PIPOCAMODERNA
Pipoca Moderna
  • Filme
  • Série
  • Reality
  • TV
  • Música
  • Etc
  • Filme
  • Série
  • Reality
  • TV
  • Música
  • Etc

Nenhum widget encontrado na barra lateral Alt!

  • Filme

    Animação do Scooby-Doo para o cinema revela seus dubladores

    2 de março de 2019 /

    O primeiro longa animado de “Scooby-Doo” para o cinema teve seu elenco inicial de dubladores anunciados. A Warner confirmou os atores Will Forte (“O Último Cara na Terra”) como Salsicha, Gina Rodriguez (“Jane the Virgin”) como Velma, e Tracy Morgan como Capitão Caverna. Já Scooby continuará a ter a voz do veterano Frank Welker. Ele foi o primeiro dublador de Fred, em 1969, mas desde 2002 também faz a voz do cachorrão falante. Vale observar que o Capitão Caverna não faz parte dos desenhos de Scooby-Doo, mas conhece a turma da Máquina de Mistério. O personagem da série animada “Capitão Caverna e as Panterinhas” (1977-1989) participou do DVD “Scooby-Doo – A Máscara do Falcão Azul” (2012). A participação do personagem reflete rumores de que Scooby-Doo vai se encontrar com diversos personagens do universo de Hannah-Barbera para enfrentar um inimigo em comum. O filme terá direção de Tony Cervone (“Space Jam – O Jogo do Século”), que já trabalhou na franquia, tendo produzido a série animada “Scooby-Doo! Mistério, S/A” (2010-2013) e dirigido o recente longa animado feito para o mercado vídeo, “Scooby-Doo e Kiss: O Mistério do Rock and Roll” (2015). O roteiro está a cargo de Matt Lieberman (“Dr. Dolittle 4”). Scooby-Doo já teve filmes com atores reais antes, lançados em 2002 e 2004, mas nunca protagonizou uma animação criada para o cinema. A estreia está prevista para maio de 2020.

    Leia mais
  • Filme

    A Morte te dá Parabéns 2 tenta filmar repetições sem se repetir

    24 de fevereiro de 2019 /

    “A Morte te dá Parabéns” (2017) parecia mais um revival descartável da fórmula consagrada por “Feitiço do Tempo” (1993), que tinha Bill Murray preso para sempre no mesmo dia. A ideia já tinha sido repetida por outros filmes de gênero, como “No Limite do Amanhã” (2014), que explorou a ficção científica e obrigou Tom Cruise a viver e morrer eternamente no mesmo dia. Em “A Morte te dá Parabéns”, a revelação Jessica Rothe estava longe do status de Murray e Cruise em seus filmes, mas ao protagonizar a versão terror dessa brincadeira, ela elevou o nível de um longa divertido de um diretor também promissor (Christopher Landon) e pavimentou o caminho para se tornar uma estrela, rendendo o revival mais bacana e criativo dos slashers desde “Pânico” (1996). Mas você sabe como é o terror; adora uma continuação. Embora “A Morte te dá Parabéns 2” seja consequência da fórmula citada, o esforço de Christopher Landon é insano para seguir em frente fazendo algo diferente. Tanto que, ao contrário do primeiro (e de “Feitiço do Tempo” e “No Limite do Amanhã”), valorizou mais a premissa que o enredo. Ele passa do slasher para a ficção científica como se fosse a coisa mais fácil do mundo transitar entre um gênero e outro. Não é. O resultado parece transformar a sequência numa paródia do filme anterior, ao fazer questão de explicar a “maldição” que aflige Tree (Jessica Rothe) – e, como se sabe, é um erro colossal justificar um mistério. Landon abusa de inspirações como “Inception” (2010) e “De Volta para o Futuro: Parte II” (1989). Só que os filmes de Christopher Nolan e Robert Zemeckis, por mais loucos que fiquem a cada segundo, estabelecem regras dentro de seus estranhos universos. E isso faz toda a diferença, porque “A Morte te dá Parabéns 2” não faz o menor sentido. Não faz sentido em relação ao original, que consegue manter a atenção do público do início ao fim, mas também no contexto das inúmeras viagens alucinógenas do gênero criadas com sucesso para o cinema. Talvez seja essa a intenção, mas isso atrapalha a diversão escapista. Afinal, deixa o público a maior parte do tempo tentando se situar. Ao menos, o diretor-roteirista arrisca e isso é louvável. Sua ambição, inclusive, já propõe uma terceira parte que sugere trilhar uma proposta ainda mais diferente – em meio aos créditos finais. E ele sempre pode contar com a energia de Jessica Rothe. A talentosa atriz carrega o filme nas costas e o salva do desastre criativo completo. Não vai demorar para alçar voos mais altos. Desde que deixe de se repetir nessa franquia.

