Cantora Gal Costa morre aos 77 anos
A cantora Gal Costa, um dos principais nomes da música brasileira, morreu nesta quarta (9/11), em São Paulo, aos 77 anos. A causa da morte ainda é desconhecida, mas ela estava reclusa após passar por uma cirurgia de retirada de um nódulo na fossa nasal direita em setembro. Desde então, ela cancelou vários shows, inclusive sua participação no festival Primavera Sound, que aconteceu em São Paulo no último final de semana. Dona de uma carreira que se estendeu por 57 anos, Gal Costa lançou clássicos da MPB como “Baby”, “Meu Nome É Gal”, “Chuva de Prata”, “Meu Bem, Meu Mal”, “Pérola Negra”, “Barato Total” e muitos muitos outros. Maria da Graça Costa Penna Burgos nasceu em 26 de setembro de 1945 em Salvador. Desde pequena, foi incentivada pela mãe a seguir a carreira na música. A mãe precisou criá-la sozinha, visto que seu pai morreu quando ela ainda era adolescente. Durante a juventude, Gal Costa trabalhou como balconista de uma loja de discos em Salvador, onde teve o seu primeiro contato com a música brasileira. Ela contava que foi nessa loja que descobriu a música de João Gilberto. Nessa época, Gal Costa costumava cantar e tocar violão em festas. No início dos anos 1960, foi apresentada a Caetano Veloso, com quem criou um forte vínculo pessoal e artístico. Sua estreia na música profissional foi justamente ao lado de Caetano Veloso, quando, em 1967, eles lançaram o álbum compartilhado “Domingo”. Em seguida, ela se aproximou de Maria Bethânia e Gilberto Gil, e os quatro formaram o grupo Doces Bárbaros. Ao longo dos anos 1960 e 1970, Gal Costa apresentou uma mistura de estilos musicais e fez parcerias com músicos como Jorge Ben Jor em “Que Pena (Ela já não gosta mais de mim)” e novamente com Caetano Veloso em “Cinema Olympia”. Ela também foi apresentada à Jovem Guarda e à Tropicália com a canção “Meu Nome é Gal”, composta por Roberto Carlos e Erasmo Carlos. No início da década de 1970, Gal foi responsável por um dos espetáculos de maior repercussão da história da MPB, o “Fa-Tal”, dirigido pelo poeta Waly Salomão, que também virou um álbum ao vivo cultuado. Em 1971, ela ajudou a revelar o compositor Luiz Melodia com “Pérola Negra”, mesmo ano em que lançou a famosa canção “Vapor Barato”, feita em parceria com Jards Macalé e Waly Salomão. Sua carreira se expandiu nessa época para a TV, auxiliada por sucessos como “Modinha para Gabriela”, tocada na abertura da novela da Globo “Gabriela”, inspirada na obra de Jorge Amado. Uma curiosidade é que, além de cantar a música de abertura, Gal quase estrelou a novela. “O Daniel Filho me convidou, na época, para fazer o papel da Gabriela”, contou ela, numa entrevista publicada no livro “Teletema”, de Guilherme Bryan e Vincent Villari. “Não aceitei por medo, porque achava que não era atriz. Aí me chamaram para cantar. E acabei me tornando a voz dos personagens do Jorge Amado”, lembrou ela. “Em todas as trilhas que fizeram a partir de então para novelas ou filmes sobre os personagens de Jorge Amado, eu estive. A novela era maravilhosa e a música de abertura também”, completou. Seu álbum “Água Viva”, de 1978, era composto por hits como “Folhetim”, de Chico Buarque, e “Paula e Bebeto”, de Milton Nascimento e Caetano. Na década de 1980, ela se divertiu ao “chocar a sociedade” posando nua para a revista Status, quando estava prestes a completar 40 anos. Outras parcerias de sucesso foram com Chico Buarque, em “A História de Lily Braun” e “Futuros Amantes”, com Djavan em “Azul” e “Nuvem Negra”, com Moraes Moreira em “Festa do Interior”, e com Cazuza em “Brasil”, que foi usada na abertura da novela “Vale Tudo” em 1988. As “polêmicas” continuaram com os seus shows da turnê de “O Sorriso do Gato de Alice”, de 1994 – baseado no disco homônimo produzido pelo americano Arto Lindsay. Durante a música “Brasil”, abria a blusa e cantava com os seios à mostra, o