
Divulgação/Warner Bros.
Guia da Pipoca: Supergirl e as estreias da semana em streaming
Destaques também incluem o anime "Scarlet" e o longa derivado da série-fenômeno "Dix Pour Cent".
O Guia da Pipoca apresenta os 10 principais títulos que chegam ao streaming nos próximos dias. Os destaques do começo de setembro incluem lançamentos da Netflix, Prime Video, Disney+, HBO Max, MGM+ e Globoplay, incluindo o filme “Supergirl”, o belíssimo anime “Scarlet” e o longa derivado da série-fenômeno “Dix Pour Cent”.
HOJE
🎞️ SCARLET | HBO Max
O cineasta Mamoru Hosoda (“Mirai”, “Belle”) volta à animação com uma fantasia de ação inspirada em “Hamlet”. A trama acompanha uma princesa medieval consumida pela vingança após a morte do pai. Derrotada em sua tentativa de acertar contas com o responsável pelo crime, ela desperta gravemente ferida em um mundo intermediário entre a vida e a morte.
Nesse espaço, a guerreira encontra um jovem idealista do presente, cuja intervenção altera sua relação com a violência e com o desejo de revanche. O conflito ganha dimensão maior quando o assassino de seu pai reaparece e a coloca diante da possibilidade de perpetuar o mesmo ciclo de ódio que orientou sua jornada.
Produzido pelo Studio Chizu, o longa combina aventura fantástica, ficção científica e referências shakespearianas dentro da estrutura de uma história sobre luto e vingança. O elenco de vozes originais chama atenção por incluir astros do cinema japonês. Mana Ashida (“Círculo de Fogo”) dubla a protagonista na versão original, ao lado de Masaki Okada (“Drive My Car”) e Kōji Yakusho (“Dias Perfeitos”).
🎞️ NO CAMINHO | HBO Max
O mexicano David Pablos (“O Baile dos 41”) ambienta seu drama nas estradas e paradas de caminhoneiros do norte do México. Veneno, um jovem sem destino fixo que sobrevive entre restaurantes de beira de estrada e encontros com caminhoneiros, consegue uma carona com Muñeco, motorista de comportamento rígido que atravessa uma região marcada por códigos de masculinidade e violência.
A viagem aproxima os dois homens à medida que Veneno passa a dividir a rotina da cabine e os riscos da estrada. A intimidade crescente confronta o ambiente homofóbico ao redor dos personagens, até que acontecimentos ligados ao passado de Veneno colocam a relação e a própria viagem sob ameaça. O estreante Victor Prieto Simental assume o papel do rapaz, enquanto Osvaldo Sánchez (“Pedro Páramo”) interpreta Muñeco.
A fotografia de Ximena Amann (“Como Água Para Chocolate”) transforma rodovias, postos e paisagens áridas em parte central da narrativa, que combina road movie, romance e tensão criminal. O longa venceu o prêmio de Melhor Filme da mostra Horizontes de Veneza e também recebeu o Queer Lion, dedicado a obras de temática LGBTQIA+ apresentadas no festival. Para completar, foi indicado a 13 prêmios Ariel (o Oscar mexicano), incluindo Melhor Filme.
📺 UM CONTO DE DUAS CIDADES | MGM+
A obra de Charles Dickens ganha uma nova adaptação em formato de minissérie de quatro episódios, escrita por Daniel West (“Top Boy”) e dirigida por Richard Clark (“Outlander”). A história começa em Londres, em 1782, num período de tensão entre França e Grã-Bretanha, quando Lucie Manette recebe a notícia de que seu pai, dado como morto há anos, pode estar vivo em Paris.
A viagem coloca Lucie no caminho do francês Charles Darnay, detido sob acusação de traição ao chegar à Inglaterra. A defesa fica nas mãos de Sydney Carton, advogado de comportamento autodestrutivo cuja aproximação com Lucie forma o eixo romântico da narrativa. François Civil (“Os Três Mosqueteiros”) interpreta Darnay, enquanto Kit Harington (“Game of Thrones”) vive Carton e Mirren Mack (“Sex Education”) assume o papel de Lucie.
A produção concentra o romance e o conflito político do livro na escalada que antecede a Revolução Francesa. Em vez de tratar Londres e Paris apenas como cenários paralelos, a adaptação articula as trajetórias dos personagens ao ambiente de repressão, espionagem e desigualdade que aproxima os dois países da ruptura histórica.
TERÇA
📺 DANG! | Netflix
O roteirista Andrew Law (“The Good Place”, “Hacks”) transforma relações familiares disfuncionais em sua estreia na animação. A produção acompanha os irmãos Andrew (inspirado e dublado pelo criador) e Eunice, acostumados a uma rotina caótica, até a chegada de Ruthie, a irmã mais velha que sempre representou o modelo de sucesso da família e agora aparece com a própria vida em crise.
