
Divulgação/Go Up Entertainment
Dark Horse: quebra de sigilo expõe rota de dinheiro público
PF fez 49 buscas e Mário Frias ficou proibido de deixar o país
Sigilo cai após buscas
A investigação sobre o financiamento de “Dark Horse” avançou nesta quinta-feira (10/9) com 49 mandados de busca e apreensão e a abertura do sigilo de uma decisão que detalha suspeitas de circulação de dinheiro público por estruturas ligadas à produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro. A Operação Make Up, da Polícia Federal com apoio da CGU, teve entre os principais alvos o deputado Mario Frias (PL-SP), roteirista e produtor-executivo do filme, e Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment e presidente de duas entidades investigadas.
Frias fica sob restrições
O ministro do STF Flávio Dino, responsável pelo inquérito, proibiu Frias, Karina e os outros 27 investigados de deixar o país sem autorização judicial e determinou o recolhimento de passaportes. Eles também estão impedidos de manter contato entre si. O Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC), ambos comandados por Karina, tiveram as atividades econômicas e financeiras suspensas, enquanto 22 empresas e entidades, entre elas a Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”, ficaram proibidas de contratar com o poder público.
A Polícia Federal aponta Frias como integrante central do núcleo político da organização investigada. O deputado destinou R$ 2 milhões em emendas ao ICB em 2024, incluindo R$ 1 milhão para um programa de empreendedorismo que não saiu do papel. Relatórios do Coaf também identificaram R$ 645,4 mil enviados diretamente por Frias à Go Up em menos de dois meses, valor que a PF considerou incompatível com seus rendimentos e com os créditos encontrados em suas contas. Durante as buscas, sete armas registradas em nome do parlamentar foram apreendidas em endereço diferente do informado às autoridades, o que abriu uma apuração separada sobre eventual posse irregular.
O que a PF viu na rota do dinheiro?
A decisão aberta por Dino mostra que a PF suspeita de uma fragmentação proposital de recursos entre ONGs e empresas para dificultar o rastreamento. Um dos exemplos envolve a Complexys, contratada pelo ICB. A empresa recebeu transferências feitas por Frias e, ao mesmo tempo, devolveu valores ao próprio instituto e repassou quantias à ANC. Para os investigadores, a circulação formava um “circuito financeiro fechado” entre pessoas e entidades do mesmo núcleo.
Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, detalhou outro caminho revelado pelos relatórios do Coaf. O ICB recebeu recursos do contrato de R$ 108 milhões firmado com a Prefeitura de São Paulo para instalar e manter pontos de wi-fi na periferia. O contrato, revelado anteriormente pelo Intercept Brasil, previa ao menos R$ 24 milhões para manutenção de pontos que ainda não haviam sido instalados.
Parte do dinheiro repassado pelo ICB a fornecedores voltou para a ANC, também presidida por Karina. Só essa triangulação somou cerca de R$ 6,1 milhões. A Ultra IP recebeu R$ 8,5 milhões do ICB e transferiu R$ 1,3 milhão à ANC. Relatórios sobre a Fastfuture registraram repasses de centenas de milhares de reais à mesma entidade. A Complexys recebeu R$ 5 milhões do ICB entre outubro de 2024 e outubro de 2025 e enviou R$ 2,6 milhões à ANC. Em outro período, recebeu R$ 3 milhões e transferiu mais R$ 1,3 milhão.
Repasses coincidem com produção
A cronologia chamou a atenção dos investigadores porque essas movimentações ocorreram durante a produção de “Dark Horse”. Segundo a apuração de Demétrio Vecchioli, os repasses das fornecedoras à ANC cessaram depois do encerramento das filmagens, embora a Complexys ainda tenha recebido R$ 1,8 milhão do ICB até abril deste ano.
A PF investiga se contratos assinados pelas ONGs com empresas privadas tinham execução real ou serviam para movimentar e reintroduzir recursos públicos dentro do mesmo grupo. A corporação afirma ter identificado movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas relacionadas ao núcleo sob investigação.
A apuração não se limita às emendas de Frias. Relatório da CGU apontou cerca de R$ 3,6 milhões em emendas destinadas à ANC por outros parlamentares. Carla Zambelli respondeu por R$ 2 milhões, Alexandre Ramagem por R$ 500 mil, e o restante foi indicado por Marcos Pollon e Bia Kicis. Os recursos tinham destinações declaradas para projetos culturais e sociais, cuja execução entrou na investigação.
