Amor Estranho Amor: Exibição na TV foi presente para cinéfilos
Na época que se dispôs a fazer “Amor Estranho Amor”, Xuxa não sabia que se tornaria apresentadora de programa infantil. Ela era namorada do Pelé, que por sua vez era amigo do produtor Aníbal Massaini Neto, e, como Walter Hugo Khouri era um cineasta que valorizava muito as atrizes que eram elevadas a um posto de sucesso sempre que apareciam em seus filmes, a chance de trabalhar com o cineasta parecia uma oportunidade de ouro. Mesmo sendo um filme que deu uma dor de cabeça para a futura apresentadora, que pagou US$ 60 mil anuais à Cinearte Produções, durante os anos de 1991 a 2018, para sua interdição, não dá para negar que trata-se da obra cinematográfica mais importante e bonita que ela já fez. Mas na filmografia de Khouri, o filme era considerado uma obra menor. Equipará-lo a outras obras do diretor é uma tarefa ingrata, pois estamos falando de alguém que fez grandes filmes através de cinco décadas. Entretanto, “Amor Estranho Amor” cresce na revisão permitida pelo resgate histórico no Canal Brasil, como uma obra-solo, por mais que seja difícil não fazer referência a outros tantos títulos do realizador, especialmente os que apresentam o alter-ego Marcelo. Aqui o nome do protagonista não é Marcelo; é Hugo, representado pelo menino Marcelo Ribeiro e pelo idoso Walter Forster, que comparece como uma espécie de fantasma vindo do futuro para relembrar o seu breve período numa mansão que funcionava como um prostíbulo de luxo, onde sua mãe trabalhava e morava. A mãe, vivida por Vera Fischer, chama-se Ana, nome frequentemente usado por Khouri em seus filmes estrelados pelo mulherengo Marcelo. Vera Fischer aparece com uma beleza tão extraordinária neste filme que parece saída de alguma pintura clássica. Não à toa, a cena em que ela se relaciona intimamente com o filho é explicitamente inspirada na Pietà de Michelangelo. O modo como Khouri vê os corpos femininos tem essa relação da apreciação artística. Embora o desejo esteja também presente, o sentido de busca da beleza clássica comparece de maneira forte. E há os close-ups dos olhares, todos poderosos. Principalmente quando vemos Ana, mas também o personagem de Tarcísio Meira, que interpreta um rico político paulista que exige exclusividade de Ana naquele bordel, e tem a intenção de ajudar a liderar a oposição a Getúlio Vargas momentos antes de o presidente instituir o Estado Novo. Uma das coisas que mais chama atenção no filme é seu início, quando o menino Hugo chega no prostíbulo sem saber que ambiente era aquele. Sua intenção é encontrar a mãe, que fica numa situação complicada. Afinal, como explicar a presença de uma criança em um lugar destinado a adultos? E enquanto o garoto espera e é também olhado e assediado pelas outras jovens mulheres do bordel, ouvimos canções clássicas do cancioneiro brasileiro na voz de cantores como Francisco Alves e Orlando Silva. Inclusive, no final do filme, ainda ouvimos mais uma linda do Francisco Alves, chamada “Misterioso Amor”, que brinca com o título do filme e sua temática edipiana. Ainda que vejamos em outros filmes do realizador personagens que atravessam a infância e a adolescência tendo que lidar com o desejo, como em “Eros – O Deus do Amor” (1981) e “As Feras” (1995), em nenhum outro filme de Khouri o complexo de Édipo é tão bem explorado quanto em “Amor Estranho Amor”. Quando o garoto vai para seu quarto e sabe que a mãe está transado com um homem, ele chora copiosamente. O filme ganha uma dimensão onírica quando o desejo inconsciente (ou talvez nem tão inconsciente assim naquele momento) se materializa na cena entre mãe e filho. Eis um filme que oferece pano para manga para uma série de estudos e discussões, que vão muito além da polêmica pobre que se instalou em torno dele nesses anos todos. Além do mais, junto à direção cheia de classe do realizador, há ainda a música sempre brilhante de Rogério Duprat, a Traditional Jazz Band (a banda tem cenas numa festa), a direção de fotografia do mestre Antonio Meliande, um elenco de apoio de primeira linha – Mauro Mendonça e Otávio Augusto, as jovens Vanessa Alves, Sandra Graffi e principalmente Matilde Mastrangi, rainha do cinema erótico brasileiro, que comparece em uma cena pra lá de inspirada. Por tudo isso, a exibição do filme no Canal Brasil com um upgrade na imagem e no som na última quinta-feira (11/2) foi um presente para os cinéfilos e para os apreciadores da obra do diretor.
