
Divulgação/Beeker Street
Sebastián Lelio, diretor de Uma Mulher Fantástica, morre aos 52 anos
Cineasta chileno vencedor do Oscar foi encontrado sem vida em sua casa em Santiago
Diretor foi encontrado morto em casa
O cineasta chileno Sebastián Lelio, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “Uma Mulher Fantástica” (2017), morreu nesta sexta-feira (6/11), aos 52 anos. O diretor foi encontrado sem vida em sua residência no bairro de Las Condes, em Santiago, segundo informações divulgadas pela imprensa chilena. A morte foi confirmada por sua mulher, Amalia Kassai, num comunicado divulgado em nome da família, que atribuiu o falecimento a motivos de saúde, sem especificar a causa.
Investigação foi aberta
Segundo o jornal Emol, Kassai encontrou o marido sem vida por volta do meio-dia e acionou a polícia. A Fiscalía Metropolitana Oriente determinou a realização de diligências para esclarecer as circunstâncias do falecimento. O promotor Jorge Reyes, chefe da unidade de Flagrância, foi enviado à residência do cineasta para acompanhar os primeiros procedimentos. A investigação foi confirmada pelo Ministério Público chileno.
Nenhum diagnóstico ou problema de saúde específico foi divulgado pela família do diretor, que estava em plena atividade profissional e dirigia uma adaptação do romance “Poeta Chileno”, do escritor Alejandro Zambra.
Carreira começou com impacto
Sebastián Lelio nasceu em 8 de março de 1974, em Mendoza, na Argentina, filho de pai argentino e mãe chilena. Ainda criança, mudou-se com a família para Viña del Mar, no Chile, país onde cresceu e desenvolveu sua carreira. Estudou jornalismo antes de se dedicar ao cinema. Estreou na direção de longas-metragens com “A Sagrada Família” (2006), uma sátira provocadora da hipocrisia religiosa e dos valores conservadores da burguesia chilena.
Ambientado durante a Semana Santa, o filme acompanha a desintegração de uma família após a chegada da namorada do filho, cuja sexualidade e comportamento libertário expõem conflitos, preconceitos e desejos reprimidos. Filmada em apenas três dias, com roteiro de dez páginas e diálogos improvisados, a produção estreou internacionalmente no Festival de San Sebastián em 2005 e provocou polêmica por sua abordagem da religião e da instituição familiar. Circulou por mais de 100 festivais e conquistou 26 prêmios internacionais, incluindo o Prêmio da Crítica Internacional (FIPRESCI) em Toulouse e o prêmio SIGNIS em Buenos Aires. Também foi eleita a Melhor Produção do Ano pela Associação de Críticos de Cinema do Chile.
O reconhecimento estabeleceu Lelio como um dos principais nomes da nova geração do cinema chileno e introduziu os conflitos entre sexualidade, religião, autoridade familiar e liberdade individual que seriam aprofundados em sua filmografia.
A Gloria no cinema
Depois, vieram obras como “Natal” (2009) e “O Ano do Tigre” (2011), que ajudaram a consolidar seu nome entre os cineastas chilenos surgidos no período posterior à ditadura de Augusto Pinochet.
A projeção definitiva veio com “Gloria” (2013), drama protagonizado por Paulina García sobre uma mulher divorciada de 58 anos que procura reconstruir a vida afetiva. O filme foi exibido no Festival de Berlim, onde a atriz conquistou o Urso de Prata de Melhor Interpretação Feminina.
A produção também venceu três Prêmios Platino, incluindo Melhor Filme Ibero-Americano, e o Ariel de Melhor Filme Ibero-Americano, concedido pela Academia Mexicana de Cinema. Escolhido pelo Chile para disputar o Oscar, o longa alcançou 100% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes, com 128 avaliações. A repercussão permitiu que Lelio alcançasse um público mais amplo e estabeleceu uma característica recorrente de sua obra: histórias de mulheres que enfrentam expectativas sociais, preconceitos e limitações impostas ao direito de determinar o próprio futuro.
A importância de Uma Mulher no Oscar
O sucesso internacional levou Hollywood a produzir uma refilmagem em inglês, “Gloria Bell” (2018), novamente dirigida por Lelio, desta vez com Julianne Moore no papel principal e John Turturro como seu interesse amoroso. Mas, antes disso, ele conquistou seu Oscar.
A conquista do reconhecimento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA veio com “Uma Mulher Fantástica” (2017), estrelado por Daniela Vega. A atriz interpreta Marina, uma mulher trans que sofre discriminação após a morte repentina do companheiro e precisa lutar para participar de seu funeral. A produção venceu o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 2018, tornando-se o primeiro longa-metragem chileno premiado nessa categoria.
O reconhecimento projetou Daniela Vega mundialmente: ela se tornou a primeira pessoa abertamente trans a apresentar uma atração na cerimônia do Oscar e foi incluída pela revista Time entre as 100 personalidades mais influentes do mundo naquele ano. No Chile, o sucesso da produção ampliou o debate sobre os direitos da população trans e contribuiu para a mobilização que levou à aprovação da Lei de Identidade de Gênero, em setembro de 2018. O filme transformou sua protagonista numa referência internacional de representatividade e colocou Lelio no centro de uma discussão que ultrapassou as salas de cinema.
A conquista de Hollywood
Depois do sucesso de “Uma Mulher Fantástica”, Lelio passou a desenvolver projetos em língua inglesa. Dirigiu “Desobediência” (2017), estrelado por Rachel Weisz e Rachel McAdams, sobre duas mulheres que retomam uma relação amorosa num ambiente judaico ortodoxo. Em seguida, realizou “Gloria Bell” (2018), sua refilmagem americana de “Glória” com Julianne Moore no papel principal.
Em “O Milagre” (2022), lançado pela Netflix, o cineasta adaptou um romance de Emma Donoghue, ambientado na Irlanda do século 19, sobre uma enfermeira interpretada por Florence Pugh que investiga o caso de uma menina supostamente capaz de sobreviver sem se alimentar. O drama aborda fanatismo religioso, culpa e as consequências de crenças impostas às mulheres.
Seu último longa-metragem concluído foi “A Onda” (2025), musical inspirado nas mobilizações feministas que tomaram universidades chilenas em 2018. Protagonizada por Daniela López, a produção acompanha uma estudante de música que se envolve nos protestos contra o assédio e a violência de gênero enquanto enfrenta questões não resolvidas de sua própria experiência. O filme foi apresentado na mostra Cannes Première, no Festival de Cannes de 2025, e posteriormente lançado na Netflix.
Último projeto estava em fase de filmagens
Lelio trabalhava na adaptação cinematográfica de “Poeta Chileno”, romance publicado por Alejandro Zambra em 2020, que marcaria uma mudança de foco em sua trajetória. O projeto, desenvolvido pela produtora chilena Fábula, em parceria com a Amazon MGM Studios, acompanharia Gonzalo, um aspirante a poeta, e a relação que estabelece com Vicente, filho de sua companheira Carla. O livro original aborda paternidade, vínculos familiares e o ambiente literário chileno.
Segundo a imprensa do Chile, a equipe havia realizado filmagens até quinta-feira (5/11), véspera da morte do diretor. Os atores Felipe Zepeda e Clemente Rodríguez estavam confirmados nos papéis centrais. O projeto havia obtido financiamento internacional após participar de uma iniciativa voltada a investidores no Festival de Cannes de 2025. A produtora ainda não informou como a morte de Lelio afetará a continuidade das filmagens.