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Divulgação/Legacy

Música|2 de setembro de 2026

Cassandra Wilson, cantora que expandiu os limites do jazz, morre aos 70 anos

Vencedora de dois Grammys transformou standards, blues, folk e rock com uma das vozes mais marcantes do jazz contemporâneo

Pipoque pelo Texto ocultar
1 Cantora morreu em casa no Mississippi
2 Como Cassandra Wilson mudou o jazz vocal?
3 Música começou dentro de casa
4 Blue Note transformou sua carreira
5 Parcerias passaram por grandes nomes do jazz
6 Último disco homenageou Billie Holiday

Cantora morreu em casa no Mississippi

A cantora Cassandra Wilson morreu na manhã desta quarta-feira (2/9) aos 70 anos, em sua casa em Jackson, no Mississippi. A artista estava cercada por familiares, amigos próximos e seu empresário, Robert Torre, que confirmou a morte à rádio WBGO. A causa não foi divulgada.

Como Cassandra Wilson mudou o jazz vocal?

Dona de um contralto grave e imediatamente reconhecível, Wilson construiu uma carreira marcada pela recusa em tratar o jazz como um repertório fechado. Incorporou blues do Mississippi, folk, country, rock, R&B e música africana às suas gravações e transformou canções conhecidas em arranjos muitas vezes lentos, acústicos e profundamente pessoais.

Essa abordagem fez com que fosse reconhecida como uma das cantoras mais importantes de sua geração. A National Endowment for the Arts (NEA) afirmou, ao conceder-lhe o título de Jazz Master em 2022, que sua obra ajudou a “expandir a definição do jazz”. Em 2001, a revista Time chegou a destacá-la como a melhor cantora dos Estados Unidos.

Música começou dentro de casa

Cassandra nasceu em Jackson em 4 de dezembro de 1955 numa família musical. Seu pai, Herman Fowlkes, tocava guitarra e baixo de jazz, enquanto a mãe, Mary, professora, era apaixonada pela música da Motown. A menina começou no piano aos 6 anos, passou para o violão aos 12 e já cantava profissionalmente em meados da década de 1970.

Ela estudou artes cênicas e filosofia no Millsaps College e concluiu graduação em comunicação de massa na Jackson State University em 1979. Também cantou em grupos locais e estudou jazz com o baterista Alvin Fielder antes de passar uma temporada em Nova Orleans, onde procurou músicos como Ellis Marsalis Jr. e Earl Turbinton como mentores.

Em 1982, mudou-se para Nova York e encontrou um ambiente que transformaria sua música. Conheceu o saxofonista Steve Coleman e tornou-se uma das integrantes fundadoras do M-Base Collective, movimento que misturava improvisação, funk, ritmos complexos e experimentação. Também trabalhou com Dave Holland e o grupo New Air.

Blue Note transformou sua carreira

Depois dos primeiros discos independentes, Wilson assinou com a Blue Note no início dos anos 1990 e encontrou o formato que definiria sua fase mais influente. “Blue Light ‘Til Dawn” (1993) abandonou boa parte da instrumentação elétrica dos trabalhos anteriores e aproximou sua voz de violões, percussão, blues e folk.

O repertório deixava claro que suas referências não obedeciam às fronteiras tradicionais do jazz. Ao longo daquela fase, Wilson recriou músicas de Robert Johnson, Joni Mitchell, Van Morrison, Neil Young, U2, The Monkees e Hank Williams, usando standards e canções de rock ou country como matéria-prima para uma sonoridade própria.

A fórmula atingiu novo patamar com “New Moon Daughter” (1995). O disco chegou ao topo da parada de jazz da Billboard e rendeu seu primeiro Grammy de Melhor Performance Vocal de Jazz.

Parcerias passaram por grandes nomes do jazz

Wilson participou ainda de gravações com Terence Blanchard, Bill Frisell, Charlie Haden, Luther Vandross, Terri Lyne Carrington, Dave Holland, Pat Metheny e Jason Moran. Sua voz também integrou “Blood on the Fields”, obra de Wynton Marsalis que se tornou a primeira composição de jazz a vencer o Pulitzer de Música.

Em “Traveling Miles” (1999), ela prestou homenagem a Miles Davis, reinterpretando composições ligadas ao trompetista e buscando reproduzir vocalmente a liberdade e os espaços que admirava em sua maneira de tocar.

A relação com as raízes do Mississippi reapareceu em “Belly of the Sun” (2002), enquanto “Loverly” (2008) voltou-se de forma mais direta aos standards. O último lhe deu seu segundo Grammy, entregue em 2009.

Último disco homenageou Billie Holiday

Seu último álbum de estúdio foi “Coming Forth by Day” (2015), lançado no centenário do nascimento de Billie Holiday. Em vez de simplesmente reproduzir interpretações consagradas por Holiday, Wilson submeteu músicas como “Don’t Explain”, “Strange Fruit” e “Good Morning Heartache” à sua própria linguagem musical.

Ao longo da carreira, recebeu ainda o Miles Davis Prize do Festival Internacional de Jazz de Montreal, prêmios de Melhor Vocalista Feminina da DownBeat, doutorados honorários e uma placa na Mississippi Blues Trail.

Em 2022, a consagração como Jazz Master reconheceu oficialmente sua contribuição de toda uma vida. Wilson definiu então a homenagem da NEA como o reconhecimento de seu “trabalho de vida” e afirmou que dificilmente poderia receber distinção maior.

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