raskolnikov de Dostoiévski, mas logo entendemos que não. E depois compreendemos que a segunda metade também não pretende dar continuidade à tensão da primeira parte com a dúvida se “ele fez ou não”, pois não há suspense. Sabemos o que o filme não quer ser, mas o que sobra? As imagens mostrando Renet na casa de praia, caminhando por ali perto, estão esvaziadas. A construção dramatúrgica e visual criada para que, ao vermos Tati parada olhando para o nada, reflexiva, compreendamos o que está passando pela sua cabeça, e que sua inação na verdade esconde uma cabeça fervilhando, está longe de se repetir com Renet. Ele não parece ter um conflito suficientemente bem desenvolvido para ter a missão de carregar a trama vinda de um momento de alto teor dramático. E a inexpressividade de Lorenzi não combina com a naturalidade dos atores ao redor. Não consigo me sentir conduzido pelo ator nas cenas dele encarando o nada, em que supostamente devemos projetar nessa imagem sentimentos do personagem. Sugere apenas aqueles filmes indies chatíssimos, com adolescentes caminhando num lugar aberto, com vento no rosto e nada na cabeça, algo que o filme de Muritiba não é. Com Tati, sim, somos conduzidos com determinação, compreendendo o que está em jogo, e como a personagem interpreta os fatos. No fim, entendemos a função do personagem de Enrique Diaz, e aí se fecha a ideia de Muritiba, que é sobre como os pais, por desleixo, falta de aptidão, ou por darem liberdade sem limites aos filhos, também são atores fundamentais dessa cadeia desestabilizada de relações. Sobre o quanto eles estão despreparados para ajudar seus filhos a encontrarem respostas, pois não estão sequer voltados para isso, nem demonstram vontade de conhecer de fato seus filhos (percebam que os pais de Tati não possuem rosto, quando estão em cena sempre estão fora de quadro) ou, mais grave ainda, fingem que os jovens estão bem, que o melhor a fazer é fingir que nada acontece, que está tudo bem, é só um probleminha. Se temos um déficit na atuação nesta segunda metade, é compensada pelo trabalho de Diaz, discreto, mas certeiro. Terminando de maneira condizente com a abordagem escolhida pela direção, “Ferrugem” é um exercício que subverte as expectativas do espectador, e isso acaba cobrando um preço. Ao mesmo tempo, Muritiba demonstra que é um diretor que veio pra ficar, pela maneira contundente com que aborda temáticas difíceis com naturalidade e segurança. Não é tão bom quanto “Para Minha Amada Morta”, mas ainda é um dos bons exemplares dessa ótima fase do cinema brasileiro.

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    Benzinho retrata relações familiares de maneira honesta e emocionante

    15 de setembro de 2018 /

    O drama nacional “Benzinho”, filme mais premiado do recente Festival de Gramado, conta a história de Irene (Karine Teles), uma mãe de família que cuida dos quatro filhos e faz alguns bicos para complementar a renda, enquanto o marido, Klaus (Otávio Müller), conta as moedas no seu negócio falido. Vivendo numa casa com diversos problemas estruturais, Irene controla esses problemas à medida que eles aparecem, apertando a torneira que está vazando ou saindo pela janela quando a fechadura da porta não abre mais. Desta forma, ela consegue criar uma rotina mais ou menos funcional em meio a tantas adversidades – que ainda envolvem o acolhimento da irmã, Sônia (Adriana Esteves), após esta ter sido agredida pelo marido. Porém, a rotina de Irene muda quando seu filho mais velho, Fernando (Konstantinos Sarris), recebe uma proposta para ir estudar na Alemanha. A notícia causa uma variação na organização da família e assuntos que antes haviam sido deixados de lado – como a venda da casa de praia – precisam voltar à tona, por mais que Irene se esforce para ignorá-los. Assustada com a quebra dos seus hábitos diários, ela se retrai, internalizando um turbilhão de sentimentos, tentando – nem sempre com sucesso – manter uma aparência calma diante dessas mudanças. E nisso, é necessário destacar a excelente atuação de Karine Teles, premiada como Melhor Atriz no Festival de Gramado, que explicita todos esses sentimentos sem dizer nenhuma palavra, apenas com o olhar. Sabendo do talento da sua protagonista, com quem já foi casado por mais de uma década, o cineasta Gustavo Pizzi (que também a dirigiu em “Riscado”) aproxima a sua câmera do rosto da atriz, com o intuito de captar e compartilhar com o público toda a expressividade dela. É notável, por exemplo, que no momento em que fica sabendo que o filho vai sair de casa, Irene expressa orgulho e tristeza ao mesmo tempo. Da mesma maneira, existe um alívio em seu olhar quando um atraso burocrático pode atrapalhar os planos do jovem. São pequenos detalhes, que só se tornam perceptíveis por conta da abordagem do diretor, cuja câmera parece penetrar na intimidade daquelas pessoas. Pizzi opta por filmar cenas que narrativamente não têm importância para a história (como aquela das crianças tomando banho ou delas brincando no quintal), mas que servem para estabelecer uma conexão maior com o espectador. O realizador também faz uso constante de metáforas. A quebra da torneira, que acontece logo após o recebimento da notícia de Fernando, simboliza um problema que não pode mais ser contornado. A própria degradação da casa pode ser vista como a “destruição” daquela estrutura familiar, ao passo que a construção da casa nova é um recomeço. E as cenas em que Fernando é mostrado entrando embaixo de uma cabana feita com o lençol vermelho ou deitado em posição fetal sob a barriga da mãe representam o desejo desta de mantê-lo sempre por perto, e a tristeza diante da constatação de que isso não é possível. Ao buscar estes significados por meio das imagens, o diretor exclui a necessidade de verbalizar a relação daqueles personagens. O silêncio, neste caso, é muito mais importante do que as palavras. Assim, “Benzinho” retrata de maneira honesta e emocionante as complicadas relações familiares, relações estas que misturam sorrisos e lágrimas, alegrias e tristezas, gritos e silêncios. Mais do que isso, relações que são complexas demais para serem definidas por dicotomias. Não é à toa que venceu os prêmios do Público e da Crítica em Gramado.

