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Divulgação/GoUp

Filme|11 de setembro de 2026

Diretor pula fora: custo de US$ 24 milhões de Dark Horse é “ridiculamente inflado”

Cyrus Nowrasteh contesta cifra assumida por Flávio Bolsonaro, mas não informa orçamento real da produção

Pipoque pelo Texto ocultar
1 Diretor contesta cifra milionária
2 O que ele disse?
3 Diretor mistura produção e marketing
4 Então, quanto custou?
5 Bilheteria precisaria bater recorde
6 Distribuidora projeta números muito menores
7 Flávio assumiu orçamento de US$ 24 milhões
8 Filme deveria chegar aos cinemas hoje
9 Filme é investigado em duas frentes
10 Aberto para posicionamentos

Diretor contesta cifra milionária

Cyrus Nowrasteh, diretor de “Dark Horse”, classificou nesta sexta-feira (11/9) como “ridiculamente inflados” os US$ 24 milhões apontados como custo da cinebiografia de Jair Bolsonaro. A cifra apareceu nas negociações conduzidas por Flávio Bolsonaro para financiar o longa e foi posteriormente assumida pelo senador como o orçamento previsto do projeto. Nowrasteh negou que o filme tenha consumido cifras próximas disto, mas não informou quanto efetivamente foi gasto na produção.

O que ele disse?

Nowrasteh publicou no X uma contestação direta aos valores atribuídos a “Dark Horse”, numa comparação feita ao custo dos filmes vencedores do Oscar. “Os números que estão sendo divulgados sobre o custo do filme estão ridiculamente inflados. Eles incluem custos projetados de marketing de ‘Dark Horse’. Marketing e publicidade de um filme frequentemente excedem os custos de produção. Nos Estados Unidos, não combinamos os dois, como fazem no Brasil. Por favor, tenham isso em mente”, escreveu.

O diretor foi além e afirmou que “os custos de produção deste filme foram menores que os da maioria, se não de todos, os filmes listados”.

Diretor mistura produção e marketing

A explicação não corresponde à prática da indústria cinematográfica brasileira. Assim como nos Estados Unidos, o Brasil distingue orçamento de produção dos gastos de distribuição, publicidade e lançamento. A própria Ancine trata produção e comercialização como etapas e orçamentos separados. Não existe uma regra brasileira que some automaticamente marketing ao custo de produção de um filme.

A comparação que provocou a reação de Nowrasteh também não misturava essas despesas. Os valores atribuídos aos 15 vencedores recentes do Oscar eram orçamentos de produção, sem os gastos posteriores de marketing e distribuição. “Anora”, por exemplo, aparece com orçamento de US$ 6 milhões. A campanha da Neon, estimada em cerca de US$ 18 milhões entre marketing e temporada de premiações, foi bancada e contabilizada separadamente.

O mesmo vale para “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”, “No Ritmo do Coração”, “Nomadland”, “Parasita”, “Green Book: O Guia”, “A Forma da Água”, “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, “Spotlight: Segredos Revelados”, “Birdman”, “12 Anos de Escravidão”, “O Artista”, “O Discurso do Rei”, “Guerra ao Terror” e “Quem Quer Ser um Milionário?”. Os números usados na comparação se referem à produção, não às campanhas de lançamento.

Então, quanto custou?

Nowrasteh não informou quanto “Dark Horse” teria efetivamente custado. Mas ao descrever que o custo real teria ficado abaixo do orçamento da maioria, “se não de todos”, os filmes do Oscar, indicou que o custo poderia ser inferior a US$ 1,5 milhão, orçamento de ‘Moonlight: Sob a Luz do Luar’, o menor da lista

O post foi apagado depois que a declaração repercutiu, mas prints continuam circulando pelas redes sociais.