Boca de Ouro é a versão mais violenta de Nelson Rodrigues
Um filme como “Boca de Ouro”, com um elenco estelar, tempos atrás teria ótimas chances de conseguir uma boa bilheteria. Mas está passando em cinemas vazios. Tempos estranhos estes de pandemia. Há vários motivos para ver o filme. Para começar, o texto de Nelson Rodrigues, que é um autor que costuma garantir o sucesso de suas adaptações. Há também a volta de Daniel Filho na direção, depois de um hiato longo – desde a comédia “Sorria, Você Está Sendo Filmado”, de 2014. E há um elenco muito atraente, que traz outra volta, Malu Mader, e destaca nomes como Marcos Palmeira no papel-título, Guilherme Fontes, Fernanda Vasconcellos, Anselmo Vasconcelos, além do próprio Daniel Filho. Apesar disso, o grande atrativo acaba sendo a revelação da jovem Lorena Comparato, no papel de Celeste, a mulher casada que cai nas graças do gângster de dentes de ouro. Outro ator jovem, mais conhecido pelas telenovelas, Thiago Rodrigues, faz o papel de seu marido, Leleco, personagem que, na adaptação de Nelson Pereira dos Santos, exibida em 1963, tinha sido interpretado pelo próprio Daniel Filho. A estrutura, por sinal, é igual à do filme de Nelson Pereira dos Santos, uma espécie de “Rashomon” (1950), com a personagem de Malu Mader contando três histórias diferentes, ao mesmo tempo contraditórias e complementares sobre o temido Boca de Ouro, bicheiro que acabou de ser encontrado morto. A dupla de repórteres que entra na casa de Guigui (Mader) para colher depoimentos, acaba por ouvir essas histórias, mudadas de acordo com o humor ou a vontade da narradora. As narrativas se equilibram em momentos muito bons e outros menos interessantes, mas todas elas são atraentes e poderosas no uso da violência rodrigueana e que agora pode ser vista de maneira mais explícita. Daniel Filho segue um caminho de sangue e nudez, que já era trilhado pelos melhores especialistas em adaptações de Nelson Rodrigues, como Neville D’Almeida e Braz Chediak. Mas em “Boca de Ouro” ela é mais gráfica, derivada do cinema de horror, e mais bonita plasticamente. É uma violência que vai além do visual, já que Boca de Ouro é um personagem extremamente perturbador, seja quando procura estuprar uma mulher e matar seu marido, quando faz concurso de seios mais bonitos e quando planeja a execução de uma mulher em sua casa. Assim, há espaço para fazer bombear fortemente o coração do espectador diversas vezes, com os atos cruéis desse fascinante personagem da literatura brasileira.
Tenet irrita com explicações, mas fascina com ação
A decisão da Warner de lançar “Tenet” nos cinemas mesmo com os índices de contaminação ainda altos e com o público temeroso de pisar em uma sala de exibição foi arriscada. Com isso, o filme do diretor Christopher Nolan tornou-se o único “blockbuster” do semestre, já que houve uma rejeição a “Os Novos Mutantes” – um filme bem simpático e que mereceria um pouco mais de consideração. Começar o texto falando de loucura de lançar “Tenet” em plena pandemia contrasta com o fato de Nolan ser reconhecido como um diretor cerebral. Em seus filmes, quem fica com os neurônios pegando fogo é o público. E se as pessoas acharam “A Origem” (2010) e “Interestelar” (2014) complicados, “Tenet” eleva essa complexidade a uma outra escala. Quando se acha que está começando a entender a trama, Nolan apresenta novas cenas para deixar o espectador perdido novamente. Mas é preciso respeitar um cineasta que é capaz de fazer um filme caro como este, de difícil compreensão, sem um protagonista do nível de Leonardo DiCaprio (“A Origem”) ou Matthew McConnaughey (“Insterestelar”), e seu estúdio apostar que isso atrairia um número considerável de espectadores em plena pandemia. “Tenet” é um filme que faz o público variar sua reação ao longo da projeção. Dá para se irritar com as explicações sobre as balas reversas, depois achar fascinante a história de um mundo reverso e ficar bastante impressionado com as cenas de ação, e em especial com o som, com a qualidade de som do filme, que numa sala IMAX é estrondoso. A trilha sonora, a cargo do sueco Ludwig Göransson, lembra algumas bandas de rock industrial, como o Ministry. É possível embarcar na proposta de Nolan: um diretor com uma fascinação absoluta pelo tempo, e que vem brincando com isso de maneira cerebral ao longo de toda sua filmografia, talvez desde a sua obra de estreia. Lembremos que em Nolan até o sonho é racionalizado, vide “A Origem”. Até porque, com “Tenet”, ele reforça sua posição como um dos cineastas mais determinados a realizar ficção científica da maneira mais séria possível. Ou seja, trazendo conceitos científicos reais, de física e química, para a construção de uma trama complexa. O problema (ou seria a solução?) é que ele não quis fazer um filme de ficção científica, mas uma espécie de thriller de espionagem à moda de James Bond, com o mérito de trazer um protagonista negro e cheio de carisma. John David Washington foi uma grande aposta, já que seu papel de maior destaque até então tinha sido “Infiltrado na Klan”, de Spike Lee, um filme mais direcionado ao circuito alternativo. Aqui ele incorpora um James Bond meio perdido, mas que nunca abandona a elegância. Sempre com um terno chique, mesmo quando está às voltas com lutas braçais com criaturas vindo do futuro. O fato de o protagonista (ele não tem nome no filme) estar tão perdido quanto o espectador não deixa de ser um alento. Aliás, é curioso que, na época da divulgação do filme, contou-se que nem o elenco entendeu a história de “Tenet”. Então, quando vemos os personagens dialogando sobre conceitos complicados de uma maneira até um tanto robótica, a impressão é que Nolan realmente não se importou muito com a preparação dos atores, mais interessado na mise-en-scène, como Alfred Hitchcock tempos atrás. As cenas que mais se aproximam de uma sensação dramática ou minimamente sentimental vem da personagem de Elizabeth Debicki, que interpreta a esposa do personagem de Kenneth Branagh, um homem que tem em suas mãos o destino do universo. Uma das sequências mais empolgantes do filme, inclusive, acontece quando os dois coadjuvantes estão em um barco. Por outro lado, as cenas de ação mais ambiciosas, como as perseguições rodoviárias, parecem um pouco engessadas. Mas ainda assim funcionam como um alívio para o cérebro nas duas horas e meia de duração que, acredite se quiser, passam voando.