    Leia mais
  • Filme

    Alita – Anjo de Combate tem ambição demais para seu próprio bem

    20 de fevereiro de 2019 /

    Após duas décadas existindo como filme apenas na cabeça de James Cameron, o mangá cyberpunk “Alita: Anjo de Combate”, de Yukito Kishiro, finalmente ganhou a adaptação hollywoodiana que o cineasta visionário tanto sonhou. Mas dirigido por Robert Rodriguez, porque Cameron anda mais preocupado com as sequências de “Avatar”. Mesmo assim, o resultado (ainda bem) tem muito mais a cara do cineasta de produções monumentais como “Titanic”, “Avatar” e “O Exterminador do Futuro 2” que a do diretor de filmes baratos como “El Mariachi”, “Machete”, “Planeta Terror” e “Sin City”. Rodriguez nunca escondeu que estava fazendo um filme de (escrito e produzido por) James Cameron, o que se pode vislumbrar na megalomania impressa da primeira à última cena, um espetáculo em escala gigantesca que mantém o espectador imerso na ação. A premissa é básica, a trama soa familiar, mas o mérito de Cameron e Rodriguez como contadores de histórias é nunca deixar de envolver o espectador. Não fazem isso por meio do roteiro, que jamais foi o forte de Cameron, que adora diálogos ralos e bregas (I’d give you my heart?), nem somente com os efeitos digitais da turma de Peter Jackson, que são realmente impressionantes (a parte do Motorball é um espanto), nem apenas com as cenas de ação. Mas com uma somatória de elementos. Inclusive, quando abraça uma brutalidade típica do começo da carreira de Cameron (e de Paul Verhoeven, vai), trazendo mais violência para a tela que se espera de um tradicional blockbuster para toda a família. A trama imersiva, os efeitos e a ação também ganham credibilidade devido ao carisma de Rosa Salazar (da franquia “Maze Runner”) como intérprete da personagem principal. Mesmo emprestando seus dotes físicos e artísticos para a captura de movimento dar vida à adorável ciborgue, é sua humanidade como atriz que faz com que o público se importe com Alita; que ria e se emocione com suas descobertas, ora alegres, ora dolorosas, de um mundo que ela esqueceu e no qual possui um papel definitivo que jamais imaginou. Isso desde o momento em que têm seus pedaços encontrados num ferro-velho e reconstruídos por um cientista (Christoph Waltz). Mesmo destruída e com olhos de dimensões irreais – uma homenagem ao mangá original – , ela consegue funcionar, porque Rosa Salazar faz acreditar que ela é real – a ponto de sua interpretação deixar as participações de Jennifer Connelly e Mahershala Ali em segundo plano. Infelizmente, porém, por mais que o esforço seja legítimo, o filme acaba não correspondendo. Resulta em apenas mais uma sci-fi/fantasia genérica feita para virar franquia, ao sucumbir ao impulso atual da indústria para gerar sequels e prequels, numa combinação letal com a megalomania de James Cameron. “Avatar” terá várias sequências, como sabemos, mas o diretor fez do original de 2009 um filme certinho, fechado, completo. É gigantesco tanto na ambição quanto na execução, mas vai direto ao ponto. Como arrebentou nas bilheterias, Cameron teve o sinal verde que queria para continuar a saga. Mas se tivesse naufragado, goste-se ou não, continuaria sendo um filme único. Já “Alita” foi pensada, desde o começo, para ter continuação. Entretanto, seria um filme melhor se Cameron e Rodriguez se concentrassem em desenvolver uma história fechada, focada num arco menor. Em vez disso, a trama, digamos assim, parece ainda estar na metade quando rolam os créditos finais. Com isso, o filme resulta equivocadamente incompleto e preocupado acima de tudo em preparar o público para as continuações. E isso é de uma irresponsabilidade absurda, já que a decisão criativa de explorar a franquia depende do sucesso financeiro, o que as bilheterias da estreia já colocaram em risco.

    Leia mais
  • Filme

    Se a Rua Beale Falasse usa a beleza do amor para enfrentar a feiura do racismo

    20 de fevereiro de 2019 /

    O cinema poucas vezes neste século soube traduzir o amor em imagens tão belas. Na adaptação do livro “Se a Rua Beale Falasse”, o cineasta Barry Jenkins (de “Moonlight”) faz com imagens o que o autor James Baldwin faz com palavras: pura poesia. Mas há uma razão para o filme ser tão belo. Jenkins quer que o amor vença a dureza da realidade, os preconceitos e o racismo nojento que destrói sonhos. Como os do jovem casal Tish (a estreante KiKi Layne) e Fonny (Stephan James), que cresceram juntos e se apaixonaram nos anos dourados da juventude. Mas antes de entrarem na complexidade da vida adulta e em entre as quatro paredes que testam a força de qualquer relacionamento, ela engravida e Fonny é preso injustamente. A acusação é estupro, mas estamos falando de uma sentença decretada pela cor da pele. Se hoje seria missão impossível para um inocente sair da cadeia com esse peso nas costas, imagine para um homem negro em plena década de 1970. É natural pensar que, a partir deste ponto, “Se a Rua Beale Falasse” ganhará status de novelão, mas Barry Jenkins não quer saber de melodrama. Também não quer transformar a prisão de Fonny em busca de justiça a qualquer preço ou fazer do personagem um mártir. O diretor e roteirista está interessado em contrastes, embora deixe clara sua intenção de preferir o amor ao discurso político e social, tarefa que cabe a quem assistir ao filme. Para cada sorriso, uma lágrima. Para cada cena feliz, uma tristeza chega repentinamente para equilibrar o tom. Por exemplo, repare na cena em que os pais de Tish convidam a família de Fonny para o anúncio da gravidez da menina. A alegria logo dá lugar a um estressante desentendimento, carregado de mágoa, como uma reviravolta que acontece no meio de encontros casuais nas melhores famílias. Em outra cena, Fonny e um amigo tem um papo descontraído, pouco a pouco substituído pela melancolia e o medo causado pelo racismo. Existem outras cenas que revelam essa dualidade, como a abertura do filme, com Tish e Fonny caminhando juntos para Barry Jenkins mostrá-los logo depois separados por um vidro. Mas não pense que o choro sempre interrompe um sorriso, porque Barry Jenkins se recusa a abraçar a tragédia mesmo nos momentos mais difíceis para o casal. O cineasta nunca esconde a existência do ódio e a ameaça dos brancos racistas, mas não é panfletário, e coloca o amor acima de tudo. Quando não há mais esperança, ele tem a ousadia de entregar uma cena de parto natural, que representa um novo começo e é uma das coisas mais maravilhosas do cinema recente. Onde Barry Jenkins e o diretor de fotografia James Laxton colocaram a maldita câmera nesta cena? Teria sido um truque de CGI e edição imperceptível como fez Alejandro González Iñárritu ao longo de “Birdman”? Provavelmente, apenas a magia do cinema. Jenkins ainda é jovem e tem muito para dar à sétima arte. Mas ele está no controle de seu ofício em “Se a Rua Beale Falasse”. Só um diretor experiente deixaria a trama fluir sem ruídos na narrativa ao entrelaçar seu filme com idas e vindas entre passado e presente. A montagem se confunde na linha temporal, mas se organiza facilmente na mente do espectador embriagado com tanta beleza. Sua sintonia profunda com a música belíssima de Nicholas Britell é o cinema dizendo que a vida tem trilha sonora. E é curioso que Jenkins abra o filme contando o elo do jazz e Louis Armstrong com a Rua Beale, em New Orleans, mas jamais mostre músicos exercendo suas profissões. Ele mostra discos tocando e é só. É como se a música tocasse para valer apenas nas mentes de Tish e Fonny. Para completar, é preciso destacar ainda a bravura de Regina King como a mãe de Tish, que coloca o amor pela filha acima de sua própria vida. É tudo muito honesto e direto, com personagens excessivamente em closes, olhando para dentro de nossos olhos. O racismo é real e você precisa ver que ele está lá. Mas também precisa ter esperança e se agarrar ao que te faz feliz.

