
Globoplay/Globo
Renata Lo Prete dá sermão em Flávio Bolsonaro por fake news na Globo
Jornalista interrompe candidato duas vezes ao contestar acusações falsas sobre Lula para evitar perguntas sobre Daniel Vorcaro
Renata Lo Prete repreende Flávio ao vivo
Renata Lo Prete deu um sermão em Flávio Bolsonaro (PL) durante a sabatina da Globo na noite de sexta-feira (16/10), ao interromper o candidato duas vezes para contestar acusações sem comprovação contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O confronto aconteceu quando o senador tentou desviar perguntas sobre o dinheiro de Daniel Vorcaro usado para financiar “Dark Horse”, filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro.
O que provocou a bronca?
Flávio foi questionado sobre sua participação na negociação de R$ 134 milhões com Vorcaro para a produção da cinebiografia. Em vez de esclarecer a origem e o destino dos recursos, o candidato recuperou uma denúncia contestada da revista Veja, que nenhum outro veículo aderiu, sobre um suposto repasse de R$ 30 milhões do banqueiro para o documentário “Lula”, dirigido por Oliver Stone.
Renata interrompeu a resposta. “Candidato, já que o senhor mencionou esse áudio, preciso fazer uma coisa importante aqui”, advertiu. A jornalista explicou que suas perguntas se baseavam em investigações oficiais e apurações da própria Globo, não em alegações sem sustentação documental. “Então eu sugiro que a gente não traga essa história aqui”, recomendou, antes de lembrar que tanto Jair quanto Flávio ocupam posições políticas que justificam o escrutínio sobre o financiamento do filme.
Por que a acusação sobre Lula não se sustenta?
O áudio divulgado pela Veja em 9 de outubro atribuía a Vorcaro uma confissão sobre pagamentos clandestinos ao documentário de Oliver Stone. A revista apresentou a gravação como parte de revelações feitas pelo banqueiro durante negociações de delação premiada. O senador chegou a afirmar que a acusação estava confirmada pela Polícia Federal e foi repreendido novamente por Lo Prete, pois se trata de flagrante fake news. A Polícia Federal divulgou uma nota oficial no mesmo dia negando que Vorcaro tivesse prestado depoimento com aquele conteúdo ou entregue documentos e anexos correspondentes à denúncia.
A Procuradoria-Geral da República também contestou a narrativa da publicação e a própria defesa do banqueiro declarou desconhecer a origem, a autenticidade e a integridade do material divulgado pela revista. Oliver Stone e os responsáveis pelo documentário também negaram ter recebido qualquer financiamento de Vorcaro. Mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro, examinadas pelo UOL, tampouco registram os supostos pagamentos à produção sobre Lula.
As contradições foram objeto de reportagens anteriores da Pipoca Moderna, que documentou inclusive as mudanças na versão da acusação da Veja e as divergências entre o que revista apresentou e os documentos efetivamente entregues às autoridades. A PF abriu uma apuração sobre a origem do material clandestino, inclusive do áudio supostamente gravado por Vorcaro na prisão, o que seria crime.
Flávio insiste nas acusações contra o PT
O candidato voltou a desviar de assunto quando Renata insistiu na explicação sobre os valores recebidos por “Dark Horse”. Flávio comparou o financiamento do filme com os contratos publicitários da Globo e mencionou o patrocínio de Vorcaro a programas de Luciano Huck. Também citou a demissão de Frederic Kachar, ex-diretor do grupo afastado após a revelação de conversas com o banqueiro. A jornalista contestou a comparação, distinguindo a compra de espaço publicitário do financiamento de uma produção cinematográfica.
Ao ser novamente questionado sobre os repasses, Flávio recuperou acusações contra João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, e supostos esquemas envolvendo fundos de pensão. Renata precisou interrompê-lo outra vez. “Eu vou insistir com o senhor em dois pontos”, afirmou, antes de reiterar que não permitira informações sem confirmação como fatos. A jornalista ressaltou que as alegações mencionadas pelo senador não estavam confirmadas pela Polícia Federal.
Financiamento de Dark Horse continua sob investigação
Renata também chamou atenção para uma discrepância concreta. Flávio negociou com Vorcaro um aporte de aproximadamente R$ 134 milhões, enquanto uma perícia contratada pela produtora estimou o custo de “Dark Horse” em cerca de R$ 75 milhões. A jornalista questionou a diferença e cobrou transparência sobre os recursos transferidos ao exterior.