Os Novos Mutantes é bem melhor que os últimos filmes dos X-Men
Um filme que já nasceu como um cachorro morto para o povo chutar. Ou para as pessoas não verem. A própria distribuidora o lançou no meio da pandemia, quando ninguém quer ir ao cinema. E chovem críticas negativas (34% de aprovação no site Rotten Tomatoes). Mas “Os Novos Mutantes” é envolvente. É bom que exista e finalmente tenha sido lançado, após tanto tempo na geladeira, por mais que tenha sido mais arremessado do que exatamente lançado. É como se a Disney, mesmo tendo comprado a Fox, tratasse o material como obra de concorrente, que não deveria existir. O filme de Josh Boone, diretor dos bons dramas de relacionamentos “Ligados pelo Amor” (2012) e “A Culpa é das Estrelas” (2014), é sem dúvida superior aos dois filmes anteriores dos “X-Men” – os horríveis “X-Men: Apocalipse” (2016) e “X-Men: Fênix Negra” (2019). É também uma produção mais barata e humilde, sem a megalomania dos outros filmes dos mutantes. E com um diferencial muito atraente: o tom de filme de horror, que oferece uma experiência diferente ao subgênero de filmes de super-heróis. Junte-se a isso as angústias dos adolescentes em lidar com seus poderes, que podem servir de metáfora para as explosões hormonais que surgem neste estágio da vida humana. Há um romance gay muito bonito entre duas personagens, inclusive, o que conta ainda mais pontos a favor do filme. Assim, nota-se que a escolha de Boone para a direção do filme teve mais a ver com seu sucesso popular com o melodrama teen “A Culpa é das Estrelas” do que com sua intimidade com filmes de ação ou horror. Na verdade, ele não tinha nenhuma. E isso infelizmente depõe contra o filme quando ele se aproxima de seu clímax e as cenas de ação carecem de um cuidado maior. É quando “Os Novos Mutantes” cai bastante. Os efeitos especiais do urso gigante também são outro problema. Mas há outros tantos aspectos positivos, como a presença brilhante de Anya Taylor-Joy (“A Bruxa”) como a provocadora e badass Ilyana Raspuntin. A atriz ficou muito bem, trazendo expressividade e charme para a personagem. Ilyana tem o poder de se teleportar para um limbo, tem uma espada mágica gigante e um dragãozinho demoníaco como companheiro. Todos os demais atores e atrizes acabam ficando eclipsados pela presença de Taylor-Joy (atualmente arrancando aplausos na minissérie “O Gâmbito da Rainha”). Mas isso não quer dizer que a química não funcione. Rahne Sinclair (Maisie Williams, de “Game of Thrones”), a menina que se transforma em lobo; Danielle “Dani” Moonstar (Blu Hunt, de “The Originals”), com poderes a ser descobertos; Sam Guthrie (Charlie Heaton, de “Stranger Things”), uma espécie de míssil humano descontrolado; e Roberto da Costa (Henry Zaga, ator brasileiro de “13 Reasons Why”), cujo corpo arde como um vulcão; todos estão bem. Aliás, o elenco tem dois intérpretes brasileiros: além de Zaga, Alice Braga (“A Rainha do Sul”) aparece no papel da médica responsável pelos novos mutantes na instalação que os aprisiona. Quem leu as histórias clássicas do grupo, com roteiro de Chris Claremont e arte de Bill Sienkiewicz e Bob McLeod, provavelmente terá ainda mais prazer vendo o filme. É uma pena que os personagens não passarão desse único longa. Assim sendo, a abertura para o futuro na vida daqueles jovens em processo de autodescoberta ao final da narrativa traz um gostinho amargo de interrupção. Caso de obra que definitivamente teve má sorte em seu processo de produção, pós-produção e lançamento.
A Prima Sofia explora liberdade feminina com atriz que viveu escândalo sexual
Alguns filmes que envolvem o público pela trama acabam por se tornar ainda mais interessantes por detalhes de seus bastidores. É o caso da escalação de Zahia Dehar em “A Prima Sofia”, novo drama de Rebecca Zlotowski, diretora do charmoso e torto “Além da Ilusão” (2016). A hiper-sexualização da personagem de Dehar, beirando o vulgar, é o elemento principal da forma como o filme registra a liberdade sexual feminina, a falta de pudor e a vontade amoral de se entregar aos prazeres. Ela escandaliza e mexe frontalmente com o machismo do público. Nisto lembra um filme de algumas décadas atrás, “A Mulher Pública” (1984), de Andrzej Zulawski. Mas a polêmica em torno do filme, ao menos na França, deu-se principalmente por Dehar ter se tornado bastante conhecida no país como garota de programa. Ela virou notícia em 2010 durante os escândalos que envolveram dois jogadores da seleção francesa de futebol, Franck Ribéry e Karim Benzema, que foram acusados de pagá-la por serviços sexuais quando ela ainda tinha 17 anos. Os jogadores se livraram de condenação por afirmar que não sabiam que ela era menor de idade. Mas ela não lamenta a exposição, que acabou ajudando sua carreira, transformando-a em modelo, designer e agora atriz no filme de Zlotowski. Seu papel em “A Prima Sofia” guarda muita similaridade com as páginas do noticiário de sua vida real, trazendo referências que são mais bem apreciadas por quem conhece os bastidores do caso. No filme, ela vive a prima do título, que surge na cidade de Cannes de surpresa para visitar a jovem Naïma (a estreante Mina Farid), de 16 anos, que a recebe com muita alegria e entusiasmo. Há algo nessa prima que veio de Paris que fascina Naïma, como seu sex appeal, sua tranquilidade em se expor de topless e também seu ar de liberdade, que ela expressa o tempo todo em seu desejo de aproveitar a vida – uma vontade tatuada acima do bumbum, com a frase em latim “Carpe diem”. Num determinado momento, quando as duas estão tomando sol na praia, dois rapazes surgem atraídos pelo corpo exuberante de Sofia. E a garota não se importa com a admiração. Ao contrário: chega a deixá-los desconfortáveis com sua sexualização, ao aproximar a mão de um deles de seu seios e falar como sua pele é macia, especialmente em outra parte de seu corpo. O comportamento da prima deixa Naïma escandalizada, mas aos poucos a jovem começa a olhá-la como um exemplo de vida. A prima Sofia é uma típica bad girl – em entrevista, Zahia Dehar disse adorar as bad girls, por serem mais fortes e mais livres que qualquer mulher – e a percepção da rejeição social a seu comportamento é muito clara no filme. Isto se manifesta em olhares e comentários toda vez que Sofia passa com seus trajes provocantes, seja um vestido totalmente transparente para a noite, seja um vestido leve e florido, como o que ela usa para ir a um palacete na Itália, com os rapazes que ela conhece. As cenas na Itália são deliciosas por lidarem com a questão do julgamento social – o preconceito. Em determinado momento, Sofia decide se manifestar num roda de pessoas ricas, dizendo que aquele lugar lhe fazia lembrar Marguerite Duras. Uma das mulheres (Clotilde Courau) ri e desconfia que aquela garota com jeito de prostituta não sabe nada da escritora, e decide perguntar quais seus livros preferidos de Duras. Mas o que enriquece a cena é outro detalhe de bastidores, já que Courau é casada com o Príncipe de Veneza e uma integrante real da elite italiana, em mais um acerto de casting de Zlotowski. “A Prima Sofia” é também um conto sobre a brutalidade masculina, ainda que narre isso de maneira relativamente leve – em comparação, por exemplo, a “20 Anos”, de Fernando Di Leo, que mostra a violência despertada pela liberdade sexual feminina de maneira infinitamente mais impactante. Entretanto, por mais que Sofia atraia as atenções, o filme é na verdade sobre Naïma, do quanto ela aprende naquele breve período de férias de verão, que aproveitará para sua vida, para o seu futuro. Nisto, encontram-se semelhanças com o clássico “A Colecionadora” (1967), de Éric Rohmer, que tem sido citado em algumas críticas. E tem mesmo tudo a ver.