    Leia mais
  • Filme

    Io é só mais uma sci-fi fraquinha da Netflix

    10 de fevereiro de 2019 /

    Graças à ganância do homem e sua exploração infinita da fauna e da flora, a vida na Terra acabou. Não dá mais para respirar e a (parte rica da) humanidade deixou o planeta em busca de um novo lugar para morar. Apenas uma pessoa é deixada para trás. E não estamos falando do robozinho Wall-E, mas de Margaret Qualley (“The Leftovers”). A premissa de “Io” é a mesma de “Wall-E” (2008), mas seu desenvolvimento parte para outro caminho, embora dê em um lugar já muito visitado. Esse nem é o maior problema, afinal é a jornada que importa, mas ela é desenvolvida através de clichês, situações previsíveis e diálogos pobres. Margaret Qualley é Sam, filha de um renomado cientista. Ambos ficaram na Terra para estudarem a possibilidade de reconstrução ou a readaptação do planeta. O resto foi para Io, nome de uma lua de Júpiter. Num belo dia, ela cruza com outro perdido que chega do nada de balão (!). Micah é interpretado por Anthony Mackie (o Falcão de “Vingadores: Guerra Infinita”), que recita Platão para ilustrar o que já estamos vendo em cena, e explica em seguida, novamente, para quem não entendeu o claro significado da reflexão. Até sua ponta em “Homem-Formiga” é mais profunda que toda sua participação em “Io”. E não adianta o diretor Jonathan Helpert encher o filme de paisagens belas ou o cabelo de Sam ao vento, quando nenhuma imagem contribui para traduzir o que ela está pensando nem propõe a dimensão de sua angústia. Em resumo, “Io” é só mais uma ficção científica fraquinha da Netflix, como “Titã”, “Mudo”, “Onde Está Segunda?”, “Spectral”, “O Paradoxo Cloverfield” e “Próxima Parada: Apocalipse”.

    Leia mais
  • Filme

    Talento de atores faz Green Book ser levado a sério

    9 de fevereiro de 2019 /

    “Green Book – O Guia” é o primeiro filme, vamos dizer assim, sério do diretor Peter Farrelly. Sim, a outra metade dos Irmãos Farrelly (Bobby não dirigiu, mas apoiou o projeto do início ao fim), de “Debi e Lóide” (1994) e “Quem Vai Ficar com Mary?” (1998). Você pode acusar a produção de ser à moda antiga ou de entrar para a lista daqueles tradicionais filmes de Oscar, certinhos, mainstream, by the book, que Hollywood faz de montão, mas que sempre surgem com muita força nas premiações – como “Kramer vs Kramer” (1979), “Conduzindo Miss Daisy” (1989) e “Uma Mente Brilhante” (2001). Mas não pode acusar “Green Book” de má intenção. Peter Farrelly admitiu erros grotescos nos bastidores de outros filmes e o roteirista Nick Vallelonga falou merda no Twitter, mas conseguiram sentar, criar e executar um filme que, queira ou não, será lembrado por muito tempo. É o primeiro drama de Peter, embora tenha seus momentos de humor, claro. Sai a comédia, entra o drama; sai a grosseria para dar lugar à finesse. Mas é a velha história de amizade entre homens num road movie (“Debi e Lóide”, “Kingpin”) em que a jornada evolui seus protagonistas como seres humanos. E isso também estava inserido de alguma forma em “Quem Vai Ficar com Mary?”. Na trama, Tony Lip (Viggo Mortensen) é um leão de chácara bruto, grosso, descendente de italianos, falastrão e racista. Um típico personagem dos irmãos Farrelly, cultivando estereótipos. Com a grana curta, ele aceita trabalhar como motorista (e segurança) de um pianista erudito, ninguém menos que o célebre Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), durante dois meses na estrada para cumprir a agenda de turnê do músico pelo sul dos Estados Unidos, o território mais preconceituoso, numa época em que o país estava pegando fogo. Juntos, eles seguem um guia tão absurdo quanto verídico, o tal Green Book, um livro que mostra os hotéis e locais que negros podem frequentar. Em resumo, a viagem não foi nada fácil, mas deve ter sido muito, muito mais dura na vida real. O filme é acusado de amenizar os fatos reais em que supostamente se baseia. Ou seja, Hollywood sendo Hollywood. E essa passada de pano na história para favorecer os clichês de “buddy movie” entrega que se trata de um filme convencional. Sem esquecer que também é um filme sobre racismo escrito e dirigido por brancos, que privilegia a conscientização do branco sobre o sofrimento do negro. Tony e Shirley dizem coisas terríveis um ao outro, mas Farrelly passa um verniz dramático que só contadores de histórias acostumados com comédias sabem dosar. Tudo para, no final, eles se entenderem e se complementarem. Esse enredo basicão rendeu prêmios, como a conquista do Festival de Toronto, do Globo de Ouro de Melhor Comédia e ainda tem cinco indicações ao Oscar. Claro que ajuda muito contar com atores no topo de suas capacidades artísticas. Concorde-se ou não com o cinema dos Farrelly, Viggo Mortensen e Mahershala Ali formam uma inesperada dupla perfeita. Mortensen é o raro caso de ator que não se deixou definir por um papel de sucesso – Aragorn, na trilogia de “O Senhos dos Aneis” – , acumulando escolhas ousadas, de “Senhores do Crime” (2007) a “Capitão Fantástico” (2016). Em “Green Book”, ele some no papel de Tony Lip (ou Vallelonga), com sua postura de mafioso, machão clichê, mas de coração mole. Parece conter emoções, mas sempre coloca tudo para fora. Já Mahershala Ali, que venceu um Oscar por “Moonlight” (2016), deve repetir a dose merecidamente com “Green Book”. Seu Dr. Shirley é o oposto de Tony – e o contraponto para a atuação de Viggo. Introvertido, reprimido, por motivos óbvios e compreensíveis, ele prefere falar através de sua arte. Quando finalmente se solta no piano de um bar, é a purificação de sua alma. E Mahershala entrega. Os dois estão entre os grandes de Hollywood, equivalentes do século 21 aos intérpretes lendários da era de ouro do cinema. E isso faz com que “Green Book” seja levado a sério.

