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Divulgação/Basilisco Filmes

Filme|9 de agosto de 2020

A Portuguesa dá saudades da tela grande do cinema

“A Portuguesa”, de Rita Azevedo Gomes, é dessas obras tão plasticamente bonitas que logo nos faz lembrar da falta da tela grande de cinema. Foi uma obra feita para ser vista na tela grande do cinema, inclusive pela pouca utilização de close-ups e pelo detalhismo em cada elemento colocado em cena, sejam coisas, pessoas ou animais. Mas apareceu pela primeira vez em VOD para o público brasileiro, na plataforma Mubi.

O que andam dizendo por aí, de que o filme é como uma pintura em movimento, faz sim muito sentido. De fato, “A Portuguesa” está muito mais próximo da pintura do que de outras artes próximas do cinema, como o teatro e a literatura. As cores importam, seja o vermelho do cabelo da protagonista, a portuguesa cujo nome nunca é dito, sejam as cores das paredes ou da própria natureza, ora o verde vicejante das folhas, ora o branco da cena em que a portuguesa e uma amiga conversam e começa a nevar.

O clima de sonho está presente na essência do filme, e muito disso talvez se deva ao próprio universo criado pela protagonista quando da ausência do marido, que passa anos guerreando e volta para casa quando está ferido. Ele mesmo explicita que sua relação com a guerra é muito longa e mais apaixonante do que com a própria esposa, a quem conhece há menos tempo.

O que pode atrapalhar um pouco a experiência do filme de Rita Azevedo Gomes é o fato de a telinha não dar conta de tanta beleza, de tanta densidade, de tanto detalhismo durante mais de duas horas de duração. Além do mais, não temos aqui uma narrativa convencional, não há uma pressa em contar uma história. Por vezes, pouco importa se há uma história. As imagens importam muito mais.

A direção de fotografia está a cargo do mestre Acácio de Almeida, que tem um currículo muito extenso desde a década de 1960. Entre obras mais recentes que ele fotografou se destacam “Colo” (2017), de Teresa Villaverde, “Raiva” (2018), de Sérgio Tréfaut, além de outras colaborações com a própria Rita Azevedo Gomes.

Na trama, Clara Riedenstein (“John From”) vive a portuguesa do título, uma mulher de beleza pré-rafaelita e ar independente para a época, que se casa com Herren von Ketten (Marcello Urgeghe), austríaco que, durante a Era Moderna, luta contra o Episcopado de Trento. Baseada num conto de Robert Musil, publicado em 1924, a história se passa principalmente no Norte da Itália, onde fica o castelo que a portuguesa transforma em lar durante a ausência do marido. Mas não há muita clareza sobre o período histórico, situado entre os séculos 16 e 17, quando a geografia da Europa ainda era muito diferente, o que parece deliberado porque a diretora embaraça a cronologia com referências anacrônicas de música e literatura.

Mais importante que o contexto da trama é a filmografia de Rita Azevedo Gomes, que tem ganhado cada vez mais adeptos no círculo dos críticos mais atentos. Dirigindo desde 1990, ela se tornou uma das mais importantes cineastas do século 21, e não só de Portugal. O Mubi, por sinal, vem disponibilizando semanalmente cada um de seus filmes, e nesta semana liberou “A Vingança de uma Mulher” (2012), considerado seu melhor trabalho.

Quanto às comparações que têm sido feitas com Manoel de Oliveira, talvez esteja mais em alguma semelhança no uso de planos-sequência longos, diálogos pausados e narrativas mais lentas. Mas isso não é exclusividade de Oliveira. De todo modo, Gomes chegou a trabalhar com o diretor centenário em “Francisca” (1981), como figurinista. Nota-se, assim, que a aproximação da cineasta com o cuidado com a imagem, seja de roupas ou de qualquer elemento de cena, já remonta de algum tempo.

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Ailton Monteiro

Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.

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