que sempre chocava os fãs mais conservadores e moralistas. Ela ganhou os prêmios Sharp e APCA do ano com esse trabalho. Mais recentemente, Gal Costa lançou o álbum “Recanto” (2012), fez uma homenagem a Lupicínio Rodrigues, que ela considerava uma das suas grandes influências, lançou “Estratosférica” (2016) e chegou até a fazer parceria com Marília Mendonça, em “Cuidando de Longe” (2018). Ao todo, ela lançou mais de 40 álbuns ao longo da sua carreira, incluindo discos de estúdio e ao vivo. Além da sua carreira nos palcos, Gal Costa também fez algumas aparições na TV e no cinema, aparecendo, por exemplo, na novela “Dancin’ Days” (1979) para cantar a música “Folhetim”, de Chico Buarque. Porém, seu maior papel como atriz foi no filme “O Mandarim” (1995), dirigido por Júlio Bressane, que contava a história da música popular brasileira no século 20. Gal Costa interpretou Carmen Miranda no filme. Suas canções também fizeram parte da trilha sonora da novela “Água Viva” (1980), da minissérie “Anos Rebeldes” (1992), das novelas “Velho Chico” (2016) e “Os Dias Eram Assim” (2017), e do filme “Bacurau” (2019). Discreta em sua vida pessoal, Gal nunca foi casada, mas manteve relacionamentos estáveis, entre outros com o violonista Marco Pereira, a cantora Marina Lima e a atriz Lúcia Veríssimo. A notícia da sua morte foi recebida com tristeza por diversos artistas, celebridades e até o presidente eleito Lula, que manifestaram sua admiração pela cantora nas redes sociais. Confira abaixo algumas dessas manifestações. Nossa irmãzinha se foi… Gal, a quem chamava de Gaúcha. Fica a saudade pra mim, pra todos que eram próximos e pra tanta gente na extensão deste Brasil que se encantava com seu canto. Agora o canto dela fica conosco pro resto das nossas vidas, pra o tempo todo da nossa história. pic.twitter.com/TVigEg3shB — Gilberto Gil (@gilbertogil) November 9, 2022 Perdemos hoje uma das maiores vozes da música popular brasileira. Uma parte imensurável da nossa cultura que nunca será esquecida. Gal Costa eterna. 🖤 — Juliette (@juliette) November 9, 2022 Gal Costa foi das maiores cantoras do mundo, das nossas principais artistas a levar o nome e os sons do Brasil para todo o planeta. Seu talento, técnica e ousadia enriqueceu e renovou nossa cultura, embalou e marcou a vida de milhões de brasileiros. 📸 @ricardostuckert pic.twitter.com/4jU2SBcHuq — Lula (@LulaOficial) November 9, 2022 Gal Costa, gênia magistral perfeita da música brasileira. Sentiremos pra sempre sua falta, mas na arte você se fez imortal. 🖤pic.twitter.com/6Kk2mUHwAp — Felipe Neto 🦉 (@felipeneto) November 9, 2022 Eu te amo e vou te amar pra sempre, @GalCosta. As saudades serão eternas. pic.twitter.com/2cKPPmyp2Y — Milton Bituca Nascimento (@MiltonBituca) November 9, 2022 Gal costa foi um presente q a existência nos deu. Tô arrasado, mas em algum lugar no meio d toda tristeza, também sinto um calorzinho no peito d gratidão. Q alegria poder ter tido a oportunidade de ouvi-la, vê-la e ter trabalhado com ela. Eterna mestra, mais eterna ainda agora😭 — emicida (@emicida) November 9, 2022
Artistas se juntam em clipe coletivo para “virar voto” em Lula
Depois do “Hino ao Inominável”, um vídeo musical contra Bolsonaro, vários artistas voltaram a se juntar em “Vira Voto”, clipe a favor de Lula nas eleições presidenciais. No vídeo, cantores e atores fazem uma arma com a mão, sinal associado a Bolsonaro, para em seguida girarem o punho e transformarem o gesto no “L” associado a Lula. Tudo isso ao som de um pagode, entoado por Nando Reis, Alinne Moraes, Mateus Solano, Dado Villa Lobos, Cissa Guimarães, Caetano Veloso, Daniela Mercury, Duda Beat, Arnaldo Antunes, Caco Ciocler, Silvero Pereira, Maria Bethânia, Mart’nália, Cláudia Abreu, Zezé Polessa, Bruno Garcia, Drica Moraes, Deborah Evelyn e Mônica Martelli, entre outros. A campanha foi feita pelos coletivos Mídia Ninja e 342 Artes.