    Leia mais
  • Filme

    Vidro frustra expectativas para se recuperar em reviravolta

    9 de fevereiro de 2019 /

    Quando “Corpo Fechado” foi lançado em 2000, a indústria tinha medo de apostar em filmes baseados em histórias em quadrinhos. O que deu um caráter único à visão de M. Night Shyamalan em sua imersão na mitologia de HQs, mas com os dois pés fincados na realidade. Sua proposta foi imaginar os quadrinhos como resultados da inspiração nas histórias verdadeiras de pessoas com habilidades extraordinárias que podem caminhar entre nós. No fundo, apenas um pretexto para Shyamalan fazer o que gosta: uma fábula a respeito do quanto o sobrenatural quebra o ceticismo do dia a dia. É um filmão, com Bruce Willis e Samuel L. Jackson, que não pode ser comparado com nenhum outro (provavelmente só com “Vidro”); difícil sim, pois exige demais dos espectadores que pagam ingresso em busca de diversão escapista com um longa de alguma forma ligado a super-heróis. Mas Shyamalan não teve medo do ridículo ao empregar uma abordagem séria para um tema que nem todos estavam preparados para levar tão a sério. Como de praxe, muitos reclamaram do diretor, porque esperaram e cobraram por muito tempo um novo “O Sexto Sentido” (1999). Mas o tempo, o melhor crítico de todos, reconheceu a grandeza de “Corpo Fechado”. Hoje, ironicamente, os quadrinhos representam a maior fonte de renda em Hollywood, o que fez muita gente redescobrir o filme e chamá-lo de “o melhor trabalho de M. Night Shyamalan” (não é, pois sempre foi “O Sexto Sentido”). Mais que isso, o diretor fez uma nova geração correr atrás do filme quando encerrou “Fragmentado”, de 2016, com o David Dunn de Bruce Willis fazendo uma ponta para provar que as duas produções fazem parte da mesma realidade. E pronto! Shyamalan, como fazem Marvel e DC, estabeleceu seu próprio universo cinematográfico e o crossover foi prometido para “Vidro”, que encerraria uma trilogia que ninguém imaginou existir ou ser possível da forma como foi construída. Com seus filmes mais recentes, Shyamalan deu uma reviravolta na carreira após amargar diversos fracassos, de “A Dama na Água” (2006) a “Depois da Terra” (2013). Bancado pela Blumhouse, do produtor James Blum, ele retornou com “A Visita” (2015), terror modesto, de baixíssimo orçamento, mas surpreendentemente acima da média. Depois veio “Fragmentado”, que conta a história de um maluco sequestrador de garotas: Kevin (James McAvoy), suas 24 personalidades, além de uma outra que é guardada para “ocasiões especiais” e é conhecida como “A Fera”, que é muito forte, devora suas vítimas (!) e escala paredes (!!). Só que a revelação dessa personalidade não foi a reviravolta tradicional de Shyamalan, mas sim a tal ponta de Bruce Willis. Enfim, nada a ver com nada, porque até aquele ponto, “Fragmentado” valia muito mais pela ótima atuação de McAvoy, não tinha a menor ligação com quadrinhos e, muito menos, com “Corpo Fechado”. Mas esse foi o gancho para “Vidro”, que já nasceu com a responsabilidade de justificar sua existência e entregar algo fora do comum. A expectativa, porém, foi demasiada, e deixa claro que “Corpo Fechado” precisava menos de uma continuação que “Fragmentado”, por mais que Shyamalan tente convencer os fãs do contrário. Embora mostre que os personagens fazem as mesmas coisas de sempre, o primeiro ato de “Vidro” é bem construído, com Shyamalan fingindo que abandonou sua pretensão de ser reconhecido como autor genial para focar somente no que o roteiro exige. Mas ele enche o espectador de expectativa só para… trancá-lo com Willis, McAvoy e Jackson num manicômio em um segundo ato que compromete o ritmo, mas tem seus pontos altos nos atributos técnicos – um excesso de close-ups com fundos desfocados, que torna íntima a crença na história contada por Shyamalan. Sua opção pelo frontal ainda reforça a violência psicológica como algo mais poderoso que a violência física (da qual ele foge o tempo todo). Também se destaca a montagem esperta e, hmm, fragmentada, principalmente no interrogatório inicial dos personagens que parecem estar na mesma cena, só que não. São artifícios que compensam o blá-blá-blá irritante e didático da psiquiatra vivida por Sarah Paulson. E, então, vem o terceiro ato, onde se espera a já tradicional reviravolta de Shyamalan. E o que ele faz? Entrega mais de uma. É exatamente onde o filme divide opiniões, entre erros e acertos, mostrando que Shyamalan manteve a atenção do público do início ao fim, como um habilidoso mágico e contador de histórias. E com o público atento, ele aproveita para introduzir os tópicos que quer realmente discutir, sobretudo a conclusão de que existem pessoas muito piores no mundo real do que os vilões da ficção. São indivíduos e grupos que tentam reprimir tudo e todos que são diferentes, em nome de uma fé presa a conceitos e costumes antigos e ultrapassados. “Vidro” tem muito mais a dizer do que parece. A grande reviravolta de Shyamalan é fazer você pensar que o filme é ruim quando, na verdade, ele é bom.

