Crítica: Sierra Burgess É uma Loser recicla Cyrano de Bergerac para a geração Netflix



Há uma razão para afirmar que “Sierra Burgess É uma Loser”, comédia teen da Netflix, nasceu velha. Não por se entregar aos clichês da comédia romântica adolescente e de escolinha, mas principalmente por confiar em conceitos que falavam com a sociedade de quase 40 anos atrás, mas que hoje soam retrógrados e, mesmo que originados de boas intenção, resultam como equivocados e até mesmo preconceituosos.

O filme do estreante em longas Ian Samuels (do curta premiado em Sundance “Myrna the Monster”) colhe sua inspiração de “Cyrano de Bergerac”, peça clássica de 1897. Já vimos diversos filmes adaptados da obra de Edmond Rostand e não é a primeira vez que os figurinos de época são deixados no armário e substituídos por roupas do período em que a produção foi rodada, como “Roxanne”, de 1987, com Steve Martin e Daryl Hannah. Apesar do título, o filme de Fred Schepisi não é contado do ponto de vista da personagem título interpretada por Daryl Hannah, mas pelo Cyrano narigudo de Steve Martin que tem outro nome que ninguém lembra, embora faça referência ao protagonista da obra clássica.

Só que as pessoas lembrarão do nome de Sierra Burgess (vivida por Shannon Purser, a Barb de “Stranger Things”), que não é nariguda, mas gorda. E também lembrarão dos filmes dos John Hughes. E nostalgia é uma sensação indescritível de tão boa. Só que Hughes é a cara dos anos 1980 e o mundo mudou muito nas últimas décadas, não? É preciso atualizar alguns conceitos, afinal certas soluções não podem mais funcionar em 2018. Veja “Gatinhas e Gatões” agora e tente não ficar indignado. Por sinal, a produção da Netflix traz alguns ídolos juvenis dos anos 1980, como Lea Thompson, que esteve em “De Volta para o Futuro”, e Alan Ruck, de “Curtindo a Vida Adoidado” (de John Hughes!).

Na trama, Sierra é uma adolescente intelectual, que sofre bullying das meninas populares da escola, como a líder de torcida Veronica (Kristine Froseth), que apronta essa aqui: ao invés de dar o número de seu celular para o ingênuo Jamey (Noah Centineo, da série “The Fosters”), ela passa o de Sierra para humilhar ainda mais a coitada, que acaba se apaixonando pelo rapaz via mensagens de texto (!). Mas olha o dilema. Sierra se acha feia, e como Veronica deve uma a ela por causa da cachorrada, pede ajuda a inimiga, que deverá se passar por ela quando tiver de encontrar o cara ao vivo. Em troca, Sierra promete dar aulas particulares a Veronica, que pode ser popular, mas tira zero nas provas. É como Cyrano, mas invertendo os papéis do casal central para avacalhar com o sexo oposto.


O roteiro de Lindsey Beer (do vindouro “Mundo em Caos”), no fundo, é uma visão artística mais team Veronica que team Sierra. Não por acaso, a amiga da protagonista possui um arco dramático muito mais completo e redentor. Além de bonita (e exemplo de beleza vendido para a sociedade), ela termina o filme bem mais inteligente e um doce de pessoa, ao contrário da monstra apresentada no início. Para piorar, “Sierra Burgess É uma Loser” realmente conclui que a protagonista é feia, embora pondere de maneira hipócrita que, mesmo assim, devemos olhar para sua inteligência acima da média e beleza interior.

A personagem serve, ao menos, para pavimentar a ascensão da talentosa Shannon Purser, ainda que o filme acabe sendo dessa descoberta impressionante que rouba todas as cenas, Kristine Froseth.



Otávio Almeida é formado em Publicidade e Propaganda e Jornalismo. Nasceu no Rio de Janeiro, mora em São Paulo, mas sempre torcerá pelo Flamengo. É fã de Star Wars, Steven Spielberg, Stanley Kubrick, Blade Runner, Martin Scorsese, Indiana Jones, Frank Capra, Billy Wilder, John Ford, Clint Eastwood, O Senhor dos Anéis, Woody Allen, George Lucas, Lawrence da Arábia, Quentin Tarantino, Rocco e Seus Irmãos, James Cameron e Chinatown. Além de editor do Hollywoodiano, escreve sobre cinema como colaborador da revista Preview.



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