Flávio sustentou que a negociação era privada, que o banqueiro não recebeu contrapartidas políticas e que a produtora já havia prestado contas. A última afirmação também foi classificada como falsa pelo UOL Confere e pela agência Aos Fatos. Nenhuma prestação de contas completa foi tornada pública, e as investigações ainda procuram esclarecer a origem e o destino dos aproximadamente R$ 62 milhões efetivamente transferidos.
Diferença de patrocínio e o dinheiro de Dark Horse
A comparação sustentada pelo candidato entre o dinheiro de Vorcaro em Dark Horse com patrocínios para a Globo tampouco se sustenta. Patrocínios incluem contratos e obrigações de divulgação. O patrocinador paga para o nome de sua empresa aparecer no produtor. O negócio de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro foi por baixo dos panos.
Primeiro, o senador negou que o ex-banqueiro tivesse colocado dinheiro no filme. Confrontado com gravações em que cobrava o dinheiro modulou o discurso para chamar de patrocínio privado. A produtora Go Up! negou que houvesse dinheiro de Vorcaro no negócio, mas a aparente contradição acabou explicada pelas investigações. O dinheiro foi depositado pela Entre Investimentos, atendendo pedido de Vorcaro, que não queria que seu nome ou de suas empresas aparecesse no negócio. O oposto de um patrocínio.
Uma nova reportagem da Folha de S. Paulo, publicada na mesma sexta-feira, acrescentou informações sobre a operação financeira. O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, declarou à Polícia Federal que acreditava estar transferindo dinheiro para investimentos imobiliários nos Estados Unidos, sem saber que os recursos seriam destinados ao filme. Os investigadores encontraram divergências entre seu depoimento e documentos apreendidos, e a PF pediu mais 90 dias para aprofundar o inquérito.
Dinheiro do petróleo que só chegará em 2033
Renata também precisou corrigir uma promessa de Flávio para equilibrar as contas públicas. Ao explicar como conseguiria um ajuste fiscal superior a R$ 200 bilhões sem mexer nas aposentadorias nem nos investimentos mínimos em saúde e educação, o candidato apresentou a exploração de petróleo na Margem Equatorial como uma fonte imediata de recursos. Afirmou que poderia arrecadar R$ 100 bilhões “de largada”.
A jornalista lembrou que, segundo a própria Petrobras, a produção de petróleo naquela região não deverá começar antes de 2033. Portanto, os recursos apresentados pelo senador como solução para o início de seu eventual governo só estariam disponíveis para o próximo presidente eleito, caso a exploração se concretize.
Negativa sobre Petrobras contradiz declarações anteriores
Outra contradição da sabatina ganhou repercussão nas redes sociais. Flávio Bolsonaro negou que pretendesse privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, classificando as acusações como parte de uma campanha de desinformação. Entretanto, declarações anteriores do próprio candidato mostram que ele já defendeu a privatização da petrolífera.
Em abril de 2022, Flávio afirmou ao UOL que Jair Bolsonaro havia autorizado estudos para privatizar a Petrobras. “O presidente já deu OK para que isso acontecesse”, declarou. Na ocasião, o senador defendeu a venda da empresa como solução definitiva para a administração dos preços dos combustíveis.
A posição voltou a aparecer em junho de 2026, quando Flávio defendeu a privatização de empresas ligadas à Petrobras ainda no primeiro ano de um eventual governo. Na sabatina da Globo, entretanto, apresentou a possibilidade de privatização como uma mentira atribuída a seus adversários.
Sem explicações sobre munições sem identificação
Um dos momentos de maior constrangimento ocorreu quando Renata questionou Flávio sobre seu apoio a uma proposta do governo Jair Bolsonaro para retirar a exigência de identificação de munições utilizadas pelas forças de segurança. A jornalista quis saber como a medida ajudaria a combater o crime organizado, uma vez que a marcação permite rastrear cartuchos e investigar possíveis desvios para criminosos.