Prêmio Multishow: Anitta, Glória Groove, Jão e Ludmilla dominam indicações
O canal Multishow anunciou os indicados ao Prêmio Multishow 2022, premiação voltada para a música brasileira. E Anitta, Glória Groove, Jão e Ludmilla dominaram a lista, com seis indicações cada. Além de garantirem espaço na categoria de Artista do Ano, os quatro também foram indicados a Álbum do Ano, Voz do Ano e Hit do Ano. Por sinal, as categorias Artista do Ano e Voz do Ano são novidades de 2022, criadas substituir Cantor e Cantora do Ano. Além disso, cada categoria passou a ter 8 indicados. Ludmilla ficou de fora da disputa de Clipe do Ano, em que Gloria Groove acumulou duas indicações, por “A Queda” e “Vermelho”. Nesta categoria, a lista tem Anitta (por “Boys Don’t Cry”), Jão (“Idiota”), Iza (“Fé”), Luisa Sonza (“Cachorrinhas”) e Jovem Dionísio (do meme “Acorda Pedrinho”). Jão, por sua vez, não concorre na categoria de Canção do Ano. E Anitta e Glória Groove não foram lembradas como Show do Ano. A premiação também destacou a cantora Iza como três indicações, incluindo Voz e Música do Ano, e Luísa Sonza com duas indicações. A entrega dos prêmios vai acontecer no dia 18 de outubro, no Rio de Janeiro. Confira abaixo a lista dos indicados. Artista do Ano Anitta Gloria Groove Gusttavo Lima Jão João Gomes L7nnon Ludmilla Luísa Sonza Revelação do ano Ana Castela Bala Desejo Jovem Dionísio Mari Fernandez Nattanzinho Rachel Reis Tasha & Tracie Urias Álbum do Ano “Lady Leste” – Gloria Groove “LUME” – Felipe Ret “Numanice #2” – Ludmilla “Pirata” – Jão “Pra Gente Acordar” – Gilsons “QVVJFA?” – Baco Exu do Blues “Sobre Viver” – Criolo “Versions of Me” – Anitta Voz do Ano Anitta Gloria Groove Iza Jão Liniker Ludmilla Luísa Sonza Marisa Monte Grupo do Ano Jovem Dionisio Afrocidade Bala Desejo Black Pantera Gilsons Grupo Menos é Mais Lagum Raça Negra Show do Ano Alexandre Pires e Seu Jorge Caetano Veloso Djonga Emicida Jão Ludmilla Marisa Monte Thiaguinho Música do Ano “Acorda Pedrinho” – Jovem Dionísio “Desenrola Bate Joga de Ladin” (Part. DJ Biel do Furduncinho) – L7nnon, Os Hawaianos e DJ Bel da CDD “Envolver” – Anitta “Fé” – Iza “Maldivas” – Ludmilla “Malvadão 3” – Xamã, Gustah e Neo Beats “VAMPiro” – Matuê, WIU e Teto “Vermelho” – Gloria Groove Dupla do Ano Anavitória Diego e Victor Hugo Henrique e Juliano Jorge e Mateus Maiara e Maraisa Matheus & Kauan Tasha & Tracie YOÙN Clipe TVZ do ano “A Queda” e “Vermelho” – Gloria Groove “Acorda Pedrinho” – Jovem Dionísio “Boys don’t cry” e “Envolver” – Anitta “Cachorrinhas” – Luisa Sonza “Fé” – Iza “Idiota” – Jão Hit do Ano “Acorda Pedrinho – Jovem Dionísio “Dançarina” – Pedro Sampaio e MC Pedrinho “Desenrola Bate Joga de Ladin” – L7nnon, Os Hawaianos e DJ Bel da CDD “Envolver” – Anitta “Idiota” – Jão “Maldivas” – Ludmilla “Malvadão 3” – Xamã, Gustah e Neo Beats “Vermelho” – Gloria Groove
Filme de Gal Costa ganha primeiras fotos oficiais
A Paris Filmes divulgou as primeiras fotos de “Meu Nome É Gal”, cinebiografia de Gal Costa que traz Sophie Charlotte (“Passaporte para a Liberdade”) no papel principal. As imagens do filme de Dandara Ferreira (que escreveu e dirigiu a série documental “O Nome Dela É Gal”) e Lô Politii (“Alvorada”) também mostram o baiano Rodrigo Lelis (“A Matriarca”) como Caetano Veloso, Dan Ferreira (“Pixinguinha, Um Homem Carinhoso”) como Gilberto Gil e a própria Dandara Ferreira como Maria Bethânia. As fotos também ressaltam uma ênfase no começo da carreira dos artistas, na gênese do movimento Tropicália. A estreia é aguardada para 2023.