Queen & Slim é filme de denúncia e resistência importantes
Estreia na direção de longas-metragens da diretora de videoclipes Melina Matsoukas, “Queen & Slim” é um filme importante para o momento que estamos vivendo, embora aqui no Brasil tenha saído em VOD, sem muito alarde. A produção estreou nos Estados Unidos no final do ano passado e teve um bom desempenho nas bilheterias domésticas (US$ 43,8 milhões para um orçamento de US$ 18 milhões), em parte porque a dupla de atores ingleses que dá vida aos personagens do título é ótima – tanto Daniel Kaluuya, já indicado ao Oscar por “Corra!” (2017), quanto a ex-modelo Jodie Turner-Smith (da série “The Last Ship”). Mas além da bela atuação, o filme de Matsoukas se destaca pela valorização de uma estética afro-americana, seja na construção das imagens, muito bem cuidadas na fotografia de Tat Radcliffe, que traz um viés muito próprio para a beleza dos corpos negros, seja na trilha musical sensual e quente. Aliás, vale destacar que o diretor de fotografia também foi o responsável pelo primeiro episódio da nova série “Lovecraft Country”, que aborda o terror afro-americano na HBO. E é impressionante como ambos os trabalhos têm elementos em comum. Assim como a série passada nos anos 1950, o filme situado nos dias de hoje retrata os EUA como um país extremamente racista. O terror de ser abordado por um policial branco é o mesmo, 70 anos depois, demonstrando que, apesar da conquista de direitos, a repressão motivada pela cor da pele se mantém igual. Na trama, Queen e Slim se conhecem em um restaurante, após marcarem um encontro via Tinder. “Por que você escolheu este restaurante?”, ela pergunta. “O dono é negro”, ele responde. Isso já ajuda a demarcar o território e estabelecer o clima. Mas é na volta do encontro, em meio a uma conversa não muito animada, que o racismo se impõe, quando eles são parados pelo inevitável policial branco. A situação sai de controle e eles acabam se tornando fugitivos da lei. E, conforme fogem pelo vasto território americano, acabam ganhando fama de heróis, pois vem à tona que o policial que os confrontou já tinha matado um homem negro antes. Por mais que o filme caia em sua segunda metade, a trama acaba prendendo a atenção, tanto por suas cenas marcantes e várias qualidades, quanto pelas questões que levanta e representatividade que traz à tela – representatividade não apenas negra, mas também feminina/feminista, vislumbrada na força da personagem Queen e também pelo fato de ter uma diretora negra por trás das câmeras. E há também a beleza típica dos road movies, que costumam destacar as transformações por que passam os personagens ao longo da jornada. A arte segue sendo uma das formas mais eficazes e bonitas de resistência.