Stephanie Hsu (“Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”) dubla Ruthie, enquanto Poppy Liu (“Hacks”) interpreta Eunice. A convivência obriga os três a reconsiderar papéis estabelecidos desde a infância: Ruthie tenta se adaptar ao fracasso de seu casamento e à perda de controle sobre a carreira, enquanto os irmãos mostram que a desordem que ela sempre desprezou também funciona como mecanismo de sobrevivência.
Produzida pela Universal Television e animada pelo estúdio Titmouse, a comédia usa o formato de sitcom familiar dentro da linguagem gráfica da animação adulta. Mike Schur (“The Good Place”) e Alan Yang (“Master of None”) integram a produção executiva, ao lado dos criadores Andrew Law e Matt Murray (também de “The Good Place”).
QUARTA
🎞️ CUCKOO | Netflix
O alemão Tilman Singer (“Luz”) constrói um terror ambientado em um resort isolado nos Alpes alemães. Hunter Schafer (“Euphoria”) vive Gretchen, adolescente de 17 anos que deixa os Estados Unidos para morar com o pai, a madrasta e a meia-irmã Alma. O proprietário do local, Herr König, interpretado por Dan Stevens (“Godzilla e Kong: O Novo Império”), demonstra um interesse incomum pela menina mais nova e tenta integrar Gretchen à rotina do empreendimento.
A aparente tranquilidade desaparece com ruídos inexplicáveis, ataques e visões que começam a perseguir a adolescente, enquanto a investigação conduz Gretchen a experiências realizadas na região e a um segredo diretamente ligado à nova família de seu pai. O desenho de som ocupa função narrativa central, com repetições e distorções que antecipam a presença da ameaça antes de sua manifestação visual.
Exibido inicialmente no Festival de Berlim, o longa trabalha horror corporal e paranoia sem abandonar a estrutura de um mistério familiar. O Rotten Tomatoes registra 79% de aprovação entre os críticos, com destaque recorrente para a direção de Singer e para as atuações de Schafer e Stevens. O elenco também destaca participação de Jessica Henwick (“Silo”).
📺 MADE IN KOREA 2 | Disney+
O thriller criminal sul-coreano avança nove anos em relação aos acontecimentos da temporada inaugural e retoma a disputa entre Baek Ki-tae e Jang Geon-young. Ki-tae, interpretado por Hyun Bin (“Pousando no Amor”), alcançou o posto de vice-diretor da Agência Central de Inteligência da Coreia e ampliou sua rede de poder e tráfico de drogas. Geon-young, vivido por Jung Woo-sung (“12.12: O Dia”), retorna depois de quase uma década disposto a acertar contas com o antigo adversário.
A nova fase também incorpora Woo Do-hwan (“Cães de Caça”) como Baek Ki-hyeon, personagem que amplia os conflitos internos em torno da família e da estrutura de poder construída por Ki-tae. O embate mantém a combinação de crime organizado, política e instituições do Estado que definiu a narrativa anterior, agora em outro momento da história recente da Coreia do Sul.
Woo Min-ho (“Infiltrados”) dirige novamente a produção, escrita por Park Eun-kyo (“Mother – A Busca Pela Verdade”). A temporada final tem seis episódios e preserva a abordagem noir aplicada à trama sobre corrupção, ambição política e vingança.
QUINTA
🎞️ DIX POUR CENT – O FILME | Netflix
A produção francesa retoma os personagens da série sobre agentes artísticos cinco anos depois do fim da agência ASK. Andréa Martel, novamente interpretada por Camille Cottin (“Killing Eve”), deixou a representação de talentos e tenta iniciar uma nova carreira como diretora de cinema. O projeto entra em crise poucos dias antes das filmagens, quando seu protagonista abandona o papel e obriga Andréa a recorrer aos antigos colegas.
O reencontro traz de volta Mathias, Gabriel, Arlette, Noémie e outros integrantes da antiga equipe, transportando a dinâmica da série do escritório de talentos para os bastidores de um set. Laure Calamy, Thibault de Montalembert, Grégory Montel, Nicolas Maury, Fanny Sidney e Liliane Rovère retornam aos respectivos personagens, com Laetitia Casta, Vincent Macaigne e Laurent Lafitte entre os nomes ligados ao filme que Andréa tenta realizar.
Émilie Noblet (“Parlement”) dirige o longa a partir de roteiro de Fanny Herrero, criadora da série, e Lison Daniel. A mudança de ambiente mantém a sátira da indústria audiovisual de “Dix Pour Cent”, que rendeu nada menos que 10 remakes em todo o mundo, mas desloca o foco das negociações entre agentes e estrelas para os conflitos de produção, financiamento, elenco e autoridade dentro de uma filmagem.
🎞️ O ANIVERSÁRIO | Prime Video
Jan Komasa (“Corpus Christi”) dirige um thriller político que acompanha a desintegração de uma família diante do crescimento de um movimento autoritário chamado The Change. Diane Lane (“Liga da Justiça”) e Kyle Chandler (“Lanternas”) interpretam Ellen e Paul Taylor, casal cuja rotina é alterada quando o filho Josh apresenta a nova namorada, Liz, uma antiga aluna de Ellen.