Musical da HBO Max junta Elza, Caetano, Ludmilla, Chico, Racionais e muitos mais
A HBO Max divulgou o trailer de “2022”, um programa musical que reúne grandes nomes da música brasileira com o objetivo de celebrar o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Com concepção de Monique Gardenberg, o especial terá três partes: duas com apresentações de 22 canções e a terceira dedicada aos bastidores da produção. As músicas vão do samba ao rock, num repertório repleto de hits e clássicos, interpretados por mais de 50 artistas, incluindo Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa, João Bosco, Ludmilla, Racionais, Paralamas do Sucesso, Alcione, Zeca Pagodinho, Carlinhos Brown, Martinho da Vila e até a recém-falecida Elza Soares, entre muitos outros. A estreia está marcada para 11 de março.
Anitta bate boca com ex-ministro bolsonarista
A cantora Anitta entrou numa discussão o ex-ministro Ricardo Salles, do governo Bolsonaro, após ele criticar sem motivo artistas convidados por Caetano Veloso para participarem de encontro com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco. Há quase um ano, a cantora chegou a vir a público pedir a saída do então Ministro do Meio Ambiente do governo – o que acabou acontecendo. Ela reagiu a uma frase infeliz de Salles. “Melhor fariam ao meio ambiente, ao Brasil e aos brasileiros se levassem propostas de prosperidade econômica aos mais pobres, mas o que eles gostam mesmo é de Lei Rouanet”, escreveu o ex-ministro em seu perfil no Twitter, batendo na tecla bolsonarista que os maiores artistas brasileiros vivem de “mamata”, enquanto deveriam fazer o trabalho que o governo não faz. Apesar da obsessão bolsonarista com a Lei Rouanet, o encontro de artistas com Rodrigo Pacheco tem como pauta o risco que projetos de lei em tramitação no Senado podem trazer ao meio ambiente. Ao ver o ataque-padrão de Salles, Anitta retrucou. “E a gente por um acaso é político para ficar fazendo o trabalho de vocês?”, começou a cantora. “Mas ainda assim a gente dedica nosso tempo a consertar as bostas que vocês fazem e trazer informação pro povo pra ver se não dá a cagada de novo de te eleger deputado nas próximas eleições pra você se safar”, completou. O ex-ministro do Meio Ambiente se filiou ao PL, seguindo os passos do presidente Jair Bolsonaro, para tentar disputar uma vaga a deputado federal. Segundo a direção nacional do PL, a expectativa é de que Salles, condenado por improbidade administrativa (sentença depois revertida) e investigado por esquema de exportação de madeira ilegal do Brasil, seja um dos deputados mais votados neste pleito. Aproveitando o tema, a cantora também divulgou a mobilização de Caetano: “Dia 9 de Março em Brasília ato #CaetanoPelaTerra, às 15h, em frente ao Congresso defendendo o meio ambiente”. “Sabemos que não é a sua [prioridade]. Talvez neste dia você esteja na frente de um juiz, se defendendo das acusações de crimes praticados contra o meio ambiente pra não ser preso”, completou Anitta sobre o ex-Ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro. Sem ter como argumentar, Salles reagiu com uma piada de 5ª série às críticas: “Só converso daqui pra frente com a Anitta Burritta se ela conseguir fazer sozinha um vídeo soletrando “Pa-ra-le-le-pi-pe-do” sem usar o teleprompter.” Detalhe: a “piada” redeu um surto de emojis bolsonaristas, mas também uma avalanche de críticas com palavras de verdade. O próprio Caetano Veloso criticou o político, usando um meme popular das redes sociais, em que se lê “Como você é burro, cara”. O meme que hoje é viral veio de uma participação de Caetano no programa Vox Populi, quando ele desqualificou o jornalista Geraldo Mayrink em 1978. Melhor fariam ao meio ambiente, ao Brasil e aos brasileiros se levassem propostas de prosperidade econômica aos mais pobres, mas o que eles gostam mesmo é de Lei Rouanet… https://t.co/1dtgg0imtP — Ricardo Salles (@rsallesmma) February 23, 2022 Dia 9 de Março em Brasília ato #Caetanopelaterra as 15h em frente ao Congresso defendedo o meio ambiente. Sabemos que não é a sua. Talvez neste dia você esteja na frente de um juiz, se defendendo das acusações de crimes praticados contra o meio ambiente pra não ser preso. — Anitta (@Anitta) February 23, 2022 Só converso daqui pra frente com a @Anitta Burritta se ela conseguir fazer sozinha um vídeo soletrando “Pa-ra-le-le-pi-pe-do” sem usar o teleprompter … #teletubbies — Ricardo Salles (@rsallesmma) February 23, 2022 pic.twitter.com/YX5Vm8PXWd — Caetano Veloso (@caetanoveloso) February 23, 2022