Narciso em Férias é emocionante e essencial para a democracia
“Eu comecei a achar que a vida era aquilo ali. Só aquilo. E que a lembrança do apartamento, dos shows, da vida lá fora era uma espécie de sonho que eu tinha tido.” Essa é uma das falas de Caetano Veloso em “Narciso em Férias”, ao descrever o seu primeiro momento no cárcere, quando foi colocado, sem a menor explicação, em uma solitária escura. Só de pensar nisso, de ter essa sensação de deslocamento da realidade, já é aterrador. “Narciso em Férias” marca o retorno da dupla de cineastas Ricardo Calil e Renato Terra ao mundo da música popular brasileira, depois do ótimo “Uma Noite em 67” (2010). Desta vez, a opção de entrecortar as falas de Caetano Veloso com imagens de arquivo e depoimentos de outros entrevistados foi deixada de lado, e o filme fica muito mais poderoso apenas com as cenas da entrevista com o cantor, músico e compositor baiano. Há quem diga que apresentar única e exclusivamente a entrevista de uma pessoa à frente de uma câmera não é fazer cinema, mas isso é bobagem. Esquecem da grandeza de Eduardo Coutinho, mestre nesse formato. Em “Narciso em Férias”, os diretores optaram por esconder, sempre que possível, suas próprias vozes na condução da entrevista. E utilizam apenas três enquadramentos básicos: o close-up, um plano que mostra o corpo inteiro do cantor e um plano mais distante, que acentua a parede ao fundo. Tudo que ele conta já está em um capítulo do seu livro “Verdade Tropical”, justamente intitulado “Narciso em Férias”, e que agora se tornará um livro à parte, já em pré-venda. O termo foi tomado de empréstimo de um livro do romancista americano F. Scott Fitzgerald, e que também se refere ao fato de que, durante todo o período em que esteve preso, Caetano não se olhou no espelho – deu férias a seu lado narcisista, por assim dizer. Histórias narradas oralmente são a base da construção de nossa civilização e é bom ver que esse tipo de recurso ainda segue sendo incrivelmente poderoso, especialmente quando encontramos alguém que consegue nos colocar dentro da ação. Há momentos da fala de Caetano que conseguem fazer o público se sentir em seu lugar, com um detalhismo de carga dramática assombrosa. O documentário é cheio de momentos de bastante emoção, especialmente em seu terço final. O próprio Caetano Veloso parece ter se surpreendido com o próprio choro e pede para que os diretores parem a filmagem em determinado momento. E não é um momento em que ele fala de seu sofrimento, mas de quando comenta o sentimento de gratidão, que ele tem por um sargento que ficou com pena de sua situação, de ele ser o único que não podia receber a visita da esposa, e que o ajudou. E ele lamenta não ter procurado saber o nome desse homem. Sem dúvida um dos momentos mais bonitos e tocantes do documentário e que, muito provavelmente, perderia um bocado da força sem a voz e sem o olhar do cantor . Outro acerto de Calil e Terra foi o fato de trazerem canções para o documentário. Já começa com uma canção de Orlando Silva, “Súplica”, cuja importância é exposta ao longo do filme. Além disso, cada vez que “Hey Jude”, dos Beatles, tocava nos rádios – foi um grande sucesso da época, o final dos anos 1960 – trazia esperança para Caetano. Outras duas canções do próprio Caetano, inspiradas pela experiência do cárcere, também são citadas com emoção: “Irene” e “Terra”. Além de enfatizar a importância e a beleza do trabalho de um de nossos mais brilhantes músicos, “Narciso em Férias” também impacta por lembrar como os artistas brasileiros foram presos e exilados durante a ditadura militar, em um momento em que a extrema direita se apresenta como uma ameaça cada vez maior para a democracia do Brasil. E isso o torna um filme essencial.
A Cor que Caiu do Espaço traz Nicolas Cage em modo insano
Com uma carreira bem acidentada, Richard Stanley volta à direção de longas-metragens depois de um longo período apenas trabalhando em curtas, segmentos de antologias e documentários. Hollywood não foi muito gentil com ele depois de demiti-lo no meio das filmagens de “A Ilha do Dr. Moreau” (1996), filme achincalhado mesmo com sua substituição por John Frankenheimer. Lembrando que Stanley era uma promessa para o cinema de horror nos anos 1990, com filmes como “Hardware – O Destruidor do Futuro” (1990) e “O Colecionador de Almas” (1992). Ainda assim, mesmo tendo tanta dificuldade de conseguir entrar novamente em um grande projeto, Stanley seguiu sendo cultuado por parte de fãs do gênero. A boa notícia é que seu novo filme, “A Cor que Caiu do Espaço” (2019), baseado em um conto de H.P. Lovecraft, é muito possivelmente seu melhor trabalho. Não está sendo e não será nada próximo de uma unanimidade, mas é muito bonito plasticamente e tem uma atmosfera de pesadelo crescente bastante envolvente. Chama a atenção também a participação de Nicolas Cage, ator incansável que só em 2019 estrelou seis produções. Este filme de Stanley é um dos que mais lhe permite extrapolar. Ou seja, ele não economiza nos gritos, nos tiques, naquilo que os fãs se acostumaram a ver. E não chega a atrapalhar nenhum pouco. Cai como uma luva para o filme. Cage interpreta um pai de família que mora em uma região rural bastante afastada. Esse detalhe é importante para que possamos nos dar conta do distanciamento da família quando o inferno chega. E o inferno chega em cores, em especial na cor-de-rosa bem viva. Quando a família está se preparando para dormir, algo parecido com um meteorito cai no jardim, deixando uma cratera imensa e muitas dúvidas sobre o que se trata. Aos poucos, cada membro da família passa a se comportar de maneira muito estranha. Apesar da presença de Cage, podemos dizer que a verdadeira protagonista do filme é Madeleine Arthur, uma jovem com poucos títulos marcantes no currículo, mas que aqui demonstra muito carisma. Ela faz o papel da filha de Cage. Na primeira cena do filme, ela está praticando um ritual de magia à beira de um rio quando é flagrada por um rapaz que está passando. Sua intenção é fazer um feitiço para curar definitivamente sua mãe do câncer. Sua mãe é uma mulher frágil e carinhosa vivida por Joely Richardson, e que possui outros dois filhos, um adolescente e um garotinho, cada um deles de importância pontual para a trama. Fazem parte da família também as alpacas que o patriarca cria com muito carinho. Mas quem espera dessa premissa algo parecido com uma boa construção de personagens ou diálogos ricos, pode esquecer. Não que os diálogos sejam fracos ou que o roteiro seja ruim. É que não parece haver nenhuma intenção por parte de Stanley de fazer um filme com essas bases. Seu maior interesse é na beleza, tanto das cores artificiais geradas por efeitos visuais quanto da fotografia da natureza. E também a beleza dos efeitos gore, que em alguns momentos remetem a “O Enigma de Outro Mundo”, de John Carpenter, e outros filmes de horror oitentistas. Em entrevista à revista britânica Sight & Sound, Stanley disse que teve que fazer algumas alterações na adaptação do conto, já que Lovecraft carrega de maneira quase explícita seu racismo e sua misoginia. Quanto aos aspectos niilistas do escritor, eles seguem presentes na adaptação, em especial quando a família vai se desintegrando mais e mais, tornando-se, literalmente, monstros sob o efeito da radiação alienígena. Stanley também se sente muito grato a Nicolas Cage, um grande fã de Lovecraft. O cineasta afirma que ele foi o homem que restaurou sua fé em Hollywood novamente. Depois do trauma de “A Ilha do Dr. Moreau”, poder filmar tudo com tranquilidade, em uma região rural de Portugal, e com todo o apoio dos atores e dos técnicos, e ter um resultado favorável não tem preço. As coisa foram tão bem que Stanley planeja duas novas adaptações de Lovecraft para breve. Disponível em Telecine e Vivo Play.