Bilheteria precisaria bater recorde

Documentos agora tornados públicos acrescentam outra dimensão à discussão. Malu Gaspar, de O Globo, também revelou nesta sexta-feira que o plano de negócios de “Dark Horse” trabalhava com três projeções de bilheteria. O cenário “pessimista” trabalhava com US$ 45 milhões, o que fatalmente resultaria em prejuízo para um filme com o orçamento divulgado. A análise “conservadora” apostava em US$ 70 milhões, já capaz de render lucro. E ainda havia uma projeção “otimista” de até US$ 100 milhões. O material foi apresentado pelo publicitário Thiago Miranda, apontado pela Polícia Federal como articulador do financiamento do longa.

A própria PF comparou as cifras com “Minha Mãe é uma Peça 3” (2019), maior bilheteria do cinema brasileiro, que arrecadou aproximadamente R$ 120 milhões, equivalentes a cerca de US$ 30 milhões na época. O cenário pessimista já superaria o principal sucesso do país, enquanto o otimista previa uma arrecadação mais de três vezes superior ao recorde nacional.

O plano, na verdade, era mais que otimista: apostava na maior bilheteria de todos os tempos no país, acima do recorde nacional de “Divertida Mente 2” – R$ 442,5 milhões, o equivalente a US$ 81,9 milhões. Era um otimismo tão grande que ultrapassaria também os faturamentos estabelecidos por “Homem-Aranha: Um Novo Dia” (R$ 344 milhões) e “Vingadores: Ultimato” (R$ 338 milhões), cujas bilheterias finais se enquadram abaixo da avaliação “conservadora” para “Dark Horse”.

Segundo o relatório da PF, a distância “entre as projeções do plano de negócios e qualquer parâmetro realista do mercado cinematográfico nacional” seria um dos motivos para reforçar “a necessidade de apuração quanto à viabilidade econômica e à verdadeira finalidade da operação”.

Distribuidora projeta números muito menores

A Europa Filmes, que assumiu a distribuição de “Dark Horse” no Brasil, trabalha com perspectivas bem mais modestas. Antes do avanço das investigações, o plano era lançar o filme em pelo menos 650 salas, número comparável ao lançamento de “Tropa de Elite 2”, além de preparar cópias dubladas para ampliar sua presença pelo país.

Nos cálculos da distribuidora, o pior cenário levaria cerca de 800 mil espectadores aos cinemas, repetindo aproximadamente o desempenho de “Lula, o Filho do Brasil” (2010). De acordo com a colunista de O Globo, a estimativa considerada realista girava entre 1,5 milhão e 2 milhões de ingressos vendidos, enquanto o melhor cenário previa público superior a 2 milhões.

“O Agente Secreto”, por exemplo, levou cerca de 2,4 milhões de espectadores aos cinemas brasileiros e arrecadou mais de R$ 51,5 milhões, cerca de US$ 10,1 milhões. Mesmo com quatro indicações ao Oscar e forte repercussão internacional, sua bilheteria ficou muito abaixo dos US$ 45 milhões projetados para “Dark Horse” até no cenário considerado pessimista, e a própria Europa Filmes reconhece que “Dark Horse” não contaria com premiações e críticas a seu favor.

Flávio assumiu orçamento de US$ 24 milhões

Os US$ 24 milhões vieram a público em maio, quando o The Intercept Brasil revelou mensagens e documentos sobre a busca de financiamento para o filme. O material indicava uma previsão entre US$ 23 milhões e US$ 26 milhões e mostrava Flávio Bolsonaro negociando recursos com Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master.

Dois dias depois, o senador confirmou a cifra em entrevista à CNN Brasil. “O orçamento previsto era de US$ 24 milhões, não houve captação disso tudo”, afirmou. Segundo Flávio, Vorcaro havia investido pouco mais de US$ 12 milhões.

Eduardo Bolsonaro também defendeu os valores naquele momento. Ao rebater comparações com outras produções, afirmou que US$ 24 milhões “não é caro para Hollywood” e classificou o orçamento como “até barato”.