Elza Soares (1930-2022)
A cantora Elza Soares morreu na tarde desta quinta (20/1) de causas naturais em sua casa, no Rio de Janeiro, aos 91 anos de idade. “Ícone da música brasileira, considerada uma das maiores artistas do mundo, a cantora eleita como a Voz do Milênio teve uma vida apoteótica, intensa, que emocionou o mundo com sua voz, sua força e sua determinação”, definiu perfeitamente a assessoria de imprensa da artista, no comunicado sobre seu falecimento. Elza Gomes da Conceição Soares foi realmente uma das maiores cantoras da música brasileira, iniciando a carreira no samba no final dos anos 1950, e praticamente lançando a cena do sambalanço com “Se Acaso Você Chegasse”, em 1959. A fase áurea da cantora inclui discos obrigatórios da música brasileira, como “O Samba é Elza Soares” (1961), “Sambossa” (1963) e “Na Roda do Samba” (1964). Mas ela sofreu muito quando seu relacionamento com Mané Garrincha se tornou público. Foi vítima de um dos primeiros cancelamentos da música brasileira, oprimida por uma sociedade conservadora que a acusou de ter acabado com o casamento do jogador, mesmo os dois tendo oficializado a união. Para piorar, Elza era desquitada, situação malvista numa época em que nem divórcio era permitido no país. Ela chegou a ser impedida de realizar um show na Mangueira, tendo que fugir disfarçada para evitar agressões, reação alimentada por radialistas que incentivavam a quebra do disco da música em que ela cantava “Eu Sou a Outra”… Até o DOPS, a polícia da repressão, invadiu sua casa à noite, rendeu todos os moradores, revirou o interior do imóvel e executou o mainá de estimação de Garrincha, sem dar explicações. A casa também foi alvo de tiros. A situação abateu sua ascendente carreira cinematográfica. Muitos não lembram, mas Elza participou de muitas filmes brasileiros no começo dos anos 1960, como o musical “Briga, Mulher e Samba” (1960), o drama criminal “A Morte em Três Tempos” (1964) e as comédias “O Vendedor de Linguiça” (1962) e “O Puritano da Rua Augusta” (1964), ambas estreladas por Mazzaropi. A cantora seguiu gravando discos, como o sensacional “Elza Pede Passagem” (1972), sem que repercutissem como antigamente. Mas após o popular Mazzaropi a levar de volta ao cinema em “Um Caipira em Bariloche” (1973), ela mudou o repertório e voltou a fazer sucesso com gravações que exaltavam escolas de samba do Rio, como “Salve a Mocidade” e “Bom dia, Portela” (ambas de 1974). Seguiu lançando sambas tradicionais e emplacou dois novos hits: “Pranto Livre” (1974) e “Malandro” (1976). Mas a situação doméstica voltou a chamar mais atenção que a arte. Muitos se ressentiram, ironicamente, por Elza virar alvo de violência doméstica. O fato de o ídolo Garrincha, herói da Copa do Mundo de 1962, provar-se um marido violento, que sofria de alcoolismo e agredia a esposa, teria pesado contra a vítima. Já era a segunda experiência negativa de Elza com casamento, após ser forçada a se casar com o homem que tentou abusá-la na adolescência – seu pai acreditava que só assim sua honra estaria salva. Ela se divorciou de Garrincha em 1982, um ano antes do ex-jogador morrer de cirrose hepática, mas nem isso a tirou do ostracismo. Elza teria até pensado em desistir de cantar, diante das inúmeras portas fechadas para seu talento, quando literalmente bateu na porta de Caetano Veloso, num hotel de São Paulo, para pedir ajuda. Caetano prontamente convidou para Elza participar da gravação do samba-rap “Língua” no álbum “Velô” (1984) e do filme que ele dirigiu, “Cinema Falado”, lançado em 1986. “Língua” apresentou uma Elza Soares moderna e conquistou uma nova geração que não tinha compromisso com o conservadorismo. Ela abraçou esse público com seu disco menos voltado ao samba, “Somos Todos Iguais” (1985), que tinha até composição de Cazuza. Ela também gravou um rock com Lobão, “A Voz da Razão”, no disco “O Rock Errou” (1986), do cantor. Reconstruindo a carreira, passou o final dos anos 1980 nos EUA, se apresentando em vários shows no país. Mas na década seguinte só lançou um disco de estúdio, voltando a sofrer boicote da indústria fonográfica