Macabro combina policial e terror na história dos irmãos necrófilos de Nova Friburgo
Marcos Prado tem uma carreira como diretor bastante curiosa. Sua maior experiência é na produção, tendo sido, inclusive, produtor executivo dos dois “Tropas de Elite”, do José Padilha, além de outros dois documentários famosos desse cineasta. Mas seu trabalho na direção começou com o documentário. Seu primeiro documentário para o cinema, “Estamira” (2004), é o retrato de uma mulher que vive em um lixão do Rio de Janeiro, que tem problemas mentais e filosofa sobre o mundo. Confesso que esse filme me deixou um tanto perturbado. Fiquei ao mesmo tempo temeroso de entender o pensamento da personagem e olhar para seus olhos. E é interessante ver que Prado, depois de uma primeira experiência na ficção com “Paraísos Artificiais” (2012), tenha voltado a lidar com o medo (a experiência do medo em “Estamira” é puramente subjetiva), desta vez deliberadamente, ao contar a história dos “irmãos necrófilos” de Nova Friburgo, que foram notícia nos jornais na década de 1990. “Macabro” foi o primeiro filme inédito a ser lançado comercialmente nestes tempos de pandemia, no circuito dos drive-ins. E só por isso já chama a atenção. Por mais que não tenha conseguido uma recepção de tapete vermelho pela crítica, “Macabro” tem jeito de filme que será, no futuro, reavaliado e visto como um exemplar de suspense/terror/policial marcante e com aspectos valorosos. Prado aproveita uma onda bastante positiva de filmes de gêneros que cresceram consideravelmente no Brasil nos últimos anos. Sem falar que, em comparação com a maioria dos muitos exemplares de horror e suspense estrangeiros que têm chegado ao circuito, ainda ganha pontos por nos aproximar dos acontecimentos. O modo como o filme se inicia, com o protagonista vivido por Renato Góes, o Sargento Téo, cometendo um erro ao atirar em um homem em uma operação na favela, confundindo uma furadeira elétrica com uma arma (baseado em um incidente recente real), é uma maneira de começar já abordando os erros da polícia e a situação de racismo e violência que marcam a sociedade brasileira. Talvez nem precisasse que o cabo vivido por Guilherme Ferraz dissesse duas vezes que ele era o único negro daquela cidade, além da família dos irmãos assassinos procurados, mas talvez sim, seja necessário, para tornar mais didática a situação. Fosse em outra época, muito provavelmente, essa questão racial não seria sequer abordada e o filme focaria especificamente na busca pelos assassinos e estupradores e também em seus atos brutais. Há um pouco de fragilidade no modo como o filme parece querer justificar os atos dos irmãos como atos de vingança após anos de maus tratos. Isso é compensado com a construção de uma atmosfera de medo herdada do cinema de horror, como nas cenas de ataque às vítimas, mostradas sempre no escuro e tornando a aparência de um deles próxima de um monstro, a partir do depoimento de uma sobrevivente. Isso ajuda a enriquecer o mistério, ao trazer a feitiçaria para os crimes. O filme é feliz ao estabelecer um vínculo entre dois personagens em especial: o Sargento Téo e uma ex-namorada da adolescência, Dora (Amanda Grimaldi). Essa relação ajuda a aproximar o público dos personagens e a aumentar a dramaticidade na cena em que Dora é abordada por um dos irmãos. É uma das melhores cenas do filme, ao lado de uma cena de briga de Téo com o coronel da região, realizada com câmera na mão. Por sinal, há também que se destacar a beleza da fotografia, a cargo de Azul Serra (“Turma da Mônica – Laços), que enfatiza a exuberância da paisagem natural de Nova Friburgo.
A Portuguesa dá saudades da tela grande do cinema
“A Portuguesa”, de Rita Azevedo Gomes, é dessas obras tão plasticamente bonitas que logo nos faz lembrar da falta da tela grande de cinema. Foi uma obra feita para ser vista na tela grande do cinema, inclusive pela pouca utilização de close-ups e pelo detalhismo em cada elemento colocado em cena, sejam coisas, pessoas ou animais. Mas apareceu pela primeira vez em VOD para o público brasileiro, na plataforma Mubi. O que andam dizendo por aí, de que o filme é como uma pintura em movimento, faz sim muito sentido. De fato, “A Portuguesa” está muito mais próximo da pintura do que de outras artes próximas do cinema, como o teatro e a literatura. As cores importam, seja o vermelho do cabelo da protagonista, a portuguesa cujo nome nunca é dito, sejam as cores das paredes ou da própria natureza, ora o verde vicejante das folhas, ora o branco da cena em que a portuguesa e uma amiga conversam e começa a nevar. O clima de sonho está presente na essência do filme, e muito disso talvez se deva ao próprio universo criado pela protagonista quando da ausência do marido, que passa anos guerreando e volta para casa quando está ferido. Ele mesmo explicita que sua relação com a guerra é muito longa e mais apaixonante do que com a própria esposa, a quem conhece há menos tempo. O que pode atrapalhar um pouco a experiência do filme de Rita Azevedo Gomes é o fato de a telinha não dar conta de tanta beleza, de tanta densidade, de tanto detalhismo durante mais de duas horas de duração. Além do mais, não temos aqui uma narrativa convencional, não há uma pressa em contar uma história. Por vezes, pouco importa se há uma