Dinheiro entrou na produtora do filme
Uma das rotas analisadas pela PF começa em R$ 700 mil destinados pelo ICB a duas empresas para um projeto de letramento digital financiado por emenda de Frias. A Dinâmica Editora recebeu R$ 400 mil, e o Instituto Super Poder Educacional ficou com R$ 300 mil. Meses depois, a NTT Brasil, administrada por empresário do mesmo grupo econômico, transferiu R$ 750 mil de uma só vez para a Go Up durante o período das filmagens. A PF afirma que ainda não é possível cravar que os R$ 750 mil tenham origem direta nos R$ 700 mil públicos, mas considera a proximidade dos valores, empresas e datas relevante para a investigação.
O período também revelou uma movimentação muito maior na conta da produtora. Entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, a Go Up movimentou R$ 19 milhões. Entre os principais remetentes citados pelo Coaf estavam a Moneycorp, com R$ 3,92 milhões, a Go7, outra empresa de Karina, com R$ 2,61 milhões, o publicitário Marcello Lopes, com R$ 1 milhão, a NTT Brasil, com R$ 750 mil, e o próprio Mario Frias, com R$ 645,4 mil. A PF questionou o lastro dos depósitos feitos pessoalmente pelo deputado diante de seu salário mensal de cerca de R$ 44 mil.
Amigo de Flávio aparece no fluxo
Outro dado surgido com a abertura da decisão envolve Marcello Lopes, o Marcellão, amigo pessoal e ex-marqueteiro de Flávio Bolsonaro. Igor Gadelha, do Metrópoles, revelou que ele transferiu R$ 1 milhão para a Go Up em dezembro de 2025. O pagamento aparece num período em que a produtora movimentou R$ 19 milhões em menos de dois meses e teve operações classificadas como atípicas pelo Coaf.
Entre os principais remetentes naquele intervalo estavam a Moneycorp Banco de Câmbio, com R$ 3,9 milhões, a Go7, com R$ 2,6 milhões, Marcello, com R$ 1 milhão, a NTT Brasil, com R$ 750 mil, e o próprio Frias, com R$ 645,4 mil. Marcello disse a Igor Gadelha que entrou como investidor depois que Daniel Vorcaro deixou de financiar o filme e Frias abriu novas cotas para manter a produção.
A cronologia acrescenta outra contradição às versões já apresentadas por Flávio Bolsonaro. Marcello afirmou que o dinheiro de Vorcaro deixou de entrar “lá em outubro” de 2025. Flávio havia declarado à GloboNews que o último pagamento do banqueiro ocorrera em maio. Essa versão já tinha sido contrariada por um repasse de US$ 1,66 milhão realizado em setembro, revelado pela revista Piauí e posteriormente confirmado na delação do operador financeiro Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro.
Contrato veio meses depois
Há ainda uma peculiaridade na entrada de Marcello Lopes no projeto. Embora ele diga ter investido R$ 1 milhão em dezembro de 2025, seu contrato com a Go Up só foi assinado em 4 de junho de 2026, quando as relações entre “Dark Horse”, Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro já haviam se tornado públicas.
Marcello afirmou que decidiu investir porque considerou o projeto um bom negócio. O aporte ocorreu depois da primeira prisão de Vorcaro e no mesmo período em que Flávio visitou o banqueiro após sua soltura. O candidato do PL diz que o encontro serviu justamente para encerrar o acordo de financiamento do filme.
A explicação se soma a uma série de mudanças na narrativa pública de Flávio sobre Vorcaro. Quando o Intercept Brasil revelou inicialmente as negociações, o senador chamou a informação de mentira e negou relação com o banqueiro. Depois da divulgação dos áudios em que aparecia cobrando pagamentos, admitiu que havia buscado recursos para financiar o filme sobre o pai.
Conexão wi-fi com o PCC
Não fica nisso. Na decisão que abriu o sigilo do caso, o ministro Flávio Dino citou que há indícios de “um só sistema delitivo, alimentado inclusive por emendas parlamentares federais” e “menção a atos interligados até com a facção criminosa PCC, o que pode significar uma dimensão interestadual”.
A conexão se dá por meio de Alex Leandro Bispo dos Santos, ex-sócio da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda, que teria recebido repasses milionários do ICB no projeto “Wifi Livre SP”. No documento divulgado na tarde desta quinta-feira, Dino afirma que, “segundo órgãos de inteligência da polícia, o empresário é membro relevante da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) no estado” de São Paulo.
Bispo dos Santos, que teria o apelido de “Escorpião do PCC”, e fechou acordo de R$ 12 milhões previa a instalação de parte dos pontos de wi-fi que o ICB deveria levar às periferias da cidade de São Paulo. Ele foi preso em dezembro do ano passado em virtude de uma acusação de feminicídio, obtendo liberdade provisória em agosto.