nacional, que passou a valorizar outras tendências. Precisou recomeçar tudo de novo, numa terceira fase no século 20, quando apresentou seu disco mais moderno e radical, “Do Cóccix Até o Pescoço” (2002), indicado ao Grammy Latino. O álbum espetacular, criado sob a sombra de uma queda e cirurgias que afetaram sua capacidade de locomoção, marcou com letras impactantes como “A carne mais barata do mercado é a carne preta” (“Carne Preta”). Foi seguido por um disco influenciado pela música eletrônica, “Vivo Feliz” (2003), e uma participação no filme “Chega de Saudade” (2008), no qual ela também cantou a trilha sonora. Mas logo veio outro hiato comercial. O lançamento de “A Mulher do Fim do Mundo” (2015) só foi viabilizado com recursos financeiros do Natura Musica, mas mostrou como Elza continuava a representar a vanguarda musical brasileira, misturando todos os ritmos. Graças à aclamação crítica do álbum, que venceu o Grammy Latino e colocou a faixa-título na série “3%”, ela encontrou uma rara estabilidade no final da carreira, fechando contrato com a Deckdisc para lançar dois discos consecutivos, “Deus É Mulher” (2018) e “Planeta Fome” (2019). Em 2018, Elza virou tema de documentário, “My Name is Now, Elza Soares”, cuja trilha foi vencedora do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. A consagração continuou em 2020, quando virou samba enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel, “Elza Deusa Soares”, e participou como homenageada do desfile da escola de seu coração no Carnaval do Rio. Mostrando a continuidade de seu diálogo com as diferentes tribos da música brasileira, ela ainda lançou no mesmo ano uma nova versão do hit “Comida” com os Titãs. Sua última mensagem nas redes sociais, publicada nesta quinta, foi de apoio e torcida para a cantora Linn da Quebrada no “BBB 22”. A morte da cantora aconteceu exatos 39 anos depois de Garrincha, que também morreu no dia 20 de janeiro, em 1983.
Caetano Veloso é diagnosticado com covid-19
Caetano Veloso e sua mulher, Paula Lavigne, foram diagnosticados com covid-19. Ele confirmou o teste positivo em seu Instagram, aproveitando para defender a importância da vacina, inclusive entre crianças. “Depois de uma semana de resultados negativos para testes diários, corretamente exigidos por produções de shows televisivos, Paulinha e eu testamos positivo para covid-19, na Bahia, aonde chegamos faz 5 dias. Estamos bem e atribuímos isso ao fato de estarmos vacinados”, escreveu o artista na tarde deste domingo (26/12). “O importante é que quem pode deve fazer o teste. E sobretudo que todos se vacinem com as três doses. A pandemia não acabou e a nova variante é muito contagiosa. Inaceitável que o governo federal atrapalhe o programa aprovado pela ANVISA da vacinação de crianças. Que o Estado brasileiro se livre desse governo”, completou Caetano. O cantor e compositor tomou a primeira dose da vacina contra a covid em março de 2021, no Rio de Janeiro, e a segunda dose três meses depois. Ver essa foto no Instagram Uma publicação compartilhada por Caetano Veloso (@caetanoveloso)
Filme de Gal Costa com Sophie Charlotte define seu Caetano Veloso
A cinebiografia de Gal Costa começa a definir seu elenco central. Depois de confirmar a atriz Sophie Charlotte no papel principal, “Meu Nome É Gal” escalou o baiano Rodrigo Lelis como Caetano Veloso. Com trajetória teatral premiada, ele acaba de filmar “A Matriarca”, longa de Lula Oliveira, e já começou a preparação ao lado de Sophie Charlotte em São Paulo. A atriz, por sua vez, é bem conhecida do público de novelas, mas está afastada do gênero desde “Babilônia” (2015). Neste meio tempo, fez vários filmes e séries, e será vista a seguir na minissérie “Passaporte para a Liberdade” (que seria batizada de “O Anjo de Hamburgo”), toda falada em inglês para ser vendida no mercado internacional. As filmagens de “Meu Nome É Gal” vão começar em janeiro sob direção de Dandara Ferreira (que escreveu e dirigiu a série documental “O Nome Dela É Gal”) e Lô Politii (“Alvorada”). A produção é da Paris Entretenimento e Dramática Filmes. Para entrar no clima, veja um vídeo clássico do “Fantástico” com Gal Costa cantando a música que batiza a produção – vale lembrar que o guitarrista com quem ela faz duelo de cordas (vocais versus metal) é o saudoso Robertinho do Recife.
