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Veja mente? PF e PGR negam suposta “delação-bomba” de Vorcaro contra Lula
Revista atribuiu acusações a anexo de colaboração, mas PF e PGR negam o relato, defesa não autentica áudio e celular não traz pagamentos
Veja lança “bomba” contra Lula
A Veja publicou nesta sexta-feira (9/10) uma reportagem apresentada como revelação de uma tentativa de delação de Daniel Vorcaro contra Luiz Inácio Lula da Silva. A revista divulgou áudio e documentos nos quais o ex-dono do Banco Master teria relatado o pagamento de cerca de R$ 30 milhões em espécie para financiar “Lula”, documentário de Oliver Stone, além de repasses ao Instituto Lula em troca de acesso a fundos de pensão. A gravação ganhou força imediata pelo didatismo político da comparação feita pela voz atribuída ao banqueiro: “O do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi porque foi patrocínio, foi patrocínio normal”.
PF nega relato e anexos
O efeito da bomba durou poucas horas antes de começar a virar fumaça. A Polícia Federal divulgou nota específica sobre a reportagem e negou que Vorcaro tenha prestado depoimento com aquele teor. Foi além: afirmou que ele tampouco entregou à corporação “anexos, documentos ou informações com o conteúdo ali descrito”. As propostas de colaboração apresentadas por sua defesa foram rejeitadas por não atenderem aos requisitos legais.
No mesmo comunicado, a PF informou ter recebido uma notícia-crime com pedido de providências urgentes para apurar fatos relacionados à publicação da Veja. O expediente foi encaminhado à área técnica para adoção de medidas de polícia judiciária.
PGR também nega versão
A Procuradoria-Geral da República divulgou sua própria nota e esclareceu que Vorcaro nunca prestou depoimento oral durante as negociações. Segundo o órgão, toda a comunicação ocorreu por intermédio de seus advogados e as propostas foram rejeitadas antes de uma eventual oitiva do ex-banqueiro. Não há gravações com a voz do banqueiro no inquérito.
Integrantes da PGR ouvidos pela Folha de S. Paulo foram além: negaram que o anexo descrito pela Veja, com a acusação de R$ 30 milhões para o documentário, tenha sequer existido no processo. A reportagem da revista, porém, diz que Vorcaro reuniu os detalhes nesse suposto anexo levado à Procuradoria em junho.
A diferença é central. Não se trata apenas de uma acusação não comprovada. PF e integrantes da PGR negam que documentos apresentados pela revista como parte da colaboração seriam falsos.
Defesa de Vorcaro não autentica áudio
A reação mais inesperada veio dos próprios advogados do ex-banqueiro. A atual defesa declarou que não confirma o conteúdo divulgado e não reconhece “origem, autenticidade e integridade” nem mesmo na gravação apresentada pela publicação. Também confirmou que Vorcaro jamais prestou depoimento à PF ou à PGR durante as negociações de colaboração, portanto sem produzir gravação no inquérito.
Daniel Bialski, que assumiu a defesa em agosto, afirmou ao UOL desconhecer o áudio, o suposto documento apresentado por Veja e até mesmo o tema de financiamento ao filme de Lula denunciado na reportagem. “Nunca soube dessa história”, disse.
Versões de Vorcaro não batem
Há ainda uma contradição entre a gravação da Veja e as propostas de colaboração às quais o UOL teve acesso. Num anexo efetivamente apresentado em junho, Vorcaro diz que já havia patrocinado filmes sobre Lula e Michel Temer “da mesma forma” que financiou “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
No novo áudio, a história muda. O dinheiro destinado ao documentário de Lula teria sido pago “por fora” e seria “errado”, enquanto os recursos de “Dark Horse” teriam constituído um “patrocínio normal”. Os valores também divergem: a voz da gravação diz ter colocado no filme de Lula até mais que na produção sobre Bolsonaro, enquanto o documento divulgado pela Veja fala em aproximadamente R$ 30 milhões, menos da metade dos R$ 65 milhões de aporte já apurado pela PF em “Dark Horse”.
