
Instagram/Susana Garcia
Susana Garcia revela desabafo de Paulo Gustavo na UTI: “Covid não é gripezinha”
Diretora reproduz conversa em que ator descreveu o sofrimento da doença, lamentou a falta de vacinas e planejou fazer um alerta aos brasileiros
O vídeo que Paulo Gustavo queria gravar
Susana Garcia revelou que Paulo Gustavo pretendia gravar um vídeo ao deixar a UTI para contar aos brasileiros que “Covid não é uma gripezinha”. Em um depoimento de apoio a Lula divulgado nas redes sociais, a diretora reproduziu a conversa que teve com o humorista antes de ele ser intubado, em março de 2021, e descreveu sua revolta com a falta de vacinas no Brasil. Médica de formação e amiga íntima do humorista, a cineasta acompanhou de perto sua internação e associa a lembrança à defesa da ciência e da vacinação, e contra o perigo da volta de um Bolsonaro ao poder.
O último encontro
Amiga íntima de Paulo Gustavo, Susana trabalhou com ele em “Minha Vida em Marte”, “Minha Mãe É uma Peça 3” e no especial de Natal de “220 Volts”, da Globo. Os dois também planejavam novos projetos, incluindo “Minha Mãe É uma Peça 4” e uma série derivada da franquia. Durante os primeiros oito dias de internação por Covid-19, quando o ator ainda estava consciente e conseguia se comunicar, eles conversavam constantemente por mensagens.
Até que Paulo Gustavo fez um pedido: “Susana, eu amaria que você estivesse aqui comigo”. Médica de formação, a diretora sabia dos riscos de contrair a doença e hesitou por ter três filhos, mas decidiu visitar o amigo. Protegida com equipamentos hospitalares, entrou na UTI e encontrou o humorista acompanhado pelo marido, Thales Bretas, também médico. Depois de algum tempo, Thales aproveitou sua presença para ir descansar, deixando os dois amigos conversando.
Como foi a última conversa antes da intubação?
Para animar Paulo Gustavo, Susana começou a falar sobre os projetos que fariam quando ele saísse do hospital. Os dois discutiram cenas de “Minha Mãe É uma Peça 4”, incluindo uma história em que Dona Hermínia levaria os netos para uma colônia de férias. Mesmo com muita dificuldade para respirar, o humorista ainda lembrava situações e criava novas cenas.
A diretora então passou a programar o que fariam depois da alta. Foi nesse momento que Paulo Gustavo revelou sua prioridade. “Susana, a primeira coisa que eu vou fazer quando sair daqui é um vídeo, que eu espero que esse vídeo chegue no Brasil inteiro, pra explicar pras pessoas que Covid não é uma gripezinha, que Covid é muito sofrimento”, afirmou, segundo o relato da amiga.
O ator também descreveu o desespero provocado pela falta de ar. “É um ar que eu tento fazer entrar e não entra. É uma sensação que você tá sufocando, é um medo, é uma sensação que você vai morrer a qualquer momento”, contou. Susana lembrou que Paulo Gustavo falava com enorme dificuldade e precisava controlar até as emoções, porque o esforço de chorar agravava a sensação de sufocamento.
Revolta com a falta de vacinas
O momento mais doloroso do depoimento veio quando Susana reproduziu a indignação do amigo com a vacinação no Brasil. “A coisa que mais me impressiona é que o mundo já tem vacina. Muitos países já estão vacinando as pessoas, milhares de pessoas já estão vacinadas e não vão passar por isso aqui que eu tô passando”, declarou Paulo Gustavo, conforme a diretora.
“É inacreditável o que tá acontecendo. Já existe a vacina”, completou o humorista. Susana contou que, enquanto ele falava, seus olhos ficaram cheios de lágrimas, mas o ator tentava conter o choro para não perder ainda mais o fôlego. “Eu nunca vou esquecer aquele rosto dele. Era um olhar de medo, era um olhar de revolta, de indignação e de impotência”, recordou.
No final do oitavo dia de internação, Paulo Gustavo precisou ser intubado e permaneceu nessa condição por aproximadamente 45 dias. Morreu em 4 de maio de 2021, aos 42 anos, sem conseguir realizar o vídeo que havia planejado para alertar a população sobre a gravidade da doença.
Susana responsabiliza governo Bolsonaro
A diretora afirmou que Paulo Gustavo se tornou um símbolo das mais de 700 mil pessoas que morreram de Covid-19 no Brasil. “Milhares dessas mortes poderiam ter sido evitadas”, declarou, responsabilizando a condução da pandemia pelo governo de Jair Bolsonaro.
Susana lembrou que o Brasil representava aproximadamente 3% da população mundial, mas concentrou uma parcela muito maior das mortes provocadas pelo coronavírus. Também criticou a resistência do governo federal à aquisição de vacinas e a disseminação de discursos contrários à ciência.
A demora na compra dos imunizantes foi documentada pela CPI da Pandemia. Em maio de 2021, o representante da Pfizer na América Latina confirmou ao Senado que a empresa havia oferecido ao governo brasileiro contratos de até 70 milhões de doses em agosto de 2020, com entregas previstas ainda para aquele ano, mas não recebeu resposta dentro dos prazos estabelecidos. O primeiro contrato com a farmacêutica só foi assinado em março de 2021.
“Esse desempenho desastroso foi por causa de um governo, na época, negacionista. Um governo que negava a ciência”, afirmou Susana.
Diretora declara voto em Lula
O depoimento termina com uma manifestação eleitoral direta. Susana relacionou a memória de Paulo Gustavo à sua decisão no segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro.
“Por isso, no dia 25 de outubro, eu voto a favor da ciência. Eu voto Lula”, declarou a cineasta.
A gravação circula no mesmo fim de semana em que Dona Déa, mãe do humorista, também divulgou um depoimento emocionado contra a candidatura de Flávio Bolsonaro. Nos dois vídeos, a lembrança de Paulo Gustavo é associada às consequências da pandemia e à responsabilidade do governo federal na condução da crise sanitária.