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Folha e Metrópoles trocam acusações sobre dinheiro de Vorcaro em notícias
Portal acusado de ter pautas editadas pelo banqueiro acusa o jornal de fazer a mesmo em negócio de R$ 1 milhão
Escândalo provoca guerra entre veículos
A revelação de que Daniel Vorcaro pagou milhões para interferir na cobertura de diversos veículos jornalísticos no Brasil provocou uma guerra na imprensa. Acusado de permitir que o banqueiro editasse suas reportagens, o portal Metrópoles respondeu com uma investigação sobre o pagamento de R$ 1 milhão para amenizar uma matéria da Folha de S.Paulo, que classificou a denúncia como uma retaliação mentirosa.
O que o Metrópoles descobriu sobre a Folha?
Em reportagem publicada na sexta-feira (16/10), as jornalistas Isadora Teixeira e Gabriella Furquim revelaram mensagens em que Vorcaro oferece R$ 1 milhão ao consultor de comunicação Guilherme Barros para impedir ou adiar uma reportagem da Folha sobre seus negócios. O banqueiro temia que a publicação prejudicasse o Banco Master num momento decisivo para suas operações financeiras. “Se eles soltam isso agora eles vão quebrar o banco”, escreveu em agosto de 2024.
No dia seguinte à oferta, Barros comunicou ao banqueiro que havia conseguido interferir no calendário da publicação. “A Folha vai segurar a matéria. O Sérgio me respondeu agora”, afirmou, referindo-se a Sérgio Dávila, diretor de Redação do jornal. A reportagem acabou publicada em 30 de agosto, 22 dias depois da mensagem.
Consultor recebeu R$ 1 milhão após publicação
Segundo o Metrópoles, Vorcaro também se reuniu com Dávila e dois editores na sede da Folha em 12 de agosto. O encontro não foi divulgado na coluna Painel, que costuma registrar visitas de personalidades à direção do jornal. A reportagem afirma que a versão publicada incorporou informações favoráveis ao banqueiro, incluindo dados positivos sobre o crescimento do Master e a rentabilidade de seus investimentos.
Depois da publicação, Barros procurou Vorcaro para cobrar a recompensa. Reconheceu que não havia conseguido impedir a reportagem, mas sustentou que ela havia saído mais branda. O banqueiro concordou com a avaliação e realizou o pagamento de R$ 1 milhão ao consultor, conforme comprovante reproduzido pelo portal.
O Metrópoles também comparou versões da reportagem e apontou a retirada posterior de trechos favoráveis ao Master, após a prisão de Vorcaro e a liquidação do banco em novembro de 2025. Para o portal, as modificações reforçam a suspeita de que o texto original havia sido influenciado pelos interesses do banqueiro.
Folha reage e acusa concorrente de retaliação
A reação da Folha foi imediata. Antes mesmo da publicação da denúncia, o jornal divulgou uma reportagem classificando a iniciativa do Metrópoles como uma retaliação à investigação que havia exposto a influência de Vorcaro sobre o portal. A Folha negou ter adiado ou amenizado a matéria para atender ao banqueiro.
O jornal reconheceu a reunião com Vorcaro, mas afirmou que o encontro foi solicitado por Guilherme Barros para apresentar a versão do empresário às repórteres. Segundo a Folha, a reportagem ainda estava em apuração e foi publicada assim que ficou pronta. O pedido para não registrar a visita na coluna Painel também teria partido do consultor. Dávila declarou que desconhecia o pagamento de R$ 1 milhão a Barros até a divulgação das mensagens.
A Folha confirmou ainda ter recebido R$ 516.441,60 em publicidade de empresas ligadas a Vorcaro entre 2021 e 2025. Aproveitou para comparar a quantia com os R$ 20 milhões de um contrato publicitário firmado pelo Banco Master com o Metrópoles, destacando que sua receita correspondia a apenas 2,58% desse valor.
A disputa envolve, portanto, dois episódios distintos. O pagamento de R$ 1 milhão foi feito ao consultor de Vorcaro, não à Folha. A acusação contra o jornal é de que sua direção teria atendido aos pedidos transmitidos pelo intermediário, algo que a empresa nega.
Vorcaro editava notícias do Metrópoles
A ofensiva do Metrópoles aconteceu um dia depois de uma investigação de Renata Agostini e Tiago Dantas, do UOL, empresa do mesmo grupo da Folha, revelar a influência direta de Vorcaro na produção jornalística do portal. Mensagens extraídas pela Polícia Federal mostram que a CEO do grupo, Lilian Tahan, submetia reportagens ao banqueiro antes da publicação e atendia a pedidos de alterações.
O levantamento identificou pelo menos 14 textos enviados previamente a Vorcaro, dos quais 11 foram modificados após suas intervenções. Também encontrou duas reportagens produzidas a pedido do empresário. Em uma das conversas, Lilian prometeu que não publicaria um perfil do banqueiro antes de falar novamente com ele. Em outra, aceitou retirar do noticiário uma reportagem sobre a relação entre o Master e a Oncoclínicas.