    Leia mais
  • Filme

    Homem-Aranha no Aranhaverso revoluciona animações e filmes de super-heróis

    19 de janeiro de 2019 /

    “Homem-Aranha no Aranhaverso” é uma explosão de criatividade em todos os quesitos para quem achava que filme de super-herói já esgotou uma fórmula que dizem existir por aí. E também é, sim, o melhor filme solo do herói em 15 anos – desde que Sam Raimi entregou “Homem-Aranha 2”. Trata-se de uma animação. Mas fora das características visuais que Pixar, Disney e DreamWorks padronizaram e acostumaram o mundo inteiro. Mistura com maestria animação tradicional, digital, 3D e o escambau. Mais que isso: traduz a linguagem dos quadrinhos para a tela de maneira revolucionária, visceral, porém orgânica, sem jamais distrair o espectador da história com a beleza de suas imagens. É o tradicional filme de origem virado do avesso. Como diz o título, “Homem-Aranha no Aranhaverso” tem um roteiro loucão que aposta na abertura de infinitas possibilidades, com dimensões e realidades paralelas colidindo para gerar a reunião improvável de diferentes versões do Amigo da Vizinhança. Para embarcar nessa viagem, que fica cada vez mais brisada, graças principalmente às cabeças piradas dos roteiristas Phil Lord e Chris Miller (“Uma Aventura Lego”), o filme confia em duas certezas básicas: todo mundo ama o Homem-Aranha e qualquer um pode usar uma máscara de herói. Não importa cor da pele, classe social, nacionalidade, forma física, idade, gênero ou orientação sexual, o Homem-Aranha do novo século abraça diversidade e representatividade, que sempre estiveram enraizadas no conceito de Stan Lee sobre seus super-heróis: ser diferente é normal e legal demais. O velho Peter Parker de sempre faz parte da história. Velho mesmo, barrigudo, com a barba por fazer, mas de outra dimensão, porque a trama se passa na realidade de Miles Morales (o antigo universo Ultimate da Marvel), completamente diferente daquele que os fãs estão acostumados – para se ter ideia o Peter Parker da dimensão de Miles é loiro e o Dr. Octopus é uma mulher. Mas tem mais. Gwen Stacy de outra dimensão, que ganha poderes de Aranha em vez de Peter, o Aranha Noir, uma garota aranha de visual anime e até um porco aranha antropomórfico. Hilário. E todos vindos de épocas diferentes dos quadrinhos do herói. A animação da Sony é uma homenagem sem precedentes ao personagem da Marvel em diversas mídias, eras e segmentos, e faz desde reverências a Stan Lee e Steve Ditko, os criadores do herói, até piadinhas sobre o merchandising. É dirigido por Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, mas é importante ressaltar a força criativa de Phil Lord e Chris Miller, jovens talentos que iniciaram a carreira com um desenho animado absolutamente maluco, “Tá Chovendo Hamburguer”, transformaram “Uma Aventura Lego” em franquia e recentemente foram demitidos de “Han Solo: Uma História Star Wars”, porque foram ousadinhos demais. Azar da Disney, pois “Han Solo” fracassou com a direção burocrática de Ron Howard, enquanto “Homem-Aranha no Aranhaverso” atingiu uma galáxia de elogios. E o impacto dessa animação no cenário pop é merecidamente tão forte que a Sony não somente abriu portas para uma nova franquia com inegável apelo popular, como também colocou pressão para cima da concorrência (Pixar, DreamWorks) e dos próprios filmes do Homem-Aranha com Tom Holland.

