
Divulgação/GoUp
Dinheiro de “Dark Horse” é buraco negro na contabilidade de Vorcaro
Banco Master não encontra contrato ou registros dos R$ 62 milhões transferidos para financiar cinebiografia de Jair Bolsonaro
Milhões sem origem financeira esclarecida
Os R$ 62 milhões enviados ao exterior para financiar “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, não têm origem financeira conhecida. Embora as transferências tenham sido realizadas pela Entre Investimentos a pedido de Daniel Vorcaro, o Banco Master não possui registros de transferências de qualquer valor relacionados ao filme. A informação foi revelada na sexta-feira (16/10) por Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, com base em documento do liquidante da instituição encaminhado à Câmara dos Deputados.
O que diz o documento oficial?
O liquidante do Banco Master, Eduardo Bianchini, informou que uma consulta aos arquivos da instituição não encontrou documentos, registros contábeis ou contratos que comprovassem qualquer operação de financiamento, patrocínio ou aporte para a produção cinematográfica, diretamente ou por intermédio de terceiros. O negócio com Flávio Bolsonaro, que cobrou pessoalmente o dinheiro de Vorcaro para Dark Horse, foi totalmente por debaixo dos panos. A confirmação foi encaminhada ao deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), que havia solicitado informações sobre a operação.
Bianchini também declarou que não foram identificadas operações do banco com o Havengate Development Fund, fundo de investimentos americano utilizado para receber os valores destinados à cinebiografia. A constatação contrasta com as explicações públicas de Flávio Bolsonaro, que insiste em classificar a negociação com Vorcaro como um patrocínio privado, embora não tenha apresentado um contrato que comprove essa modalidade de financiamento, nem justificativa para o “patrocinador” não querer aparecer como patrocinador.
De onde saíram os R$ 62 milhões?
O caminho percorrido pelo dinheiro foi inicialmente revelado pelo Intercept Brasil, que publicou mensagens, planilhas e comprovantes bancários da operação. Flávio negociou com Vorcaro um financiamento previsto de aproximadamente R$ 134 milhões. Desse total, a Polícia Federal identificou cerca de R$ 62 milhões efetivamente enviados ao fundo Havengate, administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. As transferências foram realizadas pela Entre Investimentos, empresa de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, operador financeiro de Vorcaro.
Em delação premiada, Mineiro afirmou que recebeu de Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, a orientação para movimentar os valores. Segundo ele, a operação foi apresentada como investimento imobiliário nos Estados Unidos. O empresário declarou que desconhecia a destinação do dinheiro ao filme e que tentou recuperá-lo quando soube da ligação com a cinebiografia. A Polícia Federal, entretanto, encontrou uma carta-acordo que mencionava expressamente a produção cinematográfica, contradizendo sua alegação de desconhecimento.
Os investigadores também identificaram divergências na explicação sobre a origem dos recursos. Mineiro afirmou que utilizou dinheiro de uma conta mantida no Banco Master, da venda de ativos e do caixa de sua empresa. Entretanto, o liquidante não encontrou essa operação, enquanto a PF descobriu um depósito de R$ 12 milhões da Super Empreendimentos na conta da Entre Investimentos na véspera de uma das remessas. A corporação solicitou ao Supremo Tribunal Federal mais 90 dias para aprofundar a investigação, incluindo a análise contábil e financeira dos envolvidos e o rastreamento das movimentações internacionais.
Flávio diz que não acompanhou os pagamentos
Procurada por Mônica Bergamo, a assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou que o senador apenas solicitou o patrocínio a Daniel Vorcaro, sem participar da execução dos pagamentos ou receber informações sobre como foram realizados. A explicação foi a mesma apresentada pelo candidato na sabatina da Globo, quando Renata Lo Prete cobrou esclarecimentos sobre a diferença entre o valor negociado e os recursos efetivamente transferidos.
O documento do liquidante elimina a hipótese de um patrocínio formalmente registrado nas instituições examinadas e traz mais dúvidas sobre a origem dos recursos, especialmente a participação de Vorcaro em operações de terceiros e outras fontes financeiras que ele pudesse manter paralelamente. A Polícia Federal ainda investiga o percurso dos valores e a participação de cada envolvido no financiamento de “Dark Horse”.
Aberto para posicionamentos
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.