Caetano Veloso lança seu primeiro clipe em quase uma década
Caetano Veloso lançou um novo clipe após quase uma década distante do formato, hiato tão longo que transformou sua página do YouTube numa coleção de trechos de shows e registros ao violão. Mas é como se o tempo não tivesse passado. O registro de “Anjos Tronchos” retoma a estética minimalista do último clipe produzido, “A Bossa Nova É Foda”, de 2013, voltando a trazer o cantor em poses acanhadas num estúdio escuro. O diretor é o mesmo, Fernando Young, também responsável pela fotografia, que explora reflexos. Em vez de ser abraçado sem parar, agora Caetano reflete-se infinitamente, num novo afago ao ego. Moderna e desconcertante, a música destaca a guitarra de Pedro Sá, outro parceiro da década passada de Caetano, que integrou a banda Cê. A melodia de rock sombrio (choque de pós-punk com música concreta) embala uma letra pós-moderna, focada na internet. Vão longe os tempos em que Caetano mandava notícias “via Intelsat” para “O Pasquim”. “Agora, a minha história é um denso algoritmo”, ele canta em “Anjos Tronchos”, poetizando desde a toxidade das redes (“Um post vil poderá matar”) até suas possibilidades artísticas (“Miss Eilish faz tudo o quarto com o irmão”). A letra parafraseia o “anjo torto” de Carlos Drummond de Andrade, que já tinha inspirado Chico Buarque a ir “Até o Fim”. Desta vez, o anjo de silício faz Caetano olhar para a internet e se ver refletido, fazendo descobertas para redescobrir a si mesmo, porque “há poemas como jamais/Ou como algum poeta sonhou/Nos tempos em que havia tempos atrás/E eu vou, por que não?/Eu vou, por que não? Eu vou”. Afinal, “Alegria, Alegria” também era um contraste ambulante, criada numa época de colagens poéticas, onde o sol em capas de revistas era mais mais relevante que as notícias censuradas da ditadura. “Anjos Tronchos” é um excelente cartão de visitas para o novo disco de Caetano, batizado de “Meu Coco”, que deve incluir composições do poeta da MPB nunca gravadas por ele próprio, como “Noite de Cristal” (lançada por Maria Bethânia, em 1988), além de faixas inéditas.
DiCaprio, Katy Perry, Joaquin Phoenix e outros artistas pedem para Biden isolar Bolsonaro
Artistas americanos e brasileiros assinaram uma carta nesta terça-feira (20/4), pedindo para que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, isole e não faça qualquer acordo ambiental com Jair Bolsonaro. Os dois devem se encontrar na Cúpula do Clima, que tem início na quinta-feira (22/4). A iniciativa acontece após a circulação de um vídeo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), compartilhado por artistas, que avisa para Biden não confiar nas mentiras de Bolsonaro. Na semana passada, Bolsonaro escreveu ao presidente americano uma carta com várias promessas vazias, incluindo, por exemplo, o que já estava prometido desde Dilma Rousseff na assinatura do Acordo de Paris sobre o clima: acabar com desmatamento até 2030. Entre os artistas que assinaram a carta contra o acordo com Bolsonaro estão Leonardo DiCaprio, Katy Perry, Gilberto Gil, Joaquin Phoenix, Mark Ruffalo, Jane Fonda, Sigourney Weaver, Sonia Braga, Wagner Moura, Caetano Veloso, Fernando Meirelles e Philip Glass. Eles apelam a Biden para ouvir lideranças indígenas e ambientalistas, e dialogar com governos estaduais em vez do presidente, que está sendo investigado na Suíça por genocídio contra indígenas e que incentiva as passadas de boiada de um Ministro do Meio Ambiente acusado no STF (Supremo Tribunal Federal) de defender o desmatamento criminoso. “Nós apelamos ao seu governo para ouvir o pedido deles (indígenas e ambientalistas) e não se comprometer com nenhum acordo com o Brasil a esta altura”, escrevem eles. “Unimo-nos a uma coalizão crescente ao fazer um apelo ao seu governo para rejeitar qualquer acordo com o Brasil até o desmatamento ser reduzido, os direitos humanos serem respeitados e uma participação significativa da sociedade civil ser alcançada”, acrescenta a carta. Em 2020, o desmatamento na parte brasileira da Amazônia atingiu recordes históricos e destruiu uma área com 14 vezes o tamanho da cidade de Nova York, segundo dados do próprio governo brasileiro.