    Leia mais
  • Filme

    WiFi Ralph é crossover publicitário com mais marcas que personagens

    19 de janeiro de 2019 /

    Ao contrário de “Detona Ralph”, que priorizou uma história ao invés da tentar agradar os fãs de games, “WiFi Ralph: Quebrando a Internet” se perde entre referências. É basicamente um fiapo de roteiro que se apoia num excesso de check-ins e curtidas pelo maior crossover publicitário já feito no cinema. E além de se referir a si mesma na história, a Disney ainda passa a mensagem de que amizade via Facebook e WhatsApp deve ser tão valorizada quanto brincar com crianças no mundo real – o oposto do que todos falam, por sinal. Para começo de conversa, o filme de 2012, ainda que desenvolvido sob a direção criativa de John Lasseter, nunca foi um “Toy Story”, “Procurando Nemo”, “Wall-e”, “Divertidamente” ou “Up”. No padrão Pixar, teria ficado no segundo escalão. Mas para a Disney pós-“O Rei Leão” até que ficou de bom tamanho. A parceria do estúdio com Lasseter depois renderia “Zootopia” e “Moana”, saindo-se melhor que alguns lançamentos da própria Pixar. Mas “Detona Ralph” se contentava em ser uma aventura extremamente divertida com personagens adoráveis, ao mesmo tempo que prestava homenagem aos games do século passado e aos gamers de todas as gerações. “WiFi Ralph”, por sua vez, encosta os coadjuvantes anteriores para apresentar novos personagens (fraquíssimos) e demora a começar para valer. Os primeiros minutos são puro marasmo, oferecendo uma série de referências a games que estão lá somente para satisfazer nerds, que buscam nada mais que referências. Pior que isso: denunciam logo de cara que não há muito o que contar na continuação, como tinha ficado claro durante os créditos finais de “Detona Ralph”. É por isso que Ralph (voz de John C. Reilly, nas versões em inglês) e Vanellope (voz de Sarah Silverman) saem do limitado mundo dos velhos arcades e partem rumo ao universo de possibilidades infinitas da internet para recuperar uma peça fundamental do jogo da princesa, “Corrida Doce”. Quando Ralph e Vanellope entram na rede, o filme de Phil Johnston e Rich Moore mostra o que tem de melhor: as técnicas de animação evoluíram muito de 2012 para 2018, rendendo um visual limpinho e gigantesco para ilustrar a imensidão da internet. Também é bastante criativa a maneira como caracterizaram os avatares dos usuários, os pop-ups, o Instagram, os vírus, a deep web, os jogos onlines e os vídeos babacas que viralizam no YouTube. Mas “WiFi Ralph” também convida o público a apontar “Ei, ali está a logo do Facebook!”, “Os passarinhos são o Twitter!”, “Ah, os Stormtroopers!”, “Caramba, o Homem de Ferro!”, “Iti malia! São as princesas Disney!”, “A Branca de Neve digital ficou com cara de louca, não?”, “Vi o Google lá em cima!”, “Olha o Pinterest!”. Referências que parecem ocupar mais espaço que a própria história, porque roteiro que é bom, nada. Um lampejo começa a ser esboçado da metade para o final. Pena que não dialogue com o resto do filme, embora os minutos iniciais de “WiFi Ralph” joguem algumas pistas no ar que se perdem rapidamente. É uma mensagem ousada para a Disney, mas também questionável, porque a animação é feita essencialmente para crianças e o verdadeiro público-alvo provavelmente não terá maturidade suficiente para assimilar. Além disso, a ideia de valorizar a comunicação via redes sociais parece anúncio pago das grandes marcas que estampam diversas cenas de “WiFi Ralph”. No fim, fica a sensação de que alguém revisou o roteiro para inserir marketing de conteúdo no lugar da história. Apesar de contar com um universo cheio de potencial, a Disney fez de “Detona Ralph” uma jornada completa e centrada nas redenções de dois personagens. Já “WiFi Ralph” se encanta pelo tamanho desse universo, que engole os dois personagens, deixando-os sem rumo. Sobram referências e falta história no roteiro bagunçado, que tem até um inesperado número musical, supostamente engraçadinho, com uma canção ruim de doer.

    Leia mais
  • Filme

    Bumblebee é o E.T. da franquia Transformers

    19 de janeiro de 2019 /

    Você viu esse filme várias vezes, e em embalagens diferentes, mas a fórmula de “E.T.” com visual de “Transformers” não tinha muito como dar errado. Foi preciso contar uma história (vejam só que coisa básica), ter um pouco de noção (e não só explosões) e um diretor promissor (Travis Knight) querendo mostrar serviço para fazer de “Bumblebee” o melhor filme da franquia. De longe. Em resumo, é um filme que dá para assistir. E bem divertido, diga-se de passagem. O filme solo que a gente não sabia que precisava do Transformer mais querido do planeta, trocou os clichês grandiosos de Michael Bay pela sensibilidade de Travis Knight, um novato que encantou com a animação “Kubo e as Cordas Mágicas” e assumiu a franquia mais execrada de Hollywood com a esperança de realizar um milagre. E conseguiu. Nunca antes a crítica gostou tanto de um Transformer. Antes de tudo, e ao contrário de Michael Bay, Knight proibiu câmeras tremidas, deixando toda a ação visível ao olho humano. Livrando o público da dor de cabeça, tratou de tirar-lhe também o peso das costas, entregando um filme mais leve, inclusive no senso de humor. Além disso, corrigiu os rumos da franquia ao retomar os melhores momentos do primeiro “Transformers”, o único até aqui que parece ter sido produzido por Steven Spielberg. Knight voltou ao filme de 2007 para contar a história do menino e seu carro-robô. No caso, da menina e seu fusca-autobot. Além disso, o diretor aproveitou o fato de “Bumblebee” ser um prólogo passado nos 1980 para incorporar o espírito da época – em que Spielberg fez “E.T” e reinou absoluto como rei dos blockbusters. Tanto em cena, ao reproduzir o tipo de aventura juvenil daquela era, quando na trilha, cheia de músicas que marcaram a década – The Smiths, A-ha, Simple Minds, Duran Duran, Rick Astley, Tears for Fears, entre outros. Tirando os efeitos visuais, absolutamente modernos, “Bumblebee” parece pertencer à época que retrata. Tem cara de cinemão da década de 1980. Mas não pense que o filme é antiquado. A começar por trazer uma protagonista feminina, que não precisa de homem nenhum para alcançar seus objetivos – como Ripley, na franquia “Alien”. Não está ali só para beijar um cara na cena final nem para gritar de medo diante do menor perigo. Hailee Steinfeld já tinha provado seu talento precoce em “Bravura Indômita”, filmão de 2010 dos Irmãos Coen, que lhe rendeu até indicação ao Oscar. São nove anos de lá até aqui e, como já tinha mostrado em “Quase 18”, ela virou estrela. Seu talento ajuda a transmitir a emoção necessária para a transição dramática da história. Pois se “Bumblebee” é divertido, também traz aquele momento de dar nó na garganta. É “E.T.” telefonando dos anos 1980 para o cinema atual. “Bumblebee” ainda evita erros de outros prólogos, como “Han Solo”, que tentam se conectar aos longas originais atirando referências para fãs, antes mesmo de ter um roteiro definido. Isso abre possibilidades para que “Bumblebee” tenha sua própria franquia sem se preocupar com o que foi visto antes. Não é uma novidade, mas é um recomeço muito bem feito – e com direito a usar e abusar dos efeitos sonoros do desenho antigão dos Transformers. Parecia que tinham vergonha disso, mas como a nostalgia impera em “Bumblebee”, até o famoso som de transformação foi (bem) recuperado.