O celular de Vorcaro, apreendido pela PF em novembro de 2025, tampouco ajuda a sustentar a nova narrativa. A extração cobre justamente o período de produção do documentário de Oliver Stone e contém conversas sobre investimentos em filmes de Jair Bolsonaro e Michel Temer, mas não registra nenhuma mensagem sobre pagamento ou patrocínio à produção dedicada a Lula. Os produtores do documentário também negam ter recebido recursos de Vorcaro, do Banco Master ou de empresas e fundos ligados a eles.
Frase vira munição eleitoral
Antes das negativas, a frase “O do Lula foi por fora” já havia se espalhado pelas redes bolsonaristas e começado a ser usada como munição no 2º turno. Flávio Bolsonaro aproveitou a gravação para afirmar que havia sido injustiçado pelas investigações sobre sua relação com Vorcaro e voltou a defender como regular o financiamento de “Dark Horse”.
O caso do filme sobre Jair Bolsonaro, porém, tem materialidade documental própria. Investigações registram Flávio como interlocutor direto de Vorcaro na negociação de recursos para a produção, e mensagens extraídas do celular do banqueiro tratam das remessas. A Polícia Federal mantém investigação sobre o financiamento e sobre recursos públicos que podem ter chegado à produtora por outros caminhos.
PGR suspeita de gravação feita na prisão
O caso ainda gerou uma segunda reviravolta. Procuradores familiarizados com a investigação disseram à coluna de Mônica Bergamo, da Folha, acreditar que o áudio divulgado pela Veja possa ter sido gravado enquanto Vorcaro estava preso para ser usado contra Lula durante a campanha eleitoral.
A suspeita ainda não é uma conclusão oficial da PGR. Segundo esses investigadores, uma gravação feita clandestinamente na unidade prisional seria irregular, já que visitantes não podem entrar com celulares ou gravadores. A origem do arquivo divulgado pela revista não foi esclarecida.
Alerta sobre possível armação veio antes da reportagem
A cronologia adiciona outro elemento incomum. Na noite de quinta-feira (8/10), horas antes de a Veja publicar sua reportagem, o grupo Prerrogativas informou à Folha que acionaria a Polícia Federal após receber relatos sobre uma suposta articulação para produzir acusações de Vorcaro contra Lula e integrantes de sua campanha.
Segundo Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo e aliado do governo, a informação recebida era de que o banqueiro teria sido estimulado a falar sobre um financiamento do documentário de Oliver Stone. Em troca, teria recebido a promessa de deixar a prisão com tornozeleira no início de 2027, caso Flávio Bolsonaro chegasse à Presidência, enquanto seu pai seria libertado antes. O Prerrogativas pediu investigação justamente para descobrir se a história era verdadeira.
Uma acusação envolvendo financiamento do filme de Lula apareceu 24 horas depois na capa da Veja.
Campanha de Lula reage na Justiça
A campanha de Lula classificou a publicação como uma “farsa” e anunciou cinco providências, entre elas pedido de direito de resposta, representação à PF, ação indenizatória contra a revista, queixa-crime contra Vorcaro e recurso à Justiça Eleitoral para impedir o uso das acusações na propaganda.
A campanha também acusou Flávio, Vorcaro e a Veja de agirem de forma coordenada para interferir na eleição.
O que está comprovado?
A Veja divulgou uma gravação cuja voz atribui a Vorcaro e sustenta que os detalhes da acusação integraram um anexo encaminhado à PGR. A PF nega ter recebido depoimento, documento ou informação com aquele conteúdo. A PGR confirma que Vorcaro nunca foi ouvido, muito menos gravado no processo, e integrantes do órgão negam a existência do anexo apresentado pela publicação. A defesa do banqueiro também não reconhece a autenticidade do áudio, e celular apreendido não apresenta registros dos pagamentos narrados na reportagem.
Também não está comprovado, até este momento, que a Veja soubesse que qualquer informação publicada fosse falsa, nem que tenha participado de uma conspiração com objetivos eleitorais.
A origem da gravação, as circunstâncias em que foi produzida, os documentos que os órgãos federais afirmam não terem integrado o procedimento oficial e a veracidade das acusações atribuídas a Vorcaro agora fazem parte de uma investigação formal da Polícia Federal.
Aberto para posicionamentos
Em suas redes sociais, a Veja segue promovendo a matéria com vários links sem se manifestar sobre as acusações. O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.