Vivida por Phoebe Dynevor (“Bridgerton”), Liz mantém ligação direta com o movimento, que começa a ganhar influência política e social no país. Dylan O’Brien (“Amor e Monstros”) interpreta Josh, enquanto Zoey Deutch (“Nouvelle Vague”), Madeline Brewer (“The Handmaid’s Tale”) e Mckenna Grace (“Ghostbusters: Apocalipse de Gelo”) completam a família. O conflito doméstico passa a reproduzir a polarização externa conforme alianças, convicções e relações pessoais se tornam inseparáveis da expansão do novo regime.
O roteiro de Lori Rosene-Gambino concentra a transformação política na experiência cotidiana dos Taylor, acompanhando as consequências do extremismo sobre parentes que deixam de compartilhar uma mesma leitura da realidade.
🎞️ SUPERGIRL | HBO Max
A chegada ao streaming é uma chance de redenção para a superprima. O fracasso do filme, que ganhou haters antes mesmo da estreia no cinema, diz mais sobre um fandom dominado por incels e redpills que sobre a qualidade da produção. Divertido e cheio de ação, destaca o talento da jovem Milly Alcock (“A Casa do Dragão”), que alguns gostariam de ver substituída por uma top model de saia no papel.
O segundo filme da nova fase da DC apresenta Kara Zor-El como uma heroína criada entre os destroços de Krypton e marcada por perdas que a tornaram mais cínica e amarga que Superman. A trama adapta a base de “Supergirl: Mulher do Amanhã”, quadrinhos premiados de Tom King e Bilquis Evely, onde a busca de diversão espacial de Kara é interrompida por Ruthye Marye Knoll, vivida por Eve Ridley (“The Witcher”), com um apelo por justiça pelo assassinato de sua família.
A missão se torna pessoal quando Krem das Colinas Amarelas, personagem de Matthias Schoenaerts (“The Old Guard”), envenena Krypto, o supercão e melhor amigo da heroína. A busca pelo antídoto e vingança cria o conflito central: uma heroína quase invulnerável, mas sem paciência para a pureza moral esperada de um símbolo, contra um vilão amoral. Para completar, Jason Momoa (“Aquaman”) aparece como Lobo, caçador de recompensas intergaláctico que ajuda a deslocar o filme para um território mais violento, sarcástico e espacial que “Superman”.
Nas entrelinhas, o roteiro da estreante Ana Nogueira (atriz de “The Vampire Diaries”) ainda embute uma forte crítica social na luta tradicional entre heroína e vilão, que comanda uma rede de tráfico de mulheres. Nas mãos de outro diretor, seria sombrio como um thriller desesperado. Mas Craig Gillespie (“Cruella”) é mais conhecido por comédias leves. E o público conservador aprendeu a palavra “woke” sem perceber que a trama é basicamente um western à moda antiga, como “Bravura Indômita” (1969), estrelado pelo ídolo da direita John Wayne.
SEXTA
🎞️ 100 NOITES DE DESEJO | Mubi
Shakespeare encontra Sherazade nesta fantasia britânica de Julia Jackman (“Bonus Track”). A história é baseada na graphic novel de Isabel Greenberg, por sua vez inspirada em “As Mil e Uma Noites”: Hero, interpretada por Emma Corrin (“The Crown”), usa histórias como arma para proteger Cherry, vivida por Maika Monroe (“Corrente do Mal”), durante as 100 noites em que ela fica à mercê do sedutor Manfred, papel de Nicholas Galitzine (“Mestres do Universo”). Mas a aposta feita pelo marido sobre a fidelidade da esposa também remete diretamente a “Cimbelino”, enquanto o nome Hero evoca “Muito Barulho por Nada”, outra peça de Shakespeare em que homens transformam a reputação sexual de uma mulher em questão de honra.
O jogo acontece num mundo de fantasia dominado por uma religião patriarcal, onde mulheres são julgadas pela capacidade de gerar filhos e mantidas longe do conhecimento. Jerome, interpretado por Amir El-Masry (“Limbo”), precisa engravidar Cherry, mas prefere apostar com o amigo que ele não conseguirá seduzi-la durante sua ausência. Hero interfere contando histórias noite após noite, numa inversão queer de Sherazade: em vez de salvar a própria vida adiando uma execução, ela tenta salvar a mulher que ama. Charli XCX aparece numa das narrativas internas, enquanto Richard E. Grant (“Can You Ever Forgive Me?”) encarna o deus Birdman, personificação literal da ordem masculina que governa aquele universo.
Jackman transforma a fábula em um desfile de cenários artificiais, figurinos elaborados e humor deliberadamente anacrônico, mas a beleza do livro ilustrado nem sempre se converte em força dramática. O filme é mais interessante quando brinca com histórias que atravessaram séculos para mostrar como os mecanismos de controle sobre mulheres continuam reconhecíveis. A tese feminista e queer é explícita, porém existe uma boa ironia em usar Shakespeare e “As Mil e Uma Noites”, pilares de uma tradição literária antiga, para desmontar a ideia de que discussões sobre gênero, desejo e poder sejam invenções contemporâneas.