    Leia mais
  • Filme

    O Retorno de Mary Poppins leva o espectador à era de ouro de Hollywood

    19 de janeiro de 2019 /

    Se atualmente a Disney quer transformar suas animações em filmes live-action, o próprio Walt pensou ao contrário quando decidiu adaptar o livro de P.L. Travers em live-action com cara de animação. “Mary Poppins” ainda é a maior referência em termos de mistura de atores e desenhos da Disney. Não há nada igual com tamanha qualidade. E independentemente de qualquer coisa, o clássico de 1964 e Julie Andrews permanecem eternos, irretocáveis e encantadores até hoje. Por isso mesmo, sua primeira continuação não poderia arriscar nada muito diferente, exceto uma homenagem emocionante ao original e, consequentemente, uma viagem ao tempo dos musicais de outra era de Hollywood. Ou seja, trilhando o caminho da nostalgia sem deixar de dar sequência aos eventos narrados no original. Por isso, “O Retorno de Mary Poppins” parece o mesmo filme de antigamente. Lembra sua estrutura de roteiro e um cinema “classudo” que não volta mais, porém alguns pontos técnicos e narrativos foram devidamente atualizados. A transição foi muito bem feita (com amor) e continua uma história mágica como deve ser, mas com uma Emily Blunt maravilhosa, uma deusa como a Mary Poppins deste século, que só pode ter deixado Julie Andrews orgulhosa. Esse filme é sua consagração definitiva como atriz e estrela de cinema. Isso não quer dizer que “O Retorno de Mary Poppins” não tenha novidades em relação ao longa de 1964. No longa original de Robert Stevenson, a babá vivida por Julie Andrews faz as crianças agirem como crianças e não como pequenos adultos, enquanto mostra a um homem a importância de ser pai. No filme de Rob Marshall, a babá, agora interpretada por Emily Blunt, volta a fazer o mesmo com as crianças, mas o principal foco é mostrar que ser adulto não significa necessariamente matar a criança que existe dentro de você. Se a estrutura é praticamente a mesma, além dos cenários reproduzidos com o máximo de fidelidade, deixando a impressão proposital de que o tempo não passou, até as músicas de “O Retorno de Mary Poppins” são boas, assim como os números musicais. Destaque para “A Cover is Not the Book” e “Trip a Little Light Fantastic”, que provam o quanto Emily Blunt e Lin-Manuel Miranda nasceram para cantar e dançar juntos e com figurinos exuberantes, da mesma forma que Julie Andrews e Dick Van Dyke. O veterano ator e dançarino, por sinal, tem uma breve e emocionante participação na sequência, sapateando, claro, aos 93 anos de idade. Os mais velhos podem ir às lágrimas devido ao saudosismo e, embora o público infantil de hoje seja muito diferente da época de “Mary Poppins”, as crianças também podem embarcar na magia só pela grandiosidade em cena, embora tanta dança e cantoria possa parecer um tanto cansativo para a geração mais acostumada com explosões de games e de filmes de super-heróis. De todo modo, é possível reparar que, ao contrário do lançamento de 1964, um filme infantil para espectadores de todas as idades, o novo “Mary Poppins” mirou mesmo os adultos que amam o clássico, levando em consideração a mensagem para que ele não esqueça que foi criança um dia. É claro que “O Retorno de Mary Poppins” está longe de ser perfeito. O filme não precisava de um vilão e toda a sequência com Meryl Streep parece ter sido concebida só para contar com… a participação de Meryl Streep. Mas o diretor dos musicais “Chicago” (2002), “Nine” (2009) e “Caminhos da Floresta” (2014) conseguiu entregar seu melhor filme ao relembrar que o cinema ainda pode reviver sua era de ouro sem trair sua evolução natural – como unir animação tradicional com CGI, musicais à moda antiga com uma narrativa moderna e efeitos práticos com digitais.

    Leia mais
  • Filme

    Bird Box não é o fim do mundo, mas lembra o Fim dos Tempos

    19 de janeiro de 2019 /

    “Bird Box” não é o pior filme do mundo. É uma “Tela Quente” bem mais interessante que “Fim dos Tempos” (2008), aquela porcaria do M. Night Shyamalan, que vem aí de novo com “Vidro”. Ele é um diretor bem mais talentoso e com um repertório narrativo cheio de soluções visuais mais criativas que a dinamarquesa Susanne Bier. Mas colocou Mark Wahlberg para falar com uma planta em “Fim dos Tempos”, enquanto Sandra Bullock não passa vergonha em “Bird Box” e sabe atuar. Claro que, quando a referência imediata vem de um filme ruim que quase ninguém lembra que viu, a coisa não pode ser muito bonita. Mas também não precisa vendar os olhos para encarar “Bird Box”, porque Sandra Bullock é uma mulher capaz de tudo. Poucas atrizes sabem transitar entre drama e comédia com tamanha eficiência e experiência para segurar qualquer filme nas costas, atraindo praticamente toda a atenção do público. E ainda tem uma garotinha sensacional no elenco, a pequena notável Vivien Lyra Blair, além do talento promissor de Trevante Rhoades, de “Moonlight”, embora John Malkovich, Sarah Paulson e Jackie Weaver aparecem apenas pela obrigação de manter as contas em dia. “Bird Box” é sobre algo que surge do nada e que não pode ser visto, então, leva as pessoas a cometer suicídio. Alienígenas? Entidades malignas? A câmera não mostra e é melhor assim. Talvez seja uma metáfora para a depressão, o medo que de nós mesmos e da possível e consequente desistência da vida. Ótimo que o espectador possa entender “Bird Box” como quiser, afinal arte é uma experiência bem pessoal. E a analogia sobre depressão não é absurda, pois a jornada da personagem de Sandra envolve sua aceitação da maternidade, solução que representa sua própria razão para viver. Pena que a diretora Susanne Bier dilua qualquer simbologia em prol do melodrama e de uma história mais convencional. Fica a sensação de que o roteiro de Eric Heisserer (“A Chegada”), baseado no livro de Josh Malerman, precisava de um olhar mais profundo para traduzir a reflexão que parece ter repercutido mais em quem leu a obra original. Em vez disso, a trama prefere investir nos momentos clichês da estupidez humana, que existem em nove de cada dez filmes que flertam com o terror – como abrir portas para estranhos no meio do caos, ver uma notícia sobre suicídio em massa na Rússia e ignorar o fato como se fosse a coisa mais normal do mundo, e correr por uma floresta com os olhos vendados só para tomar inúmeros tombos. Para se arriscar em um território tão explorado é preciso desbravar fronteiras e percorrer caminhos jamais percorridos. Não é o que faz Susanne Bier que, numa era não muito distante, conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “Em um Mundo Melhor” (2010). Era de se esperar mais dela. Especialmente após outro filme com temas mais ou menos similares ir muito além e se destacar em 2018, o excelente “Um Lugar Silencioso”.