Caetano Veloso será homenageado pelo festival É Tudo Verdade
O músico Caetano Veloso será um dos homenageados do festival É Tudo Verdade deste ano, que ocorrerá em edição virtual de 8 a 18 de abril. O evento apresentará um ciclo de documentários sobre a vida e a obra do cantor baiano. Entre os títulos ligados ao artista programados para o festival estão “Uma Noite em 67”, de Renato Terra e Ricardo Calil, e “Coração Vagabundo”, de Fernando Grostein Andrade.
Narciso em Férias é emocionante e essencial para a democracia
“Eu comecei a achar que a vida era aquilo ali. Só aquilo. E que a lembrança do apartamento, dos shows, da vida lá fora era uma espécie de sonho que eu tinha tido.” Essa é uma das falas de Caetano Veloso em “Narciso em Férias”, ao descrever o seu primeiro momento no cárcere, quando foi colocado, sem a menor explicação, em uma solitária escura. Só de pensar nisso, de ter essa sensação de deslocamento da realidade, já é aterrador. “Narciso em Férias” marca o retorno da dupla de cineastas Ricardo Calil e Renato Terra ao mundo da música popular brasileira, depois do ótimo “Uma Noite em 67” (2010). Desta vez, a opção de entrecortar as falas de Caetano Veloso com imagens de arquivo e depoimentos de outros entrevistados foi deixada de lado, e o filme fica muito mais poderoso apenas com as cenas da entrevista com o cantor, músico e compositor baiano. Há quem diga que apresentar única e exclusivamente a entrevista de uma pessoa à frente de uma câmera não é fazer cinema, mas isso é bobagem. Esquecem da grandeza de Eduardo Coutinho, mestre nesse formato. Em “Narciso em Férias”, os diretores optaram por esconder, sempre que possível, suas próprias vozes na condução da entrevista. E utilizam apenas três enquadramentos básicos: o close-up, um plano que mostra o corpo inteiro do cantor e um plano mais distante, que acentua a parede ao fundo. Tudo que ele conta já está em um capítulo do seu livro “Verdade Tropical”, justamente intitulado “Narciso em Férias”, e que agora se tornará um livro à parte, já em pré-venda. O termo foi tomado de empréstimo de um livro do romancista americano F. Scott Fitzgerald, e que também se refere ao fato de que, durante todo o período em que esteve preso, Caetano não se olhou no espelho – deu férias a seu lado narcisista, por assim dizer. Histórias narradas oralmente são a base da construção de nossa civilização e é bom ver que esse tipo de recurso ainda segue sendo incrivelmente poderoso, especialmente quando encontramos alguém que consegue nos colocar dentro da ação. Há momentos da fala de Caetano que conseguem fazer o público se sentir em seu lugar, com um detalhismo de carga dramática assombrosa. O documentário é cheio de momentos de bastante emoção, especialmente em seu terço final. O próprio Caetano Veloso parece ter se surpreendido com o próprio choro e pede para que os diretores parem a filmagem em determinado momento. E não é um momento em que ele fala de seu sofrimento, mas de quando comenta o sentimento de gratidão, que ele tem por um sargento que ficou com pena de sua situação, de ele ser o único que não podia receber a visita da esposa, e que o ajudou. E ele lamenta não ter procurado saber o nome desse homem. Sem dúvida um dos momentos mais bonitos e tocantes do documentário e que, muito provavelmente, perderia um bocado da força sem a voz e sem o olhar do cantor . Outro acerto de Calil e Terra foi o fato de trazerem canções para o documentário. Já começa com uma canção de Orlando Silva, “Súplica”, cuja importância é exposta ao longo do filme. Além disso, cada vez que “Hey Jude”, dos Beatles, tocava nos rádios – foi um grande sucesso da época, o final dos anos 1960 – trazia esperança para Caetano. Outras duas canções do próprio Caetano, inspiradas pela experiência do cárcere, também são citadas com emoção: “Irene” e “Terra”. Além de enfatizar a importância e a beleza do trabalho de um de nossos mais brilhantes músicos, “Narciso em Férias” também impacta por lembrar como os artistas brasileiros foram presos e exilados durante a ditadura militar, em um momento em que a extrema direita se apresenta como uma ameaça cada vez maior para a democracia do Brasil. E isso o torna um filme essencial.











