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Divulgação/Universal

Filme|3 de outubro de 2020

Queen & Slim é filme de denúncia e resistência importantes

Estreia na direção de longas-metragens da diretora de videoclipes Melina Matsoukas, “Queen & Slim” é um filme importante para o momento que estamos vivendo, embora aqui no Brasil tenha saído em VOD, sem muito alarde.

A produção estreou nos Estados Unidos no final do ano passado e teve um bom desempenho nas bilheterias domésticas (US$ 43,8 milhões para um orçamento de US$ 18 milhões), em parte porque a dupla de atores ingleses que dá vida aos personagens do título é ótima – tanto Daniel Kaluuya, já indicado ao Oscar por “Corra!” (2017), quanto a ex-modelo Jodie Turner-Smith (da série “The Last Ship”).

Mas além da bela atuação, o filme de Matsoukas se destaca pela valorização de uma estética afro-americana, seja na construção das imagens, muito bem cuidadas na fotografia de Tat Radcliffe, que traz um viés muito próprio para a beleza dos corpos negros, seja na trilha musical sensual e quente. Aliás, vale destacar que o diretor de fotografia também foi o responsável pelo primeiro episódio da nova série “Lovecraft Country”, que aborda o terror afro-americano na HBO. E é impressionante como ambos os trabalhos têm elementos em comum.

Assim como a série passada nos anos 1950, o filme situado nos dias de hoje retrata os EUA como um país extremamente racista. O terror de ser abordado por um policial branco é o mesmo, 70 anos depois, demonstrando que, apesar da conquista de direitos, a repressão motivada pela cor da pele se mantém igual.

Na trama, Queen e Slim se conhecem em um restaurante, após marcarem um encontro via Tinder. “Por que você escolheu este restaurante?”, ela pergunta. “O dono é negro”, ele responde. Isso já ajuda a demarcar o território e estabelecer o clima.

Mas é na volta do encontro, em meio a uma conversa não muito animada, que o racismo se impõe, quando eles são parados pelo inevitável policial branco. A situação sai de controle e eles acabam se tornando fugitivos da lei. E, conforme fogem pelo vasto território americano, acabam ganhando fama de heróis, pois vem à tona que o policial que os confrontou já tinha matado um homem negro antes.

Por mais que o filme caia em sua segunda metade, a trama acaba prendendo a atenção, tanto por suas cenas marcantes e várias qualidades, quanto pelas questões que levanta e representatividade que traz à tela – representatividade não apenas negra, mas também feminina/feminista, vislumbrada na força da personagem Queen e também pelo fato de ter uma diretora negra por trás das câmeras. E há também a beleza típica dos road movies, que costumam destacar as transformações por que passam os personagens ao longo da jornada.

A arte segue sendo uma das formas mais eficazes e bonitas de resistência.

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Ailton Monteiro

Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.

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