Crítica: Ferrugem cria tensão com abordagem de bullying, mas subverte expectativas



Aly Muritiba é um nome que se infiltra no sistema desde os curtas-metragens. Foi semifinalista do Oscar nesta categoria em 2013 com “A Fábrica”, que conta a história de um detento que convence a mãe a trazer um celular para a penitenciária. Seus curtas seguintes, com destaque para “Tarântula”, circularam em dezenas de festivais nacionais e internacionais, ganhando prêmios que foram crescendo de relevância gradativamente.

A transição para os longas aparentemente foi natural para o diretor baiano radicado em Curitiba. Começou com o documentário “A Gente”, mostrando o cotidiano de carcereiros, ex-colegas do diretor (Muritiba trabalhou como carcereiro durante 7 anos antes de iniciar a carreira de cineasta), num presídio em Curitiba. Mas o salto mesmo veio com o excelente “Para Minha Amada Morta”, um dos melhores filmes de 2016. Este longa, o primeiro de ficção do diretor, circulou em festivais de maior destaque, como San Sebastián e Montreal – além de ter vencido seis prêmios no Festival de Brasília – fazendo com que o nome de Muritiba pintasse como uma nova voz instigante do cinema brasileiro. Portanto, não foi tão surpreendente ver “Ferrugem” surgindo com o carimbo da seleção oficial do Festival de Sundance, e conquistando Gramado no fim do mês passado.

A sensação que fica ao se assistir ao trabalho é a de um filme tenso, bem filmado, com uma temática relevante e encarada com profundidade, mas que parece carecer de intensidade e foco na segunda metade, até que determinado personagem assuma maior função e, perto do fim, diga sobre o que de fato é o filme como um todo.

Dividido em duas partes, o filme inicia apresentando o cotidiano da adolescente Tati (Tifanny Dopke), uma garota popular no colégio, que numa festa fica com Renet (Giovanni de Lorenzi). Nesse dia, o celular da garota some, e logo depois um vídeo íntimo dela cai no grupo de whats app do colégio. A situação da garota vai se tornando cada vez mais tensa, até culminar num gravíssimo acontecimento. A segunda parte é mais focada em Renet, e nas consequências do que vimos antes. O garoto é levado pelo pai, Davi (Enrique Diaz), para passar um tempo numa casa de praia, e lá percebemos de que maneira os acontecimentos mexem com a vida do rapaz, além do próprio pai.

Quando conduzido por Tati, “Ferrugem” é grande. Muritiba é um cineasta que apresenta com densidade os desdobramentos psicológicos de suas personagens que, quando colocadas em situações extremas, são obrigadas a tirar de si atitudes que aparentemente não fazem parte da sua personalidade, mas que se tornam possíveis pelo contexto.

Desde a inconsequência da adolescência e suas ações impensadas, e a evidente misoginia que casos como esse apresentam – afinal apenas a garota é vista como vagabunda, ou outra ofensa do tipo, enquanto que para o garoto exposto as consequências são muito mais brandas – , tudo chega na tela a partir de uma cadeia coerente de acontecimentos e comportamentos violentos que levam a uma atitude extrema. Essa violência está presente nas relações entre os adolescentes, nos insultos pichados no banheiro, nas “brincadeiras” durante a apresentação de um trabalho escolar, ou em ações mais sérias, como o garoto que também estava no vídeo, que reage com falta de caráter num momento delicado para a garota.



Muito por conta da construção de tensão na excelente primeira metade, o filme causa uma impressão de forte queda ao iniciar sua segunda parte. É claro que a quebra de ritmo é uma proposta assumida pelo filme, deixando claro o elemento hitchcockiano da troca de protagonista e foco no meio do filme, o que demanda um tempo para que o espectador se acostume. Ao mesmo tempo, porém, é forte a sensação de que a história mudou para pior, seja qual for a intenção que a segunda parte tenha, principalmente no início.

E aqui acredito que haja uma deficiência coletiva na construção do personagem de Renet, dividida entre os roteiristas, Muritiba e Jessica Candal, com o intérprete, Giovanni de Lorenzi. Aparentemente, teríamos uma versão adolescente do Raskolnikov de Dostoiévski, mas logo entendemos que não. E depois compreendemos que a segunda metade também não pretende dar continuidade à tensão da primeira parte com a dúvida se “ele fez ou não”, pois não há suspense. Sabemos o que o filme não quer ser, mas o que sobra?

As imagens mostrando Renet na casa de praia, caminhando por ali perto, estão esvaziadas. A construção dramatúrgica e visual criada para que, ao vermos Tati parada olhando para o nada, reflexiva, compreendamos o que está passando pela sua cabeça, e que sua inação na verdade esconde uma cabeça fervilhando, está longe de se repetir com Renet. Ele não parece ter um conflito suficientemente bem desenvolvido para ter a missão de carregar a trama vinda de um momento de alto teor dramático. E a inexpressividade de Lorenzi não combina com a naturalidade dos atores ao redor. Não consigo me sentir conduzido pelo ator nas cenas dele encarando o nada, em que supostamente devemos projetar nessa imagem sentimentos do personagem. Sugere apenas aqueles filmes indies chatíssimos, com adolescentes caminhando num lugar aberto, com vento no rosto e nada na cabeça, algo que o filme de Muritiba não é. Com Tati, sim, somos conduzidos com determinação, compreendendo o que está em jogo, e como a personagem interpreta os fatos.

No fim, entendemos a função do personagem de Enrique Diaz, e aí se fecha a ideia de Muritiba, que é sobre como os pais, por desleixo, falta de aptidão, ou por darem liberdade sem limites aos filhos, também são atores fundamentais dessa cadeia desestabilizada de relações. Sobre o quanto eles estão despreparados para ajudar seus filhos a encontrarem respostas, pois não estão sequer voltados para isso, nem demonstram vontade de conhecer de fato seus filhos (percebam que os pais de Tati não possuem rosto, quando estão em cena sempre estão fora de quadro) ou, mais grave ainda, fingem que os jovens estão bem, que o melhor a fazer é fingir que nada acontece, que está tudo bem, é só um probleminha. Se temos um déficit na atuação nesta segunda metade, é compensada pelo trabalho de Diaz, discreto, mas certeiro.

Terminando de maneira condizente com a abordagem escolhida pela direção, “Ferrugem” é um exercício que subverte as expectativas do espectador, e isso acaba cobrando um preço. Ao mesmo tempo, Muritiba demonstra que é um diretor que veio pra ficar, pela maneira contundente com que aborda temáticas difíceis com naturalidade e segurança. Não é tão bom quanto “Para Minha Amada Morta”, mas ainda é um dos bons exemplares dessa ótima fase do cinema brasileiro.



Diego Bauer é ator, diretor e roteirista. Iniciou a carreira no teatro em 2009, realizando apresentações em Manaus, Itacoatiara, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Em 2012, atuou no curta-metragem "A Segunda Balada", vencedor do prêmio de Melhor Direção do 9° Amazonas Film Festival. No ano seguinte, dirigiu seu primeiro curta de ficção, “O Que Não Te Disse”. Em 2016, dirigiu “O Tempo Passa” e atuou em “O Necromante”.



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