Em delação premiada homologada pelo ministro André Mendonça, Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, confirmou sete transferências determinadas por Vorcaro ao Havengate Development Fund, fundo criado nos EUA para o financiamento do filme, num total de US$ 12,3 milhões. O 7º repasse, de US$ 1,66 milhão, ocorreu em setembro de 2025 e só veio a público depois de Flávio afirmar que os aportes tinham terminado em maio.

Os responsáveis pela produção ainda apresentaram outro número. Uma perícia privada encomendada pela Go Up Entertainment declarou gastos de US$ 13.393.081,29, aproximadamente R$ 75 milhões, até 4 de junho. Desse total, US$ 9,66 milhões teriam sido desembolsados nos Estados Unidos e US$ 3,73 milhões no Brasil.

Filme deveria chegar aos cinemas hoje

A manifestação do diretor ocorre justamente no dia originalmente anunciado para a estreia de “Dark Horse”. Em abril, Jim Caviezel, intérprete de Jair Bolsonaro, divulgou 11 de setembro como data de lançamento e convocou o público americano a assistir à produção.

O plano foi abandonado. A distribuidora nem concluiu ainda os procedimentos obrigatórios para colocar o longa nos cinemas.

A Ancine concedeu em 7 de agosto o Registro de Obra Estrangeira (ROE), apenas a 1ª etapa do processo. Para comercializar o filme, a Europa ainda precisa pedir o Certificado de Registro de Título (CRT). Em 4 de setembro, a própria agência informou à BBC que esse pedido sequer havia sido apresentado. Depois do CRT, “Dark Horse” ainda precisará obter classificação indicativa no Ministério da Justiça.

Há ainda um problema separado. A Ancine mantém aberto um processo administrativo contra a Go Up Entertainment porque as filmagens de “Dark Horse” ocorreram no Brasil sem a comunicação prévia obrigatória à agência. A irregularidade pode resultar em multa de R$ 2 mil a R$ 100 mil. A concessão do ROE não encerrou esse processo.

A Europa assumiu a distribuição brasileira depois que o projeto já estava envolvido nesse imbróglio regulatório. O filme, portanto, não está apenas sem nova data: ainda precisa completar sua regularização antes de chegar legalmente aos cinemas.

Filme é investigado em duas frentes

“Dark Horse” está no centro de duas investigações diferentes no Supremo Tribunal Federal, sob relatorias de ministros distintos. A frente comandada por Flávio Dino apura suspeitas de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares e possível transferência de dinheiro para empresas ligadas à produção. Na quinta-feira (10/9), a Operação Make Up cumpriu 49 mandados de busca e apreensão, entre eles contra Mario Frias, roteirista e produtor-executivo do filme, e Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment. A PF investiga crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades em licitações.

A outra frente está sob responsabilidade de André Mendonça e investiga o financiamento de “Dark Horse” com dinheiro de Daniel Vorcaro e do Banco Master. Nesta sexta-feira, veio a público que Flávio Bolsonaro é formalmente investigado nesse inquérito desde 22 de julho, quando Mendonça aceitou pedido da Polícia Federal para apurar possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos relacionados à captação para o filme. Os investigadores apontam Flávio como interlocutor direto nas negociações dos US$ 24 milhões com Vorcaro.

A informação só se tornou conhecida agora em meio à pressão por maior transparência no caso Master. O presidente do STF, Edson Fachin, pediu a Mendonça que retirasse o sigilo das partes não sensíveis das investigações e compartilhasse os documentos com os demais ministros. Mendonça atendeu apenas parcialmente: liberou 15 procedimentos, mas manteve sob sigilo justamente o inquérito de “Dark Horse” que investiga Flávio. A abertura seletiva, porém, permitiu confirmar oficialmente a existência da investigação contra o senador e candidato à Presidência.

Aberto para posicionamentos

O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.

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