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Elton John encerra dia dos veteranos no Rock in Rio em clima de despedida
Gilberto Gil, Roupa Nova, Guilherme Arantes, Roberto Menescal e outros veteranos transformaram o feriado numa celebração de repertórios históricos
Veteranos dominam o feriado
O Rock in Rio fechou seu primeiro fim de semana nesta segunda-feira (7/9) com uma programação que parecia percorrer uma linha do tempo da música popular. Elton John, aos 79 anos, encerrou o Palco Mundo depois de Gilberto Gil, de 84. Roberto Menescal, de 88, tocou com Luísa Sonza; Roupa Nova voltou ao festival após 35 anos com Guilherme Arantes; João Bosco e Wanda Sá apareceram no Global Village; Péricles recuperou a Motown; e até a madrugada eletrônica ficou sob responsabilidade de outro veterano, Fatboy Slim.
O que Elton trouxe de volta?
Elton John entrou pontualmente às 23h para sua 3ª apresentação no Rock in Rio e abriu com “Funeral for a Friend/Love Lies Bleeding”. Sentado ao piano, percorreu 23 músicas e não tentou suavizar o passar do tempo: cantou ao vivo com uma voz hoje mais áspera, enquanto o instrumento e uma banda de longa estrada sustentavam clássicos como “Bennie and the Jets”, “Tiny Dancer”, “Sacrifice”, “Honky Cat”, “Rocket Man” e “Levon”.
O britânico encerrou sua última grande turnê em 2023 sem passar pelo Brasil e explicou por que abriu uma exceção. “Eu realmente parei de tocar ao vivo, mas não vim ao Brasil por causa da covid-19”, disse. Ele afirmou ter aceitado o convite do festival para agradecer o carinho do público brasileiro ao longo da carreira, numa fala que deu ao show um claro tom de despedida.
Brasil ganha música especial
O repertório não se limitou à sequência tradicional de sucessos. “Candle in the Wind” apareceu apenas com Elton ao piano, e “Skyline Pigeon” voltou no bis, preservando uma relação particular com o Brasil construída desde que a música integrou a trilha da novela “Carinhoso” nos anos 1970.
“Crocodile Rock” ganhou imagens de fãs brasileiros nos telões. Depois de “I’m Still Standing”, o bis ainda passou por “Cold Heart” com playback de Dua Lipa, antes de “Skyline Pigeon” e “Your Song” encerrar o show. Elton levantou-se do piano para agradecer novamente ao público antes de deixar o palco, depois de quase duas horas concentradas principalmente no repertório que construiu entre os anos 1970 e 1980.
Gil admite possível despedida
Pouco antes, Gilberto Gil também havia transformado seu retorno ao festival numa reflexão sobre permanência. Participante da primeira edição, em 1985, ele lembrou a própria história na Cidade do Rock e admitiu que esta pode ter sido sua última passagem. “Talvez quem sabe esse seja o último, vamos ver, tenho que descansar um pouco”, disse.
O repertório, porém, passou longe de uma simples retrospectiva. Gil começou aproximando duas épocas com “Cérebro Eletrônico” e “Pela Internet”, músicas separadas por quase três décadas, mas ligadas pela discussão sobre tecnologia. Depois vieram “Andar com Fé”, “Toda Menina Baiana”, “Palco” e outros sucessos.
Liminha participou de “Vamos Fugir”. Rita Lee foi lembrada com “Ovelha Negra”, enquanto o repertório ainda passou por Bob Marley e pelo Barão Vermelho. Aos 84 anos, Gil ainda tocou guitarra, puxando solos e comandando a banda, mesmo depois de se despedir dos palcos com a turnê “Tempo Rei”.
Roupa Nova lota o Sunset
Outro exemplo da força do repertório clássico veio do Roupa Nova. A área diante do Sunset ficou tomada para a volta da banda ao festival, enquanto o Palco Mundo, que recebia Jon Batiste logo depois, tinha espaço até perto da grade.