Após a prisão, a empresa Favela Conectada mudou de dono e de nome. Em janeiro de 2026, registros da Junta Comercial de São Paulo (Jucesp) levantados pelo g1 mostram que Bispo dos Santos deixou de ser sócio e o controle passou para Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, que compartilha o mesmo endereço dele. Com o novo nome, Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda., a empresa continuou recebendo valores do ICB durante a prisão do antigo dono.
Reportagem publicada pelo g1 em 18 de junho apontou que uma segunda empresa terceirizada por Karina afirma, em processo que tramita no Tribunal de Justiça de São Paulo, que a empresa de Alex Bispo dos Santos foi usada como empresa de fachada. William Silva Ferreira, dono da Ultra IP, afirma que foi a empresa dele que instalou os 3.500 pontos de wi-fi que a ONG de Karina instalou na cidade de São Paulo e que a Favela Conectada/Urban Connect foi usada pela produtora de “Dark Horse” para sustentar uma fraude no contrato do ICB com a Prefeitura de São Paulo.
Na ocasião, o ICB negou as acusações e afirmou que a Ultra IP descumpriu o acordo, interrompeu parte do serviço e tentou extorquir R$ 2,5 milhões.
Master abre outra frente
A investigação relatada por Dino examina principalmente dinheiro público, emendas parlamentares, contratos, ONGs e empresas relacionadas a Karina Gama. “Dark Horse”, porém, também está no centro de outro inquérito, sob relatoria de André Mendonça, que acompanha o dinheiro enviado por Daniel Vorcaro no contexto do caso Banco Master.
Mendonça homologou na quarta-feira (9/9) a colaboração premiada de Mineiro. O empresário afirmou ter feito sete transferências, entre fevereiro e setembro de 2025, para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, por determinação de Vorcaro. Os pagamentos somaram US$ 12,3 milhões. O pedido inicial era de aproximadamente US$ 24 milhões, valor semelhante ao negociado por Flávio com o então dono do Master.
O Havengate é administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A Polícia Federal apura se todos os recursos enviados ao fundo foram efetivamente aplicados em “Dark Horse” ou se parte deles teve outras destinações. Flávio admite ter pedido dinheiro a Vorcaro para o filme, mas nega que ele próprio ou Eduardo tenham recebido qualquer vantagem.
Fachin pede abertura do Master
No fim desta quinta-feira, outra decisão aproximou ainda mais as duas frentes. Ana Pompeu e Luísa Martins, da Folha de S.Paulo, revelaram que o presidente do STF, Edson Fachin, pediu a André Mendonça que retire o sigilo do processo que funciona como base do caso Banco Master na Corte. Fachin quer que todos os procedimentos se tornem públicos, mantendo protegidas apenas diligências cujo sigilo seja considerado imprescindível.
O presidente do Supremo também pediu que todo o material seja encaminhado aos gabinetes dos demais ministros. Como Mendonça é o relator, Fachin não pode simplesmente abrir os documentos por conta própria e depende dele para definir a extensão da publicidade.
O movimento ocorreu um dia depois de Lula pedir publicamente a “quebra completa do sigilo” das investigações do Master, atingindo “seja quem for, doa a quem doer”. O presidente classificou o caso como o maior crime financeiro da história do país e criticou vazamentos seletivos durante a campanha eleitoral. Nesta quinta, o PT também apresentou pedidos ao STF para ampliar a transparência dos procedimentos relacionados ao Master e a “Dark Horse”.
Flávio acusa Lula de combinação
Flávio Bolsonaro reagiu à operação alegando interferência política na eleição. O candidato do PL afirmou que “não tem um centavo do dinheiro público” no filme e atribuiu a ação da PF a uma articulação entre integrantes do STF e o governo.
Mais tarde, numa live, avançou na acusação. Ao comentar que a decisão de Dino havia sido assinada em 3 de setembro e que a operação coincidiu com uma entrevista de Lula ao SBT, afirmou que estava “tudo combinado com o próprio Lula”. Flávio também vinculou sua tese a uma suposta reunião anterior entre Alexandre de Moraes e Davi Alcolumbre. Ele não apresentou provas da alegada articulação.
Mário Frias também reagiu nas redes, classificando a operação como “cortina de fumaça em ano de eleição”. Karina Gama afirmou anteriormente que os recursos recebidos por suas entidades foram aplicados corretamente e negou ter participado de irregularidades no financiamento do filme.
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