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    Javier Bardem e Penélope Cruz são justificativa de mais um filme sobre Pablo Escobar

    1 de setembro de 2018 /

    Um filme espanhol que tem como protagonistas o ator Javier Bardem e a atriz Penélope Cruz não pode passar em branco. Só pelo desempenho deles, costumeiramente brilhante, vale a atenção. O diretor Fernando León de Aranoa já tem uma filmografia relevante, com destaques para “Segredos em Família” (1996) e “Um Dia Perfeito” (2015). Mas nesta nova produção, falada em inglês, o tema já parece um tanto gasto. O personagem Pablo Escobar (Javier Bardem), o famoso chefão do cartel de Medellín, Colômbia, já foi bastante abordado pelo jornalismo, pela literatura, pelo cinema (“Escobar: Paraíso Perdido”, “Conexão Escobar”), pela televisão (“Pablo Escobar: O Senhor do Tráfico”) e pelo streaming (“Narcos”). Um bandido que fascina pelo seu poder, pela ousadia, pela violência e por suas excentricidades. Em “Escobar: A Traição”, a ótica é a de sua amante Virgínia Vallejo (Penélope Cruz), uma popular apresentadora de TV que o amou e se interessou pela forma como Escobar usava o dinheiro que tinha. Ela não se preocupava com a origem do dinheiro, mas com sua destinação. E com isso tinha acesso a bens luxuosos, mas também admirava as benesses que o grande traficante oferecia à população local. O jeito arrojado de Pablo Escobar enfrentar os poderosos, entrar na própria política colombiana, pela via eleitoral, para encarar a caçada norte-americana, promovida pelo governo de Ronald Reagan, tinha um charme todo especial. Mas quando o perigo ronda forte e a vida está mesmo em risco iminente, a traição pode ser um caminho de sobrevivência. Virgínia Vallejo escreveu “Amando Pablo, Odiando Escobar” sobre o que viveu ao lado dele, sua perspectiva, suas lembranças, o que entendeu e avaliou daquela aventura extraordinária. É a sua história com ele que o filme mostra. É uma trama cheia de lances surpreendentes, perigosos, inusitados. Dá margem a um filme que mescla ação, suspense, violência, política e um drama amoroso. Não acrescenta muita coisa ao que já se conhece daquele que foi um dos maiores traficantes de cocaína da história. Mas dá para ver pelo ângulo da amante traidora e curtir a atuação, sempre segura, de Penélope Cruz e Javier Bardem.

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    Café com Canela é um achado que não merecia ficar perdido em poucas salas

    1 de setembro de 2018 /

    Impressionante como “Café com Canela” consegue ser ao mesmo tempo experimental e tão popular, tão capaz de falar ao grande público. O premiado trabalho de Glenda Nicácio e Ary Rosa, que venceu três troféus no Festival de Brasília 2017 e apresenta a uma baianidade muito gostosa, traz duas histórias paralelas: a de duas mulheres negras, de diferentes idades e situações. A jovem Violeta (a estreante Aline Brunne, encantadora) ganha a vida vendendo coxinhas e cuidando da avó muito velhinha e acamada, além de também cuidar com muita alegria e amor do marido, dos filhos e dos amigos. A outra linha paralela mostra um cenário mais sombrio, o de Margarida (Valdinéia Soriano, de “Ó Paí, Ó”), uma mulher que vive presa na própria casa, pela depressão causada pela perda do filho pequeno. O contraste entre as duas vidas é bem explícito e é natural sentirmos certo mal estar quando estamos na casa de Margarida, tão triste e tão abandonada. Mais do que isso: um lugar assombrado. Por isso o gosto pela vida de Violeta pega o público tão fortemente: é lindo vê-la cantando para a avó doente e que só se comunica pelos olhos e pelo sorriso. Ela canta com muito carinho, dá-lhe massagens nas mãos. Claro que nem tudo são flores e Violeta testemunha também a triste partida de um de seus vizinhos em outra passagem muito emocionante e também cheia de amor. Há algumas cenas que se destacam e que, ao serem lembradas, falam forte ao coração. Desde a mais simples, que pode ser vista como apenas um detalhe, envolvendo o cachorro e a avó de Violet ou o cantar de um dos personagens coadjuvantes. Ou, ainda, a descrição antecipada e triste da perda de um grande amor do personagem de Babu Santana (de “Tim Maia”) e a cena da bicicleta. Meus Deus, o que dizer da cena da bicicleta, algo capaz de encher os corações de amor? E no meio de tudo isso, no meio de uma celebração da vida como poucos filmes são capazes, ainda há um semi-monólogo fantástico de Margarida sobre a magia do cinema. Sim, a vida pode ser maravilhosa, mas o cinema é fantástico. Há até uma brincadeira com a quebra da quarta parede. Há ainda espaço para a celebração da riqueza da cultura afrobrasileira. O que lembra que se trata de um filme inteiramente feito com atores e atrizes negros, grande maioria da população da Bahia, onde “Café com Canela” se passa. No final, nem são esses detalhes – se é que podemos chamar de detalhes, inclusive os formais -, mas o quanto o filme mexe com as emoções do público. Um achado que, por falta de salas, tende a ficar perdido, como tantas outras joias recentes do cinema nacional.

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