história. As imagens importam muito mais. A direção de fotografia está a cargo do mestre Acácio de Almeida, que tem um currículo muito extenso desde a década de 1960. Entre obras mais recentes que ele fotografou se destacam “Colo” (2017), de Teresa Villaverde, “Raiva” (2018), de Sérgio Tréfaut, além de outras colaborações com a própria Rita Azevedo Gomes. Na trama, Clara Riedenstein (“John From”) vive a portuguesa do título, uma mulher de beleza pré-rafaelita e ar independente para a época, que se casa com Herren von Ketten (Marcello Urgeghe), austríaco que, durante a Era Moderna, luta contra o Episcopado de Trento. Baseada num conto de Robert Musil, publicado em 1924, a história se passa principalmente no Norte da Itália, onde fica o castelo que a portuguesa transforma em lar durante a ausência do marido. Mas não há muita clareza sobre o período histórico, situado entre os séculos 16 e 17, quando a geografia da Europa ainda era muito diferente, o que parece deliberado porque a diretora embaraça a cronologia com referências anacrônicas de música e literatura. Mais importante que o contexto da trama é a filmografia de Rita Azevedo Gomes, que tem ganhado cada vez mais adeptos no círculo dos críticos mais atentos. Dirigindo desde 1990, ela se tornou uma das mais importantes cineastas do século 21, e não só de Portugal. O Mubi, por sinal, vem disponibilizando semanalmente cada um de seus filmes, e nesta semana liberou “A Vingança de uma Mulher” (2012), considerado seu melhor trabalho. Quanto às comparações que têm sido feitas com Manoel de Oliveira, talvez esteja mais em alguma semelhança no uso de planos-sequência longos, diálogos pausados e narrativas mais lentas. Mas isso não é exclusividade de Oliveira. De todo modo, Gomes chegou a trabalhar com o diretor centenário em “Francisca” (1981), como figurinista. Nota-se, assim, que a aproximação da cineasta com o cuidado com a imagem, seja de roupas ou de qualquer elemento de cena, já remonta de algum tempo.
The Old Guard injeta dramaticidade no bom e velho thriller de ação
Tem surtido um efeito positivo a abertura cada vez maior de Hollywood para cineastas femininas. Com “The Old Guard”, Gina Prince-Bythewood se junta a Patty Jenkins (“Mulher-Maravilha”), Cathy Yan (“Aves de Rapina”) e Cate Shortland (“Viúva Negra”, ainda inédito) na lista de diretoras de filmes recentes de ação, que trazem mulheres como protagonistas. Prince-Bythewood é uma cineasta negra que, apesar de ter no currículo dramas e comédias românticas de repercussão relativamente pequena, sempre lidou com direitos de minorias, temas bem explorados no atual “blockbuster” da Netflix, que, além de trazer duas protagonistas, uma delas negra, também rechaça a homofobia, desenvolvendo personagens homossexuais de maneira muito bonita e respeitosa – como é o caso do casal vivido pelo holandês Marwan Kenzari (o vilão de “Aladdin”) e o italiano Luca Marinelli (o excelente ator de “Martin Eden”). A diretora traz uma abordagem diferente ao gênero. Mas enfrenta dificuldades na transição, por falta de coreografias de luta mais bem trabalhadas ou cenas de ação mais consistentes. Poderia haver um cuidado maior com as imagens, um certo rigor formal cairia bem, até como forma de compensar a falta de uma equipe com maior intimidade com adaptações de quadrinhos. Isto torna as cenas de ação um tanto genéricas. Por isso, o diferencial de “The Old Guard” encontra-se na dramaticidade criada em torno dos personagens. Enquanto muitos esperam resultados mais convencionais, a diretora deixa sua marca ao dar à premissa irreal, sobre um grupo de mercenários imortais, um dose saudável de dramaticidade e seriedade. Na trama, Charlize Theron vive Andy, uma guerreira imortal com mais de 6 mil anos de idade, que lutou em diversas guerras ao longo da história da humanidade. Ela lidera a “Velha Guarda”, um pequeno grupo de imortais que se dedica a desfazer injustiças ao redor do mundo. Mas está cansada, desgastada e desiludida por achar que não está atingindo o impacto positivo esperado. Aos poucos, a pose de super-heróis dos personagens se desconstrói, revelando pessoas frágeis. Após tantos anos de existência na Terra, eles acumulam muitas experiências trágicas. Andy tem especialmente duas lembranças muito dolorosas de parceiros imortais do passado, que serão contadas à nova imortal, a jovem soldado negra Nile, vivida por KiKi Layne. É pelos olhos da mais nova integrante do grupo que o público é apresentado às vidas secretas desse pequeno exército de imortais, que têm seus próprios sensos de honra e de justiça. E quanto à fragilidade deles, há um momento em particular que torna Andy tão frágil quanto incrivelmente forte, lá pelo terceiro ato, quando eles enfrentam a indústria farmacêutica que deseja lucrar com seus corpos. Aliás, o vilão caricato (Harry Melling) é o ponto mais fraco da trama, mas não chega a comprometer tanto quanto em alguns blockbusters de super-heróis. Derivado de uma história em quadrinhos de Greg Rucka, que também é o roteirista desta adaptação cinematográfica, o filme tem grandes chances de ganhar continuação. E será ótimo se tiver, tanto para o público revisitar os personagens, quanto para a diretora, ou quem pegar o projeto, aperfeiçoar a produção, aproveitando-se de todas as suas potencialidades.