    Leia mais
  • Filme

    Filme de arte da era do streaming, Roma é um épico humanista

    23 de dezembro de 2018 /

    “Roma” é o que costumávamos chamar de filme de arte no século passado. Tem inspiração no neorrealismo italiano, não possui trilha sonora e foi rodado em preto e branco pelo cineasta Alfonso Cuarón (“Gravidade”), que relembra sua infância e, principalmente, das mulheres responsáveis por sua educação em Roma (não aquela da Itália, mas o bairro da Cidade do México). Mas é um filme de arte para se ver em streaming, concebido como um produto (Netflix) do século 21. E esta nem é a maior contradição da produção. Também responsável pela fotografia do filme, o diretor picota o longa em recortes quase sempre isolados do cotidiano, sem as costuras do storytelling tradicional. É como se fossem flashes de memórias do diretor jogados na tela, como um adulto se esforçando para se lembrar de passagens marcantes de sua época de criança. Todas eles contam de alguma forma com a presença da verdadeira protagonista da história, a jovem trabalhadora doméstica Cleo (a sensacional Yalitza Aparicio), que dita o ponto de vista único do filme. Como pano de fundo, o momento político, econômico e social conturbado dos anos 1970 no México. Mas os olhos de Cuarón estão voltados para Cleo, o coração de uma família em frangalhos. Ela percorre uma ladeira emocional com a patroa e os filhos dela. Mas, aos poucos, entende que é mais que a mulher que cuida da casa. É a que cuida de todos e é o alicerce mais poderoso dessa que é, no fim das contas, sua verdadeira família. E quando sua ficha cai na lindíssima cena da praia, quem não sentir um nó na garganta precisa urgentemente ir ao médico. Hoje em dia, um filme com esse roteiro costuma ser feito sem grande orçamento, com câmera tremendo, fotografia desleixada e se o cenário é o México, então, dá-lhe cores estouradas com preferência pelo amarelo do sol castigando tudo e todos. Mas Cuarón, além de apostar no preto e branco mais elegante que você viu nos últimos anos, não balança a câmera, busca enquadramentos não menos que perfeitos e tira beleza de qualquer momento do cotidiano, além de enquadrar momentos épicos como quem está acostumado a realizar superproduções. Aliás, Cuarón prefere mais imagens que palavras. Para você ter uma ideia, ele começa o filme com água e sabão abrindo uma janela no céu. Impossível ser mais evidente que isso para deixar clara sua intenção logo nos minutos iniciais. Cuarón quer abrir não somente a janela para suas memórias, mas também para o público. E de qualquer nacionalidade. Não importa a língua falada no filme, pois em pouquíssimo tempo, todos nós falamos o mesmo idioma, porque as lembranças de Cuarón se tornam nossas próprias lembranças, conectando-se por experiências similares. E para ajudar a moldar essa experiência, há uma relação muito profunda entre o que você vê em primeiro plano e o que está em segundo plano no frame. Às vezes exalando contradição, outras atuando como complemento. Mas dissecar aqui o que está em cada cena é atrapalhar o prazer para os sentidos que é descobrir e redescobrir “Roma”. Quantas vezes na vida você estava triste e alguém próximo estava feliz? Ou vice-versa. Quantas vezes num momento de angústia, você seria capaz de imaginar que acontecia algo ao redor ou existia uma pessoa capaz de mudar aquela sua sensação desoladora de uma hora para outra? Quantas vezes não enxergamos uma oportunidade debaixo de nossos narizes? É verdade que Cuarón poderia criticar muito mais a relação entre patrões e empregados ou discutir com mais contundência a tensão política no México, mas não era o filme que ele pretendeu fazer. É no fator humano e em sua sensibilidade engajadora e universal que reside o segredo da grandeza de “Roma”. É sobre mulheres. Isso não quer dizer que esses pontos não sirvam de apoio para mostrar a evolução de Cleo. Mesmo que fique em silêncio muitas vezes, Cleo não é tão passiva, estagnada e parada no tempo quanto aparenta (o avião que abre e fecha o filme não está lá por acaso, pois indica passagem de tempo). A relação entre chefes e seus subordinados não é tão simples assim e muitas vezes aceitamos coisas que vão contra nossos princípios. Mas note como a própria personagem é a mais equilibrada do filme (literalmente, como mostrado na cena daquele artista excêntrico colocando todo mundo num pé só). Em constante movimento evolutivo, Cleo ainda tem seu inesperado segundo de catarse no clímax de “Roma”. Em outras palavras, Cleo caminha para frente sim em sua jornada; ainda que ela demonstre humildade em um mundo injusto e entenda que seu lugar é ao lado daquela família. Existe algo mais épico que o sentimento humano? É por isso que, mando quando a grandiosidade contida ameaça estourar na tela ou quando Cuarón arrisca sequências sem cortes, o filme de streaming que venceu o Festival de Veneza 2018 se destaca por suas sutilezas. Pode até lembrar semelhanças com o cinema de Fellini, Visconti ou De Sica, mas esta “Roma” é de Cuarón mesmo.

    Leia mais
 Mais Pipoca
Mais Pipoca 
@Pipoca Moderna 2025
Privacidade | Cookies | Facebook | X | Bluesky | Flipboard | Anuncie