Flávio não explicou o benefício da mudança. Primeiro, atacou a política de segurança de Lula e passou a defender o endurecimento das penas, a fiscalização das fronteiras e investimentos em tecnologia. Diante da insistência da entrevistadora, minimizou a identificação das munições como um “detalhezinho” e voltou a falar de outras propostas, incluindo a instalação de câmeras com inteligência artificial. Renata encerrou a cobrança com uma constatação: “Candidato, eu entendi que fiquei sem resposta sobre a questão de retirar a marcação das munições”.
O senador não tentou esclarecer a dúvida. “Acho que isso é uma coisa muito menor diante do problema que o Brasil tem. Eu tô falando do problema que interessa de verdade”, respondeu. A proposta discutida integra o projeto de lei 3.723/2019, apresentado pelo governo de seu pai, que previa eliminar exigências de marcação de cartuchos, inclusive os destinados às forças de segurança.
Ironia após confissão de que desviou do assunto
O confronto também teve um momento de humor involuntário. Ao final do primeiro bloco, Renata perguntou se Flávio respeitaria o resultado das urnas caso fosse derrotado. O senador respondeu que sim, mas aproveitou para fazer uma longa sequência de ataques ao governo Lula, atribuindo ao adversário recordes negativos em diferentes áreas.
Quando conseguiu retomar a palavra, a jornalista procurou confirmar a resposta à pergunta original. Flávio ensaiou uma brincadeira: “Respondi, aproveitei pra falar mais umas coisinhas”. Renata devolveu com uma ironia seca: “É, eu percebi”, encerrando o bloco.
Pergunta sobre golpe vira discurso sobre motoboys
Outra intervenção aconteceu quando Renata perguntou como deveriam ser punidos os participantes dos ataques de 8 de janeiro de 2023. Flávio respondeu inicialmente que as punições deveriam ocorrer dentro da lei, conforme a gravidade dos crimes, mas passou a questionar a responsabilização de pessoas que, segundo ele, não teriam participado da tentativa de golpe. Em seguida, mudou completamente de assunto para acusar Lula de prejudicar motoboys de São Paulo por divergências políticas com o prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Renata precisou esclarecer que a pergunta tratava especificamente dos responsáveis pela invasão e depredação dos prédios dos Três Poderes e pelas agressões contra policiais. A mudança de assunto chamou atenção também por um detalhe: Flávio tinha a palavra “motoboy” escrita na palma da mão, como lembrete para a entrevista.
Insistência sobre possível cargo para Jair Bolsonaro
A jornalista também precisou reformular uma pergunta sobre a eventual participação de Jair Bolsonaro no governo do filho. Flávio respondeu inicialmente que seu pai nunca havia manifestado interesse em ocupar um cargo e afirmou que poderia consultá-lo informalmente. Renata insistiu: “Mas o senhor cogita nomeá-lo?”. O candidato voltou a mencionar a ausência de conversas sobre o assunto, acrescentando que uma nomeação “não está no radar”, sem descartar expressamente a possibilidade.
A repetição das perguntas marcou a condução da entrevista. Ao longo da sabatina, Renata Lo Prete insistiu em questões que Flávio Bolsonaro evitava responder, enquanto o candidato procurava introduzir assuntos de seu discurso de campanha, mesmo quando não tinham relação com o tema discutido. A jornalista frequentemente precisava retomar a pergunta original e apontar que ela continuava sem resposta, quando não alertou o candidato sobre o uso de fake news em suas respostas.
Aberto para posicionamentos
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.
Flávio Bolsonaro mente tanto que a Renata precisou intervir avisando que não poderia aceitar Fake News na entrevista. https://t.co/jnTZ1wlRgO
— Guilherme Boulos (@GuilhermeBoulos) October 17, 2026
RENATA LO PRETE CHAMANDO FLÁVIO BOLSONARO DE MENTIROSO AO VIVO:
“Não tá confirmado pela Polícia Federal!” https://t.co/PofhTtNzQW
— Bora Conversar Política (@bcppolitica) October 17, 2026
Renata Lo Prete pergunta duas vezes a Flávio Bolsonaro sobre apoio a projeto para retirar identificação de munições das forças de segurança: “Já entendi que fiquei sem resposta”.
🎥: @tvglobo https://t.co/99oWOODE6U
— Hugo Gloss (@HugoGloss) October 17, 2026
FOQUEM na cara da renata lo prete completamente gag com os absurdos que o flavio bolsonaro está falando KKK https://t.co/6otomPZ58M
— jota pink clouding (@jeyvred) October 17, 2026