Até o Fim enaltece a superação e a pluralidade no cinema brasileiro
O cinema brasileiro, todos sabem, é plural. Como o país. Há tempos deixou de ser exclusividade do Rio de Janeiro e de São Paulo. Cidades do interior, como Contagem-MG e agora também Cachoeira, no Recôncavo Baiano, aparecem no cinema brasileiro contemporâneo como áreas de explosão afetiva e artística. Os jovens cineastas baianos Ary Rosa e Glenda Nicácio têm chamado a atenção desde “Café com Canela” (2017), o lindíssimo filme sobre amizade, superação diante das adversidades e valorização da cultura afro-descendente. Isso dentro de uma estrutura que mistura experimentação com um pouco de classicismo. A descrição até faz lembrar seu mais novo filme, “Até o Fim”, exibido e premiado na 23ª Mostra Tiradentes, no começo do ano. O filme foi aplaudido de pé e, pelos testemunhos, dá-se a entender que foi a mais intensa recepção popular de um filme exibido no evento. Muito disso tem a ver com a aguardada expectativa de um novo filme da dupla, que ainda fez “Ilha” (2018), talvez seu trabalho mais arriscado. “Até o Fim” agrada mais por ser feminino e cheio de afetividade, como “Café com Canela”. Mas, em vez de se focar em amizades, aqui o elo que une as protagonistas, depois de tantos anos de distância, é o sangue. Pelo menos três das mulheres da trama são irmãs. O filme começa, curiosamente, na mesma barraca de “Ilha”, além de fazer uma referência direta e explícita a essa obra. Isso acaba por trazer uma familiaridade ao filme, apesar dos diretores ainda terem poucos trabalhos realizados. É nesta barraca que conhecemos Geralda (Wal Diaz), uma mulher de meia idade que é dona daquele espaço. Ela recebe a notícia da morte iminente de seu pai, que está internado no hospital. Essa situação será o elemento que reunirá as irmãs de Geralda. Primeiro aparece a simples e alegre Rose (Arlete Dias) e depois a bem-sucedida Bel (Maíra Azevedo, a Tia Má do YouTube). A quarta personagem aparecerá para balançar ainda mais a noite. Toda a narrativa acontece no espaço de uma noite, onde muitas feridas são expostas em uma discussão calorosa. A começar pelo desabafo de Geralda, que se sente abandona pelas irmãs. Elas deixaram a cidade sem muita explicação e Geralda ficou sozinha, cuidando do pai. Pautada em diálogos, a trama beira a verborragia teatral, mas isso não chega a incomodar, porque os diálogos são cheios de tensão, emoção e espontaneidade. A figura do pai também é importante, pois ele se revela o principal responsável pelos rumos distintos das vidas daquelas mulheres. Mesmo sem nunca aparecer em cena, é como um espírito ruim que paira no ambiente, cuja morte é esperada ansiosamente pela maior parte daquelas mulheres. Ele simboliza a questão do abuso sexual, do ataque ao candomblé, da homofobia, da transfobia, do machismo etc. Como opção estética, os diretores optaram por enquadrar a trama numa janela em formato quadrado, que faz com que haja uma aproximação maior daquelas personagens na tela – além de passar um ar claustrofóbico. Vez ou outra, vemos dois quadros. A movimentação e os ângulos de câmera também são bem atípicos e apontam para uma vontade de experimentar, sem cair no experimentalismo puro. O resultado é uma junção muito bem orquestrada de um racionalismo ditado pela forma e de um sentimentalismo ditado pelos traumas e situações de fragilidade das personagens. Além do mais, a presença da quarta personagem, Vilmar (Jenny Muller), faz com que essas emoções explodam em um convite às lágrimas, que nem sempre representam a tristeza, mas também a alegria da superação, de estar lidando com coragem com as dores do passado que seguem vivas no presente. Disponibilizado brevemente no YouTube, é um filme que deve crescer muito na telona.
7500 cria tensão claustrofóbica em trama de sequestro aéreo
Longa-metragem de estreia do alemão Patrick Vollrath, “7500”, disponibilizado em streaming pela Amazon, consegue montar uma história de tensão claustrofóbica, que se passa totalmente dentro da cabine de um avião atacado por terroristas. O fato de apresentar uma visão limitada pelas paredes da cabine acaba por tornar tudo ainda mais interessante. Uma produção mais convencional teria toda a reviravolta com os passageiros sofrendo a pressão e o terror da situação (ataque físico dos terroristas, avião prestes a cair etc). Em vez disso, e até como forma de diminuir os custos de produção, o que Vollrath apresenta é uma obra que foge da vulgaridade. É também uma obra que se pretende realista. O ator que interpreta o capitão do avião é um verdadeiro piloto, e muito do ótimo desempenho de Joseph Gordon-Levitt, no papel do copiloto isolado, deve-se ao fato de ele ter aprendido com o profissional e ter criado certa intimidade com a cabine, com seus botões, alavancas, meios de comunicação etc. Para trazer este realismo, o filme até flerta com estilo documental, iniciando com imagens de câmeras de segurança de um aeroporto de Berlim, e com uso do silêncio como trilha sonora. Vollrath parece querer construir um thriller anti-hollywoodiano, no sentido de sair das convenções da maioria dos filmes de ataques ou sequestros em aviões. A câmera não é estática, mas permanece boa parte do tempo focada no personagem de Gordon-Levitt, como se houvesse uma terceira pessoa ali dentro da cabine como testemunha. E essa testemunha somos nós, os espectadores. O filme é bem-sucedido especialmente em sua primeira metade, quando a tensão crescente mantém o interesse sobre o desenrolar da situação. Porém, conforme a resolução se aproxima, depois da segunda metade da narrativa, a impressão é que o diretor e seu corroteirista não souberam desenvolver um desfecho satisfatório. Enquanto os terroristas estão – com exceção de um deles – , do lado de fora da cabine, lutando para entrar, o medo e a tensão se manifestam de maneira bastante intensa. Inclusive, com as ameaças de morte a membros da tripulação e de passageiros se intensificando e se tornando cada vez mais dramáticas. Talvez a estrutura de filme B funcionasse melhor se o diretor optasse por um projeto de duração ainda menor, com cerca de 70 minutos, por exemplo. Isso tornaria o filme, além de mais enxuto, muito mais eficiente na construção da densidade dramática, já que a meia hora final quase leva tudo a perder. Ainda assim, “7500” é um thriller bem-feito e bem-vindo, e mais um exemplo de como é possível realizar voos ousados com pouco orçamento, ao fugir das convenções de Hollywood.