A ligação do grupo com o Rock in Rio antecede sua única participação anterior, em 1991. O Roupa Nova gravou a célebre música-tema da primeira edição, em 1985, mas passou 35 anos sem voltar ao palco do evento.
“Dona”, “Sapato Velho”, “Whisky a Go Go” e outros sucessos provocaram coros antes da entrada de Guilherme Arantes, que finalmente fez sua estreia no festival aos 73 anos. O bloco também recuperou “Lindo Balão Azul” e a versão brasileira de “Heal the World”, de Michael Jackson.
Péricles viaja até a Motown
Péricles escolheu olhar ainda mais para trás. Em vez de montar um show de pagode, levou ao Sunset um repertório inteiro dedicado à Motown, gravadora que ajudou a definir a música negra americana a partir do fim dos anos 1950.
Vestido com uma capa estampada com imagens dos artistas homenageados, cantou “Ain’t No Mountain High Enough”, “My Girl”, “I Want You Back”, “Superstition”, “I’ll Be There” e “All Night Long”, passando por Marvin Gaye, The Temptations, Jackson 5, Stevie Wonder e Lionel Richie.
A relação não era gratuita. Soul e R&B estão entre as raízes que alimentaram o samba-rock, o funk brasileiro e parte do pagode que Péricles ajudou a popularizar desde os anos 1980. O show transformou esse parentesco musical em repertório.
Bossa nova atravessa gerações
A bossa nova fez outro tipo de viagem no tempo. Luísa Sonza começou o Mundo com pop, rock e uma citação a “Lança Perfume”, de Rita Lee, antes de trocar completamente o ambiente para receber Roberto Menescal.
Com o músico de 88 anos, cantou “Você” e “Um Pouco de Mim”. “Samba de Verão” também entrou no bloco de bossa nova, antes de Luísa retornar ao repertório próprio.
Horas depois, Laufey embarcou na mesma viagem. A islandesa de 27 anos, uma das artistas mais novas entre as grandes atrações do dia, cantou em português “Perdido de Amor”, de Luiz Bonfá, e falou sobre sua admiração pela bossa nova. O gênero criado no Rio há quase sete décadas reapareceu assim tanto pelas mãos de um de seus fundadores quanto na obra de uma cantora nascida na Islândia em 1999.
Veteranos se espalham pelos palcos
A saudade da bossa nova não ficou restrita ao Mundo e ao Sunset. O Global Village começou com Wanda Sá, um dos nomes ligados à história do gênero musical, e recebeu depois Joyce Moreno, Leila Pinheiro e Fernanda Takai. João Bosco fechou o espaço.
No Favela, Mart’nália dividiu a programação com Tiee e Belo, que levou ao palco sucessos de uma carreira iniciada nos anos 1990 e recebeu participantes do “Estrelas da Casa”.
Mesmo Jon Batiste, aos 39 anos, buscou conexão com essa história. O americano incorporou músicos brasileiros, tocou “Mas Que Nada” e recebeu a bailarina Ingrid Silva durante “Butterfly”.
Repertório antigo ganha novos donos
O 7 de Setembro não funcionou apenas porque reuniu artistas longevos. Boa parte dos músicos mais novos passou o dia recorrendo ao que esses veteranos construíram: Luísa encontrou Menescal, Laufey cantou Bonfá, Batiste tocou Sergio Mendes e Péricles transformou a Motown em matéria para sua própria voz.
Enquanto Elton John encerrava o Mundo, a programação ainda avançava pela madrugada no New Dance Order. O último grande nome do dia foi Fatboy Slim, de 63 anos, ícone do big beat de 30 anos atrás.
O Rock in Rio retorna na sexta-feira (11/9) para seu segundo fim de semana com expectativa oposta, apostando na tendência mais nova do evento: a estreia do K-pop no festival.