A proximidade se desenvolveu enquanto o Master destinava quantias milionárias ao portal. Além do contrato de R$ 20 milhões fechado em 2024, uma apuração do Estadão baseada em dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou repasses de R$ 27,28 milhões ao Metrópoles entre 2024 e 2025. Parte desses recursos foi posteriormente transferida para empresas da família do proprietário do site, o ex-senador Luiz Estevão.
Lilian Tahan sustentou que consultar fontes antes da publicação é uma prática jornalística habitual e negou qualquer relação entre os contratos comerciais e a cobertura editorial. A dirigente afirmou que o Metrópoles também publicou reportagens críticas ao Banco Master e a outras empresas ligadas ao banqueiro.
Rede de influência alcançou outros veículos
A investigação do UOL mostrou que o caso do Metrópoles não foi isolado. Vorcaro também interferia no conteúdo publicado por veículos como Brazil Journal, IstoÉ e PlatôBR, por meio de investimentos, patrocínios e relações pessoais com executivos e jornalistas.
No Brazil Journal, o fundador Geraldo Samor submetia textos sobre o Master ao banqueiro, que solicitava mudanças atendidas antes da publicação. A relação financeira envolvia a BJ Conteúdo, empresa de eventos e vídeos do site, da qual a Foone, ligada ao assessor de Vorcaro Flávio Carneiro, adquiriu 49,86%.
A atuação de Carneiro também alcançava a IstoÉ e a IstoÉ Dinheiro, controladas pelo empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, dono também da Entre Investimentos, que financiou o filme Dark Horse a pedido do banqueiro. Na IstoÉ, Vorcaro encomendou uma capa sobre a farmacêutica Biomm, na qual havia investido, e afirmou ao assessor que tinha ainda mais controle sobre essas publicações. No PlatôBR, o banqueiro recebia textos antecipadamente, determinava mudanças e chegou a ordenar ataques a adversários políticos.
Mesada para silêncio e interferência na CartaCapital
O Diário do Centro do Mundo (DCM) também aparece nas mensagens. Segundo a apuração do UOL, Vorcaro estabeleceu um pagamento mensal para impedir notícias negativas sobre ele e o Banco Master. A negociação incluía ainda a possibilidade de encomendar publicações contra adversários. Em uma conversa de outubro de 2024, seu assessor confirmou que o acordo estava fechado e o site havia recebido o pagamento.
Na CartaCapital, a relação envolvia contratos publicitários e dificuldades financeiras. Mensagens mostram adiantamentos feitos pelo banco para ajudar a pagar salários e discussões sobre a possibilidade de Vorcaro se tornar sócio da revista. Em 2023, a direção chegou a submeter ao banqueiro uma decisão sobre a publicação de reportagem.
Manuela Carta, responsável pela publicação, afirmou que os contratos com o Master eram operações comerciais regulares e negou qualquer interferência de Vorcaro nas decisões jornalísticas. A negociação para a entrada do banqueiro na sociedade não foi concretizada.
Escândalo derruba diretor da Globo
A revelação das relações de Vorcaro com a imprensa também provocou a queda de um dos principais executivos do Grupo Globo. Frederic Kachar, diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, foi demitido na quinta-feira (15/10), após a exposição de mensagens comprometedoras com o banqueiro, inicialmente divulgadas pelo TV Pop em parceria com O Antagonista.
Kachar comandava negócios que incluíam O Globo, Extra, Valor Econômico, revistas como Vogue e Marie Claire e a rádio CBN. As conversas revelaram negociações de patrocínios milionários e pedidos para promover a então namorada de Vorcaro, Martha Graeff, em publicações do grupo. Também mostraram reclamações do banqueiro sobre reportagens críticas e respostas de que o diretor iria “falar” com os jornalistas.
Em comunicado assinado por João Roberto Marinho, a Globo classificou a relação de Kachar com o anunciante como inadequada e anunciou seu desligamento após 29 anos de trabalho. A empresa reafirmou a independência editorial de seus veículos e destacou as reportagens críticas que publicou sobre o Banco Master.
Disputa expõe dimensão do controle editorial
A guerra entre Folha e Metrópoles acrescenta um novo capítulo ao escândalo. De um lado, há mensagens que mostram a direção de um portal submetendo textos a um anunciante milionário. De outro, um consultor recebeu R$ 1 milhão depois de afirmar que conseguira modificar o tratamento dado por um jornal a uma reportagem sobre o mesmo empresário.
A extensão da rede identificada nas investigações mostra que Vorcaro conseguiu influenciar a cobertura de sua atuação financeira em jornais, revistas e sites de diferentes perfis políticos, usando dinheiro, acesso privilegiado às direções e a possibilidade de interferir no que seria publicado.
Aberto para posicionamentos
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